Capítulo 14 - Sem alternativa
As opções diante de Elicia eram bastante óbvias.
Os heróis poderiam tentar impedir o espectro de concluir seu plano, o que parecia ser bem possível, em vista que o espectro não parecia deter um grande poder de combate e Luna podia rastreá-lo com relativa facilidade.
Ou, alternativamente, eles poderiam simplesmente tentar sair da floresta antes que o espectro chamasse seus iguais. Essa segunda opção parecia bastante tentadora, já que o objetivo final ficava muito além da floresta e não haveria futuro voltando para trás, ao menos não um que eles pudessem aceitar.
O que pesaria mais na decisão de qual plano seguir era apenas um fator, o tempo.
— Quanto tempo levaria para modificar todos esses artefatos?
— Bastante tempo, algumas horas para cada artefato, mas, considerando o tempo que faz desde a debandada dos espectros, provavelmente ele já tentou antes e não funcionou, já que os artefatos não têm a mesma efetividade de antes. Como eu disse, o que me preocupa é a amostra do seu poder, que pode iniciar uma reação em cadeia. Eu temo que ele não demore mais do que alguns dias para decifrar como utilizar a amostra corretamente.
— Mas a magia não leva apenas algumas horas para se dissipar? A essa altura já não deveria mais funcionar.
Viktor balançou a cabeça em negativo.
— Não é assim que funciona, uma vez que o artefato tenha lido a frequência da sua magia, ele pode replicar infinitamente a mesma frequência desde que seja abastecido adequadamente. As pedras mágicas utilizadas nos artefatos de barreira são feitas de energia pura e auto-recarregáveis, por isso as barreiras funcionaram por centenas de anos sem precisar trocar a fonte de energia.
Elicia suspirou, aparentemente eles não poderiam simplesmente deixar o problema para trás e seguir viagem se não quisessem uma maré de espectros inundando a floresta e se pondo no caminho deles.
Internamente, ela torcia para que o espectro não fosse tão inteligente assim, para que tudo aquilo fosse apenas uma coincidência e que Viktor estava apenas se preocupando demais, mas as estatísticas infelizmente previam o contrário.
Espectros inteligentes eram raros, mas, sempre que apareciam, se provavam uma grande dor de cabeça para os heróis que tinham o azar de encontrá-los.
A teoria mais aceita atualmente na Cidade do Sol, era que todos os espectros já foram humanos que sofreram influência direta da névoa, tendo suas almas corrompidas de alguma forma e transformados em criaturas sem mente que por puro instinto atacavam todos aqueles que ainda mantinham sua humanidade.
Os espectros inteligentes pareciam ter mantido parte de suas mentes, ainda que apenas versões deturpadas delas. Alguns até manifestaram reter memórias no passado.
— Certo, então temos, no melhor dos casos, alguns dias. Hoje não há muito mais tempo para seguir… — Elicia ficou pensativa.
A floresta morta se estendia por uma vasta região e levava cerca de um mês para atravessá-la num ritmo de viagem adequado para um grupo com carroças de carga a reboque. Como não carregava todo aquele equipamento e suprimentos, o grupo levaria metade do tempo para completar aquele trecho da viagem. Tendo entrado na floresta apenas no dia anterior, levaria cerca de mais treze dias para sair.
A conta infelizmente não batia a favor do plano preferido de Elicia, e assim, ela se viu sem outra alternativa além de guiar o grupo à enfrentar o complicado inimigo.
— Nós teremos que lidar com esse espectro antes de seguirmos viagem.
Viktor e Luna assentiram, Will suspirou.
— Droga, por que esse desgraçado não seguiu aquele cara assustador também?
— Essa é uma questão a considerar, mas infelizmente a probabilidade de obtermos a resposta é mínima.
— Devo começar a rastrear? — Luna perguntou à Elicia, ignorando a conversa entre Will e Viktor.
— Sim, vamos até onde conseguirmos chegar antes do anoitecer e montamos acampamento usando o artefato portátil por hoje.
Luna imediatamente começou a guiar o grupo entre as árvores petrificadas.
A noite enfim caiu, e os heróis montaram seu acampamento numa área que não chegava a ser uma clareira, mas que era aberta o suficiente para acomodá-los.
Mesmo que a névoa continuasse branca, ninguém se atreveria a se aventurar pela noite. O medo da noite era algo profundamente enraizado na cultura dos sobreviventes na era de sombras.
Elicia procurou em sua mochila o artefato de barreira portátil, foi apenas naquele momento que ela percebeu que ele não estava em lugar algum.
Um calafrio percorreu sua espinha.
— O artefato portátil… — Sua voz sumiu antes de terminar a frase.
Ela sentia-se tonta e enjoada, sua palidez acentuando-se.
“Quando?”
Elicia não fazia ideia de quando o ladrão tivera oportunidade de subtrair o artefato, talvez tivesse sido ao mesmo tempo que levou o outro, talvez depois.
A vergonha e arrependimento por sua tolice a consumiam, ela apenas presumira que o artefato portátil ainda estava com eles, sequer havia conferido para ter certeza.
“Por que eu não conferi naquela hora?”
A culpa a corroía.
— Elicia, se acalme! — Viktor estava preocupado vendo-a cambaleante diante da situação.
Will, que estava mais perto, segurou-a pelos braços e a ajudou a sentar no chão frio. A sensação de frio em suas pernas a ajudou a sair do torpor.
— Eu o perdi. Me desculpem… — Ela estava à beira das lágrimas.
Luna, surpreendentemente, foi quem a confortou naquele momento.
— Ei, nenhum de nós pensou em verificar antes, a culpa não é só sua. Também me sinto estúpida por não ter pensado nisso antes.
As palavras dela não eram exatamente doces, mas aquela fria verdade ajudou Elicia a se recompor, ela ainda sentia a maior parte da culpa, mas não podia se dar ao luxo de parar para se lamentar por sua incompetência.
— Eu posso passar a noite afastando a névoa.
— Não. Você precisa descansar tanto quanto todos nós para lutar quando for necessário. A névoa continua branca, podemos lidar com isso. Não há necessidade de você se forçar. — Viktor a contrariou.
Will não estava satisfeito em passar a noite no meio da névoa, por mais que aparentemente ainda não houvesse perigo, mas ele engoliu seu desgosto e assumiu o primeiro turno de guarda.
…
Em outra parte da floresta morta, entre as ruínas do que já fora uma casa, uma figura esguia e muito alta se movia entre as sombras, agitando a névoa branca.
A figura depositou sobre uma mesa de pedra muito antiga um objeto peculiar que não combinava com o cenário. Era pequeno e tinha o formato de uma pirâmide triangular com arestas de bronze e faces de vidro transparentes, exceto pela base, que era puramente de bronze. No centro flutuava um cristal amarelo que brilhava suavemente. Se tratava do artefato de barreira portátil.
Aquele que acabava de retornar do saque era, de fato, um espectro. Ele percorreu a extensão da ruína avaliando a disposição dos artefatos furtados e começou a trabalhar, arranhando as runas de um deles com uma faca enferrujada para alterar seus formatos.
Com aquilo, ele não esperava atrair seus semelhantes para a floresta.
Ele esperava o retorno de seu senhor, que o havia deixado para trás.

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