Índice de Capítulo

    Os espinhos de San Ryoshi rasgavam o campo de batalha com uma ferocidade avassaladora. Eram centenas, talvez milhares de estacas. O chão da arena parecia vivo, uma massa retorcida da qual as estruturas ciano-escuras emergiam em uma sequência frenética e implacável, avançando na direção de Ryuji Arata como uma praga biológica impossível de parar.

    Mas Ryuji se movia.

    Um, dois, três passos. Movimentos curtos, cirúrgicos, puramente instintivos. Os espinhos de Sen passavam raspando por suas roupas, cortando o vento e destruindo tudo o que encontravam logo atrás dele, reduzindo o concreto a pó.

    Até que, num piscar de olhos, San desapareceu de sua linha de visão.

    As pupilas de Ryuji se arregalaram. Através de seus sentidos aguçados, ele percebeu a tempo. Mas já era tarde demais para recuar.

    BOOOOM!!

    Os dois reapareceram instantaneamente, frente a frente, no centro geométrico da arena. Sem qualquer preparação prévia, sem hesitação e sem o menor espaço para pensar, o choque foi inevitável.

    Ryuji lançou o punho direito. San lançou o esquerdo. E ambos os golpes encontraram seus alvos ao mesmo tempo.

    CRAAAAASH!!!

    O impacto colossal explodiu a barreira do som. Uma onda de choque transversal e violenta atravessou toda a extensão da arena. O solo abaixo deles afundou em uma nova cratera, enquanto estilhaços de pedra e poeira eram arremessados para todos os lados como projéteis. Por alguns segundos, a visibilidade tornou-se nula. Ninguém nas arquibancadas conseguia enxergar nada além da densa cortina de fumaça, da destruição e da pressão sufocante que emanava daquele ponto.

    Quando a poeira finalmente começou a se dissipar, revelou os dois combatentes sendo arremessados para lados opostos pela força do ricochete.

    Ryuji deslizou por dezenas de metros, forçando as botas contra o chão rachado para frear o momento. San Ryoshi fez o mesmo, estabilizando-se metros adiante. Ambos exibiam um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca.

    E ambos sustentavam um sorriso no rosto.

    Naquele microssegundo de calmaria, eles entenderam exatamente a mesma coisa: o outro ainda estava crescendo e se adaptando no meio do caos. E isso, em uma luta daquele nível, era perigoso. Muito perigoso.

    San limpou o canto da boca com as costas da mão. Ryuji repetiu o gesto. Sem dizer uma única palavra, os dois fincaram os pés no solo e avançaram novamente um contra o outro.

    Mas antes que as suas forças colidissem outra vez, a perspectiva mudou.

    Do outro lado da arena, Naki Senrou foi arremessado brutalmente contra uma parede de contenção já semi-destruída.

    BOOM!!

    O impacto de suas costas contra a estrutura abriu uma cratera profunda no concreto. Uma nuvem de poeira subiu de imediato, acompanhada pelo som de pedras pesadas desabando ao redor de seu corpo.

    Sander Shimo, parado a poucos metros dali, soltou um longo suspiro. Sua expressão facial flertava com a decepção. — Sério… — Sander fez uma breve pausa, mantendo o tom de voz calmo, quase entediado. — Você piorou muito desde que o Time 1 foi dissolvido.

    Naki permaneceu em silêncio absoluto em meio aos destroços. Sua respiração vinha pesada, fragmentada. O ombro direito sangrava ativamente por conta de um corte anterior e suas pernas tremiam sob o peso do cansaço. E aquilo o irritava profundamente. Não pelo fato de estar perdendo o confronto, mas a percepção nua e crua de que Sander estava coberto de razão.

    Sander caminhou lentamente em sua direção, mantendo as duas mãos enfiadas nos bolsos, agindo como se aquilo sequer fosse uma luta de verdade. 

    — Antes você era perigoso — continuou o lutador, chutando uma pedra no caminho. — Agora parece só… — Mais uma pausa. Ele parou a poucos metros, olhando de cima para baixo. — …um cara tentando acompanhar monstros.

    As palavras de Sander acertaram o psicológico de Naki com mais força do que qualquer impacto físico recebido naquele round.

    Naki abaixou a cabeça, deixando os cabelos cobrirem seus olhos. Silêncio. O resto do campo de batalha pareceu sumir de foco. Os estrondos da luta de Ryuji e os relâmpagos de Kaede tornaram-se abafados, distantes.

    E então, nas profundezas da sua mente, uma memória antiga emergiu.

    Chamas ciano distorcendo o ar. Explosões em cadeia. Ryuji Arata avançando contra ele com os olhos fixos e determinados. A primeira vez. A primeira luta entre os dois. O exato momento em que algo bizarro e imenso despertou no fundo do seu peito. Algo que ele nunca havia entendido por completo. Algo que apareceu por um breve instante… e desapareceu logo em seguida.

    Naki fechou os olhos. Puxou o ar com força, respirando fundo. Uma vez. Duas. Três.

    Sander observava a cena, ligeiramente confuso com a falta de reação física do oponente. — Desistiu?

    O silêncio permaneceu por mais um segundo. Então, lentamente, Naki ergueu a cabeça. Seus lábios moveram-se sem emitir som a princípio, até que sua voz finalmente saiu. — …

    A aura ao redor de seu corpo começou a mudar. Ela não aumentou de tamanho ou explodiu em guloseimas de energia; ela mudou de natureza. Tornou-se densa, pesada, profunda. Carregava a assinatura de algo extremamente antigo.

    — Ok… — murmurou Naki, os ombros relaxando. — Vamos lá então.

    BOOOOOM!!!

    Uma deflagração massiva de Sen ciano atravessou o setor inteiro da arena. O chão abaixo dele cedeu instantaneamente, criando um recuo perfeito de compressão, enquanto as pedras soltas ao redor começaram a levitar, desafiando a gravidade.

    E os olhos de Naki mudaram. Completamente.

    A íris e a esclera desapareceram de vista, sendo inteiramente engolidas por um negro absoluto, opaco e sem fundo. Um verdadeiro abismo. No centro exato desse vazio sombrio, a pupila brilhou em um tom ciano elétrico, intenso e focado, assemelhando-se a um farol aceso no fim do mundo.

    Era como se a própria estrutura de sua alma tivesse sofrido uma mutação. Como se alguma engrenagem ancestral, há muito tempo adormecida, tivesse finalmente aberto os olhos.

    Sander Shimo interrompeu o seu passo. Pela primeira vez desde o início do torneio, sua expressão mudou para uma surpresa genuína.

    Naki encarou o adversário diretamente. Seu rosto não exibia qualquer vestígio de emoção, raiva ou hesitação. Mas a sua voz… a sua voz carregava um peso completamente diferente. Algo real.

    — Eu odeio me esforçar… — verbalizou Naki.

    A aura ciano explodiu novamente, expandindo-se em colunas de energia mais pesadas, opressivas e assustadoras.

    Seus olhos negros cravaram-se nos de Sander de forma fixa. 

    — Mas… eu quero deixar de ser um peso pro meu time.

    O vento cortante atravessou a arena devastada. As chamas ciano começaram a girar ao redor de seu corpo em alta velocidade, moldando-se como um furacão técnico, um ritual de transição, um verdadeiro despertar.

    E pela primeira vez desde que pisou naquele campo, Sander Shimo deixou de sorrir. Porque agora, diante de seus olhos, Naki Senrou finalmente parecia alguém capaz de vencer.

    O campo de batalha permanecia em absoluto silêncio. Não era um silêncio que remetia à paz, mas sim ao choque puro e reverberante. Sander Shimo observava fixamente a silhueta de Naki Senrou e, pela primeira vez desde o exato milissegundo em que aquela guerra havia começado, o lutador não parecia minimamente confortável.

    Porque alguma coisa na própria costura da realidade tinha mudado.

    Não era apenas a natureza volátil da aura ciano. Não era apenas a escuridão abissal que havia engolido os seus olhos. Era a presença. A forma densa e indiscutível como Naki agora ocupava o espaço ao seu redor, o ritmo cadenciado de sua respiração e a frieza cirúrgica com que ele sustentava o olhar.

    Naquele instante, Naki Senrou parecia… San Ryoshi.

    Não em termos de escala de poder bruto, mas em perfeição. Em controle absoluto. Em uma total e assustadora ausência de desperdício mecânico.

    Sander Shimo tentou abrir um sorriso, mas o gesto saiu visivelmente forçado, desprovido da ironia habitual. — Heh… Então finalmente resolveu acordar?

    Naki não respondeu. O vento cortante soprou baixo pelas frestas dos destroços. As chamas ciano giravam ao redor do seu corpo de forma lenta, calmas, controladas e perfeitamente silenciosas, como sentinelas obedientes.

    Sander avançou.

    EXPLOSÃO.

    O chão abaixo das botas dele afundou sob a pressão do arranque. Descargas de raios negros estalaram ao redor de seus músculos enquanto ele se projetava para a frente em uma velocidade absurda, indo direto para o ponto cego de Naki.

    Descarregou um soco. Depois outro. Depois mais um. Uma sequência brutal, veloz e letal de impactos.

    Mas Naki desviou.

    Sem o menor sinal de esforço físico, sem qualquer movimento espalhafatoso ou exagerado. Um passo milimétrico para trás. Um desvio sutil de tronco para a esquerda. Outro para a direita. Era como se ele estivesse enxergando os vetores de ataque muito antes de eles cruzarem o ar; como se ele simplesmente soubesse o destino de cada golpe.

    Sander franziu o cenho e acelerou o ritmo, tornando-se mais rápido, mais agressivo e consideravelmente mais destrutivo. Os punhos cortavam a atmosfera gerando estalos de vácuo.

    Mas nada importava. Naki continuava esquivando de cada investida de forma impecável, movendo-se na periferia dos ataques.

    — Que porra…?! — exclamou Sander, os dentes cerrados.

    BOOOOOM!!

    Um golpe pesado de Sander atingiu o solo, abrindo um sulco inútil. Errou. Mandou o segundo. Errou de novo. O terceiro passou pelo vazio, colidindo apenas com o oxigênio aquecido.

    Naki, finalmente, ergueu a mão direita. E, pela primeira vez desde o início daquele round, ele tomou a iniciativa de atacar.

    Uma única fagulha de chama ciano surgiu suspensa no ar, flutuando logo acima de seus dedos. Era pequena. Quase insignificante. Sander soltou uma breve risada nervosa ao ver o constructo. — Só isso?

    Foi então que a chama mudou.

    Ao lado da centelha ciano, outra brotou do nada: um branco incandescente. Depois uma negra, densa como o Sen de Karaku.

    Sander Shimo interrompeu o passo de avanço abruptamente. Ele parou porque o seu instinto de sobrevivência disparou um alerta biológico: aquilo era perigoso. Muito perigoso.

    As chamas multicolores começaram a colidir entre si no centro do vórtice. Elas passaram a se fundir, se devorar e se esmagar mutuamente, assemelhando-se a estrelas morrendo em alta velocidade ou galáxias colapsando sob o próprio peso gravitacional. O processo continuou até que a massa cromática desapareceu por completo.

    Restou apenas uma. Uma única chama.

    Era cinza. Profunda, pesada, completamente errada. O próprio oxigênio começou a definhar e morrer ao redor daquela cor, como se a energia consumisse a própria matéria do ambiente. O chão rachou em linhas geométricas perfeitas e as pedras soltas simplesmente se desfizeram em poeira fina antes mesmo de tocá-la.

    E então, a chama cinza começou a tomar forma.

    Primeiro, moldou-se uma mandíbula massiva e angulosa. Depois, as órbitas dos olhos ganharam contorno, seguidas por fileiras de dentes pontiagudos e colossais. Algo monstruoso e ancestral surgiu diante de todos na arena.

    Um crânio gigante, feito inteiramente daquela substância cinza e opaca. No centro das órbitas vazias e mortas, as pupilas brilhavam no tom ciano elétrico original de Naki. Parecia um farol antigo fincado no fim do mundo.

    Sander sentiu o próprio corpo congelar de forma puramente instintiva. Os músculos travaram, recusando-se a obedecer aos comandos de fuga.

    Naki finalmente quebrou o silêncio, a voz saindo desprovida de qualquer peso emocional: — Fim da linha.

    O crânio cinza abriu as mandíbulas descomunais. E rugiu.

    Não foi um som audível pelos ouvidos humanos; foi uma onda de pura destruição de alta frequência.

    BOOOOOOOOOOOM!!!

    A torrente de chama cinza disparou para a frente em linha reta, consumindo e apagando tudo o que encontrava pelo caminho. O chão da arena desapareceu instantaneamente sob o feixe técnico. As pedras levitando evaporaram no mesmo microssegundo, e as colunas de concreto remanescentes nas proximidades simplesmente deixaram de existir, reduzidas ao nada. Uma trilha de devastação absoluta cortou o quadrante de ponta a ponta.

    Sander Shimo tentou forçar as pernas. Tentou saltar para a lateral, tentou erguer uma barreira de Sen, tentou qualquer reação desesperada. Mas o tempo tático havia esgotado.

    A onda cinza o alcançou. E o engoliu por completo.

    A detonação de energia iluminou a arena inteira com uma intensidade cegante. Nas arquibancadas, os espectadores sobreviventes e os juízes ergueram os braços às pressas para proteger os olhos da luz residual. O estádio inteiro tremeu sobre as suas fundações estruturais.

    Quando a claridade finalmente cedeu e desapareceu no ar, revelou o cenário: não havia mais campo naquele setor. Não havia poeira, não havia destroços e não havia blocos de pedra. Tudo fora limpo. Restava apenas uma cicatriz gigantesca e vitrificada, rasgando a arena de uma extremidade à outra.

    E bem no final da linha de destruição estava Sander Shimo.

    Ele estava caído de bruços no solo queimado, completamente inconsciente, com as roupas chamuscadas. Derrotado.

    Silêncio absoluto.

    Naki permaneceu parado na sua posição inicial, os ombros relaxados e a respiração perfeitamente estável enquanto os últimos resquícios da chama cinza desvaneciam ao seu redor. Seu olhar mantinha-se fixo, vazio de vaidade.

    Do outro lado da arena devastada, San Ryoshi observava o desfecho. Ele não se moveu, mas seus olhos sustentavam um brilho diferente. Pela primeira vez desde o início daquele round, desde o início de todo o confronto, o líder exibia um interesse genuíno.

    — …

    Um pequeno sorriso, quase imperceptível, desenhou-se no canto dos lábios de San Ryoshi. — Então esse é o verdadeiro você…

    E naquele exato instante, sob o testemunho do silêncio da arena, até mesmo o topo incontestável do torneio reconheceu a ameaça. Naki Senrou havia despertado.

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