Índice de Capítulo

    O ataque veio rápido com o ombro.

    Usando o peso como arma, o chão rachando sob os pés com cada passada conforme ele ganhava velocidade cruzando o campo de destroços.

    Ian saiu do eixo.

    A massa de Dan passou a centímetros, o deslocamento de ar puxando a gola, e Ian entrou pelo flanco antes que ele terminasse o movimento.

    A espada buscou a lateral do joelho.

    Dan dobrou a perna no momento certo por reflexo, o corte pegou a coxa em vez do tendão.

    Mais fundo que os anteriores.

    Dan bufou.

    — Você é um desgraçado cheio de truques…

    — Finalmente entendi o porque te chamam de touro.

    Ian respondeu.

    Mas os seus olhos estavam analisando Dan.

    Dan atacava em três tempos quando usava o martelo com as duas mãos. Balanço, descida, recuperação. O terceiro tempo durava menos de um segundo mas era o único em que o flanco direito ficava completamente aberto.

    O problema era chegar lá com um joelho ruim e sem poder contar com a mana.

    O martelo veio lateral.

    Ian abaixou.

    A cabeça do martelo passou por cima, arrancou o que restava de uma grade de ferro de uma janela e lançou metal retorcido pela rua.

    Ian subiu, a espada entrando em arco curto que buscou a axila de Dan.

    Dan recuou o ombro.

    O corte abriu a manga da armadura e a pele abaixo.

    Superficial.

    Mas o terceiro em menos de dois minutos no mesmo braço.

    Dan olhou para o corte.

    Depois para Ian.

    O sorriso continuou.

    Mas os olhos fizeram algo diferente, desceram pelo corpo de Ian com o tipo de leitura que não era admiração.

    — Você é um ratinho chato de pegar hen.

    Ian ajustou o peso na perna boa.

    — Demorou para notar.

    Dan girou o martelo no ombro.

    Avançou.

    O primeiro golpe veio amplo — Ian desviou mínimo, deixando a cabeça do martelo passar a palmos do rosto, e entrou imediatamente pelo espaço que o balanço havia aberto.

    A espada buscou o flanco.

    Dan torceu o corpo alinhando o cabo do martelo.

    O corte pegou a lateral do abdômen em vez das costelas.

    O segundo golpe veio no retorno, mais rápido que o anterior.

    Ian não tentou desviar completamente, usou o antebraço da armadura de gelo para redirecionar, o impacto quebrando duas placas e empurrando o braço para cima, e a espada desceu pelo ângulo que o redirecionamento havia criado.

    Tendão do antebraço de Dan.

    Corte limpo.

    O martelo balançou meio centímetro fora do alinhamento no próximo movimento.

    Dan não demonstrou dor.

    Mas o martelo chegou diferente.

    Ian recuou dois passos e avançou pelo lado comprometido.

    A sequência que seguiu não tinha espetáculo.

    Braço.

    Coxa.

    Lateral.

    Braço de novo.

    Cada corte buscando o mesmo grupo muscular em ângulos diferentes, forçando Dan a compensar sempre para o mesmo lado, criando um padrão que o corpo de Dan estava aprendendo a antecipar.

    Quando o corpo de Dan aprendesse completamente, Ian ia mudar o padrão.

    Dan girou mais forte no sétimo golpe.

    O martelo passou onde Ian havia estado e destruiu o que restava de uma carruagem abandonada, madeira, metal e couro espalharam pela rua em fragmentos que Ian usou como cobertura para reposicionar.

    — Fica parado! — Dan bufou.

    — Tá nervoso?

    Dan veio de novo.

    Ian entrou pelo flanco antes do pico do balanço.

    A espada buscou o pescoço.

    Dan recuou o queixo por instinto, o corte passou a centímetros da artéria, abrindo a lateral do pescoço raso o suficiente para não ser fatal mas fundo o suficiente para ser aviso.

    O sangue escorreu rápido pelo pescoço de Dan.

    Ele ficou parado por um segundo.

    A mão foi para o corte.

    Ian entrou para matar.

    A lâmina desceu buscando a abertura na costela.

    E ele viu.

    Não a lâmina.

    O deslocamento.

    Algo entrando rápido demais pelo limite do campo.

    Ian abortou.

    O machado passou pelo espaço onde ele estaria.

    Aedin entrou pela lateral da rua destruída.

    Dan retirou a mão do corte.

    Os dedos saíram vermelhos.

    O sorriso se abriu.

    O tórax de Dan expandiu numa respiração longa.

    Os ombros baixaram dois centímetros.

    A empunhadura do martelo mudou, não mais as duas mãos, a direita recuou para o meio do cabo, reduzindo o alcance mas aumentando o controle.

    Sem anúncio.

    Ian não disse nada. Apenas focou nos arredores, tinha uma assinatura de mana estranha por perto.

    O Guardião estava no centro da rua com a espada de gelo na mão direita, o braço esquerdo latejando, o ombro direito enviando dor em pulsos que chegavam junto com cada batida do coração, e olhou para os dois.

    Dan à esquerda.

    Aedin à direita.

    — Guardião — disse Aedin.

    — Aedin. — Ian ajustou o peso. — Eu desconfiava que você iria querer lutar comigo, mas nunca achei que faria isso assim do nada.

    — Do nada? — Aedin falou baixo quase em um rosnado. — Você desonrou meu filho, atacou minha autoridade diversas vezes e agora mata meu conselheiro.

    — O que? mas eu não mat—

    Dan avançou com um golpe lateral.

    Diferente do anterior menos força bruta mais controle.

    — Agora ficou justo.

    Ian não tinha resposta para isso.

    Aedin não atacou imediatamente.

    Ficou onde estava, manteve a lamina do machado baixo, e esperou.

    Dan avançou primeiro.

    Ian desviou, buscou o flanco comprometido de Dan, e Aedin se moveu.

    O machado erguido no ângulo exato que transformava o contra-ataque de Ian num problema: ou completava o movimento e ficava exposto para Aedin e o machado, ou abortava e ficava no alcance de Dan.

    Ian abortou.

    Dan fechou o espaço. com um movimento curto e rápido do martelo acertando Ian no tronco que aproveitou o impacto do martelo para recuar.

    O segundo avanço veio mais rápido, Dan à frente, Aedin pelo flanco.

    A espada de Ian interceptou o martelo de Dan.

    O impacto quebrou o que restava das placas do antebraço esquerdo.

    A dor subiu brutal.

    Ian girou com o movimento para criar distância de Aedin.

    Aedin já havia antecipado a direção.

    O machado dele chegou no ângulo que Ian estava girando para dentro, forçando um bloqueio que custou mais do que deveria no ombro já comprometido.

    Ian recuou dois passos.

    Os destroços da rua estavam atrás dele agora, a carruagem virada, os blocos de pedra arrancados das fachadas, o metal retorcido da grade.

    O campo estava fechando.

    Dan avançou pela esquerda.

    Aedin pela direita.

    Ian buscou o centro.

    Dan não deixou — o martelo veio horizontal, baixo, forçando Ian a saltar ou levar no joelho já comprometido.

    Ian saltou.

    O joelho reclamou no pouso com o tipo de dor que faz o campo de visão piscar por meio segundo.

    Aedin usou o meio segundo.

    O machado dele chegou pelo alto e Ian ergueu a espada de gelo para interceptar.

    O impacto enviou a vibração pelo braço esquerdo até o ombro.

    Ian sentiu algo soltar na articulação.

    Ele recuou mais um passo.

    O bloco de pedra estava a meio metro atrás do calcanhar direito.

    Dan olhou para o bloco.

    Depois para Ian.

    — Ficou sem espaço, ratinho.

    Ian olhou para o campo.

    Para os destroços.

    Para as duas posições.

    Para o bloco atrás.

    Ficou de pé.

    A espada na mão direita tremeu por um segundo antes de estabilizar não medo, o braço chegando no limite do que conseguia sustentar com o ombro naquele estado.

    Ian não olhou para o ombro.

    Olhou para Aedin.

    Para Dan.

    Tentou puxar mana.

    Veio irregular.

    Instável.

    E então sentiu.

    De novo.

    Aquela assinatura.

    Fraca.

    Irregular.

    Movendo entre os destroços.

    Não fixa.

    Não clara.

    Errada.

    Dan não deu tempo.

    O martelo veio pelo centro, Ian ergueu a espada para interceptar e o impacto quebrou a lâmina de gelo até a metade, o cabo partindo, os fragmentos cortando a mão e o pulso antes de se dispersarem.

    Ian usou o que restava da lâmina para redirecionar e o impacto o lançou de lado entre os destroços.

    O joelho bateu primeiro.

    O corpo acompanhou.

    Quadril, costas, ombro e a lateral do rosto no chão de pedra rachada. num estalo seco contra a pedra

    Ele ficou um segundo no chão.

    O campo de visão piscou duas vezes.

    Se levantou.

    O gosto de ferro era constante agora, não em pulsos. Ele sentia o sangue descendo pela garganta de algum lugar acima que ele não tinha tempo de identificar.

    Aedin estava à frente.

    Dan fechando pelo flanco.

    E atrás, a mana irregular chegando rápida. ele virou o rosto e viu Eldrik.

    Dan tomou a frente obstruindo a visão, enquanto Aedin se aproximou chutando Ian contra o chão.

    Ian ergueu a palma da mão esquerda.

    A mana respondeu devagar e o gelo que nasceu na palma foi fino, laminar, camadas sobrepostas que Ian pressionou para fora em escudo achatado. Dan erguei o martelo cortando as rotas de fuga junto com Aedin, deixando um caminho livre para Eldrik que aproveitou a brecha.

    A lâmina encontrou o gelo.

    Resistiu um instante.

    Atravessou.

    Entrou pela palma.

    Abrindo caminho dentro do braço.

    Ian sentiu frio antes de sentir dor, o frio do próprio gelo que havia criado entrando pelo corte junto com a lâmina, e depois a dor chegou.

    A dor tão intensa que apagou tudo ao redor por um segundo.

    A lâmina parou no meio do antebraço.

    e o mundo pareceu desacelerar.

    Ian olhou para ela.

    Para o cabo da espada de Eldrik saindo da lateral do antebraço esquerdo.

    Para o fio de sangue que descia rápido pelo cotovelo e pingava no chão de pedra em cadência regular.

    Eldrik estava do outro lado da lâmina.

    Os olhos firmes.

    A respiração presa.

    Como alguém que havia feito o que precisava fazer, mesmo sem querer.

    Ian ficou olhando para o antebraço por um segundo.

    A espada ainda estava lá.

    Eldrik ainda não havia puxado.

    Ian levantou o olhar para Aedin, que começava a descer o machado mirando a cabeça de Ian.

    Para Dan que abria o sorriso ainda mais.

    Para o campo de destroços ao redor.

    Para o céu acima da rua destruída, normal, indiferente, com as nuvens que estavam lá antes de qualquer coisa começar.

    O joelho direito cedeu primeiro.

    Depois o esquerdo.

    Ian foi ao chão devagar.

    Não mas não caiu.

    A mão tocou o chão.

    A resposta veio atrasada.

    Lanças de gelo cresceram ao redor dele, irregulares, desalinhadas, forçando os três a recuarem meio passo.

    A espada no antebraço bateu no chão junto.

    O sangue chegou rápido demais.

    Dan não avançou. Pela primeira vez, não precisou..

    Aedin manteve o machado erguido… mas não deu o passo.

    Os olhos em Ian no chão com uma expressão que Ian não conseguia mais ler direito porque o campo de visão estava piscando com mais frequência agora cada vez mais escuro.

    A lâmina no antebraço latejava em cada batida do coração.

    Ian pressionou a testa no chão frio por um segundo.

    Respirou.

    O ar entrou difícil.

    Ainda.

    O campo de visão piscou.

    Mais escuro.

    Mais curto.

    Tentou mover o braço esquerdo.

    O braço não respondeu.

    Merda

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