Capítulo 132: Janeiro
O som do despertador ecoou pelo quarto que já começava a ser iluminado pelo luz da manhã. Mal conseguia acreditar que já era de dia.
O despertador continou tocando, mas eu me mantinha imóvel.
Na verdade, eu puxei ainda mais as cobertas, cobrindo parcialmente a minha cara.
Janeiro tinha chegado, e com ele vinha os dias mais frios do ano. Só a ideia de colocar os pés no chão já me deixava com ainda mais vontade de não sair da cama.
— Só mais dez minutos…
Meus olhos começaram a pesar novamente, e, quando estava quase dormindo novamente, a porta do quarto abriu com força. Junto daquele som… veio passos acelerados, e de alguma forma, nervosos.
— Ei! O que você ainda tá fazendo na cama, Shin! — Hana puxou a coberta de forma barulhenta. — Já tá na hora de sair!
Na hora que a coberta se foi, meu corpo todo congelou.
— Hana… devolve isso… tá frio…
— Não! Levanta agora! — ela parecia genuinamente brava, enquanto saía do quarto. — Eu não vou falar de novo.
“Que medo…”
Eu suspirei, completamente derrotado. Me levantei da cama, com dificuldade, e sentei. Meus pés tocaram no chão frio, o que causou um arrepio imediato no meu corpo.
Olhei para o lado de fora da janela. O céu estava nublado, parecia até que iria chover.
Era a temporada de chuvas, afinal de contas.
Enquanto escovava os dentes no banheiro e encarava meu rosto cansado, meus pensamentos começaram a vagar. Janeiro não era só o começo do ano. Era também o começo da contagem regressiva para o último semestre do segundo ano.
Os últimos momentos… antes do terceiro e último ano escolar.
Suspirei, e desci as escadas, não adiantava eu me perder em pensamentos naquele instante.
Tomei o café da manhã rapidamente, e me despedi de minha mãe e Hana. Mas, assim que abri a porta, o esperado aconteceu.
Um frio ainda mais intenso me envolveu.
— Que gelado…
“Quero chegar logo em casa e dormir…”
Os meus ombros começaram a tremer no mesmo segundo, enquanto o sopro gélido continuava batendo na minha cara.
— Você demorou, idiota! — Seiji resmungou quando me aproximei da esquina, tão bravo quanto a Hana. — Ia deixar a gente congelar aqui fora!?
— Bom dia, Shin — Rintarou me cumprimentou, calmo e com um cachecol no pescoço também.
Logo começamos a caminhar.
— Bom dia, foi mal, foi mal… — respondi, me juntando ao grupo. — Tá muito frio, eu só queria continuar deitado…
— Ah… Eu também… — Seiji murmurou, com um tom triste na voz. — Bem que a escola podia ser cancelada, né? Como que eu vou estudar com esse frio!?
Rintarou suspirou, com um pequeno sorriso no rosto.
— Nem se tivesse quente você estudaria — Rintarou murmurou.
— Se tivesse quente, ele ia reclamar que o calor tava atrapalhando ele — completei, rindo da cara de Seiji.
As férias de inverno haviam acabado, e então nossa rotina havia sido retomada. Caminhávamos pelo caminho de pedra da rua, com lojas já abertas e estudantes andando ao nosso redor.
Como sempre, conversávamos sobre algo trivial, enquanto vapor saía continuamente das nossas bocas.
Quando finalmente começamos a avistar o prédio escolar, alguém surgiu atrás de nós.
— Ei! Ei! Esp… Espera aí…!
Claro, só poderia ser Kaori.
Ela chegou perto de nós, com a respiração ofegante e um pedaço de pão ainda na boca. Seu cabelo… estava completamente despenteado.
Ela claramente tinha acordado tarde também.
Por um breve instante, ela olhou para mim com uma certa expressão que me deixou intrigado, mas logo ela desviou o olhar.
“Hm?”
— Kaori? — Seiji virou, surpreso. — Achei que você nem ia vir hoje.
— …Do que você tá falando? Eu não posso perder o primeiro dia de aulas! — Ela se juntou ao grupo, terminando de mastigar o pão depois de dar um soquinho no ombro de Seiji. — …Mas se eu pudesse, ficaria em casa deitada…
— Eu também… — Eu e Seiji dissemos ao mesmo tempo.
Rintarou balançou a cabeça, suspirando novamente.
— Vocês três realmente não têm jeito.
Rimos, enquanto continuávamos a caminhada até a entrada do portão da escola. Ao atravessar o lugar cheio de alunos, nos despedimos e seguimos para a nossa sala.
O ambiente era o de sempre.
O barulho típico matinal, com mochilas jogadas no chão e cadeiras arrastadas. Grupos falando sobre as férias e o que fizeram, junto de risadas ecoando na sala.
Assim que entramos na sala, Akira e Takeshi acenaram para nós.
— Ei! Aqui! — Akira chamou, animado demais.
Colocamos as mochilas nos nossos lugares e nos reunimos ali no pequeno grupo. Só que havia algo de estranho com ele… algo muito estranho.
Akira parecia… animado?
Geralmente, ele sempre ficava pra baixo nos primeiros dias de aula. E ainda considerando o bilhete da sorte dele…
— Eu já me decidi! — ele começou, batendo na mesa. — Vou ignorar aquele bilhete da sorte idiota! Aquilo não vai me parar, porque eu vou… confessar pra Yukari!
Eu quase me engasguei com a própria saliva.
— Ei, ei! Tá falando sério? — Eu perguntei, genuinamente surpreso. — …Quanta coragem.
— Pois é… mesmo com os sinais dos céus, ele quer tanto ser rejeitado assim? — Seiji murmurou pra mim, mas alto o suficiente para todos ali ouvirem.
Akira parecia ter ficado levemente bravo e avançou pra cima do Seiji.
— Cala a boca! — Começou a estrangular ele de leve, enquanto Seiji ria. — Vai dar tudo certo, fica vendo!
— Claro que vai… — Takeshi murmurou.
Não demorou muito para as nossas risadas serem cessadas pela entrada do professor na sala. Ele tinha o mesmo ar sério, e cansado, de sempre, carregando alguns papéis consigo que pousou na mesa.
Todos foram para os seus lugares, abrindo os cadernos e prestando atenção no que ele iria falar.
— Bom dia — ele começou, e a turma retribuiu. — Então… chegamos ao último semestre do segundo ano. Vocês já sabem que esse é o semestre mais curto, então comecem já a estudar como se o terceiro ano já tivesse começado.
“…..”
A turma soltou um murmúrio em conjunto, completamente desanimada. O professor deu um leve sorriso, e se virou para começar a escrever no quadro.
Enquanto alguns ainda abriam os cadernos, e algumas conversas baixas ecoavam, eu olhei de canto para a Yuki.
Ela continuava sentada ao meu lado, com aquela postura impecável de sempre. Com a mão no queixo e o braço apoiado na mesa, eu comecei a pensar sobre a mensagem do meu bilhete.
Aquilo… realmente poderia ser verdade?
“A pessoa que você estima apenas está esperando uma resposta sua.”
Eu realmente… teria que dar o primeiro passo.
— Ah, quase ia esquecendo. — O professor parou de escrever, chamando nossa atenção para a frente. — É um novo semestre, então temos novas posições. Vamos mudar os assentos.
A sala ficou agitada novamente… e eu também.
Alguns murmuram e outros comemoraram, mas enquanto isso, eu só olhava para ela ao meu lado.
— Professor, a gente tem que realmente fazer isso…!? — alguém resmungou na minha frente.
— Eu realmente preciso responder essa pergunta todos os semestres? — respondeu, tirando risadas de alguns.
Por um breve instante, nossos olhos se encontraram, mas ela acabou desviando rapidamente.
“…..”
Enquanto o professor começava a organizar os nomes no quadro, eu só conseguia torcer para que, mais uma vez, o universo me ajudasse e eu pudesse continuar sentado ao lado dela.

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