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    Volume 7 – Quarto Destemido

    Nuvens pairavam no céu durante a marcha dos caçadores de demônios. Aos poucos, o firmamento se tornava mais nublado, escurecendo o horizonte, mas nada disso deteve o mestiço em seu caminho rumo ao quartel.

    Logo, gotas de chuva começaram a cair sobre o capim. Uma delas tocou-lhe o rosto, e ele ergueu o olhar ao céu por um breve instante.

    Sacou as espadas enquanto avançava com cautela. Os que vinham atrás observavam em silêncio, incertos sobre o que ele temia, mas nenhuma palavra foi dita; havia algo nele que os mantinha afastados.

    A chuva caía com mais força. Os cachos do mestiço se desfaziam aos poucos, colando-se à cabeça, porém nada quebrava sua concentração. Parecia pressentir um perigo à frente.

    O que faço? Essa opressão… forte demais.

    Olhou para trás, avistando os outros do grupo, e em seguida voltou-se adiante.

    O meu corpo… ainda não se recuperou por completo.

    Tentou mais uma vez ativar suas habilidades Iz, mas o esforço foi em vão. Sentiu o corpo estremecer e apertou as espadas com mais força, enquanto um nó lhe subia pela garganta. Engoliu seco. 

    A visão começou a se embaralhar, as formas ao redor perdiam contorno, e o ambiente se tornava cada vez mais sombrio. O som da chuva parecia distante, abafado, como se o mundo se dissolvesse à sua volta. 

    Piscou várias vezes, tentando resistir à vertigem, mas a escuridão avançava de maneira inevitável. Virou-se na tentativa de enxergar os que vinham atrás.

    Começou a girar sobre si, tateando o vazio. Ainda assim, os cheiros permaneciam os mesmos, o da terra molhada, o do ferro frio de suas espadas, o da chuva que ainda caía. Tudo cheirava igual, mas o mundo havia desaparecido diante de seus olhos.

    Fiquei cego?

    Algo gelado roçou seu ombro, acompanhado de uma voz que pronunciava seu nome. Por instinto, Izumi recuou, mas logo reconheceu o cheiro de Max e reforçou a certeza de que sua visão havia desaparecido por completo.

    — A minha visão…

    Preocupado, ativou “Cure Iz”, mas não obteve resultado. Persistiu e tentou de todas as formas, até mesmo ao falar, mas nada funcionava.

    Como as habilidades Iz mais básicas falhavam, lançou mão das mais poderosas, clamando por “Super Cure Iz!”, mas novamente não houve efeito. Os que estavam ao redor demonstravam preocupação, mas toda vez que se aproximavam, ele se afastava.

    Por fim, deteve-se de repente, resignado, e aceitou que naquele instante permaneceria cego para sempre.

    — Não pode ser… Hum?

    A visão, que se encontrava mergulhada na escuridão, começou a clarear aos poucos, trazendo uma tênue esperança ao mestiço. Contudo, o alívio durou pouco, pois a escuridão retornou.

    — Izumi, por um instante a sua aura ficou branca — disse Max.

    — Branca? — perguntou ele, intrigado. — Explica direito.

    — Foi como a sua aura preta brilhante… só que branca.

    Começou a refletir, mas nada surgia em sua mente. Jamais havia enfrentado algo parecido em toda a sua vida.

    — Cure Iz!… Essa sensação… 

    Sentiu uma nova onda de alegria. Mesmo cego, com suas habilidades restauradas, ainda podia lutar, apoiando-se no olfato e na audição além do comum. Testou todas as suas habilidades Iz e o Sen To Ichi, percebendo-se mais forte do que antes. Era como se a perda da visão tivesse sido um preço pago por algo maior.

    — Sen to Ichi 5%!

    Izumi aprendeu a controlar aquele nível de precisão em sua espada sem gastar tanta energia ou sofrer efeitos colaterais e manteve a postura por longos períodos. Ainda assim, desejava ir além.

    — Sen To Ichi 10%

    Sentiu um calafrio, como se algo tentasse dominá-lo. Num deslize, balançou a espada e cortou o chão ao meio, conseguindo interromper a técnica apenas depois do movimento.

    — Isso… foi perigoso… mas fascinante!

    Max aproximou-se, surpreso com o ocorrido, e perguntou:

    — Estás bem, Izumi? Teu olho está diferente.

    Izumi o encarou, curioso:

    — Meu olho?

    — Nããããooo! Seus olhos nããããooo!!! — gritava a mestiça, ao correr em pânico.

    Mesmo cego, percebia o que Ui sentia, como se pudesse realmente enxergar seu rosto. Pelo cheiro, intuía que seus braços estavam erguidos, prontos para um abraço que culminaria em lágrimas.

    Ao prever cada gesto, esperou que tudo acontecesse exatamente como sentia. O tempo parecia se arrastar em sua percepção, mais lento que o habitual, e quando o abraço finalmente veio, um sorriso se abriu em seu rosto.

    Exatamente como previ.

    Ela o apertou com força, sem chorar. Esfregava o rosto no peito dele e disse:

    — Mesmo assim… eu te amo demais, Izumi!

    O sorriso deu lugar à surpresa, e ele se perguntou como estariam seus olhos naquele instante.

    — Gosto mais do amarelo, mas vou amar os teus olhos pretos do mesmo jeito.

    Pretos, é? Até que não são ruins.

    O coração agitado de Izumi começou a se acalmar com o abraço e trazia lembranças de sua mãe o envolvendo nas noites frias antes de dormir. Entretanto, sem querer, levou a mão à cabeça e recuou um pé.

    Meus olhos ardem…

    Em seguida, percebeu uma energia negativa opressora que emanava de Ui e afastou-a rapidamente. Ajoelhou-se no chão, sentindo uma dor intensa. Ao erguer a cabeça, sua visão começou a mudar novamente. 

    Antes tudo era negro, mas agora podia enxergar a energia negativa das pessoas. Ao mirar diretamente em Ui, sentiu uma imensa força negativa fluindo dela, que fez seus olhos arderem ainda mais.

    A mestiça, preocupada, perguntava-se o que ocorria enquanto o ajudava a levantar, mas Izumi a afastou mais uma vez, como se a rejeitasse. Aos poucos, começou a se recuperar.

    Então, a energia negativa que enxergava desapareceu, e tudo mergulhou novamente na completa escuridão.

    O que está acontecendo comigo? O que aquela desgraçada fez com o meu corpo?

    Izumi encarou Loi com sede de sangue, pronto para matá-la; Dam, pressentindo, colocou-se à sua frente. O mestiço sacou as espadas. Então veio uma sensação estranha: algo penetrou-lhe a espinha e uma onda de rancor percorreu o corpo.

    Todos aqui são meus inimigos?

    Permaneceu incrédulo, sem conseguir acreditar no que sentia. Até então, acreditava que todos o poderiam enxergar daquele modo, mas Max e Ui seriam diferentes. Aos poucos, começava a aceitá-los, ao baixar a guarda em relação a eles. Ainda assim, tudo parecia uma mentira.

    Não, Izumi… não acredita nisso… no que sentes… é mentira… tudo mentira… não pode ser!

    — Izumi? — perguntou Max, preocupado.

    Aquele sentimento negativo voltado para ele se mostrava mais intenso em Ui e Max, fazendo-o duvidar da veracidade do que sentia naquele instante.

    Esquece isso… logo estarei de volta ao normal.

    Ativou Cure Iz, e de repente a visão retornou ao normal. Pôde ver os rostos de Ui e Max, marcados pela preocupação, o que ia contra tudo o que sentia na pele. O mestiço franziu a testa, inquieto, incapaz de compreender o que ocorria com seu corpo.

    — Os teus olhos voltaram ao normal, Izumi! — exclamou Ui. — Preto de novo!

    Entendo!

    Realizou diversos testes com suas habilidades Iz e o Sen To Ichi, repetindo-os várias vezes, enquanto todos o observavam com expressão de dúvida.

    Entendo! Quando uso minhas habilidades Iz, minha visão retorna. Mas, ao permanecer na forma base, sinto que minha aura, que antes me desgastava, começou a crescer dentro de mim, ainda que muito lentamente.

    Realizou mais alguns testes e voltou a refletir sobre tudo.

    Pelo visto, há uma fraqueza: cada vez que uso minhas habilidades Iz, minha aura é consumida, qualquer que seja a variação da habilidade. Entendo… terei que ter cuidado ao usá‑las.

    Ele voltou ao normal e virou em direção ao quartel enquanto pensava novamente:

    Terei que permanecer na forma base para que minha aura cresça mais.

    — Izumi? — perguntou Max.

    Ele levantou as mãos e as balançou, sinalizando para o seguirem. O líder começou a andar e pediu que os demais o acompanhassem.

    O mestiço sorriu, largo, e pensou consigo mesmo:

    Pensar em tantos detalhes nunca foi meu forte, mas… isso parece empolgante demais!

    Ele fechou os punhos e completou, determinado:

    — Ninguém pode me vencer!

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