Capítulo 147 - Encontro às margens da nação
A noite chega à floresta, trazendo consigo o ar frio, cobrindo as árvores com um véu de sombras e acordando as criaturas noturnas.
Rubi, Byron e Yrah se encontram parados em uma pequena clareira.
No centro do lugar está a diaba, sentada sobre uma rocha, com uma perna sobre a outra na posição de borboleta, encarando o leste.
O demônio repousa as costas no tronco de uma árvore, bem à borda da clareira. Seus braços estão cruzados, e o dedo indicador da mão esquerda bate como um metrônomo.
Entre os dois, a raposa permanece deitada no chão, enrolada na própria cauda. Seus pelos brancos emitem uma luz fraca, destacando-a em meio à penumbra.
“Quem estamos esperando mesmo?”, Yrah pergunta.
“Nosso campeão”, Byron responde. “Ele não está longe daqui.”
A cauda da criaturinha balança. “Oh!”, comenta ela, instigada. “E como ele sabe que estamos aqui?”
“Marcamos de nos encontrarmos por aqui antes de nos despedirmos”, explica o demônio. “A senhorita já deu o sinal e agora ele deve estar vindo até aqui.”
“Que sinal?”, Yrah indaga, olhando a diaba.
“Tinha um corvo seguindo ele. Eu disse que, quando ele desaparecesse, estaríamos esperando nesta região”, responde Rubi.
“Ou… estaríamos mortos”, completa Byron.
“Ah! Igual foi comigo!”, comenta a raposa.
Rubi suspira. Por que você sempre dá ênfase nessa parte?, ela se pergunta, com um calafrio só de pensar.
“Mas é sim, igual foi com você”, confirma a diaba, continuando. “Há alguns minutos eu desativei a sentinela que estava seguindo nosso campeão. E, algum tempo atrás, ele passou por um dos outros corvos que deixei aqui nos arredores. Ele estava correndo. Não deve demorar muito para ele chegar aqui.”
Byron solta uma risada curta e seca. “Bem astuto”, diz ele. “Ele não quer nos fazer esperar mais do que o necessário.”
Rubi balança a cabeça, em desaprovação. É culpa sua. Tenho certeza de que ele ficou com medo de termos morrido, pensa ela. Antes de perceber que tinha uma sentinela seguindo ele, o coitado parecia bem preocupado.
Logo, o som das folhas se mexendo em algum ponto distante chega aos ouvidos de Rubi. O barulho vem do leste e mistura um leve tilintar metálico ao farfalhar da mata.
“É ele”, afirma a diaba, sem nem precisar fechar os olhos para confirmar.
Conforme se aproxima, o ruído aumenta ao ponto de ficar audível para Yrah e depois para Byron. E, como uma previsão certeira, Brok surge, entrando correndo na clareira. O grande guerreiro verde traz consigo o machado e ainda usa sua pesada armadura metálica.
Assim que vê Byron e Rubi, o orc para de correr, arregala os olhos e sorri. Ele solta seu machado no chão e coloca as mãos nos joelhos, enquanto recupera o fôlego.
“Por Gru’Uork…”, ele comenta, ofegante, mas alegre.
Os demônios também se alegram ao vê-lo.
Yrah, por outro lado, ao avistar Brok, eriça cada pelo de seu corpo e se levanta na mesma hora.
“Um orc!”, ela exclama.
Rubi olha para trás e vê garras longas e brilhantes crescendo nas patas dianteiras da raposa.
A diaba pisca, sem entender. Oi? Desde quando ela faz isso?, ela se pergunta.
Após o grito, Brok também percebe a pequena criatura esbranquiçada que está entre Rubi e Byron.
A pelagem luminosa faz seu sorriso desaparecer. “Um… espírito?”, ele pergunta.
Yrah começa a avançar correndo e o guerreiro já agarra sua arma que está jogada no chão.
Byron observa tudo sem mover um único músculo. Oh. Isso pode ser interessante, ele pensa, com um sorriso afiado no canto da boca.
Mas, antes de qualquer embate se desenrolar, Rubi salta da pedra, pega a raposa pela metade do corpo e a suspende no ar.
“Calma lá!”, ela diz, irritada. “O que vocês estão fazendo?”
“É um destruidor de florestas!”, exclama Yrah, balançando suas garras na direção de Brok. “Ele não devia estar aqui! Eu cuido dele.”
O guerreiro rosna. “Lorde… de onde veio esse espírito?”, ele pergunta. “É melhor… se livrar dele logo. Eles são perigosos.”
“Parem! “Ninguém aqui vai se livrar de ninguém!”, ordena Rubi.
A voz de Byron, suspirando decepcionado, ecoa no fundo.
A diaba vira a raposa contra si. “Ele é o nosso campeão. É ele que estávamos esperando”, explica ela.
Yrah abre os olhos e relaxa a postura. “Ah!”, diz ela. “Mas um orc? Eles fazem algo além de brigar e cortar árvores?”
Brok solta uma bufada pesada, visivelmente incomodado. “Por que… tem um espírito com vocês?”
Rubi se volta para ele. “O nome dela é Yrah. Encontramos ela na terra das garras-brancas. Ela nos ajudou e vai ficar com a gente por enquanto”, explica ela.
O orc acena. “Entendo. Só tenha… cuidado. Espíritos são… difíceis de lidar”, alerta ele.
“Ei!”, reclama Yrah.
Rubi suspira. Esses dois não começaram nada bem, ela pensa.
Brok muda o foco para a succubus e, um segundo depois, para Byron. “É… bom ver vocês de novo”, ele comenta.
O demônio balança a cabeça, cumprimentando-o em silêncio.
“Também é muito bom te ver”, diz a diaba. “Eu vi que você se esforçou um bocado nesse tempo.”
“Espero que… os resultados sejam do seu agrado”, diz Brok.
Byron se desencosta da árvore e vai caminhando até os outros. “Agora que superamos nosso começo abrupto, por que não damos continuidade à nossa reunião em um lugar mais tranquilo e menos selvagem?”, sugere ele.
“É uma boa ideia”, pontua Rubi.
“Pela forma como você fala, Brok, devo supor que houve algum avanço significativo na capital”, diz o diabo.
“Sim… sim. Houve.”
“Se formos voando, acha que podemos chegar até a torre sem ninguém nos ver?”, pergunta Rubi. “Eu vi como ela ficou.”
O orc acena mais uma vez. “Sim. Assim… que acabamos, não deixei mais ninguém ficar por lá”, responde ele.
“Perfeito! Pode ir na frente que vamos te alcançar”, diz Rubi.
Brok leva a mão direita na frente do peito e se curva, diligentemente. “Como… a lorde quiser”, diz ele.
Logo depois, o orc se retira para a mata, mas ele ainda olha para trás mais uma vez, encarando Yrah nas mãos de Rubi e dando uma última bufada.
A raposa balança as garras na direção dele. “Tem certeza de que ele é confiável? Ele não parece muito diferente dos orcs que eu já encontrei por aqui”, diz ela.
“Vai por mim, ele é legal”, diz Rubi.
“Vou ficar de olho nele”, avisa Yrah.
Eu não sei o que a Yrah estava pensando. Não consigo ver um mundo em que isso não terminaria com ela toda fatiada no chão. Ainda mais depois do pacto que fiz, a diaba reflete.
Enquanto Rubi divaga, suas asas tomam forma e se abrem como um leque. Byron também já se transforma e assume sua grande forma alada.
Os dois alçam voo juntos e vão na mesma direção do orc.
“Vai ser bom sair um pouco da mata”, comenta Byron, agora com sua voz sombria.
“É… vai ser”, pontua a diaba, com um sorriso sutil curvado nos lábios.
Após percorrer alguma distância, no horizonte, um brilho incomum surge no horizonte noturno. Pontos laranjas em uma clareira vasta cercada pela floresta.
“O que é aquilo?”, Byron pergunta.
“É… fogo?”, Yrah indaga.
Rubi ri, mas não responde.
Momentos depois, o demônio vê com clareza o campo iluminado e se surpreende.
O brilho se origina de inúmeras tochas esparramadas pela área, e a luz que vem delas dá a visão de várias construções de pedra, protegidas por um extenso muro feito de rochas que circula o campo e o separa da floresta, como um lugar à parte.
No interior, mais de uma dezena de estruturas estão de pé. A maioria são casas quadradas, com apenas um andar. Mais da metade ainda não está pronta e se mantém de pé com apoios de madeira e materiais empilhados ao lado.
Entre as que já estão erguidas, a torre no centro se destaca. Apesar de haver poucas tochas iluminando-a, fica claro que é a maior construção da cidade.
“Impressionante!”, diz Byron, quase pasmo.
“Nunca vi algo assim. Com certeza não estava aqui antes”, afirma a raposa, sem nem entender o que é aquilo.
Rubi se posiciona ao lado do demônio. “Eu sabia que você ia ficar surpreso. Eu mesma nem acreditei quando vi isso ficando de pé pelos olhos do corvo”, comenta ela, confiante. “É como você disse… Dê aos orcs algumas pedras, e eles fazem um muro. Dê a eles um rei… e eles fazem uma nação.”

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