Capítulo 149 - Fome
O grupo já estava de pé antes mesmo do sol alcançar seu ponto mais alto no horizonte. A reunião da noite anterior ainda reverberava em suas mentes, mas todos sabiam que aquele assunto teria que esperar. Primeiro, precisavam se concentrar na missão imediata: eliminar o troll que havia sido avistado nas proximidades. Resolver aquilo era prioridade — depois, poderiam discutir os próximos passos com mais clareza e segurança.
Junto das informações que Saito havia conseguido, o grupo se dirigia agora à floresta perto do vilarejo. Era um lugar pouco conhecido, uma mancha verde sem nome no mapa, rara de ser visitada por aventureiros, e quase completamente inexplorada.
Sira os acompanhava de perto, mas sua presença tornava o ambiente mais tenso do que o habitual. Havia uma tensão sutil no ar, quase imperceptível, mas presente em cada passo silencioso do grupo.
Little Girl ainda desconfiava dela — não de forma aberta ou hostil, mas com um olhar que raramente saía da nuca da mulher. Já Leiana se manteve mais reservada do que o normal. As palavras ditas por Sira na noite anterior haviam lhe causado incômodo, e, embora não tivesse manifestado isso com clareza, o desconforto era perceptível em seu semblante. Nenhuma das duas odiava Sira, mas a confiança… ainda estava longe de ser conquistada.
Em contrapartida, Saito parecia mais receptivo. A história que ouvira de Sira havia o tocado de alguma forma. Kevin, por sua vez, queria acreditar que ela poderia ser uma aliada valiosa — e se havia algo em que ele era bom, era em enxergar potencial nas pessoas. E Tuare, sempre leal ao seu líder, seguia sem questionamentos, apenas observando em silêncio.
Ao chegar à beirada da floresta, Kevin parou por um instante e se virou para o grupo.
— Essa floresta não é tão grande quanto a que existe perto do reino, mas não podemos subestimá-la — disse, o olhar sério. — Ninguém sabe ao certo o que pode se esconder aqui. Todo cuidado é pouco.
Os outros assentiram em silêncio. Então, juntos, adentraram entre as árvores.
Assim que cruzaram os primeiros metros, o ar mudou. A fragrância de folhas secas e o frescor da vegetação intocada preencheram os pulmões do grupo. O chão macio abafava os passos, e o som de pássaros distantes ecoava suavemente. Era um ambiente sereno, quase sagrado — imaculado, como se os pés humanos nunca tivessem ousado pisar ali com frequência.
A floresta não possuía nome. Talvez por estar afastada demais das rotas comerciais e das grandes cidades, talvez por nunca ter sido completamente explorada. Ela simplesmente existia — um pedaço de mundo esquecido, onde o desconhecido ainda reinava soberano.
— A floresta até parece pequena no mapa… mas aqui dentro, já não parece mais tanto assim — comentou Saito, tentando manter o ritmo apesar das raízes grossas que tornavam cada passo mais difícil.
— Claro que parece grande pra gente — retrucou Little Girl, olhando firme para a frente. — Se fosse chutar, eu diria que ela tem o tamanho de umas sete vilas como aquela que deixamos pra trás.
— Isso é enorme! — exclamou Saito, surpreso.
— Nem tanto — disse Kevin, sorrindo de leve. — Se comparar com outras florestas do continente, essa é bem modesta. O território do Reino Élfico, por exemplo, é praticamente todo floresta. A maior do continente.
Enquanto conversavam, a vegetação se adensava. Os troncos das árvores se tornavam mais largos e antigos, e a luz do sol mal conseguia passar entre os galhos entrelaçados.
— Vocês não acham que estão… tranquilos demais, considerando que estamos caçando um troll? — comentou Sira, arqueando uma sobrancelha enquanto observava os arredores.
— E ficar nervoso ajudaria em alguma coisa? — respondeu Kevin com leveza.
— Não necessariamente. Mas… vocês não parecem exatamente atentos.
Kevin parou por um momento, olhou ao redor, depois para o grupo.
— Eu estou atento o suficiente para notar se algo der errado — disse, e então sua expressão ficou mais séria. — Mas você tem razão, Sira. A partir daqui, atenção redobrada.
Ele se virou para os demais e falou com firmeza:
— Vamos tomar mais cuidado. Essa floresta pode ser traiçoeira. Fiquem alertas, olhos e ouvidos atentos a qualquer sinal.
— Certo! — responderam todos em uníssono, seus corpos se enrijecendo, preparados para o que viria adiante.
⧫⧫⧫
Uma criatura gigantesca, de pele esverdeada e áspera como musgo enrijecido pelo tempo, estava deitada entre rochas lisas e frias, tentando mais uma vez cair no sono. O local onde se encontrava — uma clareira quase completamente cercada por paredões rochosos, como a entrada de uma caverna — era, de longe, seu lugar favorito para descansar. Diferente dos outros cantos da floresta, aqui o calor do dia era amenizado pelas pedras geladas, e a quietude envolvente criava um ambiente perfeito para cochilar.
Ela havia se deitado em muitos lugares antes, mas sempre se incomodava com o chão coberto de folhas e galhos, com insetos rastejando ou raízes apertando suas costas largas. Aqui, não. Aqui, era diferente. A rocha sólida e fria acalmava sua pele, e o silêncio — geralmente interrompido apenas pelo canto suave das pequenas criaturas aladas que escapavam rápido demais para serem comidas — era um bálsamo.
Mas naquela manhã, algo começou a estragar tudo.
Um som irritante que vinha de longe. Passos. Muitos passos. E vozes. Vozes humanas. A criatura franziu o semblante e suas narinas dilataram-se, farejando o ar com instinto animalesco. Seu sono leve foi despedaçado pelo ruído crescente que se aproximava.
Resmungou num idioma gutural e incompreensível até mesmo para si, e se levantou devagar, os músculos massivos deslizando por debaixo da pele como cordas tensas. O troll — pois era isso que era — odiava ser incomodado. Principalmente quando tentava descansar.
Lembrou-se da última vez que tivera de sair de seu refúgio. Uma criatura grande — talvez um alce? — atravessara os limites do silêncio. Ele não sabia ao certo o que era, para ele, tudo era comida. Grandes, pequenos, com pelos ou penas… tudo tinha gosto, tudo era alimento. O tal alce não resistiu por muito tempo, e seu corpo foi rasgado e devorado ali mesmo, em meio aos ossos de outros que vieram antes.
Agora, novamente, havia intrusos. Mais de um. Talvez uma matilha de criaturas? Humanos? O som era ritmado, com o tilintar metálico de armas ou armaduras. O troll não tinha nomes para essas coisas, mas reconhecia seus sons. Cheiro de suor, metal, couro. Presas que vêm andando até ele.
De seu canto escuro, ele lambeu os beiços grossos. A baba quente escorreu de sua mandíbula como um rio viscoso, pingando nas pedras e evaporando lentamente.
Ele achava que já estava saciado. Mas só de ouvir aqueles passos, de imaginar novamente o sabor da carne fresca sendo rasgada entre os dentes, algo despertou dentro dele. Um desejo primitivo, faminto, quase eufórico.
Se era para ser perturbado, ao menos poderia se dar um banquete.
E desta vez, talvez devorasse tudo. Não deixaria nada para trás.

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