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    25 de maio de 2024, sábado. 

    “Esse lado do Shouto… eu nunca tinha visto, embora tenhamos passado pouco tempo juntos.” 

    — Vamos, garotos. Eu quero começar com um discurso…

    Natsu cutucou Fuyu e cochichou: — Lá vem o poderoso discurso Yamada… 

    Mas antes que pudessem rir, os olhos se encontraram com os do pai e ele engoliu em seco. 

    — Nossa família aperfeiçoa esses saquês há anos e, modéstia à parte, é o melhor de Nagano, talvez até do Japão… e do mundo. Haha! — A forma exagerada de rir era idêntica ao do Natsu e Victor arqueou a sobrancelha, surpreso. 

    O senhor Shouto era tão reservado na maioria do tempo, muito observador e falando apenas coisas pontuais. Vê-lo daquela forma tão despreocupada e relaxada era surpreendentemente inusitado. 

    — Todo o processo, da escolha de grãos ao reservatório e tempo de fermentação, tudo é precisamente calculado, pensado…

    Enquanto Shouto falava, ele acabou se empolgando demais e, em certo momento, lembrou-se de pegar os copos. 

    — O papai sempre se empolga com isso… se prepara, cunhado. — advertiu Natsu quando o pai estava mais distante. 

    — Tudo bem. 

    — É que ele se empolga muito. Demais. Extremamente! — O garoto Yamada mais velho desabafou. — Mas, no fundo, é muito único, divertido e memorável. 

    Victor assentiu, com um meio sorriso. 

    Shouto retornou com quatro pequenos copos, muito apropriados para tomar saquê de forma dosada. 

    — Victor. Natsu. Fuyu. Eu quero que saibam de algo: hoje é um dia muito especial para mim… — seu olhar cruzou com o de Victor, fazendo o brasileiro sentir um peso no peito. — talvez vocês dois ainda não saibam, mas saberão na hora certa. 

    — Ei! Vocês dois estão de segredinho?! — Natsu exclamou, indignado, olhando para o pai e para o cunhado. Fuyu seguiu o mesmo ritmo. 

    — Se acalmem! Tudo será no tempo certo. O mais importante é que hoje, agora, iremos receber o Victor oficialmente como um homem dos Yamada! 

    — Ah, sim! Então esse é o motivo das bebidas de hoje! Que maneiro! Seja bem-vindo, cunhado! — Natsu se levantou e passou o braço pelo pescoço de Victor. — Agora seremos, oficialmente, irmãos! Hahaha! 

    — É uma honra. — Victor respondeu cordialmente. 

    — Natsu, sente-se. Vamos começar. O primeiro saquê será o “Gohan no sai”. É uma edição da nossa destilaria, com sabor suave e limpo. — Shouto encheu os quatro recipientes. — Perfeito para uma entrada de cerimônia. 

    Os quatro pegaram e levantaram os copos: 

    — Saúde! — brindaram juntos, bebendo em seguida. 

    O líquido preencheu a boca de Victor com um aroma fresco, mas quente no final. As notas eram suaves e fáceis de identificar. 

    — Delicioso! — exclamou Natsu. 

    — Esse é o meu preferido! — Fuyu falou em seguida. 

    — Isso é porque você não aguenta os outros. Hahaha! — provocou o irmão mais velho. 

    Os dois começaram a rir da pequena discussão, com Victor pensando em como eles eram uma família unida e divertida. 

    Sentiu-se muito grato ao destino por ter conhecido Aki e ele riu, percebendo que estava supersticioso. “Isso é culpa sua, Aki.”

    Victor notou que o senhor Yamada saboreou a pequena dose de forma demorada, “Ele realmente gosta do saquê da família.”

    E vários pensamentos continuavam a preencher sua mente: “Ele fez toda essa cerimônia por causa daquele assunto?” Balançando a cabeça em negação, continuou: “Isso já estava marcado antes da conversa. Ou será que ele mudou de última hora?” 

    Porém, foi interrompido do devaneio quando Shouto começou a encher os copos com a segunda garrafa. 

    — Esse é o nosso saquê “Gohan no takara”, sendo uma versão mais valiosa do “Gohan no sai”. — explicou. — Ele é mais encorpado, passando por um processo de fermentação dupla. O teor alcoólico é mais alto, além das notas aromáticas serem mais presentes. 

    — Agora sim! Esse é o melhor! — Natsu exclamou. 

    — Mas não aguenta duas doses… — Fuyu resmungou, provocando-o.

    — Tá achando que sou você, idiota?! Quer apostar comigo que eu aguento três doses?!

    — Chega disso! Por favor, aproveitem a ocasião. O Victor está sendo recebido por nós como um homem na família Yamada. 

    Victor agradeceu, erguendo o seu copo: — Vamos brindar! Irmãos! Sogro! Saúde! 

    TINTIN! 

    Os quatro, dessa vez, viraram num gole só. O sabor mais marcante preencheu o paladar de Victor, acompanhado de um leve ardor saboroso. 

    — Esse é… diferente. Muito gostoso! — O brasileiro elogiou, sinceramente. 

    — Eu disse, cunhado! É o meu favorito! — O rubor nas bochechas de Natsu denunciava seu estado atual. Foram só três doses que ele tomou e já estava ruborizado. 

    Fuyu não estava diferente, mas diferente do irmão, havia tomado apenas uma dose de cada. Seu corpo até já parecia mais relaxado. 

    “Eles são realmente fracos para bebida… agora tenho certeza de que a Aki faz parte da família.” 

    Victor riu internamente, pensando nessa observação. 

    Mais algumas palavras foram trocadas, quando Shouto finalmente abriu a última garrafa. Diferente das anteriores, nesta era visível o carinho e o cuidado com que manejava o recipiente. 

    O vidro cristalino tinha um formato único. A etiqueta branca com bordas de um tom azul tinha o nome estampado em kanjis “Gohan no hihõ”. Entre os kanjis e o fundo, detalhes que lembravam jóias.

    — Esse é o nosso maior tesouro, Victor. O “Gohan no hihõ”. 

    Shouto despejou o líquido nos quatro copos, preenchendo-os com um tom âmbar, quase dourado. O aroma era perceptivelmente marcante, carregando um odor forte.

    — Aquela cachaça que vocês trouxeram para mim do Brasil tinha um sabor muito marcante. Eu diria que nisso, eram bem próximos, embora o teor alcoólico fosse bem diferente. — Shouto deu uma risada discreta, como quem está se divertindo com o assunto. 

    — Que bom que gostou. Então, vamos experimentar! 

    Natsu e Fuyu mal ergueram seus respectivos copos e já viraram a bebida para dentro da boca. Victor, porém, apreciou antes mesmo de experimentar. Seu olfato foi o primeiro contato. Quando bebeu, o sabor intenso inundou seu paladar, se enchendo da sensação alcoólica, porém, com notas que não sabia explicar. Tudo era harmônico e intenso. 

    Ele arregalou os olhos momentaneamente, surpreso com o que estava experimentando. E, realmente, lembrava algumas cachaças artesanais do Brasil no sabor. Uma leva de memórias o atingiu, tudo ao mesmo tempo e de forma meio confusa. 

    O gosto era nostálgico, embora nunca tenha experimentado antes. A sensação percorreu seu corpo, quando bateu com o fundo do copo na bancada. 

    — Eu… não tenho como explicar isso. Shouto, lembra da última vez que bebemos? — O Yamada assentiu. — Esse copo em especial… teve o gosto de nostalgia, mesmo sendo minha primeira vez. Bebidas são incríveis, não? 

    O sorriso do chefe da família se intensificou. 

    — Viu, garotos? É disso que eu falo. Hahaha! — Natsu e Fuyu, porém, pareceram nem ouvir. Estavam trocando risadas e conversa fiada. 

    Victor pensou em dizer algo para os cunhados, mas foi interrompido por Shouto:

    — Agora, oficialmente, você faz parte da nossa família, Victor. Estou muito feliz de ser você que Aki escolheu. Você é um homem responsável e maduro. E suas palavras são cheias de convicção, de determinação. Seja bem-vindo!

    — É uma honra, sogro. — Em uma das poucas vezes, Victor riu sinceramente, junto com Shouto.

    Os dois continuaram um diálogo sobre o provável futuro que Victor pensava com Aki, contando para Shouto sobre seus planos e metas. Shouto se sentia cada vez mais orgulhoso por Aki. 

    Falando sobre o futuro noivado, casamento e o que queriam alcançar juntos profissionalmente. E também sobre um longínquo futuro com os netinhos Yamada. Shouto se emocionou nessa parte, somente de imaginar isso. Natsu e Fuyu também se intrometeram na conversa nessa parte, ambos ansiosos para serem titios. 

    Com o brasileiro, a emoção não foi menor. Falar disso abertamente trazia uma sensação indescritível, em todos os sentidos, para ele. Lembranças preciosas e ao mesmo tempo dolorosas vinham como turbilhões na sua mente. Agradeceu a si mesmo por ter bebido e conseguir despistar os olhos marejados. 

    Depois da conversa que seguiu, Natsu e Fuyu se retiraram, dizendo que iriam dormir. Victor ainda ajudou Shouto a organizar a bancada, enquanto os irmãos sumiram do cômodo. Enquanto ainda conversavam, o celular de Victor tocou, informando-lhe do recebimento de uma mensagem. Ele foi conferir. 

    [ Que tal nos encontrarmos no bar Sakamoto? Hoje é meu último dia aqui em Nagano e acabei de conseguir uma proposta legal para vocês. Queria te falar pessoalmente e… a sós… ]

    Era Jeanne. 

    A última parte da conversa incomodou Victor profundamente, entretanto, aparentemente, era uma boa proposta que dizia respeito aos seus investimentos profissionais. Já não estava muito cedo e parecia até inapropriado um encontro profissional nesse horário. 

    Ele conversou com Aki. Mesmo que no fundo estivesse sentindo que não era uma boa ideia, acabou incentivando Victor a participar, já que poderia ter uma boa oportunidade. 

    Depois de se trocar e combinar com a mulher ruiva, ele saiu para encontrá-la. Ao passar pela sala, percebeu que Natsu e Fuyu já estavam escorados nas almofadas que ficavam na sala, desabados como dois embriagados. “Aqueles dois não aguentam nada mesmo.” Victor riu internamente.

    Antes de fechar a porta, enviou uma mensagem para Aki, que já estava no quarto com Haru:

    [ Estou indo. Deseje-me sorte! 😅 ] 

    Sabia que lidar com pessoas do tipo de Jeanne não era fácil e também sentia que esse encontro profissional parecia muito estranho.

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