Notas de Aviso

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    Após a praga dos Drak, há mais de dois mil anos, as instituições educativas eram restritas e controladas pelos estados; apenas àqueles treinados para exercerem uma função administrativa no reino, concedia-se permissão para avançar nos estudos. E, uma vez vinculados a esse destino, viam a fiscalização sobre suas atividades e vidas tornar-se asfixiante.

    Benk, amparado pelo orfanato de Souh desde que fora encontrado ainda bebê, abandonado nas estantes, entre os fragmentos de livros da biblioteca central de Palard, no mesmo prédio onde agora trabalhava, fora um alvo fácil dos recrutadores da administração pública.

    “Lei Real. Todo cidadão deve aprender um ofício. A sociedade é a soma e a prosperidade herdadas do trabalho diligente de cada um de seus conterrâneos.” Mas isso nem sempre implicava que a pessoa em questão pudesse escolher como e onde desejava dedicar sua compulsória parcela de gratidão.

    Em uma mesa próxima, uma das colegas de Benk estava concentrada, uma veterana na casa dos trinta. Quando ele percebeu uma brecha na conclusão do traço rúnico da moça, puxou assunto. Algo como: Moav, se é que esse era mesmo o nome dela. — Trabalha nesse setor faz tempo? Já trabalhou em algum outro?

    A moça era simpática quando estava satisfeita com o resultado do próprio trabalho, o que, por sorte, era o caso. Embora conversas paralelas não fossem comuns, não negou atenção ao jovem colega. Com gentileza, disse que sim.

    — Bons doze anos, estou aqui desde a maioridade. Mas antes auxiliava um mago. Ele era gentil comigo. Morreu há dois anos, sabe? Antes, eu gostava de organizar a papelada para dar seguimento às remessas.

    Ser escriba era uma função solitária. Quando podia, a mulher gostava de jogar conversa fora. Mas tudo tinha um limite; ela falava demais. Eu não preciso saber o que você comeu no almoço há doze anos, moça. Era o que ecoava no pensamento do rapaz.

    Benk deduziu o essencial e conectou os pontos com o que sabia. Ah, o mago Hord, ou algo assim, parecia um sujeito aceitável. Ele nunca interagira muito com o senhor, mas durante as orientações educacionais, as crianças eram apresentadas aos departamentos administrativos locais, e ele estava lá. Um tabelião de infusão e despacho.

    O prédio, dividido em quatro alas, destinava cada uma a um trâmite documental. Benk atuava na ala leste; Hord, o falecido tabelião, na ala norte, exercendo a exclusiva função dos magos, onde os circuitos rúnicos eram verificados, ativados e expedidos. A ala sul dava baixa e compilava as demandas documentais, que os dedos dourados transformavam em documentos oficiais. E por fim, a ala oeste era o setor que recebia, organizava e atualizava os prontuários de posse para encaminhá-los à matriz.

    Depois de incontáveis minutos, Benk, preocupado com o olhar impaciente do supervisor, perguntou o que realmente precisava saber.

    — E Hord era casado? Espero que sua família esteja bem! O escriba sabia que magos raramente casavam, mas o que importava de verdade para ele era onde as posses do falecido se encontravam.

    A voz nostálgica da mulher continuou.

    — Nossa, a esposa era uma pessoa maravilhosa. Imagino a tristeza que sentiu por perder o marido. Nunca casei, sabe, mas se um dia casar, quero ser gentil como ela. Uma mulher adorável… O limite começou a andar em direção aos prosadores.

    — Ei, Kabar, lembra da senhora Hord? — perguntou Moav, absorta em sentimentos. O supervisor não esperava essa espontânea interação. Benk, muito menos. Mas Kabar lembrava: o gosto do chá e o cheiro de bolo recém-assado percorreram seu paladar.

    A moça continuou. — Como será que ela está? — E pegando o gancho, o escriba inocentemente perguntou.

    — Não foram mais visitá-la? Ela mudou de endereço? Ah, esse rapaz não perdia uma oportunidade.

    A culpa e a saudade afetaram a expressão dos colegas de trabalho. Não, eles não mantiveram contato. Isso estava estampado em seus rostos.

    — Adoraria conhecê-la! — Benk jogou a isca na expectativa da resposta.

    Vamos? O que acha, Kabar? Que saudades — confessou Moav. E o supervisor, constrangido, assentiu.

    Minutos depois, o supervisor finalmente conseguiu escapar daquela teia de fofocas para que todos retornassem ao trabalho.

    E essa foi a muito bem-sucedida missão. Um dedo dourado clandestino adentrando a visita do chá.

    Após o expediente, Benk comentou de canto com o colega de profissão.

    — Você estava certo, Pelk, Hord orientou mesmo a mulher.

    Em Palard, segundo o calendário Real, as folgas eram escalonadas entre os turnos, e também podiam ser solicitadas com antecedência para assuntos pessoais ou emergências. Cada turno de trabalho durava dez dias e também era chamado de semana; um turno equivalia a uma semana. A cada dez turnos trabalhados, cinco folgas eram concedidas. Em média, um ano possuía cerca de quatro estações, cada qual delimitada por um período de nove turnos e um dia, totalizando trinta e seis turnos e quatro dias, o que costumavam chamar de ano ou fechamento sazonal. O povo da matemática tentava fechar a conta e dizia que essa estrutura de calendário não estava certa, mas os políticos e administradores preferiam manter os números em escalas mais agradáveis. — O que não bater, a gente dá um jeito — diziam.

    Nos setores burocráticos, metade do tempo do dia era o tempo do trabalho. O dia era segmentado em vinte partes.

    Benk agendou uma de suas folgas para que, junto de Moav e Kabar, grandes amigos oportunos, pudesse conhecer a senhora Hord.

    Dentre eles, Benk era o único que morava no alojamento dos acolhidos, um prédio que ficava a dois quarteirões do quadrilátero administrativo da câmara forte, setor conhecido como despacho da moeda e local onde trabalhavam. Moav morava a poucas centenas de metros de Benk, na pensão das damas, e Kabar, por sua vez, tinha uma pequena casa compartilhada com seu irmão, na rua ao lado do trabalho.

    A moça verbalizou alguma coisa em relação ao preço dos sapatos; o homem concordou. Os três estavam no carro de fogo, um transporte coletivo movido sobre trilhos, chamado também de grande metal. Na parte traseira estava acoplado um cristal de luz do tamanho de um tronco humano que oferecia à estrutura a energia de tração; um condutor sorridente, cuja profissão era mexer uma alavanca e passear durante todo o dia atendendo às ruas centrais da Cidade Capital Om, regulava a velocidade do comboio.

    Conhecida como a velha metrópole ou a maior cidade do reino antigo, atualmente abrigando mais de um milhão de pessoas, Om foi fundada pelo próprio Rei Dragão há mais de treze mil anos. Disputava o título de cidade mais velha do continente que nunca fora obliterada, com suas rivais em Ecala Moon e Midfig. Não fosse o fato de odiar sua compulsória profissão e rotina, Benk até poderia chamar o lugar onde morava de lar.

    A cada setenta e duas voltas de ampulheta, uma parte do dia era contada. A viagem durou cerca de trinta e cinco ampulhetas de tempo cidade afora. O sol despertara há cerca de seis partes — o equivalente, para leigos, a “cinco horas” da manhã —, e agora aproximavam-se da hora do almoço.

    Kabar comentou o quanto estava agradável aquele sol, nem muito forte nem muito fraco. Ele, um homem de cerca de trinta e cinco anos que, fora do trabalho, realmente não parecia um completo idiota. Pelo que disse, ele conhecia Hord desde quando havia sido recrutado como um escriba, era filho de um funcionário de carreira da casa da moeda, o mais jovem dentre os quatro irmãos, e por habilidade, quando jovem, conseguiu uma recomendação para instrução de ofício.

    Hord era um mago focado, e segundo o que Pelk relatou, odiava lidar com a papelada. No decorrer das sazonalidades, vários dos agora veteranos haviam sido requisitados por ele e, em troca do auxílio, Hord costumava convidá-los para almoços e confraternizações. Quando vivo, era uma pessoa relativamente querida.

    Moav, que ingressou na carreira por recrutamento, era filha de uma lavadeira e de um padeiro; desde pequena gostava de desenhar. Suas habilidades foram bem-vindas quando descobertas em uma exposição de gravuras no bairro periférico onde então morava. Era a mais velha dentre cinco irmãos. Agora os ajudava com o dinheiro conquistado no trabalho árduo. Era uma mulher um pouco esquisita, mas não era má pessoa.

    Benk observava a textura cinzenta dos prédios antigos enquanto caminhavam, respondendo com acenos vagos ou frases curtas às banalidades muito empolgantes introduzidas por Moav. Um bairro residencial de padrão médio. Percorreu com os olhos a calçada de ladrilhos bem encaixados, onde solas duras produziam barulhos nítidos. Havia muros baixos que as plantas floridas escalavam em busca da luz do sol. Algumas casas eram baixas, outras se elevavam em sobrados ladeados por árvores que sombreavam a terra úmida dos jardins.

    Fitou os colegas que o acompanhavam.

    — Mudou muita coisa da última vez que vieram aqui?

    A resposta foi negativa. Tudo estava como sempre. O mesmo cheiro de lençol secando ao vento. Pacato, sólido e cotidiano, deduziu o escriba.

    Após algum tempo de caminhada por ruas pouco movimentadas, chegaram ao destino. Uma casa de dois andares feita de pedras cortadas e antigas, ornada por um pequeno muro decorativo que parecia estar ali para sustentar as plantas, muito bem cuidadas, que saltavam de suas extremidades. Os ladrilhos, após o pequeno portão de entrada, terminavam na escada que antecedia a residência, mas também bifurcavam contornando o terreno. Uma casa de porte médio e bonita com uma pequena varanda, janelas peroladas e uma porta densa de madeira escura.

    Moav e Kabar bateram palmas, chamando por Lorem, viúva do mago Hord.

    O barulho da abertura do trinco foi seguido pelo olhar curioso da senhora, uma mulher na casa dos setenta anos, mas de postura jovial, apesar da idade. Usava um vestido longo azul-escuro, com bordados vermelhos nas extremidades e um xale tricotado em âmbar ao redor dos ombros. Caminhou em direção aos visitantes e após alguns instantes reconheceu Moav e Kabar. Os dois cumprimentaram a mulher, que retribuiu com um grande sorriso, abrindo o portão para que entrassem. Uma senhora simpática. Era a impressão que ela transmitia.

    O escriba concentrou os sentidos. — Meus sentimentos por sua perda, Senhora Hord. Meu nome é Benk, sou um colega de trabalho de seu falecido marido.

    Suas palavras foram muito bem recebidas. Com um caloroso aperto de mãos, os já conhecidos ex-auxiliares e o jovem dedo dourado adentraram a casa da senhora.

    Ela agradeceu a visita. — Faz tempo que não vejo vocês. Olha só, uma mulher feita, um homem formoso. Estão juntos?

    Benk observava o interior da residência, desde o trinco da porta, a disposição dos móveis, o sofá onde sentavam, o cheiro de cântaro e perfumes florais que se misturavam ao odor de temperos e pó.
    Enquanto Kabar negava encabulado e Moav gesticulava com um sorriso cético e desinteressado, Benk armou a prosa de perguntas necessárias. — Fiquei impressionado com o belo jardim, senhora Hord. Cuida dele sozinha?

    Ela agradeceu com real felicidade pelos elogios.

    — Oh, jovem, pode me chamar de Lorem. As plantas são minha paixão.

    E embalada pela gentileza, trouxe até os presentes um pequeno vaso de antúrio. — Vejam essas folhinhas brotando, não são lindas?

    Beliscando um dos biscoitos a ele oferecido, Benk seguia o embalo da conversa. — Não se sente sozinha após a partida de Hord? — perguntou o escriba. E Kabar, enquanto isso, elogiou o chá de lavanda que sorvia com gratidão.

    Lorem ajeitou o xale sobre os ombros e encolheu o corpo, demonstrando a solidão que seus olhos confessaram. Não é fácil.

    Benk compreendeu a estrutura geral da casa e ouvia atentamente os relatos da senhora sobre o peso da ausência. Primeiro, a varanda, que convidava a uma sala aconchegante e bem iluminada; mais ao fundo, uma cozinha e uma porta que dava acesso aos fundos da propriedade. Ao lado da cozinha, havia um cômodo, provavelmente um quarto, e escadas que levavam ao andar superior.

    Histórias sobre o mago começaram a ecoar espontaneamente.

    — Lembra da primeira vez em que Hord me trouxe aqui para um almoço? — questionava Kabar, marcando como o tempo passava rápido. Agora era um homem de trinta e cinco anos, devia muito ao mago, que lhe ensinara sobre o ofício e a vida.

    Embalada pelas memórias, Moav ofereceu seus próprios relatos, uma aprendiz mais recente, mas igualmente grata, que acompanhou o mago em suas tarefas diárias.

    O rapaz não fora um dos pupilos de Hord, então apenas podia concordar respeitosamente com o desdobramento do assunto.

    — E seus filhos? — sondou Benk. — Estão bem?

    Novamente a senhora deixou os sentimentos tomarem conta do semblante. Fygar. Ela sussurrou com amargura.

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