Capítulo 260: A Segunda Porta
E assim, a questão foi decidida.
Depois, os funcionários no local logo encontraram o “recipiente” que Yu Sheng pediu, um portão duplo de ferro retirado das ruínas do orfanato — de uma polegada e meia de espessura e com um batente de três metros e meio de largura. Era pesado pra caramba, tão pesado que um adulto comum não conseguiria abri-lo de uma vez. Foi içado por um guindaste e colocado ali, parecendo uma parede…
Yu Sheng ficou boquiaberto ao ver aquilo. Ele se apressou em explicar para Li Lin que queria uma porta extremamente comum, no sentido literal da palavra, do tipo que até um aluno do ensino fundamental conseguiria empurrar — e não aquela porta de segurança pesada que parecia a entrada da base secreta de algum chefão. Aquela coisa plantada ali até que tinha presença, mas sem um mecanismo de assistência, as crianças não conseguiriam nem movê-la depois…
“Ih, eu entendi errado. Quando ouvi que era uma porta de teletransporte ligando o vale à realidade, na mesma hora pensei naquelas comportas de alfândega da Agência”, disse Li Lin, coçando o nariz, constrangido. “Eu até estava pensando que, se essa porta não fosse grande o suficiente, eu ligaria de novo para o chefe e pediria para o Engenheiro Sun vir…”
Yu Sheng e Aileen falaram em uníssono: “Deixa o Engenheiro Sun em paz!”
Rindo sem graça, Li Lin acenou com a mão e pediu para o guindaste jogar aquele pesado portão de contenção — que originalmente ficava no subsolo do orfanato — de volta nos escombros. Pouco tempo depois, uma porta que pelo menos podia ser considerada normal foi trazida para o terreno limpo.
Era uma porta de metal, velha e pintada num tom vermelho escuro. A superfície ainda tinha aqueles enfeites de ferro forjado que gritavam o estilo estético de pelo menos vinte anos atrás, além de alguns adesivos coloridos. Ela foi colocada na clareira junto com o batente e recostada temporariamente no pedaço de muro de tijolos que havia sobrado.
“Ah, essa é a antiga porta do escritório do prédio leste!” reconheceu Rapunzel na mesma hora. “Fui eu que colei esse adesivo nela!”
Yu Sheng assentiu com a cabeça, satisfeito: “Essa serve. O próximo passo é preparar a alquimia. Aileen, dá uma olhada para mim, vou tentar desenhar sozinho aquele feitiço com nós de amplificação que você me ensinou da última vez…”
Enquanto falava, ele pegou um giz, colocou Aileen no chão ali perto e começou a desenhar uma matriz alquímica com nós complexos de amplificação na frente da porta.
A propósito, o giz foi fornecido por Hu Li. A garota tinha absolutamente de tudo dentro das caudas, e não dava para saber por que motivo ela tinha enfiado uma caixa de giz ali… Não é possível que fosse para comer também, né?
Li Lin ficou parado não muito longe, com os olhos arregalados, assistindo à cena com curiosidade. Depois de pedir permissão, ele até pegou o celular e começou a gravar. Sabia muito bem que o que estava registrando ali poderia ir direto para a sala da Diretora da Agência. Por mais que o próprio Yu Sheng pudesse não ter consciência disso, essa filmagem… faria o pessoal do departamento técnico fazer hora extra por uma semana.
Era a primeira vez que a Agência de Operações Especiais registrava de perto e visualmente o processo da “Entidade humanoide Yu Sheng” abrindo e fixando uma porta de teletransporte em um recipiente na realidade.
Pelo canto do olho, ele olhou em volta e viu que os agentes da Agência, que antes patrulhavam o perímetro, tinham se aproximado de forma consciente. Os mais diversos equipamentos de detecção deviam estar ligados a esta altura, registrando cada minúscula mudança que acontecia neste espaço vazio diante deles.
Na verdade, Li Lin estava com a consciência um pouco pesada. Afinal, embora Yu Sheng tivesse dito que não se importava que alguém assistisse ou até tirasse fotos e filmasse, o batalhão de agentes da Agência reunidos com vários equipamentos de detecção fazendo escaneamentos no local soava um tanto ofensivo. Ele temia que Yu Sheng ficasse insatisfeito com isso. Contudo, depois de assistir por um tempo, ele entendeu por que Yu Sheng não ligava a mínima para os membros da Agência bisbilhotando.
Porque ele percebeu que o que Yu Sheng desenhava no chão era o feitiço de Infusão alquímica mais comum de todos, e ainda por cima a versão simplificada.
Esse feitiço ele também sabia fazer. Ensinaram nas aulas básicas do treinamento. Isso sem falar nos agentes de campo, até a Ren Wenwen, no escritório, sabia.
Naquele momento, os “complementos” que a Agência enviou também chegaram. Li Lin observou Yu Sheng separar um pouquinho daquele monte de material para usar na matriz alquímica e depois jogar todo o resto direto nas caudas da raposa.
Em seguida, velas foram acesas em alguns nós básicos da matriz de runas. As chamas balançavam ao vento livre, mas, assim que vários pós de cristal, óleos essenciais, pós de chá e coisas do tipo foram adicionados, o fogo se estabilizou rapidamente.
Hu Li estava agachada do lado de fora da matriz alquímica. Enquanto observava o seu Benfeitor desenhar os arranjos, segurava um espetinho de cogumelo, comendo com gosto. Rapunzel, vendo como aquilo parecia delicioso, se aproximou: “Deixa eu provar um pouco…”
Num instante, Hu Li escondeu os espetinhos nos braços, virou-se para Rapunzel arreganhando os dentes e soltou um rosnado ameaçador de “Grrrr” do fundo da garganta.
Rapunzel não se irritou, já que havia provocado Hu Li assim durante a festa de churrasco anterior. Ela apenas se afastou com um sorriso zombeteiro: “Tsc, se não quer dar, não dá.”
“Afastem-se um pouco, vocês, especialmente você, raposa boba, não vá pingar óleo nas linhas”, disse Aileen, andando de um lado para o outro dentro da matriz inspecionando o trabalho e, de vez em quando, dando algumas dicas para Yu Sheng. “Ei, ei, Yu Sheng, você esqueceu de desenhar um traço aqui… Vem, conserta isso. Olha, na teoria não dá pra preencher essa parte depois, mas como a sua alquimia não segue a lógica mesmo, então pode preencher…”
O clima no local não tinha absolutamente nada de “profissional”.
Li Lin segurou a língua por um bom tempo, mas não aguentou mais. Embora a teoria ensinasse que ninguém deveria abrir a boca durante um ritual alquímico dessa escala, ver esse pessoal bem na sua frente — que não só conversava o tempo todo, como já tinha devorado um monte de espetinhos — fez com que ele decidisse ignorar todas as regras que havia aprendido: “É… é só isso? É assim que você fixa a sua porta de teletransporte na realidade?”
Yu Sheng ergueu os olhos: “Esse é só o primeiro passo.”
Li Lin suspirou aliviado no mesmo instante: “Bem que eu desconfiei. O que eu aprendi na época…”
“O segundo passo é adicionar o último ingrediente complementar e pronto”, continuou Yu Sheng.
Então, ele tirou aquela sua faca preciosa do bolso e começou a serrar o próprio braço com dificuldade…
Li Lin: “…?”
“Hu Li, vem me dar uma mordida”, disse Yu Sheng abaixando a faca, impotente, enquanto olhava para a garota-raposa que já tinha terminado de comer o cogumelo. “Eu realmente preciso trocar de faca.”
“Ah!” Hu Li caminhou alegremente até ele no mesmo instante, abriu a boca e mordeu o pulso de Yu Sheng. Dentes afiados rasgaram a pele com um ploft…
Ela finalmente havia se acostumado com a “peculiaridade” esquisita de Yu Sheng, e a essa altura, já não sentia pena de dar uma mordida no seu Benfeitor.
Yu Sheng correu para conduzir o próprio sangue até a porta, realizando o último passo, o que realmente importava no “ritual” —
Pensar.
Pensar bem forte.
Pensar que uma porta correspondente estava se formando lentamente no vale.
Na verdade, ele poderia ter construído a porta correspondente no vale com antecedência e vindo abrir aqui depois. O resultado de conectar os dois lados seria o mesmo, mas ele estava com preguiça. Afinal, já que podia controlar o lado do vale remotamente, se pudesse evitar uma viagem a mais, claro que evitaria.
Um leve som de atrito veio das laterais daquela porta simples de ferro. As chamas das velas no chão foram repentinamente puxadas por uma força invisível e se ergueram de uma vez.
Li Lin, que até um segundo atrás estava estupefato, estremeceu — ele viu a porta crescendo e se deformando.
Estruturas que pareciam tecidos biológicos se estenderam pelas laterais da porta e começaram a se fundir rapidamente com a parede de tijolos. A superfície da parede continuou se contorcendo e ondulando. Ao mesmo tempo em que prendia e embutia a porta completamente, ela também gerava uma espécie de camada externa com textura de rocha, que parecia extremamente resistente.
De repente, um pensamento… ou melhor, um “conhecimento”, invadiu a mente dele:
Aquela porta estava viva.
Aquela bagunça de feitiços alquímicos e materiais complementares, na verdade, não serviam para porra nenhuma. Todas as imagens e dados de detecção registrados antes não tinham significado. A única coisa que importava de verdade era o último passo, que era justamente o passo impossível de ser registrado ou analisado por qualquer equipamento — todas as mudanças aconteceram naqueles poucos segundos em que Yu Sheng doou seu sangue à porta e apertou a maçaneta com os olhos fechados em reflexão.
Yu Sheng girou a maçaneta.
A porta recém-nascida soltou um grito mudo de alegria no mundo real. Ela celebrava a própria vida. Aquelas estruturas semelhantes a tecidos biológicos fundidos na parede pulsavam e inflavam vigorosamente em uma dimensão impossível de ser observada por humanos, emitindo seu primeiro batimento cardíaco.
Em seguida, a porta ofereceu ao seu criador uma paisagem que levava até muito longe.
Branca de Neve e os seus sete Titãs do Trovão estavam em pé do outro lado da porta. Havia também uma garota de cabelos longos e sedosos e um vestido azul-claro que se apoiava curiosamente na entrada — era a Sereia, e em sua cabeça estava agachado o arrogante Rei.
“Irmã Chapeuzinho! Irmão Yu também!” a Sereia cumprimentou alegremente o pessoal do outro lado. “Uau, a porta abriu mesmo!”
“Humano, você é formidável.” O Rei também assentiu com a cabeça para Yu Sheng de forma contida do outro lado da porta, depois esticou a cabeça para frente. “Venha, faça um cafuné em mim rápido.”
Rindo, Yu Sheng estendeu os braços, pegou o Rei direto do outro lado da porta e o esfregou no peito. O gatinho não se irritou. Depois de aceitar o carinho com complacência, pulou no chão com elegância e ergueu a cabeça para observar o lugar.
“Ah, devastação por todo lado”, o gato listrado soltou um suspiro extremamente humanizado e, com um aceno da pata, um bardo de túnica curta surgiu ao seu lado. “Diante desta cena, eu quero recitar um poema — mas como eu não sei, você faz.”
O bardo tirou uma pena e um pergaminho do peito e começou a escrever o poema de cabeça baixa.
Após confirmar que aquela porta recém-nascida realmente conseguia operar normalmente sem depender da sua sustentação, Yu Sheng suspirou aliviado, virou-se para Li Lin — que continuava paralisado — e perguntou com um sorriso: “Pronto, terminei a minha parte. Conseguiu entender?”
“…Isso aí, não só eu, mas acho que nem a Diretora conseguiria ‘entender’ se estivesse aqui”, respondeu Li Lin com um sorriso amarelo, abrindo as mãos com certa resignação. “Não é à toa que você não se importou com a gente assistindo.”
Depois de falar isso, ele fez uma pausa e olhou curioso para o portal: “Isso quer dizer que, de agora em diante, dá para entrar direto no vale por essa porta? Será preciso montar um posto de vigia ou algo assim por aqui? Colocar uns guardas extras além do nó de isolamento, para evitar que algum malfeitor que consiga contornar o nó invada — considerando a peculiaridade da organização ‘Contos de Fadas’ e a sua, a Diretora provavelmente não se importaria em alocar pessoal para isso.”
“Guardas não vão ser necessários, depois eu peço para a Chapeuzinho Vermelho e os outros organizarem um rodízio na portaria para vigiarem o portão, principalmente para impedir que as crianças fujam de fininho”, disse Yu Sheng. “Não se preocupe em alguém invadir. Essa porta precisa de permissão. Mesmo se estiver aberta, quem não tem permissão não vai conseguir entrar nela.”
Li Lin pareceu entender: “Igual à Rua Wutong, 66?”
Yu Sheng sorriu: “Isso, igualzinho à Rua Wutong, 66.”

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