Capítulo 150 - Sem Margem II
Danurem veio como um touro solto.
O primeiro golpe desceu vertical.
Ian ergueu a espada com as duas mãos.
O impacto atravessou a guarda, desceu pelos braços e bateu direto no joelho já lesionado, arrancando pedra da rua sob as botas e empurrando o corpo inteiro meio passo para trás.
No mesmo movimento, Ian inclinou a lâmina.
O gelo correu raspando pelo cabo do martelo, deslizou até o antebraço de Dan e abriu um corte fino antes que ele recolhesse o braço.
Sangue escuro respingou na pedra.
Danurem aproveitou o embalo.
O martelo voltou horizontal, assoviando tão perto do rosto de Ian que o vento puxou o sangue do corte na bochecha e espalhou vermelho pelo ar.
Ian aparou.
Fragmentos de gelo explodiram nas bordas da espada.
Ao girar o corpo para absorver o peso, a ponta da lâmina riscou a coxa de Dan.
O terceiro golpe veio numa rotação completa.
Dan girou como uma muralha viva.
Ian baixou a base, firmou o peso na perna boa e travou a espada contra o cabo do martelo, sendo arrastado por quase dois metros entre pedra rachada, restos de madeira, vidro quebrado e sangue espalhado pela rua destruída.
O quarto golpe veio no retorno.
Rápido demais.
Ian cruzou a espada no último instante.
O impacto quebrou a linha do ombro direito e a dor subiu brutal pela clavícula como um raio quente.
Danurem sorriu no meio do avanço.
— Isso!
Ian puxou o ar uma única vez.
Quando o quinto golpe veio, ele não aparou.
Saiu do eixo.
A cabeça do martelo passou ao lado do corpo e explodiu o resto de uma parede atrás dele em pedra, poeira e vigas partidas.
Ian passou por dentro do alcance.
A espada riscou o braço de Dan.
Corte fino.
Superficial.
Os dois se separaram por um segundo.
Só um.
Dan girou o ombro e veio de novo.
Ian desviou.
A lâmina tocou as costelas.
Outro corte.
Na sequência, a coxa.
Depois o ombro.
Danurem continuou sorrindo.
Mas agora o martelo começava a chegar um instante tarde.
O sétimo golpe passou onde Ian havia estado.
O oitavo arrancou o resto de uma sacada vazia.
O nono abriu a rua ao meio.
Pedras saltaram.
Uma carruagem abandonada virou de lado.
Dan estava começando a perder o tempo.
E o preço começou a aparecer.
Ian surgiu no flanco.
A espada entrou mais fundo dessa vez.
Depois nas costas.
Depois atrás do joelho.
Dan virou no tempo errado.
O martelo cortou o vazio.
Ian atravessou a guarda e abriu outro corte na lateral do abdômen.
Danurem recuou um passo.
A mão foi instintivamente para o ferimento.
Os dedos saíram vermelhos.
— Que truque sujo está usando, Guardião?…
O sorriso continuava.
Mas agora vinha contaminado por irritação.
O braço do martelo subiu outra vez.
Mais lento.
Ian viu.
Os olhos azuis não vacilaram.
— Nada comparado a usar crianças em combate.
Ele entrou.
Um corte no antebraço.
Outro no ombro.
Outro cruzando o peitoral.
Quando Dan tentou responder, Ian já havia desaparecido do alcance.
A rua destruída agora parecia um campo aberto de guerra.
Fachadas no chão.
Carruagem virada.
Poeira subindo.
Madeira quebrada.
Pedra espalhada.
E sangue.
No centro de tudo, Danurem girava cada vez mais forte.
E acertava cada vez menos.
Ian, ao contrário, parecia gastar menos movimento a cada troca.
A névoa de Lys ainda cobria o beco quando Maelis abriu as mãos.
As chamas nasceram no centro do corredor em cone largo, varrendo o espaço à frente em arco que forçou a linha a recuar dois passos.
— Recuar!
A névoa evaporou no raio de três metros.
Lys fechou a mão.
A névoa e o gelo voltaram, mais densos, mais baixa, cobrindo o chão até a altura dos joelhos enquanto tentava compensar o buraco que o calor havia aberto.
Maelis lançou o segundo ataque pelo flanco esquerdo.
O fogo ricocheteou na parede de pedra.
A névoa evaporou de novo.
Lys não disse nada.
Mas os dedos dela fecharam mais rápido dessa vez.
O Caçador do flanco direito usou o intervalo.
Não avançou em linha reta, contornou pelo ponto onde a névoa havia ficado mais fina, usando a sombra da parede como cobertura, os pés no chão sem barulho, com a lamina fosca alinhada nas costas para não emitir nenhum sinal.
Elenys o viu.
— A direita.
Lys girou.
Tarde demais.
O Caçador já estava dentro do raio de névoa, o braço subindo em arco em direção à garganta de Lys.
Ela desviou o rosto. criando uma camada de gelo sobre o tronco.
O golpe pegou no ombro e estilhaçou o gelo em placas duras que bateram na parede.
Ela perdeu um passo para trás, a névoa ao redor pulsou de forma irregular por um segundo. O Caçador avançou mais um passo, segurando pescoço dela antes que ela recuperasse a posição.
Maelis atirou fogo no Caçador. o forçando a soltar o aperto e recuar antes que as chamas chegassem.
A névoa evaporou em dois metros de raio.
Outros dois Caçadores usaram o buraco.
Elenys ergueu uma parede de lama no caminho do primeiro.
O segundo passou pelo flanco.
Maelis girou para interceptar liberando chamas na passagem.
Lys ficou de pé, o ombro latejando, a névoa ao redor fragmentada em bolsões que não cobriam mais o beco inteiro.
Os Caçadores estavam mais perto. se aproximando lentamente.
— Para de abrir a névoa — a voz de Lys saiu baixa.
Maelis virou.
— E deixar eles entrarem?
— Eles já estão entrando.
— Então me dá outra opção.
— Me dá dois segundos.
— Não temos dois segundos.
— Me deixa usar a nevoa.
— A névoa não para ninguém.
— mas vai comprar tempo.
— Tempo para quê? nós não temos reforço vindo.
Lys abriu a boca.
Elenys se colocou entre as duas.
Não disse nada por um segundo.
Ficou olhando para o beco à frente, para os Caçadores reorganizando a linha, para o espaço que havia diminuído enquanto as duas discutiam.
— Dois metros — disse ela.
As outras duas pararam.
— Eles ganharam dois metros enquanto vocês falavam.
Silêncio.
Elenys não olhou para nenhuma das duas.
Continuou olhando para os Caçadores.
— Mantem a névoa baixa. eles estão tentando contornar pelos telhados usa fogo pelo teto. Eu vou cuido de para eles.
Uma pausa.
— Agora!
A névoa cobriu o chão até a cintura, densa o suficiente para esconder os pés e as pernas dos Caçadores que avançavam, e os deles próprios.
Maelis lançou fogo rente ao teto do beco e os telhados, não em cone aberto mas em linha estreita.
— Escudos em cima!
Mas o comando foi atrasado.
Um Caçador caiu.
Os outros dois do flanco recuaram um passo para fechar o buraco na linha.
Elenys sentiu o chão.
O primeiro Caçador a entrar na névoa pisou no ponto que ela havia preparado, a lama subiu rápida, fechou ao redor do tornozelo antes que ele percebesse, prendeu o pé no chão com força suficiente para desequilibrar.
— Estou Pre—
Lys lançou uma lança de gelo pelo buraco na névoa.
Atravessando a garganta do caçador.
A formação não parou.
Os que restavam fecharam o espaço dos que haviam caído sem hesitar, simplesmente avançaram, comprimindo o espaço disponível no beco de forma metódica e sem pressa.
Maelis atirou de novo.
O Caçador central ergueu o escudo de Ordo.
— Escudos!
As chamas pararam no escudo como se tivessem batido em parede sólida.
Outro avançou pela lateral enquanto ela tentava contornar o escudo.
Elenys ergueu lama.
Ele saltou por cima.
Lys congelou o chão sob os pés dele ao pousar.
Ele escorregou mas não caiu, usou o joelho para estabilizar, voltando a acelerar na direção delas.
Elenys empurrou Lys com o ombro.
O golpe da espada cruzou o ar.
Ele se reequilibrou.
E o que havia atrás dele chegou.
Lys sentiu antes de ver.
O frio nas costas.
O beco havia diminuído.
Não em metros.
Em opções.
À esquerda, parede. À direita, parede. À frente, cinco Caçadores em linha fechada avançando um passo por vez.
— Juntos! — Gritou um soldado.
Maelis estava ao lado dela, os braços levantados, as chamas menores do que haviam sido vinte minutos antes, não por falta de mana, mas porque cada vez que abria espaço suficiente para um ataque maior um Caçador entrava antes que ela completasse.
Elenys estava à direita de Lys.
A respiração dela era audível.
Controlada.
Mas audível.
Lys ergueu gelo.
O Caçador central avançou pelo buraco que o calor residual das chamas havia deixado.
Ela congelou o ar à frente.
Ele quebrou o gelo com o antebraço antes que solidificasse completamente.
a obrigando a recuar um passo.
Maelis lançou fogo pelo flanco.
O escudo subiu.
As chamas morreram nele.
Elenys ergueu lama pelo flanco oposto.
O Caçador oposto saltou.
Lys não tinha para onde recuar.
O fundo do beco estava a dois metros atrás.
Ela abriu os braços, a névoa e gelo expandindo em pulso único ao redor do corpo, o Caçador no centro atacando a formação antes dela antes que expandisse o suficiente.
O braço dele fechou no braço de Lys e puxou para perto demais
o Ordo pressionou a pele antes mesmo do aperto completar.
Dessa vez com posição melhor.
Ela sentiu a pressão no antebraço e a mana parar a circulação de forma abrupta, o campo de visão começando a piscar nas bordas, os dedos dela encontrando o braço dele e tentando criar gelo no contato direto.
O Ordo do Caçador dissolveu o gelo antes que solidificasse.
Maelis virou.
Os dois Caçadores restantes fecharam o espaço entre ela e Lys em dois passos.
Elenys levantou a mão.
O Caçador que havia saltado desceu o cotovelo no braço dela.
A lama caiu antes de chegar a algum lugar.
As três ficaram paradas por um segundo que durou tempo demais.
O Caçador que segurava Lys liberou mais ordo. anulando as magias conjuradas ao redor.
O som chegou antes da figura.
Uma lâmina cortando o ar.
O Caçador que segurava Lys levou o corte no antebraço até quase o cotovelo.
O sangue jorrou manchando o vestido de lys.
O braço cedeu.
Lys caiu para frente, tossindo, os joelhos encontrando o chão do beco antes que ela conseguisse estabilizar.
Ele virou, enquanto fazia pressão no coto.
Aisha já estava dentro.
— M—
Corte baixo, O abdômen abriu.
Ele ainda deu meio passo antes de perceber que não tinha mais força nas pernas.
O corpo ainda caía quando ela girou a lâmina.
O segundo perdeu a cabeça no mesmo movimento.
Maelis aproveitou a abertura para soltar um ataque a queima roupa carbonizando os dois.
Atrás dela, pelo arco de entrada do beco, mais figuras apareceram.
— Na Retaguarda!
Alexia entrou acompanhada por Selindra e Irren à esquerda.
Ela foi direto para o flanco que havia sobrado aberto depois que o Caçador havia entrado pelo centro, fechando o ângulo antes que a formação pudesse se reajustar. Gelo subiu no meio da formação, separando dois da linha antes que fechassem o passo.
Aisha aproveitou a brecha.
A espada cortou baixo, forçando o Caçador à frente a recuar o pé direito, e quando ele recuou ela avançou o passo que ele havia cedido, colocando o corpo no espaço antes que ele fechasse.
Outro tentou entrar pelo flanco.
Ela desviou sem olhar e contrataacou com o cabo da espada no maxilar. devido a falta de espaço.
O impacto estalou.
Ele perdeu meio passo.
Foi suficiente para Maelis acompanhar.
As chamas saíram laterais, baixas, varrendo o chão do beco em arco que forçou os dois Caçadores restantes a saltarem ou recuarem.
Um saltou.
O outro recuou.
Elenys fechou o chão sob o que havia saltado com lama antes do pouso.
O homem caiu de lado, o joelho batendo no chão do beco com som que ecoou entre as paredes.
Selindra entrou.
A lâmina encontrou a junção da armadura.
Entrou.
Saiu.
Sangue quente escorreu.
Aisha ficou de pé no centro do beco.
A respiração mais rápida do que o normal.
Os olhos ainda varrendo o espaço.
Lys se levantou do chão devagar, uma mão no pescoço, a outra encontrando a parede para estabilizar.
O beco tinha menos inimigos do que antes.
A formação já não era mais uma linha.
Era um recuo forçado.
Alexia avançou primeiro.
O gelo subiu do chão em lâminas curtas, obrigando dois a abrirem espaço entre si no momento errado.
Selindra entrou por esse intervalo.
Sem hesitação.
A lâmina dela não buscou disputa de força.
Buscou espaço.
Um passo dentro da guarda.
Corte limpo na junção da armadura.
O Caçador soltou o ar em um som curto, falho, antes de cair de joelhos.
Ela já não estava mais ali.
Girou o corpo, evitando a lâmina que veio pelo flanco e respondeu com um corte reverso no tendão.
O homem caiu torto.
Grunindo baixo
Irren não avançou junto.
Ficou meio passo atrás da linha.
Com a besta em punho.
Calculando.
O primeiro cristal saiu da mão dela em arco baixo.
Quebrou no chão entre dois Caçadores.
A explosão não foi grande.
Mas foi forte
Foi seca.
Suficiente para os arremessar para trás em lados opostos.
Selindra usou o vão.
Outro corte.
Mais sangue.
O segundo cristal veio logo depois.
Mais alto.
Explodiu na altura do rosto de um deles.
Fragmentos de luz e impacto curto.
O suficiente para cegar por um instante.
Selindra passou por dentro.
A lâmina cruzou o pescoço.
Dessa vez o som veio.
Garganta aberta tentando puxar ar que não vinha. sendo silenciado por uma flecha na tempora.
A linha que restava tentou se reorganizar.
— Recuar! Recuar! — alguém gritou, voz falhando no meio.
Outro respondeu mais atrás:
— Flanco! Fecha o flanco!
Aisha se manteve no centro.
Respiração ainda pesada.
Os olhos saíram dos Caçadores e foram direto para Lys.
— O que é isso?
Lys ainda apoiada na parede.
Respiração curta.
— Não sei…
Ela olhou para a saída do beco.
Depois para o caos na rua além.
— Mas… Aedin.
Uma pausa curta.
— Ele veio atrás do Ian.
A frase ainda estava no ar quando o chão tremeu.
Um estrondo.
Depois outro.
Mais pesado.
O som atravessou o beco inteiro, reverberando nas paredes estreitas.
Poeira caiu do alto.
O terceiro veio mais próximo.
Forte o suficiente para fazer a pedra vibrar sob os pés.
Da rua principal.

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