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    Era noite profunda e o pátio do castelo estava vazio.

    Siegfried aguardou nas sombras em silêncio, como um salteador. Vinte minutos. Mas nem mesmo os guardas passaram por ele. A essa hora, aqueles que não estivessem dormindo em suas camas, mais provavelmente estavam dormindo em seus postos. Foi então que a viu…

    A Condessa Essel era escoltada de volta ao seu alojamento por dois soldados. Cansada e tremendo de frio por baixo do seu casaco de pele de lobo.

    Siegfried se aproximou:

    — Eu assumo daqui.

    — E quem é você? — perguntou um dos guardas.

    — Arannis Black. E você vai se referir a mim como ‘vossa graça’, a partir de agora, soldado! O Príncipe Brandon me mandou buscá-la.

    A dupla trocou um olhar. Não estavam comprando a sua desculpa e sabia disso.

    — O rei foi bem claro — disseram. — Devemos levá-la direto ao seu alojamento. Ela não tem permissão de ir a nenhum outro lugar… Vossa graça.

    — Não foi um pedido!

    — Nossas ordens permanecem!

    Lealdade. Coragem. Mas quanto?

    Siegfried puxou pela espada e descobriu. A ponta da lâmina tocou a garganta do guarda, um fio de sangue escorreu e, de repente, os dois se tornaram bem mais cooperativos.

    — Suas ordens mudaram! — disse Siegfried. — Eu vou levá-la. E se vocês têm algo a dizer sobre isso, podem ir reclamar direto com o príncipe e explicar o porquê de terem feito ele esperar. Agora, sumam!

    E sumiram.

    Siegfried observou os dois se afastarem até que desaparecessem na escuridão, então se virou para a condessa:

    — Rápido! Temos pouco tempo.

    Tirou o casaco de pele dela e o jogou em um canto escuro qualquer. Em seguida, pôs nela o seu manto negro; trouxe o maior que tinha, justamente para essa ocasião. A sua barriga de grávida estava um pouco grande demais, mas o tecido escondia o bastante.

    — Quem é você? — ela perguntou. Cansada e confusa.

    — Não tire o capuz — disse Siegfried. — E mantenha a cabeça baixa!

    Quando a condessa hesitou, o rapaz tomou a mão dela na sua e fez com que o seguisse. A essa altura, os guardas que espantou já deviam estar contando ao Rei Donoghan tudo o que aconteceu. Por isso, acelerou o passo.

    Pegou o Sábio nos estábulos (já pronto para partir), ajudou a Condessa Essel a montar e cavalgou direto até o portão de entrada.

    — Abram os portões! — ordenou.

    Três guardas jogavam cartas em uma mesa ao lado do portão. Sonolentos e irritados. O mais velho deles deu uma rápida olhada em Siegfried e soltou uma praga:

    — O acampamento, de novo?

    — Poisé.

    — Cê devia morar lá… Com todo o respeito, senhor.

    — E nunca mais ver essa tua cara de fuinha, Roger? Impossível.

    O soldado concedeu um sorriso forçado e foi abrir o portão. Ninguém mais deu atenção ao rapaz, tampouco a figura encapuzada que montava junto dele. Como responsável por administrar o acampamento dos soldados, era normal que Siegfried deixasse o castelo em horários incomuns — um hábito que nutriu desde o começo com o único intuito de acostumar os guardas e não levantar muitas suspeitas quando aquele dia finalmente chegasse… E não levantou.

    Se os guardas parassem para pensar só por um momento, teriam percebido que aquela era a primeira vez que o rapaz trazia alguém com ele. Mas estavam cansados demais para se importar.

    “O rei vai executar todos eles por isso”, sabia. Mas os portões abriram e isso era tudo o que importava.

    Siegfried cavalgou cidade abaixo, tomando o cuidado de acelerar gradativamente. Embora tivesse de se apressar, não queria chamar a atenção dos guardas com uma corrida; para não mencionar que seria humilhante ter feito tudo aquilo apenas para morrer com um pescoço quebrado porque o cavalo tropeçou em algo.

    Já estava bem longe do castelo quando ouviu uma corneta tocar. O Rei Donoghan havia finalmente descoberto a fuga, mas teria problemas em segui-lo…

    De repente, uma explosão destruiu algumas casas que se aglomeravam perto da entrada do castelo. Os escombros tomaram as ruas, bloqueando a passagem principal, enquanto as chamas se espalhavam pelas residências mais próximas e os plebeus corriam desesperados (fosse fugindo, fosse ajudando a apagar as chamas ou apenas para ver o que estava acontecendo).

    Pediu a Gwen que o ajudasse em sua fuga e a garota não o decepcionou. Os cavalos do rei não seriam mais capazes de segui-lo pela estrada principal — não tão cedo.

    O acampamento dos soldados já estava em polvorosa quando o rapaz chegou. Podiam ver as chamas e alguns até mesmo ouviram a explosão. Sabiam que algo estava errado, mas não o que deviam fazer.

    — Atenção! — rugiu Siegfried. — A cidade está sob ataque! Rebeldes estão tentando invadir o castelo! Todos de pé! Agora!

    Alguns líderes de esquadrão e capitães logo o reconheceram e começaram a repassar as suas ordens. Soldados corriam de um lado para o outro, pegando as suas armas e se preparando para a batalha. Ninguém parou para pensar ou questionar, apenas obedeceram — como bons soldados.

    — O que devemos fazer? — era a pergunta mais comum; feita tanto pelos homens com suas armas em punho, como pelos capitães que já haviam organizado suas tropas.

    — Vão para a cidade! — dizia Siegfried. — Mandem os plebeus de volta para as suas casas e matem todos os rebeldes que encontrarem!

    E então eles se punham a correr.

    Não havia rebeldes na cidade, então o mais provável era que os soldados tirassem a vida de alguns plebeus inocentes. Quem sabe até mesmo de propósito?! Há sempre quem use o caos como uma desculpa para violar, pilhar e matar. Se os deuses fossem bons, podiam até mesmo atacar os homens do rei que estivessem vindo atrás de Siegfried.

    De uma coisa tinha certeza: quando o tumulto acabasse, a população culparia os soldados e (com sorte) se voltariam contra o Rei Donoghan.

    As suas ordens já haviam se espalhado por todo o acampamento, quando Siegfried chegou até o final dele e encontrou Esmond Kroft o esperando com todos os dezenove soldados Blackfield e mais 23 cavalos; um para cada soldado, outro para a Condessa Essel e mais dois que mandou trazer para Gwen e Sam.

    “Falando nisso, cadê eles?”

    Já havia sido arriscado resgatar a condessa; não podia trazer também o Sam com eles — os soldados podem ter ignorado uma única figura misteriosa, mas duas?

    Por isso, pediu a ajuda de Gwen. Como ela já sabia como entrar e sair do castelo, mostrou a Sam o caminho e deu-lhe a sua palavra de que o protegeria. Mas não estavam lá. Onde haviam se metido?

    — O que estamos esperando? — perguntou a Condessa Essel.

    — Temos que ir! — disse Esmond. — Se não nos apressarmos, vamos perder a nossa vantagem.

    Siegfried não tinha escolha.

    Deu a ordem e então cavalgaram em direção ao sul. Em direção ao Castelo Silvergraft.

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