Capítulo 111 — Minha Escolha
Algumas horas se passaram, e eles estavam próximos do abrigo de Duncan e do seu grupo. Coruja usou sua Manifestação para mapear a área e acabou por confirmar suas suspeitas: o local estava repleto de soldados do Império. Para que a posição deles não fosse comprometida, Keila foi induzida a coma pela Manifestação de Lília.
Tenebris e Raishi conversavam sobre qual estratégia adotar. Akane se sentia um pouco incomodada vendo isso, pois eles ficaram próximos em pouco tempo.
— Podemos flanqueá-los e pegá-los de surpresa. — sugeriu Tenebris, observando o local. — Isso evitaria um combate desnecessário e desgastante. O único problema é se os rebeldes decidirem revidar. Se isso acontecer, teríamos uma boa distração, mas também poderemos ser pegos.
Ele queria ser discreto, mas também sabia que, se continuassem ali, os rebeldes seriam esmagados em pouco tempo.
— Dadas as nossas Manifestações, as únicas capazes de criar uma boa distração são Lília e Ryn. — continuou Tenebris, com firmeza. — Para infiltração, temos Camily e Capuz. Salvar os rebeldes sem perdermos o Político e a Espiã é a prioridade.
— Mas a Manifestação dela é a mais útil aqui. — interveio Sora, jogando seu plano ao ar e fazendo com que Tenebris e Raishi o olhassem. — Se Keila a usar num dos guardas, teríamos alguém lá dentro para sabotá-los. O problema é que ela jamais trairia o Império, a menos que eu pudesse ter tempo o suficiente para convencê-la.
Sora então se aproximou enquanto Solum o acompanhava. Ele observou o cerco e respirou aliviado — aqueles padrões não pertenciam a nenhum dos Capitães.
— Esse é um cerco comum. — afirmou Sora, com aparente tranquilidade. — Não se preocupem, os rebeldes não estão encurralados. Se estivessem, eu me preocuparia, pois só há duas pessoas que adoram fazer isso: o Capitão Lux e a Capitã Nini.
— Não faremos isso. — retrucou Coruja, que não gostou nada daquele plano. — Você é um prisioneiro de guerra, por que acha que vamos confiar em você? Não vamos mandar um dos nossos junto de uma prisioneira que jamais trairia o Império. É o mesmo que mandar alguém para a morte certa e libertar um prisioneiro valioso.
Coruja então mostrou todo o local que suas corujas haviam mapeado.
— Existem três pontos cegos que podemos usar ao nosso favor. — ele apontava no mapa improvisado. — Um pelas árvores, o outro contornando aquela colina e, o mais arriscado de todos, indo pelas próprias trincheiras e proteções que eles fizeram. Levaria tempo até os surpreendermos, mas é melhor do que confiarmos no seu plano.
— O meu plano é mais seguro e eficaz. — insistiu Sora. — Por que não me deixa tentar convencê-la? Nem todos do Império são cruéis e gananciosos como você pensa. Keila pode ter dito que não trairia o Império, mas isso pode mudar.
Sora queria a todo custo executar seu plano, o que aumentava a desconfiança. Mesmo odiando o Império como ele dizia odiar, isso ainda poderia beneficiá-lo.
— Vocês precisam confiar em mim. — declarou, com fervor. — Se tem alguém que quer ver o Império cair, sou eu. Eu posso fazê-la nos ajudar, só me dê esse tempo.
— Tanta insistência os faz duvidar de você, Sora. — ponderou Raishi, fechando os olhos enquanto pensava na possibilidade de deixá-lo tentar convencer a espiã. — Você é nosso prisioneiro e há pouco tempo atrás estava com o Império. É querer que sejamos muito ingênuos para aceitar seu plano, mesmo que você odeie o Império. Sequer sabemos qual é sua Manifestação. Mas, se realmente quer a nossa confiança, vamos pôr isso à prova. Você pode tentar convencê-la, mas não agora. Seguiremos o plano do Coruja. Camily e Capuz podem ir pelas árvores, Ryn e Lília pela frente para criarem distrações e Raya e mais alguém vão por trás. Quem poderia ir?
— Eu vou. — ofereceu-se Akane, sem hesitar. — Não vejo problema em ir com ela, e também sou muito boa de mira. Se algo acontecer, eu poderei nos proteger.
Se ela ficasse para trás, não faria nada e estaria segura. Não. Akane tinha que mudar isso. Ela queria mudar isso. Kamito não seria assim; ele se arriscaria sem pensar duas vezes, e era assim que ela precisava ser agora.
— Eu serei mais útil lá do que aqui, sem fazer nada. — completou, com determinação. — Não vou tentar nada arriscado nem tentar tirar minha própria vida. Me deixem ir.
— Espero que seja verdade, Akane. — disse Ruby, aproximando-se preocupada. — Já chega de baixas no nosso grupo. Até o momento, não temos informação de Ryruka e Yujiro, sem falar que Pombo e Harpia também não entraram em contato com Coruja.
Ruby tocou o ombro de Akane, que a olhou. Ruby notou que ela ainda mexia no pingente e apertou sua mão, fazendo-a parar.
— O que foi?
— Não quero que nenhum mal aconteça a você. — continuou Ruby, com sinceridade. — Então não tente ser um novo Kamito ou ocupar o lugar dele. Seja você mesma e use essa nova experiência para se tornar muito melhor. Eu confio em você. Pode ir.
Raishi e Tenebris concordaram com a decisão e revelaram os próximos passos. O plano era simples: infiltrar-se no acampamento sem serem vistos, enfraquecer as defesas e então iniciar um ataque de dentro para fora, dando aos rebeldes a oportunidade de atacá-los desprevenidos e sem chance alguma de reação.
Era uma vitória instantânea. Após a explicação, os grupos se prepararam para sair. Camily estava nervosa, então Akane sorriu para acalmá-la e Lília a acariciou.
— Eu também estarei lá, então não se preocupe.
Finalmente saíram. Raya e Akane tinham que controlar a colina e se aproximar do acampamento por trás, algo que levaria tempo e era bastante arriscado, mas seria bem mais prático. Elas eram a peça principal para o sucesso do plano. Enquanto se aproximavam do local, Akane não parava de tocar seu pingente enquanto pensava em acabar logo com aquilo para seu grupo se juntar aos rebeldes.
E então, sentiu um pequeno resquício da energia do Kamito e se espantou.
O coração acelerou. Poderia ele ter voltado? Entretanto, logo notou que o cristal do pingente brilhava e se lembrou do que Ruby disse: esses cristais armazenavam um pouco de energia por serem especiais. Logo sua felicidade e animação se foram, e ela voltou a encarar a realidade. Kamito não iria voltar, e ela precisava entender isso logo, mas não conseguia.
— O que foi? Você parou de repente. Viu algo que possa nos expor ou entregar nossa posição…? Akane? — chamou Raya, chacoalhando a companheira levemente pelos ombros. — Ei, você está bem? Você está pálida.
Assim que teve a sua atenção, Raya escorou-se em uma árvore.
— Você não consegue fazer isso, não é? — ela disse, com um tom de compreensão. — Não deixe isso te limitar. Sabe, uma vez alguém muito importante para mim acabou perdendo o controle. Ele ficou irreconhecível. Eu me lembro de ter pensado que ele iria me matar. Eu poderia ter desistido por achar que aquele era o meu limite e que ele nunca voltaria. Mas ele voltou, e desde então eu jurei a mim mesma que jamais deixaria que algo como aquilo acontecesse de novo.
— Não é isso. — respondeu Akane, com a voz trêmula. — Eu… eu só não consigo esquecê-lo. Não consigo acreditar que ele me deixou e fico esperando ele voltar. Ele prometeu que voltaria. Eu não quero mais ser tão dependente, eu preciso ser forte.
Akane aproximou a mão ao pingente, mas parou antes de encostar nele. Ela ainda estava apegada ao passado e ainda queria depender dele. Não podia deixar isso acontecer. Então, tirou o pingente do pescoço e o amarrou cuidadosamente no pulso esquerdo.
— Obrigada pela preocupação, Raya. Mas agora estou bem. — disse Akane, com determinação renovada. — Vamos lidar com esses imperiais e salvar os rebeldes!
— Você tirou as palavras da minha boca! — concordou Raya, com um sorriso. — Vamos. Eu percebi que há uma ronda de dois guardas naquela meia-parede. Eles sempre dão as costas no meio dela e caminham para as laterais. Podemos ir assim que eles derem as costas, mas temos que ser rápidas para alcançá-los.
Raya se aproximou cuidadosamente do local enquanto ficava de olho nos dois guardas, e Akane a seguiu com cautela enquanto pensava no que fariam exatamente. Assim que se encostaram na parede, Raya sussurrou:
— Eu pego o da esquerda e você o da direita. Não use muito a sua Manifestação para chamar a atenção dos outros, certo? Ao meu sinal, faremos isso.
— Entendido. Espero que funcione. — ela respirou fundo. — Já estou sentindo a aproximação deles, quando você dará o sinal? Eles estão quase aqui.
Akane olhou bem para Raya, aguardando pelo sinal. Os guardas se aproximaram, deram as costas e começaram a se afastar. Raya então deu o sinal e puxou o guarda da esquerda. Com a mesma mão que usou para cobrir a boca dele, ela liberou um gás corrosivo que o matou quase na hora. Quando o outro se virou, Akane criou uma caixa de energia ao redor da sua cabeça e a comprimiu até ele desmaiar sem fôlego.
— Uau… — Raya a observava com surpresa.
— O que? — Akane a encarou de volta. — Eu não sou tão indefesa quanto pareço. Sei me defender muito bem. Vamos logo, precisamos sabotar as defesas do cerco.
Raya concordou e enfim pularam a meia-parede. Assim que entraram, decidiram se dividir: Raya iria até a central de comunicação para destruí-la enquanto Akane cuidaria da vigilância. Assim que Raya se afastou, Akane invocou sua Relíquia e disparou uma flecha quase imperceptível para cima. Aquele era o sinal para os outros começarem a se mover.

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