A subida até o morro foi mais lenta do que Arthur gostaria. O terreno era irregular, coberto por pedras soltas, raízes secas e arbustos baixos que arranhavam suas roupas sempre que ele passava perto. O sol batia direto em sua nuca, e o suor escorria pelas costas, grudando a camisa no corpo. Mesmo assim, ele não acelerou. Depois do encontro com o capitão, qualquer pressa parecia estupidez.

    Quando alcançou um ponto alto o suficiente, Arthur se abaixou entre duas pedras e olhou para o outro lado. Havia uma propriedade além do pasto e ele a reconheceu quase de imediato.

    Não era uma fazenda vasta, daquelas que se perdiam no horizonte, mas todo mundo na região conhecia o lugar. O que chamava atenção ali nunca tinha sido o tamanho das terras, e sim a construção. A casa principal era grande, cercada por muros baixos e jardins que, antes, eram bem cuidados. Mais ao lado, havia alojamentos de alto padrão, um salão amplo de convivência, piscina, área gourmet e uma varanda larga voltada para o campo. Arthur já tinha ido a uma festa ali uma vez.

    Lembrava das luzes acesas, da música alta, das mesas cheias e de gente andando de um lado para o outro. Na época, tinha achado o lugar exagerado. Bonito, mas exagerado. Agora, visto de longe, tudo parecia diferente. A piscina refletia o sol sem brilho nenhum. As portas dos alojamentos estavam abertas. Algumas janelas tinham sido quebradas. O luxo continuava lá, mas parecia vazio, tomado por uma sensação errada, como se a fazenda tivesse virado a casca de alguma coisa morta.

    Um movimento chamou sua atenção.

    Um goblin montado em um rato gigante surgiu pela estrada de paralelepípedos que dava acesso à propriedade. A montaria babava enquanto avançava, e o goblin gritava alguma coisa em sua língua áspera, um som agudo que atravessou o pasto mesmo à distância. Arthur abaixou um pouco mais o corpo. 

    A resposta veio quase de imediato. Dos alojamentos, da lateral do salão e de trás da casa principal, goblins começaram a surgir. Primeiro em pequenos grupos. Depois em dezenas. Alguns carregavam lanças tortas, outros facas, machados ou pedaços de madeira. Muitos vinham a pé, se empurrando e gritando uns com os outros. Outros montavam ratos gigantes, mantendo-se um pouco mais afastados, como se formassem uma linha própria dentro daquela confusão.

    A quantidade era maior do que Arthur queria aceitar. De onde estava, seria impossível contar com precisão. Mas havia centenas. Talvez duzentos. Talvez mais. Entre eles, algumas dezenas montados. O bastante para esmagar qualquer grupo pequeno que se aproximasse sem preparo. 

    Três criaturas se destacavam do resto. Hobgoblins, maiores e mais bem armados que os outros, posicionados em pontos diferentes da horda, como se cada um comandasse o próprio grupo.

    O peito de Arthur apertou, não de medo exatamente. Um hobgoblin valia muito mais do que os goblins comuns. Talvez mais do que vários montados juntos. Se conseguisse matar um deles, talvez o nível viesse. O problema era todo o resto. Atacar aquilo seria suicídio. Não importava o quanto a experiência parecesse tentadora. Não importava se havia três hobgoblins ali. Uma coisa era emboscar goblins isolados em um sítio abandonado. Outra era entrar sozinho em uma fazenda ocupada por uma horda inteira.

    Arthur observou a horda se espalhar pela frente da fazenda, tentando entender o que tinha causado aquela agitação. O goblin montado que havia chegado apontava para algum lugar além da estrada, gesticulando de forma desesperada. Outros gritavam de volta. Os ratos gigantes farejavam o chão, inquietos, arranhando a terra com as patas.

    Levou alguns segundos para entender o que estava vendo. Os goblins não estavam se dispersando ao acaso. Alguns sumiam atrás dos muros baixos. Outros entravam nos alojamentos e deixavam as portas entreabertas. Os montados se afastavam para as laterais da estrada, escondendo os ratos gigantes atrás das árvores e das construções menores. Até os hobgoblins se moveram pouco, apenas o bastante para ocupar posições de onde conseguiam enxergar boa parte da entrada da fazenda.

    Uma emboscada. A fazenda, que até pouco antes parecia tomada por uma horda inquieta, começou a parecer vazia. Não vazia de verdade. Vazia do jeito que uma armadilha parece antes de se fechar.

    Arthur olhou para além da estrada de paralelepípedos. No começo, viu apenas poeira. Depois, formas se movendo entre as árvores mais distantes. Um grupo vinha pela estrada, seguindo na direção da fazenda. Não era grande o suficiente para enfrentar aquilo, mas grande o bastante para fazer barulho e se sentir seguro.

    O peito de Arthur pesou quando reconheceu o cavalo. O animal vinha à frente, com o capitão montado em seu dorso. Outros soldados caminhavam ao redor, um ou dois ainda carregando armas de fogo. Marcos vinha mais atrás, segurando uma lança e observando as laterais da estrada com mais atenção que os outros.

    Por um instante, a primeira reação de Arthur foi simples e feia. O capitão tinha tomado seu revólver. Tinha tentado humilhá-lo diante dos outros. Tinha usado a palavra ceder para o cavalo e confiscar para a arma, como se nomes diferentes mudassem a coisa em si. Se aquele merda entrasse na fazenda sem perceber a armadilha, a culpa não seria dele. 

    O pensamento durou pouco. Marcos estava ali. E, gostando ou não, os outros ainda eram pessoas.

    Arthur olhou ao redor, procurando uma forma de avisá-los. Gritar não adiantaria. A distância era grande demais, e qualquer som alto poderia chamar atenção dos goblins antes de alcançar o pelotão. Correr até eles era impossível. Quando chegasse, já seria tarde. Atacar a horda sozinho para criar distração era só uma maneira estúpida de morrer. 

    Arthur mordeu a parte interna da bochecha e olhou para as próprias mãos. O sabre de ossos não refletia luz. A bandagem estava suja de terra e suor. O revólver tinha sido tomado. Mas ainda restava uma faca. 

    Ele a puxou devagar, tomando cuidado para não levantar demais o corpo entre as pedras. A lâmina não era grande, mas ainda tinha metal suficiente para pegar o sol. Arthur inclinou o fio, procurando o ângulo certo, até um pequeno reflexo saltar em direção à estrada. 

    Moveu a mão. O brilho cortou a distância em flashes curtos, mas nada aconteceu. O pelotão continuou o avanço. Arthur sentiu o peito apertar, mas então Marcos virou a cabeça. O homem parou por meio instante, olhando na direção do morro. Arthur repetiu o sinal, mais rápido, tentando apontar para a fazenda, para as laterais da estrada, para qualquer coisa que o fizesse entender. Marcos franziu o cenho e o cavalo também reagiu. 

    As orelhas do animal se ergueram de uma vez. Ele puxou a cabeça para o lado, inquieto, e deu um passo torto, como se tivesse sentido algo antes dos homens. O capitão puxou as rédeas com força, irritado. Arthur fez o reflexo piscar mais uma vez, mas era tarde. Um grito estourou dentro da fazenda.

    Os goblins saíram das sombras como se o chão tivesse se partido. Vieram dos alojamentos, de trás dos muros, das laterais da estrada e da varanda da casa principal. Os montados avançaram primeiro, cortando a passagem de volta com os ratos gigantes, enquanto os goblins a pé fechavam os espaços restantes em uma onda baixa de pele verde.

    O cavalo empinou e, dessa vez, o capitão não conseguiu controlar. O animal disparou para o lado, arrancando poeira da estrada. O capitão tentou se segurar na sela, mas o movimento foi brusco demais. Caiu de costas no chão, rolou uma vez e ficou por um segundo sem ar, enquanto o cavalo fugia em direção ao campo aberto, longe da fazenda e da horda.

    Marcos foi o primeiro a reagir. Talvez tivesse entendido o sinal. Talvez apenas fosse mais atento que os outros. Quando os montados fecharam a estrada, ele já estava um passo fora da linha do grupo. Cravou a lança contra o primeiro rato que avançou e correu para a lateral, tentando escapar antes que o cerco se fechasse. Alguns goblins montados o perseguiram. 

    Arthur perdeu Marcos de vista por um instante, engolido pela poeira e pelo movimento dos ratos. O restante do pelotão não teve a mesma chance. 

    Os soldados se juntaram em volta do capitão antes mesmo que ele conseguisse ficar totalmente de pé. Um deles disparou o rifle. O som atravessou o campo e fez alguns goblins recuarem por reflexo, mas logo a massa voltou a avançar. Facões e lanças golpeavam em todas as direções. Goblins caíam, mas outros passavam por cima dos corpos. A cada criatura derrubada, duas pareciam ocupar o espaço deixado. 

    O capitão se levantou cambaleando e puxou uma arma da cintura. O revólver de Arthur. Mesmo à distância, Arthur pôde reconhecer. O disparo acertou um goblin no peito e o jogou para trás. O capitão tentou atirar de novo, mas nada aconteceu. Apertou o gatilho mais uma vez, o rosto se contorcendo de raiva, e o revólver continuou mudo. O tambor parecia preso. 

    Por um segundo, ele olhou para a arma como se ela tivesse traído uma ordem. Depois gritou alguma coisa que Arthur não conseguiu ouvir e arremessou o revólver contra os goblins. A arma atingiu uma criatura no rosto, fazendo-a cambalear para trás, mas logo desapareceu no meio da confusão.

    Arthur apertou o cabo da faca até sentir a bandagem repuxar contra os cortes.

    Os soldados ainda resistiam, melhor do que Arthur esperava. Formaram um círculo torto, usando as lanças para manter os goblins afastados. No centro, o capitão gritava ordens, a voz quase sumindo sob o barulho da horda. Dois homens com facões seguravam a frente, abrindo caminho em direção à saída do lugar. Parecia que talvez conseguissem romper o cerco.

    Um rugido veio da fazenda. Os goblins comuns recuaram de uma vez, e os três hobgoblins avançaram até a frente da horda. Eles não atacaram. Se avançassem, os soldados ainda poderiam ter alguma chance. Era possível que, ao derrubar os líderes, os outros se dispersassem. 

    Mas os hobgoblins apenas pararam. Um deles ergueu o braço. Ao redor da estrada, goblins começaram a levantar as mãos. Facas, pedras e lanças curtas apareceram acima da multidão. Arthur entendeu antes que caíssem. Os soldados também pareceram entender, mas era tarde demais.

    Sob o comando daquele hobgoblin, uma chuva de lâminas desceu sobre eles. Os golpes, sozinhos, talvez não matassem ninguém. Mas eram muitos. Vinham de todos os lados, um atrás do outro, enquanto os goblins mantinham distância e os hobgoblins observavam como comandantes assistindo a uma punição. 

    Um soldado caiu de joelhos. Outro tentou cobrir o rosto e recebeu duas facas no braço. O capitão cambaleou, atingido no ombro, depois na perna. A formação se abriu. E, quando a formação se abriu, os goblins entraram.

    Outro soldado caiu para trás, tropeçando no próprio pé enquanto tentava se afastar das criaturas. Era jovem, talvez mais novo que Arthur. O facão havia escapado de sua mão, e dois goblins avançaram sobre ele com as bocas abertas, disputando quem chegaria primeiro. O soldado ergueu a mão. Não pareceu um gesto pensado, e sim desespero.

    Uma chama surgiu diante dos dedos dele e se abriu em um cone largo, varrendo a frente da formação. O fogo engoliu os goblins mais próximos em um instante. As criaturas nem chegaram a gritar direito. Seus corpos queimaram rápido demais, caindo no chão como pedaços escuros, ainda se contorcendo. Os outros recuaram. 

    Por um momento, a horda hesitou. Os goblins que vinham atrás pararam tão de repente que alguns foram empurrados pelos próprios companheiros. Outros arreganharam os dentes, mas não avançaram. Os ratos gigantes também se afastaram, inquietos, arranhando a terra e puxando as cabeças para longe do calor.

    O fogo abriu um espaço na frente dos soldados, e por um segundo pareceu que ainda existia espaço para esperança. Talvez conseguissem romper. Aquele garoto havia encontrado uma saída onde todos os outros só tinham visto o fim. Então algo cruzou o ar.

    Arthur só percebeu quando já era tarde. Uma clava enorme girou sobre a multidão e desceu com um som seco sobre a cabeça do soldado. O corpo dele caiu de uma vez, dobrando sobre si mesmo, esmagado contra o chão. A chama morreu junto.

    Do outro lado da horda, um dos hobgoblins abaixou o braço depois do arremesso. Os goblins ficaram imóveis por mais um instante. Depois avançaram de novo. Arthur não conseguiu continuar olhando.

    Afastou-se das pedras em silêncio e recuou até que a fazenda desaparecesse atrás da inclinação do morro. Ainda ouvia os gritos. Mesmo abafados pela distância, eles continuavam ali, misturados aos guinchos dos goblins e ao barulho confuso da horda se fechando sobre o que restava do pelotão.

    Não adiantava ficar parado assistindo. Aquele bando estava organizado e tinha líderes capazes de pensar. Isso era pior do que encontrar apenas um monstro forte. E se seu grupo topasse com a horda? Ou se aquilo resolvesse marchar para a cidade? Não precisava nem imaginar muito. Tinha acabado de ver o que aconteceria.

    A mão dele doeu sob a bandagem. Aquilo tinha deixado de ser apenas uma oportunidade. Se aquela horda continuasse inteira, cedo ou tarde alguém que ele conhecia encontraria o caminho dela. Arthur respirou fundo e obrigou a cabeça a voltar para o que tinha visto. 

    Os goblins tinham recuado do fogo. Não de forma organizada, não por ordem dos hobgoblins. Recuaram por instinto. Os que foram atingidos morreram rápido, e os que estavam perto hesitaram como se a chama fosse algo maior do que parecia. Até os ratos gigantes demonstraram medo. A horda obedecia aos hobgoblins, mas temia o fogo. 

    Arthur passou a mão pelos bolsos da jaqueta até encontrar um isqueiro. Antes da integração, era o tipo de coisa que qualquer um esquecia em cima de uma mesa ou comprava sem pensar em um mercado. Agora, parecia mais útil do que o revólver velho que o capitão tinha jogado fora no meio da poeira. 

    Ele olhou ao redor. O pasto estava seco. O capim amarelado se espalhava em faixas largas até os arredores da fazenda, dobrando com o vento. A região inteira passava boa parte do ano assim, castigada pelo sol, esperando qualquer descuido para virar notícia de incêndio na beira da estrada. Ele já tinha visto isso antes. Todo mundo já tinha visto. Uma ponta acesa de cigarro, uma rajada de vento, e o fogo encontrava caminho sozinho.

    O vento soprava na direção da fazenda. Arthur ficou parado, avaliando. Não precisava queimar tudo. Nem queria. Precisava apenas de confusão. Empurrar os goblins comuns para longe, quebrar a massa que protegia os hobgoblins e transformar aquela horda em grupos menores. Era arriscado, mas tudo ali era.

    Ele desceu pela lateral do morro, mantendo-se baixo entre os arbustos, até encontrar um ponto onde o capim seco começava a engrossar. A fazenda ainda ficava à distância, parcialmente escondida pela inclinação do terreno, mas os gritos continuavam. Menores agora. Mais espaçados. 

    Arthur não pensou no que isso significava. Ajoelhou-se, acendeu o isqueiro e protegeu a chama com a mão. O fogo demorou pouco para pegar. Primeiro foi só uma língua pequena, quase frágil, lambendo as pontas secas do capim. Depois o vento a puxou para frente e a chama cresceu. Logo começou a se espalhar em uma linha irregular. 

    Antes que o calor aumentasse, Arthur se afastou. Contornou mais um trecho do pasto e repetiu o processo em outro ponto. Depois em outro. Não ficou tempo suficiente em lugar nenhum para admirar o resultado. Só precisava garantir que o vento fizesse o resto. Quando voltou a subir o morro, a fumaça já começava a se erguer. Ele se abaixou entre as pedras outra vez e observou.

    O incêndio avançou rápido pelo capim seco em direção à fazenda. As chamas formavam uma faixa viva que consumia tudo pelo caminho, soltando calor e deixando cinzas para trás. A fumaça se espalhou pelo terreno, entrou pelos espaços entre as árvores e subiu em colunas grossas, manchando o azul do céu. Os goblins perceberam, e a reação foi imediata.

    Aqueles que estavam mais afastados da estrada recuaram aos gritos. Alguns correram sem direção, trombando uns nos outros. Outros largaram armas e tentaram se afastar das chamas, arrastando companheiros no caminho. Os ratos gigantes entraram em pânico antes mesmo de o fogo chegar perto, puxando as cabeças para trás, mordendo rédeas improvisadas, derrubando montadores que tentavam controlá-los. A horda começou a se desfazer.

    Por um instante, pareceu que o plano tinha funcionado melhor do que esperava. Os goblins comuns e os ratos gigantes se afastaram da fazenda. A frente da propriedade, antes tomada pela massa verde, começava a se esvaziar.

    Arthur localizou os hobgoblins, mas eles não estavam fugindo. Um deles entrou na casa principal. O outro recuou para dentro logo depois, curvando o corpo para passar pela porta larga. O terceiro apareceu alguns segundos depois, vindo da lateral do salão, e também desapareceu no interior da residência.

    Arthur observou em silêncio. O plano tinha funcionado. E, ao mesmo tempo, tinha criado outro problema. Os hobgoblins estavam isolados, mas reunidos dentro da casa. Enfrentar três criaturas grandes em ambiente fechado não era uma boa ideia. Mesmo assim, era a melhor chance que teria.

    Ele firmou os dedos no cabo do sabre e se preparou para descer. Estava prestes a se mover quando um galho estalou atrás dele.

    O som foi baixo, quase engolido pelo crepitar do incêndio e pelos gritos distantes dos goblins. Arthur congelou por uma fração de segundo. Mas girou o corpo, o sabre à frente do peito.


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