Índice de Capítulo

    A mulher o alcançou, pegando sua mão e o puxando com tudo, quase o fazendo cair.

    — Ei, você precisa vir comigo!

    — Pra quê? Pra salvar Elyndor? — indagou ele, indignado.

    — Sim!

    — Eu já disse que não quero.

    Ela piscou algumas vezes, processando o que ele dizia.

    — Por que?

    — Não tô afim.

    — Hã? — Ela genuinamente não conseguia entender.

    — Não, sério, eu já tenho problemas demais pra isso.

    — Mas é uma responsabilidade que você não pode recusar! — Agora era ela quem estava perdendo a paciência. — Você não tem esse direito!

    — Ah, mas eu tenho!

    — Não tem!

    — Já que vocês são capazes de fazer merdas como me enviar pra outro mundo, milhões de anos no passado, vocês podem muito bem arranjar outro cara pra ser herói!

    A mulher cutucou o rosto dele com o dedo indicador, pronta para disparar uma resposta, mas a voz morreu na garganta. Ela abriu a boca e fechou, repetindo o gesto algumas vezes.

    — A gente… a gente poderia, sim — murmurou ela, estreitando os olhos.

    — Então. Faça isso, e todo mundo sai ganhando.

    Ele achou que tinha vencido, mas… 

    — O quê?

    — Por que você não quer? — indagou ela, genuinamente confusa.

    — Porque eu não quero, simples assim.

    Ela piscou diversas vezes. 

    — Eu só não quero, tá ligado?

    — Isso… I-Isso não é resposta.

    — Você fez uma pergunta, e a minha fala a satisfaz sem precisar de complementos. É uma resposta.

    Ele tossiu, pressionando o punho contra a boca.

    — Eu estou com sede, se você não se importa. Preciso beber água. Me leve de volta para a Terra.

    — Certo… mas você poderia detalhar? Digo, é… — Ela não conseguia pensar em como dizer aquilo. — Poderia falar um pouco mais sobre os seus motivos?

    — Moça. Eu não tô afim. Já que isso não te convence, então me responda: eu seria overpower?

    — Over… quê?

    — Overpower — repetiu ele, girando os pulsos, as mãos gesticulando como se fizessem cócegas no ar. —  Mais poderoso que todo mundo. Roubado, apelão, cheatado.

    — Não…? Não, não seria. Não temos esse poder todo.

    — Então não quero. Outra: Eu teria chances de ser morto?

    — Sim, teria, obviamente — Esse garoto é retardado? — Por que não teria?

    — Então não quero. Não preciso te dizer mais nada. Se eu não vou ser o mais poderoso e posso morrer pra qualquer um, eu não aceito.

    — Mas não foi isso que…

    — Não importa. Eu simplesmente não vou — ele cruzou os braços, esperando que ela fizesse um portal surgir.

    — Certo. Certo, ok — disse ela, derrotada.

    — Você pode me levar pra Terra?

    Ela demorou pra responder, fechando os olhos por um momento.

    — Posso.

    — Me leve.

    — Certo.

    — — — 

    Tudo ao redor dele ficou claro. Foi como se lhe jogassem a luz de um grande farol. Se virasse para qualquer lado, tudo que veria era uma brancura de arder os olhos. No entanto, conforme piscava, a claridade ia diminuindo… 

    Diminuindo até que… 

    — Eis o grande Herói, meus senhores!

    Uma voz solene e grave ecoou pelo salão, seguida por palmas vindas de todas as direções. O garoto estava no meio de um grande tapete vermelho, no meio de um circulo mágico cujo centro continha uma estrela de cinco pontas. 

    Pessoas com roupas cheias de babados e jóias o encaravam com admiração, como se ele fosse brilhante. Não tinham aquele olhar febril que fãs reservavam às celebridades que cultuavam. Era um olhar de… 

    Esperança.

    “Ah, não…”

    Era isso mesmo.

    “A filha da puta não me mandou pra Terra.”

    Ele com certeza estava em Elyndor.

    — Grande Herói da Profecia, seu nome é… 

    E um papel surgiu do nada, caindo nas mãos do rei. Ele o abriu e terminou sua fala.

    — Seu nome é Túlio de Rosário Melo.

    O garoto estremeceu.

    — O Grande Herói da Profecia… e quem seria esse moço?

    — Hã?

    Ele virou o rosto e…

    — Mas que…

    Ele não estava sozinho. Seu irmão mais velho estava ao seu lado.

    — Téo?

    Téo, um jovem de vinte e seis anos, estava com uma camisa azul, com o desenho de um boi negro com uma estrela na testa estampado no meio. Ele gostava muito de boi bumbá, uma festa cultural do Amazonas, e ele torcia pelo boi Caprichoso.

    — Por que…?

    — Eu também não tô sabendo de nada — falou Téo, erguendo as mãos. — Eu tava no barco já, esperando a apuração.

    Faltava pouco para iniciar a apuração dos resultados, que definiria qual dos bois venceria festival daquele ano. 

    — Mano, onde a gente tá?

    — Elyn… 

    — Um momento — interrompeu o rei.

    Os magos da corte se reuniram ao redor do rei. Rostos apreensivos marcaram os nobres, que olhavam para eles com um misto de medo e admiração. Além das roupas, os rapazes… 

    — Pele marrom clara — murmurou uma dama, admirada. — Nunca vi nada parecido.

    — Eles realmente não são desse mundo — disse outra.

    — Será que são… mestiços?

    — Mestiços? Com que povo?

    — Não sei… 

    — …Com demônios?

    — Mas demônios tem pele avermelhada — rebateu uma, escondendo a boca com o leque. 

    — E eles são heróis invocados! Nunca o feitiço traria um demônio para o santo palácio real!

    Enquanto as nobres debatiam qual era a raça dos recém-chegados, os irmãos se aproximaram um do outro. Téo contou que o festival foi muito bom, e que era uma pena o Túlio não ter ido. Túlio, por sua vez, não conseguia entender como o irmão conseguia falar de boi, estando em outro mundo.

    Será que ele estava ali por um erro? Segundo a agente da STF, o herói era pra ser ele, Túlio. Ela disse que aconteceu uma interferência durante a invocação, e por isso ele foi mandado para o passado… 

    Se esse era o caso, talvez Téo estar ali fizesse parte do problema. Mas, por que ele?

    O rei ergueu a mão. Seu rosto, antes com um sorriso acalorado e olhos abertos,  estava fechado. Uma carranca séria surgiu no rosto dos outros magos, e o temor conta da nobreza. Túlio sentiu um arrepio.

    — O senhor, Túlio… o senhor é realmente o herói da profecia — disse ele, analisado o pergaminho que aparecera em sua mão. — O feitiço não mente. No entanto, nossos magos sentiram uma perturbação mágica, e a sua mana se perdeu na existência. 

    — O… o quê? — murmuraram alguns homens, aqueles com algum conhecimento mágico.

    — Dada a sua ausência, o feitiço, cremos eu e os meus magos, optou por um parente com as mesmas qualidades que as suas — Seus olhos rolaram para Téo. — O moço, aqui. Porém. algo aconteceu e você finalmente pareceu.

    — E… E o que isso quer dizer? — indagou uma cavaleira, coberta até o pescoço por aço reluzente, com uma capa azul escorrendo em suas costas.

    — Quer dizer… 

    O rei apertou os braços do trono, e se levantou.

    — Que teremos dois heróis da profecia.

    O salão explodiu em vivas.

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