Capítulo 2 - O Beijo da Morte
O homem que falava era alto e de constituição robusta com uma aura de confiança inabalável. Seus olhos eram castanhos e seus cabelos loiros dourados estavam perfeitamente aparados em um corte militar. Tinha a pele pálida como todos, devido a não exposição solar e seu rosto exibia um maxilar proeminente. Vestia armadura de couro marrom e um manto de cerimônia dourado.
— Vocês podem me chamar de Max, ou de capitão se preferirem, mas sintam-se à vontade para me tratar como um amigo, e não apenas como seu superior. Meus sonhos para depois de salvar o mundo são: Encontrar uma bela dama que esteja disposta a formar uma família comigo e construir uma casa no lugar mais ensolarado que eu encontrar hahaha.
O grupo riu junto de Max, aquele discurso realmente servira para quebrar o gelo.
— E então, quem é o próximo? — Ele perguntou olhando em volta.
Um homem de estatura igualmente robusta e muito parecido com Max levantou a mão, seus olhos também eram castanhos e seu cabelo era ligeiramente mais claro, bem aparado, mas um pouco menos curto. Suas vestes também eram parecidas, mas seu manto cerimonial era amarelo claro.
— Vá em frente!
— Eu me chamo Willbert Darv e tenho vinte e dois anos, esse cara é meu irmão mais velho. — Disse apontando para Max — Vocês podem me chamar de Will, eu não tenho tantas ambições como ele, mas espero levar uma vida emocionante até o fim, se possível, eu gostaria de participar de perigosas caçadas, como o povo da luz fazia nos livros de história, aqueles ursos gigantes pareciam coisa perigosa haha.
Devido às limitações logísticas da cidade após a difusão do miasma, a maioria dos animais que habitavam o mundo só podiam ser vistos nos livros de história da Cidade do Sol. Os únicos animais com os quais os humanos tinham contato atualmente eram os lobos gigantes, gado e ovelhas.
Depois da apresentação de Will, Elicia estava prestes a levantar a mão quando um pressentimento terrível arrepiou o cabelo de sua nuca. Por instinto, ela sacou sua espada curta e pôs-se em posição de batalha. Antes mesmo de qualquer um dos heróis entender o que estava acontecendo, a névoa negra penetrou pela barreira e o mundo tornou-se pura escuridão.
Elicia sentiu uma presença fria e desviou por puro reflexo de uma lâmina que cortou o espaço onde antes estava seu rosto. Ela se agachou e tateou o chão onde lembrava de ter deixado o lampião pouco tempo antes, ao agarrá-lo, lançou sua magia e um pouco de luz fraca se espalhou ao seu redor. Ela estava infundindo a luz com a característica de afastar a névoa.
Agora enxergando pouco, mas enxergando, ela lançou um pulso de energia invisível que dissipou um pouco da névoa. Elicia deu alguns passos, avistou a fogueira e lançou sua magia nela também, espalhando uma luz fraca pelo perímetro do acampamento. O que ela viu quando a luz se espalhou, porém, era melhor ter sido deixado na escuridão.
Ela ouvira sons de batalha enquanto estava cegada pela névoa, então esperava que os heróis estivessem se saindo bem naqueles poucos segundos que ela levara para espalhar alguma luz, mas quando a luz se espalhou, a maioria dos sons cessou.
Metade dos heróis estava no chão, sangrando profusamente de cortes profundos e dos tocos de membros que lhes faltavam, um deles estava sem cabeça e outro estava dividido verticalmente em duas metades por um corte limpo.
Foi quando ela viu o autor daqueles cortes, uma mulher alta com um belo rosto pálido de morte. No lugar dos olhos havia pura escuridão, ela trajava uma nobre armadura de prata faltando apenas o elmo, seu longo cabelo turquesa era preso em um rabo de cavalo e ela carregava uma espada enorme, tão larga quanto a cabeça de um homem e tão comprida quanto a altura de um. Ela empunhava junto da espada a imponência de um general.
Naquele momento, Elicia via aquela general fantasma agarrando o capitão Max pela nuca com garras negras e beijando-o apaixonadamente como a um amante. Quando o espectro separou seus lábios vermelhos dos lábios agora azuis do capitão, ela engoliu uma luz dourada e jogou Max alguns metros longe, aos pés de Elicia. Chocada, ela se agachou e inspecionou-o por um segundo, ele estava morto.
O capitão, o mais forte dos heróis, a pessoa mais confiável da missão, aquele ungido pelos sacerdotes da Cidade do Sol como portador da luz, estava morto. Ele morrera em menos de 30 segundos no primeiro acampamento há apenas um dia de viagem da cidade. Elicia desmontou diante daquela realidade, se Max estava morto, ela também morreria, Viktor morreria, todos morreriam.
Viktor… Elicia finalmente lembrou de seu amigo em meio aquele caos, ele estava ao seu lado quando aquele arrepio e instinto de lutar a dominara, e ela não o vira depois do início do ataque.
Ela se levantou num pulo e virou-se para procurar seu amigo, e sentiu um calafrio descer por sua espinha quando encontrou o olhar da general fantasma fixado nela. Meio segundo daquele olhar vazio e a enorme espada estava vindo na direção de Elicia. Sem respirar, ela sabia que aquele corte separaria sua cabeça de seu corpo, mas alguém a puxou para trás no momento que o golpe a atingiria.
A general girou a espada e conectou o erro a outro golpe devastador, mas ela parou subitamente no meio do movimento, baixando a espada em seguida. Aqueles olhos vazios se encontraram com os de Elicia mais uma vez, ela largou a espada e abriu um sorriso louco e macabro. Ela ergueu a mão que antes segurava a espada, as garras negras que Elicia sequer tinha notado que não estavam mais lá apareceram novamente e o espectro avançou.
A general parecia ter julgado Elicia digna de seu beijo da morte, e num piscar de olhos estava sobre ela. As garras se firmaram na nuca de Elicia, mas o choque já havia passado, e ela não estava disposta a morrer ali. Com um golpe ágil ela acertou o flanco da general, e no mesmo instante uma espada cortou o braço que a segurava. Viktor estava ali lutando ao seu lado.
Elicia infundiu naquele golpe a característica de afastar a névoa, com objetivo de diminuir o poder do inimigo. A general recuou, e um sangue escuro e espesso pingou do toco de seu braço e escorreu por seu lado onde Elicia a atingira. O olhar vazio agora parecia emanar fúria.
Aquela inimiga não era um espectro comum, possuía um corpo físico, coisa que a maioria dos espectros não possuía. Além disso, a sua força superava em muito a esperada, ela balançava aquela espada enorme com apenas uma mão.
A forma como os espectros funcionavam era estranha, alguns não conseguiam atingir os humanos fisicamente enquanto outros podiam, alguns deixavam feridas apodrecidas enquanto outros apenas rasgavam a carne como se fossem bestas comuns, alguns até mesmo feriam a mente e outros empunhavam armas enferrujadas.
Para lidar com a imprevisibilidade dos espectros, as armas dos humanos eram fabricadas com runas solares, que podiam afetar tanto espectros tangíveis quanto intangíveis.
Viktor avançou sobre a espectro corpórea visando não a deixar recuperar sua arma, ela estava um pouco mais lenta com a influência de Elicia e o golpe foi certeiro, decepando a cabeça da abominação. Infelizmente os espectros não morriam ao ter partes “vitais” do corpo atingidas, era necessário infligir uma certa quantidade de dano para destruí-los, e, mesmo sem a cabeça, a general não fora derrotada.
Elicia se preparava para desferir mais um golpe quando num movimento ágil a general sem cabeça passou por Viktor e pegou a espada com a mão restante. Um instante depois, a espada cortou novamente na direção de Elicia, que se esquivou com a mesma agilidade.
Naquele momento uma flecha atingiu a espectro pelas costas, e Elicia viu uma mulher de cabelo castanho escuro preso num coque e olhos cinzentos segurando um arco e puxando outra flecha de sua aljava, era Luna Aster, uma heroína do grupo. Ela parecia tão focada quanto nos treinos, mas os pontos de suor brilhando em seu rosto naquela luz fraca denunciavam sua ansiedade.
A general pareceu abalada pela flechada e voltou a atenção para Luna, avançando com a espada na direção dela. Luna estava preparada para desviar daquele golpe, a espectro precisava cobrir alguns metros para chegar até ela, mas o golpe subitamente mudou de direção voltando novamente para Elicia, que estava bem mais perto.
Aquela atuação pegara Elicia desprevenida, ela estava pronta para atacar pelas costas do espectro quando a espada virou novamente na sua direção, o golpe a acertaria, inevitavelmente.
Mas o golpe não a acertou, porque, quando iria atingi-la, Viktor a empurrara, recebendo o golpe em seu lugar. Luna em seguida acertou a general com outra flecha, e ela então caiu finalmente derrotada.
Viktor estava no chão sangrando muito, um corte profundo e bastante largo passara sua armadura de couro e abrira sua barriga, a perda de sangue o deixava cada vez mais pálido, e seu corpo estava começando a entrar em choque. Ele sentiu um abraço trêmulo em sua volta e a ouviu sussurrar algo que ele não conseguiu compreender. Ele tentou dizer algo para tranquilizá-la, mas as palavras não saíram. Sua visão embaçada encontrou Elicia e em seguida, a escuridão.

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