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    O corpo da criatura havia tombado. A batalha, ao que tudo indicava, estava terminada. Os quatro combatentes corpo a corpo — Sira, Kevin, Tuare e Leiana — estavam ofegantes, os joelhos trêmulos, as armas quase escapando das mãos cansadas. As respirações pesadas e o gosto metálico na boca eram tudo o que conseguiam perceber naquele momento de aparente vitória.

    Foi então que Saito arregalou os olhos.

    Um calafrio percorreu sua espinha, e sua respiração, antes controlada, desandou em arfadas desesperadas. Um medo primal, absoluto, se apossou dele — algo que nunca havia sentido antes. Suas pernas falharam. O corpo, já exausto pelo uso intenso da manipulação de terra, não aguentou o impacto do pânico repentino. Ele caiu para trás, sentando-se pesadamente no chão, com os olhos fixos e trêmulos no corpo do troll.

    Little Girl, ainda de pé ao seu lado, virou-se para ele, confusa. Não compreendia aquela reação. Saito tremia como uma criança diante de um pesadelo, e ela, sem entender, seguiu o olhar dele até o cadáver da criatura.

    Foi quando viu.

    Algo estranho… escuro… como fumaça, se erguia em espirais tênues das feridas abertas do troll. Não era fácil de notar antes — era sutil, como névoa densa se formando aos poucos — mas agora, cada segundo que passava tornava aquela fumaça mais visível, mais sinistra. Ela parecia pulsar, como se tivesse vida própria.

    — O que é isso…? — murmurou Little Girl, mais para si do que para qualquer um.

    — PESSOAL! Temos que sair daqui AGORA! — gritou Saito do chão, tentando se erguer às pressas, o terror escancarado na voz.

    Os outros se viraram para ele, confusos. Sira e Kevin olharam ao redor com os sentidos aguçados, mas não detectaram qualquer nova ameaça. A área parecia segura. O inimigo estava derrotado. Eles abaixaram a guarda.

    Foi um erro.

    Sem aviso, o cadáver do troll se ergueu.

    Mas não de forma natural. Não era um levantar de alguém que recuperava forças, e sim como se algo invisível o puxasse para cima por fios invisíveis. Seus movimentos eram duros, robóticos… antinaturais. Ele ficou completamente ereto, os olhos vazios fixos em Kevin, sem expressão alguma no rosto. Um semblante neutro, vazio… e mortal.

    Kevin não teve tempo de reagir.

    Assim que seu corpo instintivamente deu o primeiro passo para trás, um som surdo cortou o ar. Um golpe veloz e preciso o acertou no tórax, com força brutal. Um estalo seco ecoou — ossos se partindo. O guerreiro foi lançado pelos ares como um boneco de trapo, girando de forma descontrolada até colidir violentamente contra uma árvore grossa que se despedaçou sob o impacto.

    — KEVIN! — gritou Tuare, horrorizada, a voz embargada pela súbita onda de pânico.

    Seus olhos encontraram o corpo de Kevin jogado no chão, inerte, com o sangue manchando o solo. Ao lado dele, a alguns metros, estava seu braço — ainda segurando a espada. Um único golpe havia arrancado seu membro com facilidade monstruosa. Um golpe só.

    Leiana recuou um passo, sem acreditar no que via.

    — Como…? Ele estava morto! — exclamou, puxando suas adagas e assumindo uma postura de combate. Mas seu corpo hesitou. Quando seus olhos encontraram os da criatura, agora de um amarelo brilhante e penetrante, ela congelou. Aquilo não era mais o mesmo troll.

    — Ele… ele completou o processo de amadurecimento! Precisamos FUGIR! — gritou Saito, agora de pé, os olhos arregalados como se encarasse a própria morte.

    O grito pareceu chamar a atenção da criatura.

    O troll — ou o que quer que tivesse se tornado — virou-se com tudo na direção de Saito. Seu corpo, antes pesado e lento, agora se movia com uma agilidade brutal. Ele avançou correndo, os passos sacudindo o chão como marteladas dos céus, como se estivesse desgovernado, movido apenas por instinto.

    Mas aquilo não era um simples amadurecimento. Não era um troll vermelho, nem uma mutação comum. Era algo muito pior.

    Era um Troll Negro.

    A forma mais rara e perigosa já catalogada. Uma aberração entre aberrações. Um ser de pura selvageria, força descomunal e inteligência deformada, guiada apenas por destruição. Um troll desse nível rivalizava com o poder de um paladino completo. Era um inimigo que sequer deveria estar naquele território. A simples presença dele ali era uma sentença de morte.

    E Saito sabia disso.

    O terror tomou conta de seu corpo, congelando-lhe os membros. O tempo pareceu desacelerar. O rugido da criatura ecoava em sua mente como um trovão distante. Ele estava prestes a morrer. Era inevitável. Sentia isso nos ossos, no sangue, no coração que batia tão forte que doía.

    Ao seu lado, Little Girl apontou o cajado tremendo na direção da criatura, tentando reunir energia, procurando uma forma de pará-lo… mas o que adiantaria?

    O inimigo diante deles havia transcendido o conceito de “derrotável”.

    E agora, um deles já estava caído.

    Quem seria o próximo?

    — Afastem-se. — disse uma voz firme, mas serena, como se não pertencesse àquele campo de morte.

    Antes que qualquer um pudesse reagir, um clarão cortou o céu, seguido por um estrondo aterrador. Algo — ou alguém — despencou do alto como um raio, cravando uma espada com brutalidade no crânio do troll. O impacto foi tão violento que o solo ao redor rachou em linhas irregulares, como se a própria terra tivesse gritado de dor, e a floresta ao redor tremeu, assustada.

    Saito congelou. Não conseguia mover um músculo. Teria morrido ali, sem sombra de dúvida, se aquela força — qualquer que fosse — não tivesse interrompido o ataque mortal do troll.

    Um silêncio pesado caiu sobre o campo.

    Todos os olhares estavam presos na figura que agora permanecia em pé sobre o cadáver do monstro. Ninguém entendia o que havia acontecido. Um salvador? Um aliado? A poeira foi se dissipando lentamente… e então, eles viram.

    Um manto roxo balançava com o vento. A figura de pé sobre o troll era um homem de idade, cabelos longos e grisalhos, selvagens como a tempestade, caindo por seus ombros. Os olhos dele não brilhavam com loucura, mas com uma calma inquietante, como se já tivesse vivido cem vidas… e matado em todas elas.

    Sira sentiu algo dentro dela despedaçar. Seu corpo inteiro tremeu — não de medo, mas de ódio. Ela cerrou os dentes, tão forte que quase quebrou, e seus dedos se fecharam com fúria sobre a empunhadura da katana.

    Toda a preocupação, o medo, a angústia… desapareceram. Só restava ódio.

    Aquela figura que surgira do céu, o homem que os salvara… era um Pecador.

    E ela jamais perdoaria isso.

    — Parece que não vai ser tão fácil quanto eu achava… — murmurou o Pecador, ainda sobre o troll que, mesmo com uma espada cravada no crânio, ainda se movia. A cena era quase surreal. O troll, antes derrotado, agora estremecia de raiva, levantando-se novamente como uma aberração invencível.

    O Pecador saltou para trás no último segundo, antes que a criatura o arremessasse com sua força bruta. Seu corpo girou no ar com precisão, e ele aterrissou suavemente, como se o chão o recebesse com reverência.

    — Um troll negro… — comentou ele, com uma sombra de surpresa na voz. — Não achei que viveria para ver um desses novamente.

    — Você! — gritou Sira, com os olhos faiscando de fúria.

    O Pecador virou o rosto na direção dela.

    — Pecador maldito, eu vou…!

    — Você sente raiva de mim. — interrompeu ele, sua voz cortando o ar como uma lâmina. Mas então desviou o olhar para o troll, que agora se erguia por completo, os olhos ardendo em amarelo, a respiração pesada como um motor prestes a explodir.

    Saito era amparado por Little Girl, recuando com dificuldade. O troll ignorava tudo ao redor, concentrado apenas no homem que ousara desafiá-lo.

    — Acho que vocês têm mais com o que se preocupar do que comigo — concluiu o Pecador, como quem dá um último aviso.

    Sira o fitou como se quisesse matá-lo ali mesmo. Mas não atacou. Talvez por orgulho, talvez por razão… ou talvez por medo do que aquele homem realmente era.

    — Vão embora daqui. — ordenou ele, com autoridade que não deixava espaço para questionamentos.

    Ninguém sabia por que um Pecador os salvara. Nem se podiam confiar. Mas todos sabiam reconhecer um poder esmagador quando viam um. Era melhor obedecer.

    Tuare correu até Kevin, o levantando com cuidado apesar do sangue e do braço perdido. Leiana a ajudou, enquanto Saito era levado por Little Girl. Nenhum deles disse uma palavra — o ar estava denso demais, cheio demais de perguntas, medo e cansaço.

    Aos poucos, o grupo se retirou, ferido e em silêncio, caminhando na direção do vilarejo distante.

    Sira, no entanto, ficou para trás por um instante.

    Seus olhos não se afastavam do Pecador que agora permanecia firme diante do troll negro.

    Dois monstros.

    Um vindo do inferno.

    Outro vindo de um passado que ela jamais esqueceria.

    Ela se virou por fim, com os punhos cerrados e o coração em chamas.

    ⧫⧫⧫

    Saíram da floresta cansados, derrotados, se sentindo mal por tudo aquilo que haviam testemunhado. No final, mesmo juntos, não foram o suficiente para lidar com a criatura — seja por medo, falta de força ou qualquer outra coisa que lhes faltava.

    O gosto em suas bocas era o puro sabor da derrota. Sentiam-se mal, abatidos e fracassados.

    Se jogaram no chão assim que chegaram às planícies calmas perto do vilarejo. Tuare já estava tratando Kevin freneticamente — ele havia perdido sua mão dominante durante o combate e agora estava desmaiado por causa da perda de sangue.

    Uma batida no chão soou e todos se viraram para ver de onde vinha o som. Era Saito, irritado e completamente enfurecido, que acabara de socar o chão com toda a força que tinha.

    — Que merda! — gritou ele.

    — Saito…? — Leina ficou surpresa ao ver aquela expressão em seu rosto.

    — Não consegui fazer nada… — ele colocou as mãos sobre a cabeça, entristecido. — Como vou proteger minha família dos pecadores desse jeito?! Sou muito fraco…

    Little Girl queria dizer alguma coisa, mas nem ela conseguiu ajudar muito durante o combate.

    Durante o tempo em que passou com os pecadores, sendo forçada a matar para sobreviver, nunca precisou pensar em trabalho em equipe. Por isso, todos os seus ataques eram feitos para lidar sozinha com o inimigo, o que a deixou sem muitas opções durante o confronto. Se atacasse, seus aliados poderiam ser feridos.

    Ela só conseguiu atacar uma vez, aproveitando o espaço que Saito havia criado para ela. Mas não conseguiu pedir o mesmo espaço aos companheiros.

    — Ficar choramingando não vai ajudar em nada. — disse Sira, de forma seca.

    — É, eu sei disso! — gritou Saito. — Mas ainda assim… é frustrante demais… o Kevin…

    — Você não pode ficar colocando a culpa pela perda do braço dele em você, nem em ninguém além dele mesmo.

    — Como? Por que a culpa seria dele? Ele fez mais do que qualquer um dessa equipe!

    — Não foi ele que escolheu essa vida? — respondeu Sira, deixando Saito calado. — Não se culpe por uma escolha feita por outra pessoa. Ele escolheu lutar, ele escolheu estar aqui. Foque no que você pode fazer agora. E mesmo se estiver se culpando, foque no que vai te fazer seguir em frente.

    Por mais que estivesse com vontade de socar a cara da Sira naquele momento, ele sabia que ela estava certa.

    Agora não era o momento para isso. Com Kevin inconsciente, alguém precisava tomar as rédeas da situação até que ele acordasse.

    Saito cerrou os punhos e bateu novamente contra o chão — mas agora de forma diferente. Não mais para descontar sua raiva, mas para voltar a si.

    Ele se levantou e olhou para Tuare.

    — Tuare, leve-o de volta ao vilarejo. Leina, vá com ela e façam de tudo para cuidar do Kevin. — ordenou ele. Então virou-se para Little Girl:

    — Eu vou voltar.

    — O quê?! Por que vai fazer isso? — gritou Leina, sem entender.

    — Vou com você. — disse Sira, recebendo olhares incrédulos de Tuare e Leina.

    — Por quê? Por que vocês querem voltar lá depois de tudo isso…? — murmurou Tuare, sem esperanças, encarando Kevin no chão.

    — Se eu não voltar agora, o medo vai me dominar para sempre. — disse Saito, com as mãos tremendo. — Não posso ir embora sem antes ver o que está acontecendo lá.

    — Preciso ir atrás do pecador que está lá dentro. Ele pode me dar respostas para as perguntas que eu tenho. — completou Sira.

    Little Girl apenas encarou os dois, que estavam dispostos a entrar naquele lugar novamente. Observou por alguns segundos, até que suspirou e disse:

    — Vou com vocês. Se as coisas saírem do controle, vamos fugir. Concordam?

    — Sim. — respondeu Saito.

    — Concordo. — respondeu Sira.

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