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    Niko terminou de distribuir as cartas. Naquela rodada, a ordem estava clara: Evelyn era o small blind e Gwen, logo à sua esquerda, o big blind — ambas já haviam depositado suas apostas obrigatórias, formando o pequeno monte de fichas que servia de isca no centro. Niko, como o dealer da vez, seria o último a agir, mas antes dele, o peso da decisão recaía sobre quem estava à esquerda de Gwen.

    No pré-flop, Brigitte estava nessa posição e foi a primeira a agir. Espiou as próprias cartas por menos de um segundo antes de empurrar um punhado grande de fichas para o centro da mesa.

    — Cinco fichas! — disse, sem cerimônia. — Certeza que ganho essa. Minha mão tá ótima!

    Isso era metade do que tinha. Uma aposta pesada demais para uma rodada inicial — agressiva, confiante, quase provocativa. Combinava perfeitamente com Brigitte.

    Niko observou em silêncio. Aquilo não dizia absolutamente nada sobre a força da mão de Brigitte, mas dizia tudo sobre o estilo.

    Evelyn foi a próxima. Olhou as próprias cartas como se elas estivessem tentando fugir de seu campo de visão. Aproximou o rosto da mesa, estreitou os olhos… e então suspirou.

    — Eu não gostei disso aqui. — murmurou. — Desisto porque essas cartas tão me olhando torto…

    — Cartas não olham pra ninguém, bobona. — comentou Brigitte.

    — Essas olham… me odeiam… — rebateu Evelyn, ofendida.

    Gwen foi a terceira. Ela não olhou as cartas de imediato. Primeiro, observou o centro da mesa. Depois, os rostos. Brigitte confiante demais. Evelyn insegura demais. Niko neutro demais. Só então abaixou os olhos para a própria mão. Ainda sem olhar. Seu semblante não mudou. Gwen empurrou cinco fichas para frente.

    — Pago. — disse, tranquila.

    Por fim, Niko. Ele olhou as próprias cartas sem pressa. Puxou a borda: um dez e um oito, de naipes diferentes. Uma mão fraca, nada que justificasse qualquer entusiasmo.

    — Desisto. — disse, simples.

    Era a opção mais segura no momento. Seu objetivo não era vencer, mas apostar agora era algo idiota — além que seu orgulho não deixaria fazer uma jogada suicida.

    O dealer da mesa puxou três cartas do topo do baralho com o polegar e as virou no centro da mesa, uma a uma. O flop caiu sobre a mesa: dez, valete e dama, todos alinhados lado a lado — todos do mesmo naipe: copas.

    Por um instante, ninguém reagiu. Então, o peso da informação atingiu a todos. Todos, com exceção de Gwen, arregalaram os olhos. Isso era algo raro de se acontecer em uma primeira rodada de pôquer — 1 chance em 19 mãos. 

    Brigitte, apertou o punho sobre as cartas sobre a mesa. Ela segurava um valete de paus e um valete de ouros. No pré-flop, aquele par era uma fortaleza impenetrável, uma mão forte. Mas agora, com o terceiro valete no centro da mesa, ela tinha uma trinca — três cartas iguais.

    Mas o brilho vermelho e cruel das copas destruiu completamente sua barreira. Bastava que Gwen tivesse uma única carta de copas, qualquer uma, para que o trio de Brigitte se tornasse lixo. O que era um sonho de sorte havia se transformado, em um microssegundo, em um campo minado — semelhante às fronteiras de Luminara e Arvallia.

    — Heh… tenho certeza que ganho agora — disse Brigitte, a voz um tom mais agudo que o normal, tentando transformar a tensão em vantagem. — Você nem deve ter uma única carta de copas

    Gwen sustentou o olhar de antes, de olhos imóveis, como se ela fosse um ser peçonhento observando um animal dócil, fofo e orelhudo antes da caça.

    — Ah, não se preocupa com isso, eu tenho o Ás de copas e o nove de copas. — respondeu Gwen, o tom de voz tão casual quanto se estivesse comentando sobre o clima.

    O efeito da fala foi forte, por um instante foi como se o oxigênio tivesse sido drenado da sala. Evelyn soltou um “Heh?” confuso. Brigitte congelou no lugar, o sorriso amarelo de antes começou a morrer; seus olhos se fixaram nas cartas de Gwen como se ela tentasse confirmar a veracidade da informação.

    Até mesmo Niko, que tentava a neutralidade, foi pego de surpresa. Ele estreitou as pupilas, analisando o rosto de Gwen. Ninguém dizia o que tinha em uma mesa de pôquer. Ninguém entregava a própria mão com aquela honestidade suicida — a menos que fosse uma mentira descarada ou uma confiança absoluta de que o oponente já perdeu.

    — Q-quê?!

    Gwen, sendo a primeira a agir, não respondeu a garota. Apenas inclinou levemente a cabeça e bateu dois dedos na mesa, indicando o check. Ela estava passando a vez para Brigitte.

    Brigitte endireitou-se na cadeira. A confiança que tinha — frágil, que tentava sustentar a todo custo — segundos antes desabou, transformando-se em uma tensão concentrada. Aquelas cartas ajudavam sua mão, sim — o valete em específico —, mas também escancaravam riscos demais. Riscos grandes demais. Principalmente quando Gwen disse que tinha um Ás de copas. Se aquilo fosse verdade, ela já perdeu.

    Droga…”, pensou. “Eu apostei alto demais pra recuar agora… tenho que continuar…

    Ela foi a primeira a agir novamente. Tamborilou os dedos na borda da mesa, o som seco marcando os segundos que se passavam na própria indecisão. 

    “É um blefe dela! Certeza que é um blefe.”, concluiu. “Ninguém anunciaria as próprias cartas, ainda mais depois de passar a vez para mim. Eu não vou entregar as minhas cinco fichas de graça desse jeito!

    Respirou fundo, ainda tentando acreditar no que havia pensado antes. Então empurrou três fichas para o centro, agora mais agressivo.

    — Três. — anunciou, firme.

    Gwen não respondeu de imediato. Mesmo com a jogada aparentemente decidida, ela não se moveu. Olhou para as cartas abertas no centro da mesa. Depois, para Brigitte — avaliando mais a pessoa do que a aposta. Por fim, levantou os olhos para Niko. Não era um pedido de confirmação ou coisa do tipo. Era como se quisesse se certificar de que ele também estava vendo exatamente o que ela estava vendo.

    Então, com um sorriso curto demais para ser simpático e olhos arregalados, estranhamente imóveis, Gwen empurrou três fichas para frente.

    — Pago.

    Niko não comentou nada. Apenas puxou outra carta do topo do baralho e a virou. O turn revelou um rei de copas — o mesmo naipe das cartas anteriores. 

    Brigitte travou. O ar pareceu ficar pesado demais dentro do bar. O coração dela acelerou de um jeito desproporcional para um jogo amistoso. Aquela carta não apenas mudava a rodada — ela praticamente fechava todas as portas que ainda estavam entreabertas para ela.

    Ela levantou o olhar para Gwen, procurando qualquer coisa: um tique, um sorriso fora de hora, um excesso de confiança. Qualquer rachadura. Não encontrou nada. Gwen parecia… confortável. Não provocativa. Nem triunfante. Apenas confortável demais para alguém que não estivesse em vantagem.

    Brigitte mal teve tempo de pensar, ouviu dois toques na mesa — outro check. Olhou para frente, apenas para encontrar Gwen, sorrindo maliciosamente.

    — E-eu… — Brigitte engoliu seco. — Passo…

    Gwen não apostou nada. Não havia necessidades — não agora. Apenas inclinou a cabeça, aceitando a jogada da colega.

    Niko puxou novamente outra carta, já suspeitando que algo grande pudesse estar acontecendo ali. A sequência de coincidências, junto à tranquilidade de Gwen e seu anúncio de antes…

    Aquelas jogadas… será que…?”, pensou.

    O river foi revelado: Ás de ouros. O silêncio em seguida não foi um silêncio dramático — foi um silêncio vazio. Como se qualquer comentário fosse redundante demais para o que já estava escancarado na mesa. Brigitte olhou para as cartas da mesa, depois para Gwen. O rosto dela empalideceu de vez. Aquilo indicava…

    All-in. — disse Gwen, de voz baixa, empurrando o resto das fichas com um sorriso tranquilo.

    Brigitte olhou para o monte de fichas no centro, depois para as duas que restavam em sua mão. O “All-in” de Gwen não soava como uma aposta; soava como uma constatação. Na mesa, a sequência de Dez a Ás estava montada para qualquer um ver. Pelas regras, se ninguém tivesse copas, o pote seria dividido. Mas Gwen tinha dito que tinha as copas.

    O bar inteiro parecia ter ficado um pouco mais distante, o som das conversas abafado, como se alguém tivesse mergulhado sua cabeça em água fria. Algumas pessoas olhavam de longe o desespero de Brigitte, se perguntando o que estava acontecendo na mesa.

    Se Gwen estivesse mentindo, aquilo era a jogada mais suicida já feita em uma mesa de pôquer. Se estivesse dizendo a verdade… então Brigitte já tinha perdido desde o momento em que o flop caiu.

    — V-v–você está blefando… — murmurou Brigitte, a voz falhando a cada segundo. — N-ninguém faria essa j-jogada de falar as c-cartas que tem. V-você só quer que eu desista da sequência…

    Gwen não respondeu. Apenas inclinou a cabeça, mantendo o mesmo sorriso de antes, aguardando a jogada de Brigitte.

    — Eu pago! — exclamou ela, empurrando suas últimas fichas com um movimento brusco que quase derrubou a caneca de chope de Evelyn.

    — Woah! Ei, cuidado!

    Ela então virou suas cartas com um impacto seco contra a madeira: o Valete de Paus e o Valete de Ouros.

    — Eu tenho uma trinca de valetes e a sequência da mesa! — anunciou ela, buscando desesperadamente uma confirmação no olhar de Niko.

    Niko, porém, não olhava para Brigitte. Ele olhava para Gwen. Ele precisava da confirmação de suas cartas. Com uma calma que beirava o insulto, Gwen deslizou suas duas cartas para frente e as revelou. O Ás de Copas e o Nove de Copas.

    O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior. Foi um silêncio de choque. Ela tinha o Flush. Ela possuía exatamente o que disse que possuía desde o início do Flop. A honestidade dela tinha sido a armadilha mais eficiente e cruel que todos já viram em uma mesa.

    Niko sentiu um calafrio percorrer a espinha, suas íris estavam completamente contraídas. Ele havia comprado aquele baralho minutos atrás. Ele mesmo o embaralhou. Ele viu Gwen mal tocar nas cartas. Matematicamente, as chances de Gwen receber aquelas duas cartas específicas e o board abrir exatamente daquele jeito eram ínfimas.

    Não era apenas sorte. E, pela expressão de Gwen, nem parecia ser trapaça. Era como se a realidade tivesse se dobrado para que ela estivesse certa.

    — Muito obrigada! — falou a esotérica, já pegando as fichas de todos, que estava totalmente devastada. — Obrigada pelas fichas e pela diversão. Dez mais cinco, mais cinco, mais cinco… Trinta fichas. Nesse caso, acho que estou liderando a mesa, não é?

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