Capítulo 183 - O Banheiro III
Niko não respondeu. Não havia nada a responder. O comentário dela foi meio prático e meio provocação — típico dela. Mas a mente dele já estava em outro lugar. Já estava pensando em como iriam escapar daquele lugar.
Ele fechou os olhos por um segundo e tentou sentir a mais profunda expressão de si mesmo, sua Alma… Nada. Ou melhor — quase nada. A Alma estava lá, mas distante. Como uma brasa soterrada sob cinzas. Ele conseguia perceber a presença, mas não o calor. Era como tentar mover um membro adormecido: a intenção existia, mas a resposta vinha fraca, atrasada.
Ele respirou fundo e buscou sua marca… Silêncio. Não silêncio absoluto — ela existia, mas estava muito longe. Normalmente era como um fio invisível tensionado entre ele e algo maior. Agora parecia frouxo, esticado demais, quase fora de alcance.
Claro, ele poderia insistir naquilo, forçar ainda mais a Alma até conseguir usá-la. Mas levando em conta que da última vez que tentou isso teve fortes dores e fraquezas pelo corpo todo, além de que só de ter tentado sentir sua Alma e sua marca já estava começando a ter dores de cabeça, essa opção está temporariamente suspensa.
Ele abriu os olhos devagar. A foice não estava com ele. Estava do outro lado do banheiro, encostada próxima à porta metálica pesada, longe o suficiente para que, mesmo se estivesse o máximo possível, não alcançaria. Alguém a havia colocado ali de propósito — visível, mas inalcançável, zombando do albocerno.
O manto também estava longe. Dobrado de qualquer jeito, jogado sobre um banco próximo às pias. Fora do alcance da corrente. Fora do alcance até mesmo da própria Alma.
Ele testou o peso do pulso preso mais uma vez. O ferro era grosso, antigo, mas sólido. O suporte estava embutido diretamente na parede, parafusado dentro do concreto. Ele inspirou fundo.
— Você parece estar concentrado. O que tá fazendo? — perguntou Gwen, analisando sua expressão comportamental.
Ainda olhando para a corrente, Niko levantou o braço e o esticou o máximo possível.
— Não dá pra ficar aqui pra sempre. — respondeu o garoto. — A gente precisa escapar.
Sem alternativa melhor, ele envolveu o metal com as duas mãos e puxou com força. O som que saiu não foi um simples tilintar — foi um rangido grave, profundo, ecoando pelo banheiro como um estranho lamento. O suporte embutido na parede vibrou contra o concreto. O elo pressionou contra o pulso dele, raspando a pele. Ele puxou de novo, mais forte…
— É sério que você vai tentar isso? — Gwen falou, levantando-se parcialmente. A corrente dela também esticou, impedindo que se aproximasse mais. — Você vai acabar se machucando assim. Melhor parar.
Niko ignorou. Os músculos do antebraço saltaram sob a pele ainda pálida, tornando-a avermelhada. A corrente tremia inteira agora, transmitindo a vibração até a parede.
— Niko.
Apoiou os pés na parede. Outro puxão. O som metálico ecoou mais alto, quase agressivo.
— Eu disse pra parar!
— Cala a boca! — ele explodiu de raiva, o grito vindo mais bruto do que pretendia.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Ele respirava pesado. O pulso começava a arder. A cabeça começava a latejar novamente, lembrando-o do esforço recente para tocar a Alma.
— Tudo isso… — a voz dele saiu mais baixa, mas carregada — Tudo isso que a gente tá passando tá acontecendo por sua causa.
Gwen ficou imóvel.
— Se não fosse essa história de destino… de deuses… de “era pra ser assim”… — ele continuou, os dedos ainda agarrados à corrente. — A gente não estaria aqui.
Ela abriu a boca para retrucar, mas ele a cortou antes.
— Não… — ele balançou a cabeça, o tom mudando abruptamente. — Não foi culpa sua.
Ele finalmente soltou a corrente e retornou a sua posição inicial. O metal vibrou pelo local. Sentado, apoiado na parede, passou as mãos pelo rosto.
— Foi minha. Eu confiei cegamente em você. — um riso seco escapou, um riso sem qualquer expressão além do vazio. — Você me enganou com aquele truque de cartas. Você ganhou de todos no pôquer com uma sorte quase impossível. Me convenceu no terminal ferroviário quando encontrou um alvo só de olhar pra ele. E eu fui atrás. Porque achei que talvez… talvez você estivesse falando a verdade… — ele apoiou a cabeça nas pernas recolhidas. — Mas no fim você me enganou direitinho. Eu me deixei enganar por essa bobagem.
E então, ergueu o olhar para a esotérica.
— Eu fui um idiota.
Gwen deu um passo involuntário para frente, a corrente puxando-a de volta como um impedimento de se aproximar do rapaz, agora tão distante.
— Não fala assim. Os deuses e o destino são reais, Niko. Eles-
— Então por que estamos aqui, hein?! — ele cortou, direto.
O eco da pergunta pareceu maior do que o próprio espaço.
— Por que a sua sorte não deu certo antes?! — continuou ele, a voz firme agora, quase dura demais para um espaço tão fechado. — Ou os seus “deuses” te abandonaram bem agora? Bem quando nós precisávamos deles. Foi isso?
Silêncio. Não houve resposta imediata. O ar no banheiro pareceu mais pesado. Gwen não reagiu de imediato. Não houve nenhuma espécie de contra-ataque ou defesa. Ela simplesmente… parou.
Os olhos ficaram fixos nele por alguns segundos longos demais. A expressão dela não era raiva — era choque. Como se ele tivesse tocado em algo que não deveria sequer ser mencionado. Os dedos dela apertaram o elo da corrente até os nós dos dedos ficarem brancos. O corpo começou a tremer e uma expressão de raiva surgiu no corpo.
— OS DEUSES NÃO ME ABANDONARAM! — o grito veio, mas além de fúria, tinha algo mais profundo ali, tinha desespero.
Os olhos dela marejaram antes mesmo que ela percebesse. Então veio o rompimento.
— Eles nunca fariam isso comigo! — a voz quebrou na última palavra. — Nunca!
O peito dela subia e descia rápido demais, como se faltasse ar.
— Não depois de tudo que me deram! — continuou, os dedos ainda cravados na corrente. — Não depois de me darem o que ninguém me deu!
As palavras saíam irregulares, tropeçando umas nas outras. O tremor nos ombros não era teatral. Era real até demais. Era uma memória distante que ela odiava relembrar.
— Eles me deram comida… — a voz caiu alguns tons, perdendo a agressividade e ganhando tristeza. — Quando ninguém me dava.
O olhar dela já não estava ali. Não estava no banheiro. Não estava nele. Estava distante, além daquele lugar. Estava dentro de si, em suas memórias.
— Me deram um amigo quando eu não tinha ninguém. Me deram esperança mesmo depois de tudo que passei…
A respiração falhou por um segundo.
— Me deram a vontade de viver que eu nunca tive desde que eu vim a esse mundo.
O silêncio voltou, mas agora pesado de outra forma. Ela piscou, e duas lágrimas escaparam sem que ela tentasse impedir. As gotas caíram no chão, molhando o espaço seco.
— Você não conhece eles. — sussurrou. — Você não tem o direito de falar isso deles.
Niko permaneceu imóvel. A raiva que antes ele sentia no peito agora parecia pequena. Mesquinha. Ele percebeu, com um peso incômodo no estômago, que não tinha atacado apenas uma crença — tinha atingido aquilo que havia a salvado antes. Ele abriu a boca.
— Gwen, eu-
O som metálico da porta sendo destravada cortou a frase no meio. Um clique seco. Depois o arrastar pesado de ferro contra ferro. A grande porta metálica do banheiro se abriu para dentro com uma lentidão irritante e intencional, como se quem estivesse do outro lado não tivesse pressa alguma.
A luz do corredor entrou primeiro, desenhando uma faixa retangular no piso frio. Em seguida, uma silhueta ocupou o espaço. Era uma mulher.
Alta, com a postura reta demais para parecer natural. Os cabelos eram pretos, longos e lisos, descendo sem corte definido até a altura da cintura. A franja caía sobre a testa, longa o suficiente para quase tocar os olhos.
Os olhos eram castanhos, mas não havia calor neles. Eram distantes. Abaixo deles, olheiras marcadas escureciam ainda mais a expressão. A pele era clara, quase pálida sob a iluminação fria do banheiro.
Ela vestia um terno feminino escuro perfeitamente ajustado ao corpo — blazer estruturado, camisa branca de colarinho fechado até o topo e calça alinhada sem uma única dobra fora do lugar. Não havia acessórios chamativos.
Os sapatos de salto baixo tocaram o piso com um som seco e controlado enquanto ela dava dois passos para dentro.
O olhar passou por Gwen ainda trêmula. Depois por Niko, preso à parede. Ela inclinou levemente a cabeça, como se estivesse lidando com um incômodo menor.
— Dá pra calarem a porra da boca?

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