Capítulo 110 — O Preço pela Vida
Três dias se passaram desde que Akane acordou. Seu treinamento foi finalizado com êxito, e estavam prontos para ir ao esconderijo dos rebeldes de Duncan e iniciar o interrogatório dos prisioneiros. Antes de partirem, fizeram uma homenagem ao Kamito: uma cruz de madeira com seu nome gravado. Akane estava ajoelhada na frente dela enquanto pedia para que ele não estivesse morto.
Infelizmente, não podiam voltar para a Cidade do Sul depois do que aconteceu. Só lhes restava seguir em frente com o objetivo de vencer aquela maldita guerra.
— Kamito, meu amor, eu prometo que traremos um fim a essa guerra. Continuarei com o que começamos. Por favor, fique bem. — disse Akane, com a voz embargada.
Akane se levantou enquanto enxugava as lágrimas, olhou na direção do horizonte e enfim se virou para acompanhar os outros. Ela não queria ter que ir sem procurá-lo, mas ele havia confiado suas esperanças nela.
— Já podemos ir. Eu sei que temos um longo caminho pela frente. Não podemos deixar os rebeldes nos esperando se o que vocês disseram for real. — anunciou ela.
— Você está bem determinada, Akane. Nem parece a garota de três dias atrás, mas eu ainda vejo que seu olhar carrega uma imensa tristeza. — observou Lília, tocando seu ombro.
Tentou animá-la com um sorriso, mas sabia que seria difícil para Akane ter que deixá-lo para trás. Lília então olhou para os prisioneiros e notou que Sora estava livre.
— Por que ele está solto? — perguntou Lília, franzindo a testa. — Eu pensei que ele era um prisioneiro. Não perdemos um dos nossos para que ele possa escapar das nossas mãos tão facilmente. Alguém amarre ele antes que ele tente fugir.
— Já disse que não sou seu inimigo. — respondeu Sora, com calma. — Deixei isso claro durante a festa, e mesmo assim vocês não me escutaram. Os únicos que entenderam foram o loiro e a garota de cabelos azuis. Estamos todos do mesmo lado.
Após Sora falar, Keila o encarou incrédula. Nem Akane acreditava em suas palavras, pois ele sabia dos ataques e da presença de Haythan e não os alertou. Ele caminhava tranquilamente como se fosse um aliado.
— Eu sou quem mais quer que o Império caia. — continuou Sora, com fervor. — O Imperador deve pagar por seus crimes e pelo que fez à minha família. Eu também tenho os nomes de capitães e de subordinados que romperiam com o Império. São informações valiosas, e eu pretendo contar tudo isso a vocês em troca de segurança.
— Sora, seu traidor desprezível! — exclamou Keila, com ódio na voz. — Pretende mesmo nos trair para livrar sua pele? Você é um covarde! Eu mesma vou te matar quando me soltar dessas malditas algemas! Nem pense em abrir essa maldita boca!
Keila tentou avançar contra ele, mas foi impedida por Solum, que a segurou pelas algemas. Ela o olhou irritada enquanto ele sorria sarcasticamente. Isso fez com que ela cuspisse bem na cara dele e retribuísse o sorriso.
— Quando eu me soltar, matarei cada um de vocês! — gritou, enfurecida. — Vou começar por você, Sora, seu traidor! Depois vou matar esse desgraçado das cicatrizes!
— Sei, sei. — retrucou Solum, com desdém. — Você é só uma espiã! Não serve de nada a não ser rastejar como uma barata imunda e vazar informações, igual fez aqui!
Solum chutou suas costas, fazendo-a cair de bruços no chão. Isso fez todos pararem de caminhar e olharem aquela cena. Solum se aproximou dela, puxou-a pelo cabelo e a forçou a olhá-lo.
— Cadê sua marra agora? — provocou Solum, com frieza. — Você possuiu meus amigos, e por causa disso um deles se foi. Você deveria ser grata por eu não te matar agora. Você vai dizer tudo que sabe, ou eu cortarei seus membros um por um. Aquele tal de Haythan eu não matei, mas você eu garanto que mato. Quer pôr isso à prova?
— Pare já com isso, Solum. — interrompeu Lília, com autoridade. — Não temos tempo a perder, e você fica de joguinhos com a prisioneira. Ela irá falar no tempo certo, então não a ameace nem a maltrate, principalmente na frente da Camily e da Helenae, seu bruto idiota.
Lília empurrou Solum para o lado e ajudou a garota a se levantar. Keila virou o rosto e começou a se afastar dela como se não precisasse de ajuda. Lília olhou para Akane meio preocupada, mas logo desviou o olhar.
— Vamos continuar, e dessa vez sem interrupções. — declarou Lília, retomando a liderança. — Precisamos ver se nossos aliados estão bem e finalmente dar início ao nosso ataque com as informações que o Sora irá fornecer. Vamos atingir o Império em cheio.
— Akane? — chamou Raya, aproximando-se da garota. — Você está bem? Como está se sentindo a respeito de ter que seguir em frente sem o seu namorado? Eu sinto muito pelo que aconteceu.
Raya fitava Akane com curiosidade. Desde que ela e seu grupo se juntaram à Ordem, nunca tiveram a oportunidade de conversar. Akane a olhou de lado.
— Se precisar de qualquer coisa, conte comigo e com a Ryn. — ofereceu Raya, com sinceridade. — Estamos aqui para ajudar. Sei que começamos com o pé errado quando nos conhecemos, mas esse não é o momento para guardar mágoas.
— Sei disso. — respondeu Akane, com um suspiro. — Sei que precisamos confiar uns nos outros para que essa aliança dê certo. Nesse momento, é isso que esse grupo não tem: confiança. Quem confiávamos nos deu motivos para desconfiar; quem não conhecemos não dá motivos para confiarmos. Como essa aliança pode durar?
Akane caminhou lentamente enquanto ficava tocando e girando o cristal do seu pingente. Além dele, só lhe restavam o anel e o sobretudo como recordações do Kamito. Ela a olhou normalmente, pois não podia seguir com aquela rivalidade.
— Essa guerra é de vocês, sei disso. — continuou Akane, com firmeza. — Não estou aqui para tirá-la de suas mãos. Eu também quero ajudar, então conto com você.
— Comigo também, Akane! — acrescentou Ryn, animada. — Garotas costumam se ajudar nesses momentos. Embora eu só conheça a Raya, ainda devemos nos unir!
Ryn esbanjava animação e confiança. Ela foi a única da Emota que não fez nada na caverna. Dentre todos os cinco, ela parecia ser a mais focada.
— Espero que não tenhamos outra baixa. — confessou Ryn. — Estou bastante preocupada com essa guerra. Eu queria que tudo tivesse acabado naquela noite… Agora o Extra-Mundo está sofrendo muito mais do que antes.
— Eu também queria… — murmurou Akane, com tristeza. — Se fosse assim, nós não estaríamos aqui e o Kamito ainda estaria comigo. Mas não podemos mudar o passado. Agora precisamos acabar com o que vocês começaram. Já perdemos muito para desejar que tudo fosse diferente.
— Eu queria entender por que você tem essa devoção e comoção por aquele garoto. — disse Elarion, aproximando-se. — Eu sei que vocês dois namoravam, mas você não acha que querer tirar a própria vida por alguém chega a ser exagero? Será que vale tudo isso?
Suas palavras fizeram Akane parar de tocar o pingente e olhá-lo irritada. Raya e Ryn mal acreditavam no que o companheiro tinha acabado de falar. De repente, ele se tornou o centro das atenções, o que o fez encarar o trio com o semblante confuso.
— O que? Eu não falei nada demais. Convenhamos que não vale a pena acabar com a própria vida só porque se perdeu alguém importante.
— Exagero? Vale tudo isso? Não falou nada demais? — disparou Akane, com os olhos marejados de raiva e dor. — Você não sabe de nada sobre a minha vida para falar isso! Você não sabe o quanto eu devo a minha vida ao Kamito. Ele sacrificou a vida e a paz dele por mim. Você não faz ideia do quanto ele sofreu e foi excluído por todos por ter feito isso.
Akane se afastou lentamente dele enquanto o encarava. Ela queria muito avançar contra ele, mas se segurou ao máximo. Raya e Ryn o puxaram para longe enquanto o repreendiam. Mesmo assim, Akane ainda o encarava com muita mágoa.
— Você nunca entenderia… — continuou, com a voz trêmula. — Eu sou tão grata a ele… Devo tudo que tenho a ele. O Kamito mudou a minha vida, mudou meu mundo, e por ele eu sou capaz de qualquer coisa. Minha vida não tem sentido sem ele.
— Ele não quis te desrespeitar, Akane. — interveio o homem encapuzado, sem olhar para ela. — Às vezes, Elarion não sabe quando manter a boca fechada. Sinto muito pela grosseria dele.
Apesar das palavras gentis, ele lhe passava um sentimento vazio e estranho. Ele então se aproximou de Elarion e o socou no estômago, fazendo-o parar de falar.
— Se continuar com essa língua grande, você não terá muitos amigos, Elarion. — ele advertiu, com frieza. — Eu ficaria calado pelo resto da viagem se fosse você.
Todos se mantiveram em silêncio enquanto voltavam a caminhar. Lentamente, Akane voltou a apertar seu pingente com força e retomou a caminhada. Enquanto andava, começou a se lembrar de um acontecimento de muito tempo atrás.
Era quase verão, e tinham treze anos. Ela estava na sala de aula quando decidiu procurar por Kamito para chamá-lo para almoçarem juntos. Vagou pelos corredores à procura dele e estava começando a se frustrar. Estava bem cabisbaixa quando decidiu olhar para fora e viu quatro pessoas agindo de maneira suspeita — pareciam estar brigando. Ao ver a cena, correu de imediato, temendo que aquele que estivesse apanhando pudesse ser Kamito. Mesmo ali, ela queria poder fazer algo.
Akane parou de apertar o pingente. Tudo pelo que ele passou e sofreu foi culpa dela. Ela foi fraca e o deixou suportar aquele fardo sozinho. Antes de conhecê-lo, ela era alvo de piadas e de brincadeiras maldosas. Ele apareceu do nada e voltou todas as atenções maldosas para ele sem conhecê-la. Kamito só queria um único amigo, e ela permitiu que ele sofresse sem ser capaz de fazer algo.
Ela nunca mais queria que ele passasse por isso. Nunca mais queria vê-lo sofrer. Agora ela era a única capaz de proteger seus sonhos e suas esperanças.

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