Capítulo 259: Um Bom Lugar
Yu Sheng explicou o motivo da sua visita à Chapeuzinho Vermelho, e os olhos da garota se iluminaram no mesmo instante.
“Ah! Você finalmente vai abrir uma ‘porta exclusiva’ pra gente? Que maravilha! A Professora Su até comentou comigo ontem que é muito incômodo ter que procurar você para abrir a porta quando termina o expediente, e a Rapunzel não para de falar nisso também… Onde você pretende abrir?”
“Deste lado é fácil resolver”, Yu Sheng ergueu a mão e apontou para não muito longe dali. “Basta achar um lugar espaçoso e estável aqui na área de alojamento, colocar a porta e pronto. Acho que aquele terreno vazio no meio da vila é perfeito. O problema é a porta do lado ‘de fora’ — ela precisa ser aberta no mundo real, não pode ser vista por pessoas comuns e também não pode ficar num lugar muito isolado. Temos que considerar as necessidades de vocês quando quiserem sair no futuro, e também a facilidade para o trajeto da Professora Su e dos outros ‘funcionários’.”
“Abre lá na Praça Lvyuan”, intrometeu-se Rapunzel ali do lado. “Lá tem um monte de lojas de chá com leite—”
Mas absolutamente ninguém deu bola para ela.
Chapeuzinho Vermelho abaixou a cabeça e ponderou seriamente por um momento, parecendo já ter uma ideia.
“Que tal abrirmos no antigo terreno do orfanato?” Ela ergueu os olhos, com uma expressão séria. “Veja bem: primeiro, nós já conhecemos aquele lugar. Embora estejamos morando numa casa nova agora, se a ‘porta de casa’ ficar perto do antigo portão do orfanato, sair não vai ser muito diferente do que era antes. Além disso, a Professora Su e os outros não vão precisar mudar a rota de ida e volta do trabalho. Segundo, o terreno do nosso orfanato sempre foi isolado por dispositivos de nós. Agora que o incidente do Anjo Sombrio acabou de acontecer, os nós com certeza ainda não foram desmontados. É só falar com a Agência de Operações Especiais e nós instalamos a porta direto lá; assim, não precisaremos nos preocupar que pessoas comuns vejam o portal, nem gastaremos tempo construindo novos nós de isolamento.
“O único problema, claro, é que aquilo foi tudo arrasado. Agora deve ser só um monte de ruínas, e eu não sei se tem um espaço viável para colocar a porta…”
Yu Sheng ouviu a análise da garota com os olhos brilhando, e não pôde deixar de comentar: “Como a cabeça de estudante de ensino médio funciona bem… Falando assim, faz todo o sentido. Quer ir lá dar uma olhada primeiro?”
Chapeuzinho Vermelho pensou um pouco e concordou com a cabeça: “É, boa ideia… Eu também queria ver como aquele lugar está agora.”
Ouvindo isso, Rapunzel saltou para a frente de novo: “Para onde? Nossa ‘antiga casa’? Opa, eu também vou! Desde que tudo acabou, eu ainda não voltei lá para ver… Ah, eu deixei tanta coisa para trás, não deu tempo de trazer um monte de livros e várias action figures… Ei, vocês vão me levar junto ou não?”
Naquele instante, Yu Sheng já tinha aberto casualmente uma porta que levava ao antigo terreno do orfanato. Chapeuzinho Vermelho parou na entrada, virou o rosto e olhou para a colega de quarto que não parava de tagarelar: “Se continuar enrolando, não vamos te levar mesmo. Se quer ir, é só vir, pra que tanta falação?”
O rosto de Rapunzel se abriu num sorriso largo e ela correu até eles: “Opa! Beleza!”
Atravessar a porta levou apenas um instante. A paisagem diante do grupo mudou, e eles deixaram o vale paradisíaco para retornar à frente do velho orfanato.
Claro que o que viram não se parecia em nada com o que guardavam na memória.
Aquele muro alto e manchado pelo tempo tinha sido quase pulverizado na explosão final do Anjo Sombrio; agora, restavam apenas incontáveis tijolos quebrados e telhas em ruínas amontoados na beira da rua. Os dois prédios principais do pátio, que haviam se transformado no cordão umbilical do Feto de Anjo, agora também eram destroços colossais desabados em meio aos escombros após o rompimento do cordão. A antiga área de atividades ao ar livre, onde as crianças brincavam e davam risada, tinha sido embebida pela matéria de pesadelo; agora que o pesadelo havia recuado, os balanços, escorregadores e gangorras estavam reduzidos a fragmentos partidos, com uma textura que lembrava carvão queimado.
Quanto ao grande tanque de areia, restava apenas uma depressão enegrecida e endurecida.
Chapeuzinho Vermelho observou aquele cenário sem dizer uma única palavra por um longo tempo.
Rapunzel, que saiu logo atrás pela porta, arregalou os olhos diante de toda aquela destruição. Depois de um bom tempo, forçou um sorriso que parecia desprovido de qualquer tristeza, respirou fundo e deu uns tapinhas no ombro de Yu Sheng: “Irmão, é exatamente como você falou… Desabou tudo mesmo. Pois é, caiu tudo.”
Yu Sheng não disse nada, apenas afagou as costas de Chapeuzinho Vermelho.
Obviamente, não havia apenas escombros no local.
Havia também o pessoal da Agência de Operações Especiais — a equipe de contenção de danos.
Havia técnicos encarregados de monitorar o ambiente, agentes da Agência totalmente armados e em estado de alerta, além de uma equipe de construção removendo os entulhos com grandes maquinários de demolição roncando ao fundo.
Entre os agentes que vigiavam a área, Yu Sheng avistou uma figura familiar: Li Lin.
O rapaz também o viu e caminhou rapidamente na direção deles.
Vestido com um traje completo de proteção e segurando uma arma carregada, Li Lin parecia bem mais confiável do que de costume. Ao se aproximar, ele cumprimentou Yu Sheng e as meninas, para então repousar o olhar em Chapeuzinho Vermelho: “Vieram dar uma olhada hoje?”
A garota assentiu com a cabeça, e Yu Sheng, ao seu lado, tomou a palavra: “Não viemos só olhar, tem outra coisa. Pretendo abrir uma porta de teletransporte permanente aqui.”
A expressão de Li Lin ficou séria no mesmo instante: “Uma porta permanente?”
“A galera do ‘Contos de Fadas’ não se mudou em peso para o meu quintal? É para eles. Quero abrir um atalho prático direto para a realidade”, explicou Yu Sheng. “Eu já tinha falado sobre isso com a sua Diretora antes, mas o local exato não estava definido. Conversamos agora há pouco e decidimos que aqui é o lugar mais adequado. Os ‘nós’ de isolamento em volta ainda não foram retirados, certo?”
“Claro que não”, apressou-se Li Lin em confirmar. “Mesmo que vocês não viessem, os nós teriam que continuar aí. Afinal, esse terreno foi parasitado por um Anjo. Toda a área precisa ficar isolada por no mínimo dez anos antes que possamos fazer alguma avaliação de uso do espaço… Vocês vão mesmo abrir a porta aqui?”
“Uhum”, respondeu Yu Sheng sem muito peso na consciência. Afinal, era ele quem melhor conhecia a real situação de Ankaela. A Agência de Operações Especiais estava seguindo os protocolos, o que era perfeitamente compreensível, mas ele sabia muito bem que, na verdade, o local já era extremamente seguro. “Só não sei como está o progresso da limpeza aí dentro. Teria um cantinho para eu fazer a minha ‘obra’?”
Dava para notar a olho nu um pouco de nervosismo na expressão de Li Lin — misturado, quem sabe, com uma dose de empolgação e um pingo de expectativa: “Hã, e o que você precisa para instalar uma porta fixa? Muito espaço? Que tipo de material? Precisamos retirar todo mundo daqui em volta primeiro? Quer que eu chame o Engenheiro Sun rapidinho para ele armar uma tenda temporária para você ou algo assim?”
Yu Sheng ficou meio desnorteado com aquela enxurrada de perguntas. A empolgação do cara era tanta que até parecia que a porta ia dar na casa dele, e não no lar das crianças. Num reflexo, acabou perguntando: “O Engenheiro Sun também cuida disso?”
Antes que Li Lin pudesse abrir a boca, Aileen, esparramada no ombro dele, murmurou num tom solene: “A galera da engenharia civil é assim mesmo.”
Yu Sheng coçou a ponta do nariz, um pouco constrangido: “Tá, né… Mas não precisa de tanto trabalho. Muito menos esvaziar a área. Só me arranje um espaço que já esteja limpo e que não vá atrapalhar no futuro, está ótimo. Quanto ao material, é simples. O item principal é uma porta, uma porta comum e qualquer, para servir de ‘recipiente’. Os complementos são…”
Ele fez uma pausa e puxou o ar de leve.
O pressentimento ruim no peito de Li Lin apitou com tudo.
Se o rapaz tivesse um vocabulário um pouco mais afiado, diria que, naquele momento, sua Intuição Espiritual estava gritando feito louca.
Yu Sheng disparou de uma vez: “Cinco maços de velas cerimoniais; três galões de óleo essencial de rosa, dos de dois litros e meio; seis quilos de pó de cristal; duas garrafas térmicas de tinta mediúnica; ah, e manda também quatro frangos assados, vinte pãezinhos recheados, vinte pãezinhos simples, duas caixas de salsicha — e vinte espetinhos de cogumelo.”
“Eu, eu, eu!” berrou Rapunzel, levantando a mão freneticamente. “Eu também quero um ingresso para o show do X-star!”
Chapeuzinho Vermelho cutucou o braço da amiga na mesma hora: “Pra que você quer isso? Pede para a Sereia cantar para você depois e pronto! Ela consegue reproduzir até a plateia berrando lá no fundo, é só fechar os olhos que parece igualzinho a um show de verdade.”
“Mas não é a mesma coisa!”
Li Lin ouviu aquilo tudo com cara de tacho. Olhou para o bloco de notas do celular por um tempão até conseguir balbuciar algo: “…Irmão Yu… eu… eu vou ter que relatar isso para a chefia.”
Quando Yu Sheng lembrou quem era a chefe dele, achou graça: “Tranquilo. Pode relatar.”
“Vou relatar exatamente do jeito que você pediu, então. Tem certeza?”
“Pode mandar.”
Li Lin caminhou para um canto e ligou para o Capitão Song: “Alô? Chefe, tem uma situação aqui… O Yu Sheng veio me procurar, disse que quer abrir uma porta fixa e pediu ‘um pouquinho’ de material… Como assim o senhor já sabia dos espetinhos de cogumelo?!”
Um minuto depois, o jovem agente retornou com uma expressão esquisita: “O chefe autorizou.”
Yu Sheng apenas riu da cara dele.
“A porta que você precisa nós temos aqui”, pigarreou Li Lin, recuperando logo a postura profissional. “Se for só uma porta comum, tiramos várias que continuaram inteiras no meio dos destroços, dá para usá-las direto. Já o resto do ‘material’ vai chegar daqui a pouco. Usando um ‘Atalho’, eles entregam aqui em pouco mais de meia hora. Quanto ao terreno que você pediu…”
Dizendo isso, ele ergueu a mão e apontou para um canto das ruínas do orfanato.
“Ali não serve? É um dos pouquíssimos lugares de todo o complexo que não foram destruídos. Por coincidência, quando o ‘cordão’ se rompeu e caiu tanto entulho lá do alto, absolutamente nada atingiu aquela parte. Você pode colocar a porta lá primeiro e, depois, chamamos o Engenheiro Sun para montar um telhado e proteger o local da chuva, ou quem sabe erguer logo uma casinha. Seria tipo a ‘portaria’ do novo QG do ‘Contos de Fadas’…”
Enquanto Li Lin tagarelava ao lado, Yu Sheng seguiu o dedo do rapaz com os olhos e viu um pedaço de terreno ainda intacto no meio de toda a destruição.
O espaço ficava exatamente na beira de onde era a antiga área de atividades ao ar livre. Ao lado dele, havia uma árvore — uma árvore que, do mesmo modo, tinha saído ilesa da catástrofe. Perto dali, restava o pedaço de um muro de tijolos que havia desabado pela metade; a parte que sobrou continuava de pé, resistindo teimosamente ao lado do esqueleto dos balanços destruídos.
Yu Sheng ficou olhando para aquele lugar. Olhou por muito tempo.
Lembrou-se de que, há muito, muito tempo, existiu uma Cinderela que viveu até os 26 anos de idade. Ela costumava ficar ali, em frente àquele mesmo muro e balanço, sorrindo em silêncio enquanto observava o Velho Zheng, quando este ainda não passava de um pequeno moleque.
Também havia uma jovem Chapeuzinho Vermelho, que segurou a mão de uma pequena Wang Jiajia1, plantando juntas uma árvore naquele mesmo espaço… e agora aquela árvore tinha crescido.
E, de agora em diante, também haveria uma porta ali.
Uma porta que levaria até aquele vale ensolarado.
“Perfeito”, Yu Sheng abriu um sorriso lento e suave. “Eu acho que esse lugar está ótimo.”

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