Capítulo 37 - Dependente
Um jovem Richard encontrava-se em um quarto ao lado de sua pessoa mais querida, a figura mais importante em seu mundo àquela época.
Sua mãe.
Mesmo na infância, Richard já possuía um poder significativamente superior ao da maioria, o que o tornava o centro das atenções desde muito cedo. Era como se a vida o empurrasse para um pedestal em um mundo cujas complexidades ele mal compreendia.
As expectativas recaíram sobre seus ombros antes mesmo de ele assumir o título de cavaleiro sagrado, o que lhe gerava uma constante ansiedade quanto aos erros que poderia vir a cometer.
Em casa, o tratamento dispensado por seus pais contrastava de maneira evidente. Sua mãe era um poço de afeto e gentileza, enquanto seu pai, austero e reservado, demonstrava sentimentos quase exclusivamente em momentos de progresso: quando Richard aprimorava sua esgrima ou dominava uma nova habilidade.
Os treinamentos ao lado do pai eram árduos, e a carga imposta o fazia sentir-se exausto e emocionalmente abatido. Sempre que uma sessão de treino chegava ao fim, o pequeno Richard ansiava apenas por deitar-se e ceder às lágrimas. Contudo, reprimia esse desejo, sustentando-se no conforto proporcionado por sua pessoa amada.
Naquela época, sua mãe carregava no ventre sua irmã caçula. Apesar de ser apenas uma criança, imersa em estudos e práticas extenuantes, Richard sempre reservava suas noites para visitar o quarto da mãe e compartilhar momentos de ternura.
— Mãe? Posso entrar? — perguntou Richard, batendo suavemente na porta.
— Pode sim, meu querido — respondeu ela, com uma voz doce e acolhedora.
Richard abriu a porta apressadamente, esticando-se na ponta dos pés para alcançar a maçaneta. O quarto, meticulosamente arrumado, parecia ainda mais encantador com a presença de sua mãe em seu interior. Ela, de longos e deslumbrantes cabelos vermelhos que caíam sobre os ombros, irradiava uma beleza que parecia amplificada pela luz prateada das estrelas que entrava pela janela aberta.
— Como foi o treinamento hoje? — indagou a mulher sentada na cama, acariciando a barriga já protuberante.
Richard adentrou o quarto com cuidado, fechando a porta atrás de si, e aproximou-se da cama. Ele trazia consigo marcas do árduo treino, pequenos machucados que, instintivamente, tentou ocultar para evitar preocupá-la. Todavia, seu esforço foi em vão.
— Não tente esconder seus esforços de mim, meu querido — disse ela, com um olhar preocupado que logo suavizou em ternura.
— Ah… me desculpe…
Sua mãe sorriu docemente, pousando a mão sobre a cabeça de Richard. Com delicadeza, deslizou os dedos para acariciar seu rosto, finalizando o gesto ao repousar a mão sobre a barriga, como se quisesse incluir a nova vida em sua demonstração de amor.
— Em breve, você terá uma irmãzinha ou um irmãozinho. Fique forte o suficiente para protegê-los, até que possam cuidar de si mesmos. Posso contar com você, Richard?
— S-Sim! Com toda certeza, mãe!
A mulher sorriu e deu leves batidas no colchão da cama, convidando-o a sentar ao seu lado. Richard subiu na cama com cuidado e acomodou-se ao lado dela, lançando-lhe olhares furtivos.
Esses momentos de conversa com sua mãe eram, para ele, extremamente preciosos. Desde cedo, Richard fora sobrecarregado com grandes responsabilidades, e o modo como era tratado pelas pessoas ao redor tornava difícil para ele estabelecer vínculos casuais. Exceto por seu pai, que o via meramente como uma ferramenta militar, as outras pessoas do reino o tratavam com tanta reverência que não se atreviam a criar qualquer proximidade.
Sem amigos ou confidentes, Richard vivia em um isolamento quase completo, sem ninguém com quem pudesse dividir seus pensamentos ou desabafar sobre suas dificuldades. Ainda assim, ele encontrava consolo no carinho e no sorriso de sua mãe. Esse amor incondicional bastava para ele, e os momentos compartilhados com ela o ajudavam a suportar os dias solitários que enfrentava.
— Ouvi dizer que você será admitido oficialmente nos Cavaleiros Sagrados em breve, Richard.
— Ah… sim. Meu pai mencionou isso. Achei um pouco apressado, para ser honesto. Nunca antes houve um cavaleiro sagrado com apenas 8 anos de idade. Mas parece que ele conseguiu o apoio dos nobres e até do rei. Então é provável que aconteça — respondeu Richard com hesitação.
A mãe o observou atentamente. Richard não parecia feliz com a notícia — e por que estaria? Era apenas mais um peso de responsabilidade que ele não desejava carregar. Contudo, Richard não se permitia ser egoísta ou decepcionar as expectativas alheias. Assim, ele suportava tudo em silêncio, fazendo o que lhe era ordenado.
— Richard — chamou sua mãe com suavidade. — O que você deseja ser no futuro?
— No futuro…?
— Sim — disse ela, abrindo um sorriso caloroso. — Qual é o seu sonho?
Richard ficou em silêncio por um instante, refletindo. Desde sempre, sua vida fora rigidamente conduzida por outros — desde as roupas que deveria vestir até a forma como cada dia começava e terminava. Ele nunca teve a oportunidade de pensar no que realmente queria para si. Sentia-se como uma folha levada pela correnteza de um rio, sem controle sobre o próprio destino.
— Não tenho certeza… mas, se fosse para escolher ser algo… eu diria… — Ele hesitou, buscando as palavras certas, e então, de maneira sincera, completou: — Livre.
Os olhos de sua mãe se arregalaram, surpresa pela profundidade daquela resposta. Ela sentiu um aperto no peito ao ouvir aquilo. Não se tratava de uma aspiração infantil ou um sonho ingênuo como os de outras crianças, mas de um desejo profundamente melancólico e revelador.
— Você quer ser livre, Richard?
— Ah… é que… não que eu esteja reclamando de como as coisas são… — ele tentou amenizar a situação, preocupado que suas palavras a tivessem entristecido. — Eu faço o que devo fazer para ajudar as outras pessoas. E está tudo bem… eu acho…
Nem mesmo o tom de Richard na última frase parecia respaldar sua afirmação. Ainda assim, ele continuou.
— Eu não sei exatamente o que quero para mim. Então, em vez de pensar no que desejo, mudei minha lógica e refleti sobre o que não quero. E o que não quero é viver preso a algo que se assemelhe a uma maldição, eu acho…
— Uma maldição? Que tipo de maldição? — O tom de preocupação evidente na voz de sua mãe fez Richard sentir-se ainda mais inquieto.
— Ah! Não é uma maldição real! É mais como… como eu percebo minhas habilidades, mamãe.
— Você enxerga seu poder como uma maldição?
Foi doloroso para ela ouvir isso.
— Bem… por causa desse poder e talento, eu tenho a oportunidade de fazer vocês se orgulharem de mim… — Enquanto falava, Richard pensava tanto em sua mãe quanto em seu pai. Apesar de nunca ter recebido demonstrações de afeto paternal, ele preenchia essa lacuna emocional com os raros elogios de seu pai ou os sorrisos de satisfação que surgiam quando ele mostrava progresso em algo. — Mas… eu não gosto muito de ter que fazer tudo isso… as pessoas na rua olham para mim como se eu fosse algo completamente diferente delas… Elas se afastam porque acham que sou bom demais para me misturar, e isso me exclui. As crianças da minha idade sequer falam comigo na academia, com medo de me irritar ou algo do tipo… É como se elas tivessem medo de mim e desse poder que eu tenho. Isso não parece uma maldição…?
Perplexa com a maturidade com que seu filho falava sobre suas habilidades, sua mãe sentia uma tristeza cada vez mais profunda. Naquele momento, Richard assemelhava-se a um homem adulto que havia perdido completamente as esperanças na vida, vivendo apenas por inércia. Ele não encontrava gratificação em nada, ao menos não em algo que fosse genuíno e individual para si mesmo, mas nutria um desejo ardente de ser elogiado pelos pais, de ser motivo de orgulho para eles.
Isso havia se tornado um vício. Richard ansiava por mais elogios, por mais demonstrações de orgulho, e isso o fez se tornar emocionalmente dependente. Ele estava disposto a sacrificar seus dias e anos de vida para satisfazer essa necessidade, para garantir que continuassem a admirá-lo.
— Richard… eu… — sua mãe tentou falar, mas sua voz falhou, e ela não conseguiu concluir a frase.
A simples ideia de que seu filho era infeliz a enchia de angústia. Contudo, naquele momento, ela sabia que nada podia fazer para mudar a situação, pois compreendia a realidade em que o reino e o continente se encontravam.
Com a expansão crescente dos reinos humanos no continente, o reino dos elfos, empurrado para o território limitado que ocupa atualmente, não possuía margem para expansões significativas. Isso restringia suas chances de fortalecer o poder militar ou de buscar artefatos perdidos em antigas masmorras espalhadas pelo mundo.
Por imposição das leis dos reinos humanos, os elfos eram confinados ao território do reino élfico. Se não aproveitassem cada oportunidade de crescer, permaneceriam para sempre nas sombras, presos àquele lugar.
Era por essa razão que Richard era tão reverenciado pelos habitantes do reino. Ele era uma criança elfa extraordinariamente talentosa, alguém que poderia se tornar uma figura de extrema importância no futuro. Seu talento — sem que sua mãe percebesse completamente — havia se tornado uma verdadeira maldição para ele, algo que Richard queria evitar a qualquer custo.
— Richard. — sua mãe o chamou, com uma convicção repentina em sua voz.
Ele a olhou, esperando que ela continuasse.
— Quero que me prometa uma coisa.
— O-O que, mãe?
— No futuro, um dia… mesmo que todos se voltem contra você… me prometa que será um pouco mais egoísta. Prometa que buscará a sua liberdade, ao menos um pouco. Pode me prometer isso, Richard?
Ela não podia simplesmente dizer: “Faça isso agora, desista de tudo e se rebele contra todos.” Isso a dilacerava por dentro. Se dissesse algo assim, poderia desencadear uma crise nacional, pois Richard já era considerado um tesouro do reino élfico.
Por mais que desejasse a felicidade do filho, as circunstâncias a mantinham de mãos atadas. Assim, ao menos, ela queria acreditar que, no futuro, quando a situação do reino melhorasse, Richard pudesse ser um pouco mais egoísta e livrar-se de sua maldição.
— Eu…

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