Capítulo 0 — Parte 5 — Um Trio Com Futuro
Em um local deserto, predominado por gramíneas e rochas, a mais de dez quilômetros da base da Ordem, Águia e Pato se preparavam para o duelo. Pato estava animado. Era uma grande chance de provar ser o mais forte.
— Que lugar esquisito você escolheu, Águia. Estou claramente em vantagem. Você deveria saber que eu sou capaz de extrair água de plantas, rochas e do subsolo. Mas, tudo bem. Em breve estaremos brindando sobre os cadáveres dos nossos inimigos, então perdoarei o seu erro amador. — ele provocou.
— Eu prefiro que seja assim, Pato. Você ainda não está no meu nível, então talvez um ambiente favorável para você equilibre o nosso duelo. — ela retribuiu, fazendo questão de demonstrar sua superioridade.
O jovem, apesar de astuto, tinha pavio curto. Ele então correu até Águia e criou várias bolas de água. Se fosse atingida, ela poderia ser envolvida pela água até se afogar. Porém, Águia se manteve calma e imóvel. Quando Pato as lançou, ela fechou os olhos e simplesmente começou a se esquivar.
— Impossível! Como consegue fazer isso?! Estou alterando a trajetória dos meus ataques a todo momento! — ele comentou, impressionado.
— Eu te disse, Pato. Você ainda não está no meu nível.
Águia então abriu os olhos e criou uma onda de fogo, evaporando a água. Com a aproximação das chamas, Pato se desesperou e tentou se proteger. Quando o vapor subiu, Águia notou que Pato havia se envolvido num denso escudo de água. Após desfazer sua defesa, ele ressurgiu usando uma roupa azul escura e segurando um enorme machado prateado.
— Parece que eu vou precisar me esforçar um pouco mais para te derrotar. Quem diria, não é? Você não é tão fraco quanto eu imaginei.
— Você está louca?! Isso é um treinamento! Se eu não me protegesse, estaria morto! — ele exclamou, irritado. — Sei que minha técnica é perigosa, mas eu não te mataria, tola! Nós somos aliados!
— Eu odeio ter que dizer isso, mas… Te matar é meu objetivo, Pato.
— Me matar?! Você está traindo a Ordem?! Você é louca!
Pato se virou e tentou sair correndo, mas foi cercado por um círculo de fogo. Atrás dele, o corpo de Águia brilhou em vermelho e, pouco depois, ela ressurgiu com uma roupa diferente. Um vestido laranja, que deixava parte das pernas à mostra e tinha um decote generoso. Em suas mãos, duas penas vermelhas, suas Relíquias Espirituais. Vê-las levou Pato ao desespero.
— Eu não tenho escolha. Te matarei e contarei tudo ao Falcão! Você nunca me enganou, Águia. Sempre esteve ao lado dele e era a queridinha de todos, mas seu sorriso falso nunca me convenceu. Agora eu sei quem você é! — ele disse, apontando o machado para ela.
— Terminou o discurso? Eu não estou fazendo isso por mim, e sim pelo Extra-Mundo! E você acabou de me irritar muito ao falar que meu sorriso era falso! O inferno não representa nada comparado à fúria de uma mulher!
Sabendo que o duelo seria até a morte, Pato segurou firme seu machado e o cravou no chão. A terra começou a tremer e enormes jatos de água vermelha como sangue brotaram do chão, levando tudo pelo caminho.
— Bem-vinda ao meu mundo, Águia. Considere-se abençoada caso sobre algum resto seu. Este é o meu… Red Geyser!
Águia sabia que essa era uma técnica poderosa, então ergueu suas Relíquias e se preparou para o impacto. Um jato de água a atingiu, criando uma enorme quantidade de vapor. Pato pensou ter vencido e sorriu, aliviado. Quando se virou, no entanto, ele sentiu um grande calor emanar atrás dele.
Quando se virou, ele soltou o machado e caiu de joelhos, sem esperanças. Onde Águia estava, formou-se um enorme furacão composto por águias de fogo. Podia-se ouvir o som que elas faziam enquanto voavam em harmonia.
— Você fez com que eu precisasse me exibir além do que estou habituada. Parabéns. Terei prazer em lhe mostrar um dos meus movimentos mais belos. Pato, antes disso acabar, quero que me perdoe. Eu nunca tive nada contra você, mas esse plano do Falcão nos destruirá e vocês não perceberam! Se eu não o impedir, os dois mundos mergulharão no caos!
— Calada! Eu não quero ouvir discursos! Acha que eu fiquei parado enquanto você falava?! Eu ainda tenho forças para lutar, Águia! — ele garantiu, cravando seu machado no próprio peito.
Seu golpe supremo estava carregado. Pato socou o chão com uma mão e, com a outra, desenhou espirais com seu próprio sangue. O chão começou a ceder e se tornar viscoso. A técnica de Pato se tratava de transformar toda a matéria do chão em água, criando um redemoinho que engoliu o golpe rival.
— Esse era o truque dele? Pois bem, acho que mostrarei o meu… — Águia pensou, enquanto suas pernas afundavam no chão.
O redemoinho a sugou violentamente e destruiu tudo ao redor. Pato não entendia a razão de ela não ter tentado escapar, mas seu ego falava mais alto e ele se convenceu de que Águia tinha reconhecido a sua derrota.
— Morra, vadia! Este é o meu golpe supremo, Ultimate Swirl! — ele gargalhou.
Após uns instantes, ele tirou o machado cravado no peito e ofegou. A dor causada pelo seu próprio golpe era enorme, mas ele não corria risco de morte. Quando se levantou, o chão tinha voltado ao normal e ele logo voltou a andar.
Quando ele estava prestes a deixar o local, a terra tremeu. Pato se virou, assustado, e viu uma enorme fenda se abrir no chão, com um brilho vermelho emanando de dentro dela. Em seguida, um golpe cortante nas pernas fez o rapaz cair de joelhos. À sua frente, Águia flutuava para fora da fenda, envolta por uma enorme aura vermelha. Ela era a personificação do fogo.
— Agora você me irritou, rapaz. Ter o orgulho ferido também é algo que as mulheres não gostam. Admito que você superou minhas expectativas, mas, como eu disse antes, você não está no meu nível. Isto que você vê é o trunfo que eu guardei especialmente para você. Adeus… Eagle Soul!
Águia avançou e girou em parafuso, fazendo as chamas ao seu redor se agitarem e aumentarem. Pato a assistiu impotente e, ao ser atingido, foi desintegrado. O rastro de destruição se alastrou por mais de cem metros. Mas, no fim, outra batalha se foi. Enquanto suas vestes voltavam ao normal, Águia suspirou e levou as mãos ao rosto, torcendo para os outros não terem falhado.
Enquanto isso, no velho campo de treinamento. O local era montanhoso, com muitas árvores e com presença de alguns animais selvagens.
— Não era melhor termos esperado até amanhã, Raposa? Eu não costumo reclamar, mas o nosso campo de treinamento não é muito iluminado. Treinar à noite é um pouco esquisito, não acha? — ele comentou.
— Hum… Eu costumo treinar em condições adversas para melhorar minhas habilidades, mas, se você não é capaz, pode voltar para casa e comer queijo. Não preciso de ninguém me atrapalhando. Espero que o Gato seja medroso como você. Eu queria mesmo passar um tempo a sós com meu Coelho.
Raposa deu um sorriso pervertido, mas logo foi interrompida pelo jovem Rato, que se sentiu menosprezado e se impôs à frente dela. Ele queria provar que era bom o bastante para treinar, mesmo na escuridão da noite.
— Não pense que se livrará de mim tão fácil! Você terá tempo para namorar quando passar por mim! Eu vou te mostrar que sou forte! — ele garantiu.
— Que chato. Achei que eu poderia me divertir com ele, mas isso ficará para amanhã. Enfim, siga-me. Nosso local de treino fica após a próxima montanha.
Enquanto isso, no meio da densa floresta, Coelho e Gato já batalhavam. Gato, bastante ferido, percebeu que tudo era uma armadilha tarde demais.
Coelho estava parcialmente confuso, pois Gato alternava constantemente a intensidade de vários campos magnéticos, afetando seu equilíbrio. Por outro lado, Gato estava com as pernas comprometidas e sabia que a chance de sobreviver era baixa, mas não desistiria. Enquanto ele se escondia atrás de uma grande árvore, Coelho se afastava para recuperar os sentidos.
— Eu devia imaginar que deixariam o mais complicado para mim, mas tudo bem. Já está perto do fim. Hey, Gato! Apareça logo e vamos acabar com isso!
Coelho na verdade já sabia onde Gato estava, mas falava isso para dar ao seu oponente a falsa sensação de que ainda estava seguro. Quando Gato tentou se arrastar para outra árvore, algo prendeu seu pé. Ao olhar para trás, viu seu pé enterrado no chão. Quando ele finalmente entendeu o que estava acontecendo, Coelho surgiu a poucos metros dele.
— O que achou? Eu inverti seu pé com o chão enquanto estava longe. Você não notou porque estava concentrado demais em me encontrar. Esta foi uma boa luta e você arrancou um pouco do meu sangue, mas isso acabou.
Coelho apontou para Gato e fez o corpo dele trocar de lugar com o tronco da árvore em que ele estava encostado. Assim, o corpo do jovem, já sem vida, estava todo retorcido em meio às fibras do tronco. Quando Coelho se virou, Raposa estava o observando sentada numa rocha, sem nenhum arranhão.
— Você está imundo, Coelho. Pensei que seria fácil para você. Enfim, agora que estamos a sós e temos tempo de sobra, que tal nós…
— Agora não, Raposa. — ele interrompeu. — É tentador, eu admito, mas nós precisamos ver como os outros estão.
Raposa se frustrou, mas sabia que ele estava certo e o ajudou a sair do meio da floresta. Juntos, eles foram para o mesmo local de encontro, onde Águia já os estava. Após vê-los, ela ajudou Raposa a cuidar do Coelho.
— Você devia ver como ele estava sujo e confuso. Meu bebê, se eu soubesse que teria trabalho, teria cuidado dos dois. Assim teríamos mais tempo para…
— Não me envergonhe na frente da Águia, Raposa. Que droga, você faz parecer que é muito mais forte do que eu. — ele se queixou.
— E eu sou! Por isso você sempre faz o que eu quero. — ela sorriu, confiante.
Coelho bufou e cruzou os braços, balançando a cabeça negativamente, mas logo sorriu ao notar que ela não desistiria daquela pequena discussão.
— Tudo bem, deixo você com o status de “mais forte”, por enquanto.
— Eu sabia! — Ela exclamou, com um sorriso convencido, e o abraçou.
Coelho mantinha um sorriso discreto enquanto a acariciava. Águia deu um sorriso fraco, pensando se um dia poderia dividir essa alegria com Falcão outra vez. No entanto, esses pensamentos foram interrompidos quando Lobo chegou. Era momento de discutir a estratégia para a próxima fase do plano.


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