Capítulo 148: O Centro Comunitário
A fila avançou rápido, e em poucos minutos chegou a vez de Leylin.
Ele exibiu o anel que tinha obtido havia pouco e o mostrou ao guarda, que se afastou com respeito para deixá-lo passar.
A segunda zona era muito maior que a primeira, e as lojas ficavam bem organizadas, ao contrário do cenário da primeira zona.
Tum! Tum!
Os sapatos de couro ecoaram sobre o mármore.
Guiado por Sean, Leylin chegou ao centro da segunda zona.
O chamado centro comunitário ficava bem no meio dela. Era uma construção colossal que, pela aparência externa, lembrava uma palma humana invertida, pressionada contra o chão.
Cada um dos dedos formava uma ampla entrada.
Magos formavam longas filas e, como formigas, passavam sem parar por essas entradas.
“É aqui que os assuntos internos da Cidade Sem Noite são tratados. Isso inclui aluguel de moradias, solicitações de licenças para lojas, emissão de missões e assim por diante.”
Sean levou Leylin até a passagem do dedo indicador.
“Esta é a segunda passagem, voltada especialmente para Magos que desejam alugar moradias. É claro que também fornecemos agentes de imóveis, embora o preço seja mais alto e os aluguéis talvez não tenham a melhor qualidade…”
“Senhor, deseja alugar uma moradia? Venha ao estabelecimento do Velho Hork! Nossas instalações são completas, e temos até garotas-serpente e garotas-raposa para servi-lo!”
“Não! Venha para o nosso lado. Nossos preços são os mais justos daqui, e ainda estamos dispostos a presenteá-lo com dez criados humanos comuns.”
No instante em que Leylin entrou, atraiu a atenção de vários agentes, todos com ares de quem queria devorá-lo.
“Ele é meu cliente! Saiam do caminho! Andem!”
Sean guiou Leylin até uma passagem próxima, afastando as mãos afoitas que tentavam alcançá-lo.
Dentro da passagem havia uma escadaria em espiral. Quando chegaram ao segundo andar, Leylin percebeu de súbito como os arredores haviam ficado silenciosos.
Ao passar por um portal com a inscrição “Salão nº 762”, viu um grande salão abobadado.
No teto, havia um enorme lustre de cristal, de onde raios de luz multicoloridos se refletiam e projetavam uma imagem ilusória no chão.
Nas laterais do salão abobadado, havia muitos balcões e algumas cadeiras destinadas a quem aguardava. Alguns magos já estavam sentados, com os olhos vidrados, como se prestes a adormecer.
Na parede direita também havia uma tela negra. Palavras vermelhas surgiam nela e eram atualizadas sem parar.
“Apartamento nº 332, lado oeste da Rua do Salão Oeste, pequeno porte — custa 6700 Cristais Mágicos!”
“Apartamento nº 893, Rua Flamingo, médio porte — custa 85000 Cristais Mágicos!”
“Essas moradias são todas de segunda mão. Os preços aqui são consideravelmente mais baixos, e muita gente espera neste lugar, na esperança de ter sorte e conseguir um bom preço…” Ao notar o interesse no rosto de Leylin, Sean começou a explicar.
Leylin ficou sem palavras. A imagem de uma imobiliária de sua vida passada lhe veio de repente à mente.
“Se deseja alugar um apartamento, pode seguir para os balcões 1 a 15. Quer que eu fique na fila em seu lugar?”
“Muito bem.” Leylin fez que sim com a cabeça.
Embora tivesse uma boa soma em mãos, não queria gastar demais com um apartamento tão depressa, ainda mais antes de entender a situação da Cidade Sem Noite.
Ver todos aqueles preços absurdamente altos fez Leylin se lembrar dos acólitos da academia, tão desesperados por Cristais Mágicos que gostariam que um único Cristal Mágico valesse o dobro de seu valor real. A imagem lhe deu vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.
Havia muitos balcões no salão. Depois que Sean foi tomar lugar numa fila, Leylin encontrou um assento e começou a folhear uma das revistas deixadas sobre uma mesa.
“O Santuário das Rosas e os Ossos Brancos de Sangue Fresco estão em conflito. Ambos estão reunidos na Cidade Margaret, e o número de baixas é desconhecido…”
“Segundo relatos, Magos encontraram o culpado pelo tsunami no Mar Oriental: uma Baleia Ancestral. No momento, a Torre do Anel de Marfim Ennea realiza uma reunião emergencial para discutir contramedidas…”
“Compra-se grande quantidade de gemas purificadas. Diga seu preço.”
Havia muitas notícias na revista, embora parecessem desatualizadas. Além disso, a maior parte do conteúdo era composta de anúncios, patrocínios e afins.
“Senhor, é a sua vez!”
A voz de Sean chegou até ele. Leylin deixou a revista de lado e seguiu para o balcão 13, onde Sean o aguardava.
“Seja bem-vindo! Como posso ajudá-lo?”
Atrás do balcão havia uma jovem adorável, com um sorriso profissional no rosto, vestida com algo semelhante a renda. Parecia bastante jovem, e Leylin supôs que tivesse, no máximo, dezoito ou dezenove anos.
Leylin voltou o olhar para trás do balcão, onde notou de relance a bola branca atrás das nádegas bem torneadas da jovem.
“De todas as meio-feras, uma meio-coelha?” Leylin riu por dentro, sem esperar que o centro de fato contratasse uma jovem coelha.
“Desejo alugar uma casa. As instalações devem ser completas, de preferência com laboratório, e a formação de feitiço defensiva precisa atingir pelo menos este padrão…”
Leylin declarou seus requisitos.
“Por favor, aguarde um momento…” A jovem coelha folheou rapidamente a pilha de pergaminhos diante dela, fechando os olhos de tempos em tempos enquanto acariciava uma Bola de Cristal com base metálica, como se estivesse se comunicando com alguém.
“Temos muitas casas que atendem às suas exigências, mas, para alugar uma moradia na Cidade Sem Noite, exigimos que apresente prova de… Ah! Meu senhor! Minhas mais sinceras desculpas!”
Ao ver o anel prateado que Leylin exibiu, a expressão antes distraída da jovem coelha mudou por completo.
Ela se levantou e fez uma reverência, exibindo o corpo encantador e as coxas firmes, enquanto a cauda de coelho atrás das nádegas surgia de vez em quando. Aquilo dava vontade de estender a mão e agarrá-la. “Então era um Mago oficial! Por favor, perdoe o comportamento rude de Bayjess!”
“Não há problema. Fale-me das casas.”
Leylin recolheu a mão direita.
“Para um Mago oficial de tamanho prestígio, recomendamos fortemente apartamentos da terceira zona para cima. Há treze casas vazias que atendem aos seus requisitos…”
Enquanto falava, ela continuou a esfregar a superfície da Bola de Cristal azul.
Luzes arco-íris se condensaram diante de Leylin, e os traços multicoloridos formaram várias figuras tridimensionais.
Pela aparência, era um mapa da Cidade Sem Noite, no qual havia treze pontos brilhantes.
“Todas as informações dos apartamentos estão nele, e também há figuras que permitem visualizar a estrutura das moradias.”
Leylin passou os olhos pelo mapa. Todos os apartamentos ficavam na segunda zona ou acima, e a área total do terreno era bastante grande. Eram, no mínimo, villas1de médio porte, com jardins e outras instalações de lazer.
A Cidade Sem Noite tinha sido construída sobre uma montanha, e quanto mais alto se subia, mais valioso cada pedaço de terra se tornava. Num lugar como aquele, os privilégios e o estilo de vida extravagante a que os magos tinham direito ficavam especialmente evidentes pela área de terra a que tinham acesso.
Leylin ergueu a mão e pressionou o modelo da villa que lhe interessava.
Tlim!
Com um clarão de luz branca, o modelo se ampliou, e uma figura tridimensional apareceu diante dele.
“Localização da villa de médio porte: Cidade Sem Noite, Zona 3, Rua da Grande Baleia nº 56. Inclui laboratório, formação de feitiço defensiva, poço de reação de energia negativa…”
Ao lado da figura tridimensional, também havia uma moldura branca que exibia mais informações sobre a villa.
“Embora esta tecnologia se baseie em magia, é parecida demais com a da minha vida passada…”
Leylin suspirou de repente.
Embora os fundamentos dos dois mundos fossem extremamente diferentes, um baseado em ciência e o outro em magia, aquilo, de algum modo, despertou certa nostalgia em Leylin.
“Fico com esta. Quanto é o aluguel?”
Leylin apontou para um dos modelos e perguntou à jovem coelha.
“Senhor, o aluguel desta villa é de mil Cristais Mágicos por mês…” Ela espiou Leylin, como se quisesse dizer algo, e por fim tomou uma decisão. “Se o senhor se juntar a qualquer uma das forças que sustentam a Cidade Sem Noite, receberá uma villa de presente, e…”
“Muito bem. De qual família você vem?”
Leylin sabia muito bem que aqueles funcionários faziam parte das forças por trás da Cidade Sem Noite, e atrair talentos fazia parte do trabalho deles. Se tivessem sucesso, com certeza receberiam belas recompensas por seu serviço.
“A família Mordeken! Venho da família Mordeken!” A jovem coelha abaixou o colarinho e revelou uma marca em forma de palma sob o ombro.
A palma tinha um formato um pouco estranho. Em vez de ter cinco dedos, como seria normal, tinha seis.
As bordas da marca eram um pouco carbonizadas e retorcidas. Ao que parecia, um ferro em brasa havia sido aplicado diretamente sobre sua pele no passado. O contraste entre isso e a pele delicada da jovem coelha produzia uma beleza anormal.
“Entendo! Se eu precisar de algo no futuro, considerarei primeiro a família Mordeken!”
A expressão de Leylin não mudou; as tentativas dela pareciam não tocá-lo. Sean, por outro lado, quase babava diante da oferta.
“Aqui estão os Cristais Mágicos. Vou alugá-la por um ano.” Leylin lançou uma pequena bolsa de Cristais Mágicos para trás do balcão.
Depois de ser rejeitada, a expressão da jovem coelha se ensombreceu um pouco, mas ela logo forçou um sorriso.
Embora não tivesse conseguido convencer um Mago oficial a se juntar à família, ainda receberia algumas recompensas por aquela transação.
A jovem coelha pediu a Leylin o anel que ele trazia no dedo e o colocou num aparelho atrás de si, dentro do qual estava inscrito um símbolo exótico. Em seguida, devolveu-o a Leylin com respeito.
“O padrão da formação de feitiço defensiva da villa já foi marcado em seu anel. O senhor pode entrar na villa usando o anel e também realizar alterações na formação de feitiço…”
Depois disso, a jovem coelha entregou a Leylin um molho de chaves e um documento.
“Aqui estão as chaves dos aposentos da villa, bem como algumas informações importantes. Espero que tenha uma estadia agradável!”
Leylin recolheu os itens e saiu do salão com Sean.
“Ele realmente gastou mais de dez mil Cristais Mágicos de uma só vez…”
Sean ainda trazia uma expressão de incredulidade no rosto.
Embora tivesse ouvido falar que certos magos eram capazes de gastar quantias inimagináveis de riqueza, estar diante de alguém que tinha meios para isso ainda era uma sensação completamente diferente.
“Por ter conhecido um cliente tão generoso, minhas recompensas com certeza não serão pequenas. Talvez eu até consiga uma boa gorjeta…”
Sean começou a deixar a imaginação correr solta.
“Leve-me até a villa, e estes serão seus!”
Leylin sorriu e lançou alguns Cristais Mágicos que cintilavam com brilho tentador.
“Claro! Seu desejo é uma ordem!”
Os olhos de Sean brilharam, e ele disparou para a frente. “Por favor, siga-me! Não há um único lugar na Cidade Sem Noite que eu, Sean, não conheça!”
- “Villa” é um termo de origem latina/italiana sem equivalente preciso em português. Designa uma residência de campo de porte médio, maior que uma casa comum, mas menor e menos imponente que uma mansão. Por isso, o termo foi mantido no original.[↩]

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