Capítulo 146: Jenna
Pela mesma rota de Leylin seguiam não apenas Magos, mas também muitas pessoas comuns.
A maioria viajava em carruagens puxadas por cavalos e levava grandes quantidades de legumes e frutas na parte traseira.
Embora tratassem os Magos com muito respeito, era óbvio que não sentiam medo deles. No domínio dos Magos da Luz, os Magos pareciam ser reverenciados com frequência, mas ainda mantinham relações próximas com os civis.
Aquilo intrigava Leylin. Em um reino governado pelos Magos das Trevas, a simples menção aos Magos evocava terror e derramamento de sangue. Mesmo um acólito bastaria para afugentar uma cidade inteira.
“Pelo visto, é verdade que os Magos da Luz e os humanos comuns conseguem coexistir em harmonia!” Leylin voltou os olhos para um fazendeiro que tinha tirado o chapéu para cumprimentá-lo e acenou com a cabeça em reconhecimento.
“E…” Seus olhos azuis brilharam. “Não há nenhum traço de radiação no corpo dele. Isso tem relação com a Torre de Purificação?”
Na área sob o domínio dos Magos da Luz, altas torres brancas se erguiam a certa distância umas das outras. Elas conseguiam neutralizar a radiação dos Magos, algo vital para permitir que Magos e humanos comuns convivessem naquela região.
Quanto à área governada pelos Magos das Trevas, Leylin já tinha visto, na biblioteca da Academia da Floresta de Ossos Abissal, projetos da Torre de Purificação. Mas era evidente que eles não tinham inclinação para construir algo assim em seus próprios territórios. Além do custo de erguer uma torre dessas, Leylin imaginava que gostassem de governar os plebeus por meio de um regime sangrento e terrível.
Enquanto a montaria seguia em voo constante, Leylin sentia seus horizontes se expandirem sem cessar.
Ondulações verdes, quase como ondas de um oceano, tremulavam ao vento e exalavam uma atmosfera densa.
Ali ficavam as Grandes Planícies Teljose, que cobriam vários milhares de quilômetros quadrados e abrigavam diversas cidades com população superior a cem mil habitantes.
E a Cidade Teljose ficava no meio dessas vastas planícies, como o núcleo de toda aquela enorme região.
“A vegetação aqui é exuberante e abundante!”
Leylin soltou um suspiro sincero. Quanto mais se aproximava da Cidade Teljose, mais exuberantes ficavam as plantações, como se gostassem da presença humana. Havia até pés de trigo tão altos quanto um homem, algo que o deixou impressionado.
“Não é incrível? Você é um Mago de fora desta região?”
De repente, um pônei vermelho parou ao lado da montaria arreada de Leylin, e a Maga sentada sobre ele dirigiu-lhe a palavra.
Ela usava um traje branco de corte chinês e trazia no pescoço um colar de pérolas e pedras preciosas. Sua aparência era bastante comum, mas o rosto mantinha uma expressão gentil e sorridente.
Leylin já tinha experimentado aquela sensação algumas vezes.
Embora a Maga irradiasse ondas de energia de uma Maga de rank 1, tinha pouquíssima experiência real de combate. Havia apenas uma camada de feitiço inato defensivo recobrindo seu corpo, o que parecia bastar para ela.
“Isso mesmo, Senhorita. Venho de longe e sou um Mago errante! Pode me chamar de Leylin!”
Ele exibiu um sorriso inofensivo ao se apresentar.
“Meu nome é Jenna. Sou uma Maga local de Teljose. Você ficou surpreso ao ver tantas plantações, não foi?”
A Maga sorriu e puxou conversa.
“De fato. Raramente se vê trigo crescer tão alto, sem falar na quantidade…” O rosto de Leylin assumiu uma expressão intrigada.
“Esta é a bênção dos Magos! Daqui a pouco, você poderá vivenciá-la por si mesmo!”
Ela exibia uma expressão misteriosa, mas também cheia de expectativa.
“Estou ansioso por isso!” Leylin sorriu de leve.
Com um simples olhar, ele podia julgar que aquela mulher era como uma ovelha inocente, sem experiência em lidar com Magos de seu próprio nível e curiosa ao extremo sobre tudo.
Como uma jovem senhorita de grande família, longe dos seus.
Depois disso, Leylin deixou de observar esses detalhes, pois a Cidade Teljose surgia diante de seus olhos.
Em seu campo de visão, primeiro apareceu um ponto negro.
Em seguida, aquele ponto aumentou de tamanho, até parecer uma nuvem escura que cobria todo o céu.
Leylin ficou boquiaberto. Viu uma montanha alta e íngreme, atravessando as nuvens e pairando em silêncio sobre as planícies.
Ele tinha visto muitas grandes montanhas em sua vida passada, mas tinha certeza de que nunca tinha visto uma montanha tão enorme a ponto de cobrir os céus.
Além disso, naquela montanha havia inúmeras construções agrupadas em massa e pontos negros se movendo por suas muitas camadas.
Ao pé da montanha, uma muralha imensa cercava a base em formato circular. Pela estimativa visual, tinha algumas dezenas de metros de altura e era toda feita de granito cinzento. Parecia muito imponente.
No pico gigantesco da montanha, havia camadas espessas de neve. Fumaça saía do cume sem parar, como se ele fosse entrar em erupção a qualquer momento.
“Um vulcão ativo! A Cidade Teljose foi erguida sobre um vulcão ativo!” Leylin ofegou.
“Correto! Continue observando!”
A Maga Jenna apontou para a abertura do vulcão e riu.
Bum!
Incontáveis colunas de fumaça negra subiram, e o vulcão inteiro ganhou vida. Era como um gigante mítico rindo de forma sádica para o céu.
Um enorme pilar de fumaça disparou rumo ao alto, tingindo parte do céu de negro.
“Estranho. Por que não houve tremores?”
Leylin teve uma súbita compreensão. “Isso deve ser obra dos Magos da Cidade Teljose, certo?”
“Correto. Continue olhando!” Jenna apontou para as nuvens negras. “A bênção dos Magos logo descerá!”
Estrondo!
Uma chuva fina se formou, e pequenas gotas de chuva negra caíram com a brisa.
A chuva negra tocou o solo, tingindo toda a terra de cinza.
Logo, alguns fazendeiros correram para fora dos campos, ajoelharam-se diante de Leylin, Jenna e dos outros Magos, e bateram a testa no chão com respeito enquanto diziam: “Agradecemos aos nossos senhores Magos pela colheita!”
“Isto é cinza vulcânica?!”
O corpo de Leylin começou a emitir uma luz cinzenta, que envolveu a enorme montaria e impediu que a chuva negra a tocasse. Ele estendeu a mão direita para recolher uma gota de chuva cinzenta e começou a examiná-la.
“Parece que adicionaram algumas substâncias artificiais a ela. Lembra um fertilizante à base de nitrogênio!”
Cinza vulcânica já era naturalmente rica em nutrientes, o que favorecia o crescimento das plantas. Somada às outras substâncias que os Magos tinham acrescentado, não era de admirar que as plantações dali tivessem porte e rendimento tão espantosos.
“Isso mesmo. Os Magos controlam a erupção do Vulcão Teljose. Eles transportam e distribuem por igual a cinza vulcânica pelas planícies para fertilizar a terra. Quanto a recursos como energia geotérmica, os Magos os coletam e convertem em fonte de energia para a Cidade Teljose. Daí vem o outro nome dela, do qual eu gosto ainda mais: Cidade Sem Noite!”
Jenna explicou.
“… Esta tecnologia é simplesmente assombrosa!” Leylin murmurou. Comparado ao maior vulcão que tinha visto antes de reencarnar, o Vulcão Teljose era muito mais vasto. Para controlar um vulcão ativo tão grande, eram necessárias manutenção constante e formações mágicas, algo que superava tudo o que Leylin podia imaginar.
Além disso, controlar um vulcão como fonte de energia e local de moradia… Tamanho projeto e tamanha ousadia despertaram nele admiração por esses Magos.
“Mas perdoe minha franqueza. Já viajei certa vez para a região leste. Os Magos de lá não parecem se importar com as pessoas comuns…”
Leylin dosou sua curiosidade de maneira apropriada.
“Sim. Os Magos são um grupo de intelectuais. Agiram assim porque isso lhes trazia benefícios.” Jenna acenou com a cabeça. “A nosso ver, pessoas comuns vivas também são um tipo de recurso. Além disso, desde que haja gente suficiente, elas podem nos servir a qualquer momento, fornecer recursos e ainda permitir que semeemos nossas sementes, gerando acólitos de excelente qualidade e aumentando o sangue novo…”
“Por isso, em nossa região dos Magos da Luz, não há apenas Magos especializados em feitiços inatos de solidificação, usados para ajudar a prevenir todo tipo de desastre natural. Existem até Magos dedicados exclusivamente a administrar terras agrícolas e aumentar a produção das colheitas…”
“Isto… isto realmente é…”
Leylin exibia uma expressão chocada enquanto, em segredo, soltava um suspiro de alívio.
Embora Jenna parecesse pura e franca, ela ainda se considerava superior aos humanos comuns, de modo semelhante aos Magos das Trevas.
A única diferença entre eles estava no sistema.
Como no pastoreio de ovelhas, os Magos das Trevas tendiam a agir de maneira mais bruta e faziam a colheita em intervalos irregulares. Em comparação, os Magos da Luz adotavam um estilo de gestão minuciosa, cuidando de cada ovelha com atenção especial.
Mas ambos tinham o mesmo propósito: obter dos humanos comuns os materiais necessários.
Só por causa desse método, Leylin sentia que os humanos comuns da região dos Magos da Luz levavam uma vida mais confortável do que aqueles que viviam no Reino de Poolfield.
No entanto, embora Leylin pudesse lamentar as dificuldades enfrentadas pelos humanos comuns, isso não significava que cogitasse reduzir o poder e a autoridade dos Magos. Defender um ideal de igualdade entre todos os humanos era tolice.
Sem falar nos mistérios e na força do Mundo dos Magos, o próprio Leylin só acreditava em uma verdade: o status de alguém determinava o rumo de suas ações.
Leylin era um Mago e apoiava por completo os privilégios e o poder político que todos os Magos possuíam. Quanto àqueles que nutriam delírios de derrubar os Magos no poder, seriam mortos de imediato.
Como integrante de uma camada superior da pirâmide social, era natural defender com plena consciência os direitos e privilégios dessa classe.
É claro que também havia excêntricos que escolhiam trair os interesses de seus pares e acabavam abandonados por eles.
Leylin concluiu: a menos que surgissem sinais de que o poder dos Magos entrava em declínio, ele de modo algum trairia seus pares.
“Muito surpreendente, não é?”
Jenna riu. “Parece que você sempre viajou pela região dos Magos das Trevas. Mas, quando chegar à Cidade Sem Noite, precisará se ambientar e se adaptar às novas regras…”
As palavras de Jenna insinuavam que ela tinha descoberto a verdadeira identidade de Leylin.
Mas Leylin apenas ergueu a sobrancelha e não pareceu se importar nem um pouco.
A Cidade Teljose, conhecida como Cidade Sem Noite, era, por um lado, fruto do esforço acumulado dos Magos da Luz; por outro, sustentava-se com o apoio dos Magos das Trevas.
Se os Magos das Trevas fossem excluídos por completo, o comércio total da Cidade Sem Noite cairia de imediato em mais da metade!
Nenhum centro comercial rejeitaria a participação de um Mago das Trevas.

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