Índice de Capítulo

    Os demônios voam pela noite escura, silenciosamente cortando o céu enquanto cruzam a cidade recém-erguida. 

    Abaixo deles, alguns poucos orcs fazem rondas entre as construções de pedra. 

    Todo o lugar é feito com rochas irregulares, de diferentes texturas, cores e tamanhos, que ainda assim se encaixam perfeitamente.

    Os caminhos entre as casas estão limpos, forrados com um tapete de grama rasteira. O extenso emaranhado de vinhas verdes já não existe mais, mas alguns cipós isolados ainda estão espalhados no chão e acima de algumas casas.

    Byron e Rubi se encaminham para a torre alta no centro de tudo. A iluminação, constituída de tochas, apenas cerca a edificação, deixando o local bem mais escuro que o restante da cidade.

    Sem chamar nenhuma atenção, os demônios aterrissam no alto da torre. Um terraço circular, com um parapeito de pedra que vai até a cintura de Rubi. Em uma borda, no chão, há um acesso quadrado para uma escadaria de pedra que leva ao interior da construção. 

    Assim que toca o chão, o diabo se cobre em chamas e retorna à sua forma humanoide. A succubus solta a raposa no chão e recolhe as asas, escondendo-as por baixo de sua camisa. 

    Tudo está tranquilo. Os sons dos animais da noite ecoam enquanto uma brisa fria faz tremular as chamas das tochas.

    Byron logo se encaminha para um lado do parapeito e apoia as mãos sobre ele. “Realmente incrível”, diz ele, admirando a vista.

    Rubi se aproxima. “É de tirar o fôlego, não?”, comenta ela. 

    A raposa salta até o pequeno muro e também começa a observar atentamente o ambiente ao redor. Sua análise não é apenas com os olhos, mas com todos os seus sentidos, e um detalhe no ar lhe chama a atenção. 

    “Tem muita gente aqui e muita magia também”, ela constata, depois olha para Rubi. “Esses orcs fizeram tudo isso? Eles moram aqui?”

    “Nós moramos aqui”, pontua a succubus, com ânimo. 

    “Esse lugar, até alguns dias atrás, não passava de ruínas e vegetação solta. Era a toca do dragão”, comenta o demônio. “Acredito que a magia que você sente seja um efeito residual do dono anterior.”

    “Hum. Entendi…”, diz a raposa. 

    O olhar de Yrah se franze por um instante. Mas… essa magia… parece mais… outra coisa. Quase…, pondera ela.

    Enquanto a raposa divaga, Rubi aponta para algo no chão da cidade. “Olha ele lá”, ela comenta. 

    Yrah e Byron olham para a direção em que ela aponta e veem Brok se aproximando, andando apressado pelas ruas.

    “Ótimo. Vamos ver como ficou lá embaixo”, diz o diabo. 

    Os demônios vão até o acesso quadrado no chão e descem por uma escadaria. Os degraus se projetam da parede circular, contornando o interior da torre em espiral e seguindo até o próximo nível.

    A sala abaixo é ampla e alta, mas completamente vazia. Não há móveis ou decorações, apenas duas janelas, posicionadas em lados opostos.

    O som de cada passo ecoa pelo interior vazio da torre enquanto Byron, Rubi e Yrah descem sem nenhuma pausa, admirando a edificação.

    Quando Rubi está prestes a mudar de sala, ela hesita, percebendo algo diferente nos degraus à frente.

    Espera. O próximo cômodo é o térreo. A escada lá não estava assim antes, ela constata. 

    Rubi acelera o passo e arregala os olhos ao ver o hall.

    A enorme sala está limpa, sem os ossos e os restos das refeições do dragão. A escada agora chega até o chão, completa. 

    O profundo fosso no centro está tampando com pedras novas, perfeitamente nivelado com o piso do andar, que agora está completamente uniforme. 

    A parede derrubada, que antes servia de entrada, está de pé novamente e agora, com uma porta simples de madeira, dá acesso ao lugar. 

    A pequena árvore torta, próxima à entrada, ainda está no mesmo lugar, com suas raízes atravessando a rocha sólida. Mas não há mais vinhas saindo dela, dando o aspecto de uma árvore comum.

    Rubi sai da escada e caminha pelo chão sólido, testando-o. “Eles reconstruíram tudo!”, ela afirma, maravilhada. 

    Byron anda pela sala com a mão no queixo, avaliando o lugar. “Fascinante. Parece um lugar bem mais funcional agora”, pontua ele. “Espero que não tenham tampado completamente o acesso ao calabouço.”

    “Aquilo não era um calabouço, era só um buraco”, Rubi corrige. 

    “Ainda assim, gostaria que tivéssemos acesso a ele.”

    A raposa desce por último, andando devagar, sem nem saber para onde olhar. Até que a pequena árvore chega aos seus olhos e se torna seu foco. “Uma raiz de serpente!”, anuncia ela e já corre para vê-la mais de perto. 

    Diante da árvore, Yrah balança a cauda e começa a admirá-la de perto, conferindo as folhas e o tronco. 

    Rubi nota essa movimentação e se aproxima. “Conhece essa planta?”, ela pergunta, surpresa.

    “Sim!”, responde a raposa. “É uma planta que cresce em domínios de criaturas com muita magia. As raízes e os ramos dela batem com muita força.”

    “É… isso eu vi…”, diz Rubi, com um ar de resignação. 

    Me incomoda só de lembrar daquelas coisas me atacando, ela pensa. 

    Momentos depois, a porta começa a ranger e se abrir. Quem a empurra é Brok, que entra na torre, trazendo consigo uma tocha, fechando a entrada logo em sequência. 

    “Devo parabenizá-lo, campeão”, diz Byron. “Seu trabalho aqui foi muito além do esperado.”

    O orc acena. “Obrigado. Logo que terminamos o muro, pedi para… consertar esse lugar”, diz ele. “Tínhamos muitos materiais aqui… não foi tão difícil.”

    “Ficou muito bom”, diz Rubi. 

    “E o fosso? Bloquearam ele por completo?”, indaga Byron. 

    Antes de responder, o orc caminha pelo salão e para próximo ao centro. Ele bate o pé com força no chão, produzindo um som oco, grave e reverberante, que ecoa pela sala.

    “Uma entrada…”, Byron comenta. 

    “Esse pedaço… é solto. Se tirar as pedras pequenas nas bordas, dá para levantar essa rocha em que estou em cima e acessar o buraco”, explica o orc. 

    “Engenhoso”, diz Rubi. 

    “Eu nunca teria encontrado”, pontua Yrah.

    “Lá embaixo, está… o tesouro e o que sobrou do corpo do dragão, junto a outros objetos diferentes que achamos… pela clareira”, continua o orc. “E… durante a construção, pela cidade, encontramos alguns fossos tampados que dão acesso a um veio de água limpa. E tem um deles aqui. Fica… lá embaixo. Estava bloqueado com pedras.”

    “Excelente”, diz o demônio. 

    Isso é muito bom. Ter acesso à água sem ter que sair da cidade é muito bom. É uma das coisas que todo ambiente urbano precisa ter pra dar certo, pensa Rubi. E eu tenho que dar uma olhada nessas coisas diferenciadas que eles acharam. 

    A diaba tira a mochila e o arco das costas e se senta no chão, deixando seus objetos de lado. “É bom ver que começamos bem essa reunião”, diz ela, com ânimo.

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