Capítulo 35 — 1 Missão (2/4)
[Localização: ???]
Respirar.
Respirar.
Ele precisava respirar. Sua mente lembrava-o repetidamente daquela necessidade e ele compreendia a urgência, mas sentia como se as vias respiratórias tivessem atrofiado.
A simples ação de inalar e exalar o ar tinha se tornado a tarefa mais difícil do mundo, exigindo um esforço tão absurdo ao ponto de deixar seu rosto encharcado pelo suor.
— Huunf! Huuunf! Huuunf!
Em meio às arfadas, sua mandíbula inferior subia e descia em frenesi, numa tremedeira ruidosa e desesperada.
“Merda! Merda! Merda!” — Suas falanges distais das mãos superiores abriram caminho por entre os cabelos castanhos, que há muito tinham perdido as tranças e caíam descuidados. De tanto apertar, as mãos inferiores quase quebravam seus joelhos. — “O que é isso?”
Os pelos nos braços reluziam sob a luz pálida do local, com gotículas de suor escorrendo por entre eles constantemente.
“Quando… quando chegamos aqui?”
Seus olhos tremeluziam inquietos, buscando uma resposta na madeira preta do balcão em que seus cotovelos se apoiavam.
“Onde é aqui? Por que estamos aqui?”
Sem conseguir oxigenar o corpo devidamente, o barulho do choque entre os dentes tinha se tornado sua âncora na realidade, puxando-o da escuridão sempre que a consciência vacilava.
“Por quê? Por que não consigo lembrar?”
Um vazio.
Sempre que vasculhava a mente, era apenas aquilo que encontrava. Não importava o quanto forçasse a habilidade ocular em seus quatro olhos, o Olho da Verdade não conseguia trazer sequer uma faísca de iluminação naquele rombo em sua memória.
Kramustek lembrava da reunião que tiveram com seu capitão, mesmo não fazendo ideia de quanto tempo havia se passado desde aquele dia, visto que o tempo parecia estagnado ali, sem dia nem noite, e nem os relógios funcionavam mais.
O Hyem recordava também da tempestade que enfrentaram, próximo à Ilha dos Esquecidos, antes de chegarem…
Chegarem onde mesmo?
— Feo hosgi (Que Merda)! — O xingamento escapou em sua língua materna, Lakar, quase tão estrondoso quanto um grito.
Seus olhos se arregalaram logo em seguida e a fraca respiração tornou-se tão pesada que parecia uma serra rasgando as fossas nasais.
Ele tinha falado…
Sem querer, ele tinha falado.
Ficou paralisado por longos segundos, sem emitir som algum, esperando pela reação “deles”, suplicando mentalmente aos Espíritos para que não tivesse sido escutado.
Depois do que pareceu uma eternidade sem nenhuma resposta daqueles atrás dele, Kramustek abriu a boca e soltou uma lufada de ar, voltando a sentir-se vivo após tanto tempo prendendo o fôlego.
Esforçou-se ao máximo para tornar o fôlego silencioso, mas seu coração, que mais parecia um tambor no peito, anulava completamente o trabalho árduo.
Por reflexo, olhou para a direita e encontrou o irmão no banco ao lado. Morstek não esboçava emoção alguma; seu corpo parecia relaxado, com as costas e cotovelos dos braços superiores escorados no balcão, as mãos inferiores nos bolsos e…
Ele estava olhando para onde Kramustek evitava com tanto afinco. Mas aquilo nem era a pior parte; o perigoso mesmo era o brilho místico naqueles olhos vermelhos.
Morstek estava forçando tanto o Olho da Verdade que as veias em seus quatro globos oculares pareciam uma tempestade de relâmpagos.
“Para com isso!!!” — Kramustek gritou em pensamento, na tentativa de impedir o irmão, mas o pavor era tamanho que as palavras não saíam.
A técnica ocular dos Hyems podia ser algo único e conveniente, uma das habilidades mais intransponíveis de Heternidade, mas também era uma faca de dois gumes.
O mundo possuía segredos que deveriam permanecer ocultos, revelações que não foram feitas para o conhecimento dos mortais. Por conta disso, os Hyems sempre regulavam aquele dom, de modo a nunca verem mais do que deveriam.
Porém, naquele momento, Morstek parecia ter quebrado todas as correntes de segurança que restringiam o poder. Se aquilo continuasse, certamente ele acabaria desvendando algo que devia ser um mistério eterno e, consequentemente, deixaria de ser ele mesmo.
“Mas…” — Kramustek conhecia bem o irmão; sabia que, se ele decidia fazer algo, jogava-se de cabeça e, por conta disso, muitas vezes levou-os à beira da morte. Mas não era por isso que ele era o mais habilidoso e poderoso entre os gêmeos?
Morstek, continuamente, forçava tanto o Olho da Verdade que a habilidade precisou evoluir e se adaptar a ele.
“Isso não significa que este é o caminho certo?”
Se eles nasceram com tal dom, não era porque o mundo queria que fossem eles a desvendar todos os mistérios?
“Haaa. Acalme-se… eu preciso me acalmar.” — Seus olhos se fecharam e, gradualmente, a respiração tornou-se mais serena, assim como o pulsar do coração. — “Lembre-se!”
Lágrimas escarlates jorraram dos cantos das pálpebras cerradas quando ele fez como o irmão e forçou o Olho da Verdade ao seu limite derradeiro.
No mesmo instante, sussurros ancestrais invadiram seus ouvidos e tentaram devorar sua consciência, mas ele não se deixou levar e focou apenas no que importava.
Quando abriu os olhos, tudo o que viu foram palavras…
As paredes, o balcão, as estantes com garrafas de licor… tudo!
O mundo era feito de palavras. Inclusive ele próprio e seu irmão ao lado. Eram termos num idioma que nenhum mortal jamais entenderia.
Fixou o olhar no amontoado humanoide de letras ao lado e soltou um leve sorriso.
“Então esse é o mundo que você vê.”
Mas sentia que não podia suportar aquilo por muito tempo; se focasse sua atenção naquelas frases, em algum momento acabaria por compreendê-las e, depois disso, não existiria mais um Kramustek Nel.
O brilho em seus olhos se apagou, mas tinha se mantido por tempo suficiente.
Depois de tanto tempo perdido, finalmente ele recordava que ali era a chamada Intersecção, a ponte entre as sete Dimensões de Heternidade. E eles estavam lá para procurar os três materiais que faltavam para que o plano do capitão começasse.
Quando aquela verdade veio à tona, sua visão finalmente parou de ignorar o pequeno frasco com um líquido borbulhante como lava, o sangue de um dragão de fogo, e as asas de uma borboleta-de-cristal-vermelho.
Eles tinham conseguido dois dos três itens necessários, mas…
“Apesar de eu me lembrar de quando chegamos aqui, não faço ideia de quando ou como conseguimos isso.”
Sua memória ainda estava esburacada, mas ele decidiu não se forçar mais, afinal, era senso comum entre aqueles de sua raça que, por vezes, o cérebro simulava amnésia com o intuito de proteger seu dono de uma verdade proibida.
“Que verdade tão perigosa descobrimos para termos chegado a isso?”
Já mais calmo, reuniu enfim coragem para virar-se para trás.
Estavam numa espécie de bar, com mesas muito bem arrumadas e espalhadas. Seria apenas um estabelecimento comum, se não fosse a clientela.
Aqueles sentados às mesas e perambulando pelo salão não eram humanos, muito menos seres de outras raças conhecidas. Aquelas coisas pareciam massas disformes e inconstantes, impossíveis de descrever. Era como se todas as aberrações de Heternidade tivessem se fundido em cada uma daquelas criaturas.
Ao olhar para tais seres, Kramustek imediatamente escutava seus instintos gritando para desviar o olhar.
— Haaa. — Assim que aquele suspiro escapou, um par de mesas chamou sua atenção.
Aquelas eram as melhores do lugar, nos dois pontos privilegiados do bar e, mesmo assim, as monstruosidades pareciam, instintivamente, evitar sequer olhar para elas, assim como Kramustek evitava olhar para aquelas coisas.
Ele concentrou-se tanto nos móveis que, sem seu consentimento, o Olho da Verdade se ativou e as mesas se transformaram em um amontoado de palavras.
Primeiro eram termos indecifráveis, mas ele fitou o local com tanta intensidade que a mesa da esquerda revelou o significado de uma de suas palavras:
[Hermês]
Quase que imediatamente, a outra mesa também resolveu revelar alguns de seus segredos:
[Vendel]
Acompanhados daquele sobrenome, sete nomes invadiram a mente do Hyem.
“Espera! Ven…”
Tudo se tornou escuridão.
…
…
“Huh!?”
Quando seus olhos se abriram, a imagem do bar repleto de pessoas se revelou. Lá no fundo, numa das melhores mesas do recinto, a da direita, estava um homem descamisado, com músculos grossos e definidos e cabelos longos, acenando para ele.
Kramustek concentrou-se naquele aceno por um segundo, buscando na memória bagunçada quem seria aquele sujeito.
— Ah, sim! — Lembrou.
Aquele era o homem que venderia o último item que lhes faltava: A Seiva da Árvore do Inferno.
[Continente Sudoeste: Damis]
Apesar de ser o segundo maior continente da Dimensão Amarela, o Sudoeste possuía apenas três províncias, separadas pela grande floresta Nhova.
Conhecida como a maior floresta do mundo, Nhova isolava Damis no Sudoeste, Moh no Noroeste e a montanhosa Lantus no Leste.
Depois de várias explorações e descobertas, o mundo tinha simplesmente desistido de determinar o número exato de espécies naquele lugar.
Do centro de Nhova, o som de tambores ressoava com animação; um ritmo tão agitado que até mesmo os animais paravam para balançar o corpo.
DOOM! DODO-DOOM! DODO-DOOM!
As árvores chacoalhavam para lá e para cá e o chão tremia, ambos à mercê da dança da fauna nas redondezas.
No exato ponto central da mata, a maior árvore do mundo se erguia: um quilômetro inteiro de altura, com galhos que, como vinhas, caíam e se arrastavam pelo solo, assemelhando-se às paredes robustas de uma casa. Folhas douradas selavam toda e qualquer brecha, enquanto as flores rosadas de quatro pétalas davam o toque de beleza.
Baques rítmicos vinham do interior das paredes de vinhas; era um grupo de pelo menos cem Lihyfs negras, todas vestidas a rigor — com apenas uma minissaia e sutiã, ambos de pele —, segurando lanças de treino e escudos losangulares.
Bam!
Bam. Bam.
Bam!
Bam. Bam.
Em sintonia com a batida, o cabo das lanças caía repetidamente, complementando a melodia.
Elas formavam um círculo ao redor do tronco da grande árvore, próximas à “parede”, observando a última daquele mês a passar pelo ritual da cerimônia de maioridade.
— GHAAAAAAAAHHH!!!
O grito da jovem Lihyf reverberou pelo local, mas, ao contrário do que se esperaria, o som dos tambores ficou mais retumbante, e as lanças batiam com mais firmeza.
“Eu… eu não aguento mais…”
Aquele pensamento ganhou espaço na mente da jovem de cabelos alaranjados, que esvoaçavam mesmo sem vento.
Era Hiryn.
Parecendo a cauda decepada de um lagarto, ela se debatia e contorcia sobre o chão de folhas cor de fogo. Os espasmos momentâneos pareciam uma ameaça da Dama Pálida, como se seu último suspiro fosse ser dado ali.
Sua pele negra estava ao rubro, como se lava corresse sob ela, elevando a temperatura a níveis preocupantes. Em contraste, Hiryn sentia-se devorada por um frio extremo, como se todo o seu sangue tivesse sido substituído por blocos de gelo.
“Isso… isso dói…”
Murmurou internamente, ao mesmo tempo em que lágrimas densas e vermelhas rastejavam pelo rosto.
Se fosse apenas a febre e o frio, ela suportaria, mas não era só isso. Sentia como se um gigante esmagasse sua cabeça; as têmporas latejavam e toda a dor se concentrava na testa, onde um trio de grandes calos tinha crescido.
Sua visão estava nublada e a escuridão ameaçava consumi-la. Nem mesmo o Santo, o único macho ali e o responsável pelo ritual, ela conseguia enxergar.
O que mantinha sua consciência eram as pinturas vermelhas e brancas em seu rosto — feitas pelo Santo quando ela chegou —, que brilhavam de leve sempre que o desmaio se aproximava.
— Visto que não mais nascemos da Grande Árvore… — A voz do Santo soava distante, como um sussurro de outra dimensão.
Rezam lendas que, nos primórdios da criação, aquela grande árvore era a responsável por gerar todo e qualquer Lihyf. Segundo tais contos, a Hosikati Celyn seria a última a nascer da planta.
“Árvore Mãe”, assim era chamada.
— É necessário entregar o nosso corpo e alma para que possam ser limpos pelos Espíritos… — O Santo continuou, sua voz funcionando como uma bússola para o espírito de Hiryn.
… Todavia, em algum ponto da história, a árvore parou de gerar os Lihyfs e, por conta disso, passaram a ser necessários os atos mundanos para a continuidade da raça.
Mas a árvore não se tornou inútil; ela apenas deixou de ser a mãe para se tornar a ponte entre aquela raça e os Espíritos.
Assim, passou a ser chamada de: “Árvore dos Espíritos”.
— Devemos ser limpos para então nascer de novo — finalizou.
O grito de Hiryn reverberou mais uma vez e suas contorções se tornaram violentas. Seu tronco se entortava para todas as direções e os dedos, das mãos e pés, rasgavam o chão por entre as folhas.
— AAAAHHHH!!
Ergueu a cabeça e, assim que o grito escapou, o calo no lado direito da testa se rasgou. Da fenda escorreu sangue, formando uma cascata descendente pelo rosto.
Quando ela se contorceu novamente, algo grosso e pontudo espreitou pela abertura na testa, fazendo jorrar ainda mais sangue.

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