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    Um cheiro insuportável começou a se espalhar pelo ar, pesado e sufocante. Era o tipo de fedor que fazia o estômago revirar: uma mistura de carne podre deixada ao sol por dias, umidade de caverna e sangue coagulado. A floresta parecia saturada com aquele odor, como se estivesse sendo lentamente engolida por ele.

    As narinas do grupo tentavam, em vão, rejeitar aquele miasma pútrido. Mas prender a respiração por muito tempo era impossível. O instinto de sobrevivência exigia oxigênio — e junto com ele vinha aquele cheiro que parecia quase sólido.

    — Que porra de cheiro é esse…?! — exclamou Leiana, pressionando o nariz com força, como se isso pudesse barrar o odor.

    Little Girl e Tuare mal conseguiam manter os olhos abertos. Eles lacrimejavam, não por emoção, mas por puro reflexo do corpo tentando expulsar o veneno invisível que invadia pelas vias respiratórias.

    Sira e Kevin, mesmo incomodados, foram os únicos que notaram. Passos. Pesados. Lentamente se aproximando. Cada passada reverberava pelo solo, um som abafado, quase preguiçoso… mas com um ritmo que soava estranhamente animado.

    — Tem algo vindo… — murmurou Sira, a voz abafada pela mão que ainda segurava contra o rosto.

    — Será que é ele…? — perguntou Tuare, respirando pela boca e tentando conter o enjoo.

    Saito ficou paralisado por um segundo. O cheiro, os passos… tudo fazia sentido. Uma hipótese aterrorizante se formava em sua mente. Ele engoliu em seco.

    — Esse cheiro… o troll está… evoluindo…? — murmurou, como se falasse consigo mesmo.

    Todos do grupo pararam, encarando-o. O silêncio súbito, quebrado apenas pelo som cada vez mais próximo dos passos pesados, exigia uma resposta. Percebendo os olhares, Saito respirou fundo, mesmo contra o fedor, e começou a explicar:

    — Eles evoluem com o tempo. A coloração da pele é um sinal da idade e da força deles. Mas quando estão prestes a trocar de pele, é diferente. O corpo inteiro começa a exalar esse cheiro pútrido. A pele e até partes da carne… apodrecem por fora, como se o velho corpo estivesse sendo expelido. É um processo parecido com a muda de uma cobra, mas… muito mais nojento.

    — Então ele está ficando mais forte? — perguntou Kevin, a voz tensa.

    Saito assentiu com um leve tremor.

    — S-sim… Mas o processo ainda não terminou. Se o cheiro está assim tão forte, é porque ele está perto. Muito perto. E se ele amadurecer por completo…

    Saito engoliu em seco, os olhos arregalados.

    — …e se ele virar um troll vermelho…

    Um silêncio pesado tomou conta do grupo.

    — Aí estaríamos fudidos. — disse Little Girl, sem rodeios. — Trolls vermelhos não são apenas fortes. A gente não tem chance se ele amadurecer.

    Kevin cerrou os dentes. Sacou a espada devagar, o som metálico do aço ecoando levemente. Seus olhos percorreram o grupo, parando em cada um deles por um breve instante.

    — Então não podemos esperar. Vamos acabar com ele agora. — disse, com firmeza. — Preparem uma emboscada aqui. Eu vou atraí-lo até vocês.

    — Tá maluco?! — explodiu Saito, pálido. — Isso é suicídio! Se ele te alcançar antes de você chegar aqui, vai te despedaçar! Vai te rasgar como se fosse feito de papel! Ele vai brincar com seu corpo como uma criança quebra um brinquedo!

    Kevin deu um sorriso nervoso, com uma centelha determinada nos olhos. Era medo. Mas também era coragem.

    — Então é só eu não ser pego.

    — Que porra, Kevin… — murmurou Saito, entre o desespero e a incredulidade.

    O cheiro tornou-se quase insuportável. Denso, enjoativo, como uma névoa tóxica que parecia se infiltrar até nos ossos. A floresta emudeceu, como se a própria natureza prendesse o fôlego diante do que estava por vir.

    E então… ele surgiu.

    Duas árvores grossas, enraizadas lado a lado, estremeceram. Com um estalo abafado e profundo, os troncos se curvaram violentamente para lados opostos, como se fossem apenas brinquedos sendo afastados por mãos impacientes. A criatura as havia empurrado — uma em cada mão — com uma facilidade que beirava o absurdo.

    As raízes, antes firmemente agarradas à terra, foram arrancadas como se fossem palha. O som do rompimento foi alto, grotesco, seguido pelo estrondo seco das árvores despencando no chão. A pancada ressoou por todo o campo, levantando poeira, folhas e um coro desesperado de aves que bateram asas em fuga, assustadas pelo impacto.

    E lá estava ele. Enorme. De pele verde-acinzentada, coberta por placas irregulares e pedaços enegrecidos que pareciam estar se desprendendo do corpo — como carne apodrecida prestes a se desfazer. A baba quente escorria de seus lábios entreabertos, gotejando no chão com pequenos estalos. Seus olhos, fundos e sem brilho, varriam a área em busca de algo para rasgar, mastigar… devorar.

    O grupo congelou por um instante. O pavor é um ladrão cruel — rouba segundos preciosos.

    Mas três deles reagiram no mesmo momento em que a criatura deu seu primeiro passo na clareira.

    Kevin, Sira e Little Girl.

    Kevin avançou com a espada em mãos, sem hesitar. Seus olhos estavam fixos no troll, e sua postura deixava claro que ele sabia exatamente o que precisava fazer. Ao seu lado, Sira correu também, impulsionada pelo mesmo instinto de proteção — ou talvez desespero — tentando criar tempo, mesmo que fosse apenas segundos, para que os mais lentos pudessem reagir.

    Little Girl ficou para trás, mas por escolha. Ela já havia levantado seu cajado, com os olhos estreitos mirando cada movimento da criatura. Seus dedos já brilhavam com uma energia sutil. Ela esperava, paciente, pela abertura certa. Ela não atacaria por impulso, sabia que o primeiro golpe precisaria contar.

    — Preparem-se! Vou ganhar tempo pra vocês entrarem em formação! — gritou Kevin sem virar o rosto, a voz firme mesmo em meio à corrida.

    Sira lançou um breve olhar de lado. Havia se adiantado achando que os outros demorariam, mas ver Kevin e Little Girl já posicionados com precisão a surpreendeu. Aquilo não era reação de amadores. Aquilo era instinto de veteranos. Aquilo era treino… e sangue frio.

    Eles eram bons.

    O mesmo, no entanto, não podia ser dito de Saito, Tuare e Leiana.

    Os três demoraram segundos a mais para processar o que viam. Os olhos arregalados, o corpo hesitante, os músculos travados. Leiana deu um passo involuntário para trás, enquanto Tuare piscava rapidamente tentando enxergar melhor por entre as lágrimas causadas pelo cheiro sufocante. Saito, por sua vez, apenas ofegava, tentando desesperadamente assimilar o que tinha à frente.

    Segundos que poderiam ser fatais.

    O troll soltou um ronco baixo, gutural, quase curioso.

    Kevin foi o primeiro a alcançar a distância de ataque, espada em punho, pronto para cravar a lâmina no flanco da criatura. Mas o troll, num reflexo bruto, ergueu a mão enorme como um martelo de carne e ossos, e a despencou com fúria contra o solo.

    O impacto foi devastador.

    O chão tremeu como se tivesse sido atingido por um trovão. A terra rachou, as pedras saltaram do solo, e uma onda de vento violenta — como o sopro de um furacão — se espalhou em todas as direções. Kevin e Sira, pegos no centro da tempestade, foram obrigados a parar, os corpos inclinados contra o vendaval, forçados a recuar dois passos sem querer.

    Era como correr contra uma parede invisível.

    Quando a força da corrente de ar enfim se dissipou, o troll já estava se lançando para frente, investindo contra eles com surpreendente velocidade. Seu corpo gigantesco parecia deslocar a própria gravidade ao correr, os pés esmagando a vegetação com cada passada.

    — Pulem para o lado! — gritou Saito, a voz clara e urgente cortando o caos.

    Kevin e Sira não hesitaram. Sem saber o motivo, confiaram no instinto — ou talvez na firmeza do tom — e saltaram para direções opostas.

    No exato segundo em que saíram da linha de colisão, Saito se ajoelhou e pressionou a mão contra o chão coberto de grama, cerrando os olhos com força.

    — Espinhos de terra! — bradou.

    O solo respondeu.

    Com um som seco e ameaçador, uma fileira de espinhos terrosos emergiu da terra como presas famintas. Cresceram em sequência, um após o outro, com pontas afiadas e brilho de minerais brutos, avançando numa linha reta rumo à criatura.

    O troll, focado demais em esmagar Sira ou Kevin, não percebeu a armadilha que se formava sob seus pés. Ele pisou com todo o peso em cima dos espinhos que surgiam — e foi então que o grito veio.

    Um urro monstruoso rasgou a floresta.

    Os espinhos atravessaram seus pés com brutalidade, da sola até o dorso, deixando feridas grotescas e abertas. O sangue espesso e escuro jorrou das perfurações, e a dor foi tão vívida, tão cortante, que até mesmo os que assistiam sentiram um arrepio involuntário, como se pudessem partilhar do sofrimento através do som.

    — Manipulação de terra…? — murmurou Little Girl, surpresa, os olhos ainda fixos na cena.

    — Não é só você que sabe alguns truques… — respondeu Saito, ofegante, caindo sobre um dos joelhos, o rosto coberto de suor. Seu peito subia e descia rapidamente, o cansaço pesando em cada músculo.

    Era o preço da habilidade.

    Saito não possuía um leque vasto de feitiços, mas havia refinado aquela magia ao ponto de transformá-la em armadilha mortal. Contudo, não era algo que pudesse ser usado em sequência — não sem consequências. O esforço já cobrava seu preço: sua respiração estava descompassada, e as mãos tremiam levemente. Mas ainda assim… valera a pena. O troll estava ferido. E agora, mais lento.

    — Boa, Saito! — exclamou Kevin com um sorriso tenso.

    — Agora ele está vulnerável! Vamos! — gritou Sira, os olhos brilhando com determinação.

    Ambos avançaram, um vindo da esquerda, outro da direita, formando um cerco instintivo. A criatura, desequilibrada e mancando, não conseguia decidir qual dos dois atacar.

    Mas antes mesmo de chegarem até ela, outra presença se fez notar.

    Do outro lado da clareira, Little Girl sorriu. Seus olhos cintilavam como os de uma criança prestes a abrir um presente. O cajado tremia levemente em suas mãos, canalizando energia. Finalmente, poderia extravasar o estresse acumulado em algo… algo que se movia e que podia ser destruído.

    Ela ergueu o cajado, apontando direto para o joelho machucado do troll.

    — Sinta o raio. — sussurrou, com uma voz baixa e sinistra.

    Um raio de eletricidade pura foi disparado, crepitando pelo ar com um som estridente. O relâmpago atingiu a perna da criatura com precisão, eletrificando as feridas abertas e queimando a carne já perfurada.

    O troll soltou outro berro lancinante, mas não teve tempo de reagir.

    No mesmo instante, Kevin cravou sua lâmina no tendão esquerdo do joelho da criatura, enquanto Sira desferiu um golpe lateral no tendão direito. O corte duplo foi limpo, cruel, preciso.

    A criatura desabou de joelhos.

    O impacto de seu corpo com o solo gerou outro tremor. O troll agora estava vulnerável, com as pernas mutiladas, os músculos enrijecidos pela dor elétrica, e os olhos cheios de fúria e agonia.

    Ele urrava — não só pela dor, mas pela promessa silenciosa de que iria revidar com tudo que tinha.

    A criatura lutava para se erguer, mesmo com as pernas dilaceradas e a dor queimando cada centímetro de sua carne. Seus joelhos tremiam, mas ainda havia fúria em seus olhos, como se o ódio fosse combustível suficiente para ignorar os ferimentos. A cada tentativa de levantar, seus músculos protestavam com espasmos visíveis, denunciando o esforço colossal que fazia para continuar lutando.

    Do outro lado, Kevin e Sira já avançavam novamente, determinados a não permitir que o troll tivesse sequer um segundo de alívio. Suas espadas estavam manchadas com o sangue escuro da criatura, e os dois trocavam olhares breves, sincronizando o próximo ataque sem precisar de palavras.

    Foi nesse momento que Tuare e Leiana finalmente se juntaram à batalha. A hesitação que as paralisara no início agora havia desaparecido. Enfrentar algo tão monstruoso as havia aterrorizado, sim, mas ver os companheiros lutando com coragem as despertou da letargia. Elas superaram o medo e, com gritos determinados, investiram contra o troll ao lado de Kevin e Sira, formando um quarteto de lâminas em fúria.

    Saito observava tudo de longe, ajoelhado na grama, tentando recuperar o fôlego. O suor escorria por seu rosto, e sua respiração ainda era irregular. Sabia que não conseguiria se mover rápido o suficiente para ajudar naquele momento, e qualquer aproximação seria um risco absurdo — não para o troll, mas para ele mesmo. Ainda assim, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Seu plano havia funcionado. Ele havia sido o primeiro a perceber que, apesar do tamanho intimidador e da força bruta, aquele ainda era um troll jovem, um ser em processo de amadurecimento. Não era invencível. Sua inteligência limitada o tornava vulnerável a armadilhas e estratégias simples.

    Ao seu lado, Little Girl cerrava os punhos em frustração, apertando seu cajado com força. Seus olhos fixos no monstro, ansiosos para descarregar mais uma onda de magia. Mas sabia que não podia. Sira, Kevin, Tuare e Leiana estavam em combate corpo a corpo, e qualquer feitiço naquele momento poderia feri-los gravemente. Então ela se conteve — a contragosto — e apenas assistiu.

    O troll rugia de dor e ódio, tentando acertar os quatro com socos pesados, mas cada tentativa era frustrada por cortes rápidos que atingiam seus braços, ombros e peito. Ele estava encurralado. Os golpes vinham de todos os lados, cada movimento punido com aço afiado. A criatura não conseguia se levantar por completo; sua força, antes temida, agora parecia inútil diante da coordenação e fúria dos atacantes.

    E então, com um último urro abafado, o troll desabou. Seu corpo gigantesco caiu de lado com um baque ensurdecedor, sacudindo o chão ao redor. O sangue escorria livremente dos inúmeros ferimentos — cortes profundos, queimaduras elétricas e perfurações brutais cobriam toda a parte inferior de seu corpo. Seus olhos, que antes brilhavam com selvageria, agora estavam opacos. A ameaça havia sido neutralizada.

    Sira, Kevin, Tuare e Leiana se afastaram aos poucos, com as armas ainda em mãos, ofegantes. Seus peitos subiam e desciam com força. O fluxo usado para potencializar seus corpos durante o combate agora cobrava o preço. O cansaço os dominava, e mesmo os mais resistentes entre eles sentiam os músculos queimarem e o corpo estremecer com o esforço.

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