Após a quase queda potencialmente para a morte de Will, os heróis continuaram sua busca pelo espectro ladrão sem comentar sobre o incidente, mas Luna praguejava em voz baixa com o corpo dolorido pelo esforço de segurar mais de cem quilos com um braço enquanto o outro suportava o mesmo peso somado ao dela própria.

    Will sentia-se envergonhado pelo episódio.

    Nenhum dos outros heróis sequer cogitara a possibilidade de Will não conseguir passar, por isso que não haviam pensado em amarrar uma corda nele antes ou em outra solução do gênero.

    Elicia e Viktor estavam um tanto desconcertados em falar do assunto, então preferiram esperar que Will se pronunciasse ao seu próprio tempo.

    Independentemente do ocorrido, o grupo inteiro de humanos estava do lado da fenda no qual precisava estar e rumava ao esconderijo do inimigo a um passo constante.

    Luna continuou rastreando sem problemas por longas horas até que a noite caiu. Mais uma noite na névoa. 

    Nenhum dos heróis dormiu bem.

    Luna especialmente acordou sentindo mais dores do que sentia no dia anterior. A dor do esforço físico sempre era pior no dia seguinte, ela aprendera isso muito bem durante os anos de treinamento para se tornar heroína. Apesar dos seus músculos fatigados, ela teve de continuar andando e rastreando.

    De repente, ela parou em frente a uma árvore com um semblante sério.

    — Essa árvore… Um galho bem grande foi arrancado recentemente dela, aparentemente à força.

    — Infelizmente isso faz sentido. — Viktor comentou.

    — Por que você diz?

    — Estive pensando a respeito. A runa de fixação ainda estava entalhada nas pedras onde deveriam ficar as estruturas protetoras dos artefatos. Essas runas tem efeito semelhante a um ímã muito forte entre a entalhada no chão e a na base da estrutura. Eu pensei que ele tivesse danificado as runas nessas bases de alguma forma, mas, com base nessa informação que você descobriu agora, ele provavelmente apenas arrancou as estruturas à força também.

    — Precisamos estar preparados para uma luta difícil. Aparentemente, não ter força para nos enfrentar não foi o motivo para o espectro escolher fugir e tentar nos despistar. — Elicia alertou.

    Enquanto isso, numa ruína de casa de pedra no meio da floresta morta, o espectro ladrão estava muito perto de concluir seu plano.

    Ele entalhava novas runas usando as antigas como base. Eram entalhes grosseiros que sequer teriam como sustentar a magia por mais de alguns minutos, mas alguns minutos eram tudo que ele precisava para enviar a mensagem ao seu soberano.

    Quando o cavaleiro negro passara pela floresta negra, levando consigo um número imensurável de espectros que o seguiam, aquele espectro inteligente se levantara de um túmulo nos fundos daquela ruína de casa. Recém despertado e muito fraco, ele não pôde seguir o cavaleiro, apenas pôde observar deslumbrado a passagem do imponente líder de todos os espectros.

    Ao longo das últimas semanas, ele esteve reunindo seu poder, que lentamente voltava para ele, e também reunindo os artefatos que ele uma vez plantara em alguns pontos pela floresta. Ele já não se lembrava do motivo de ter feito aquilo no passado, mas ele tinha uma vaga lembrança do que aqueles artefatos eram capazes de fazer e decidiu modificá-los de forma a mandar um sinal para seu senhor voltar para buscá-lo.

    Não havia sentido em continuar alí naquela floresta onde ele uma vez morrera. Ele desejava dedicar tudo o que restava de si ao magnífico governante.

    Ele se lembrava vagamente de ter saído da floresta no passado, mas não sabia porque morrera e fora enterrado alí. 

    Cada dia e noite fora gasto sem descanso em prol de seu novo objetivo. Mas ele falhara em sua primeira tentativa. Os artefatos aparentemente não funcionavam mais como em sua despedaçada memória.

    Ele pensou que talvez o motivo da falha fosse uma quantidade insuficiente de artefatos, mas entendera o verdadeiro motivo da falha quando observara um grupo de humanos e lobos acampando na proteção de um dos artefatos.

    Um dos humanos mudou as runas naquele artefato e outro usou uma magia peculiar própria para ativá-lo.

    O espectro quis roubar o artefato imediatamente, mas sentiu que era fortemente repelido por aquela magia. Ele até conseguiria entrar com força bruta, mas não garantia uma saída rápida e imperceptível com o artefato, então ele esperou.

    Ele ficou de tocaia a uma distância segura até que o artefato fosse desativado, então o pegou com sua grande força e velocidade. Ele não se lembrava sobre as runas que prendiam as estruturas no lugar, então simplesmente as arrancava à força. Além do artefato fixo, ele também passou sua mão leve por uma das mochilas, de onde sentia uma aura semelhante.

    Uma memória sobre magia ainda restava, e ele a usou para enganar aqueles humanos, que caíram na ilusão e correram com seus lobos para o outro lado. Enquanto isso, ele correu em algumas direções diferentes para criar rastros falsos e então se dirigiu com mais cuidado para seu esconderijo.

    Ele escolhera não lutar contra aqueles humanos por causa de uma memória estranha e insistente de que deveria cumprir seu dever a qualquer custo, e sentia que aquele grupo tinha alguma coisa em comum com aquela memória.

    Independentemente de memórias estranhas e rasgadas, ele tinha um novo dever agora, e estava prestes a cumpri-lo. Haviam apenas mais algumas runas a entalhar para os artefatos funcionarem com a amostra daquele poder de um dos humanos.

    Mais algumas horas se passaram e a penumbra estava prestes a se esvair para dar lugar à escuridão, encerrando a busca dos heróis por aquele dia.

    Elicia porém tinha um pressentimento ruim, um pressentimento de que eles não deveriam parar, um pressentimento de que o tempo estava acabando.

    — Não podemos parar agora.

    Sua fala não foi contestada, o grupo seguiu com o auxílio de um lampião para afastar um pouco o breu da noite e continuar identificando os rastros.

    Os preparativos estavam todos prontos. Ele só precisava ativar os artefatos com um pouco de magia para enviar a mensagem ao seu soberano.

    Ele estava prestes a fazer isso quando uma luz de repente surgiu de entre as árvores da floresta morta.

    Elicia confiava em sua intuição, era como se a névoa lhe sussurrasse que o tempo era curto. 

    A escuridão dificultara significativamente o processo de rastreamento, diminuindo consideravelmente o ritmo, pois era muito mais difícil de reencontrar o rastro quando precisavam fazer um desvio, mesmo com a visão extraordinária de Luna.

    Apesar da dificuldade a mais, os heróis eventualmente chegaram ao ponto de convergência dos rastros, e então ao destino procurado.

    Eles chegaram bem a tempo…

    A tempo de ver o espectro ativando uma rede complexa de muitos artefatos que brilhavam com a luz das pedras mágicas em seus centros. 

    Um clarão foi espalhado por toda a área e, em seguida, Elicia sentiu um pulso invisível passar por ela, um pulso muito semelhante àquele que ela própria era capaz de produzir com seu poder.

    Um alarme soou em sua mente.

    “Chegamos tarde demais.”

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