Os heróis chegaram apenas a tempo de presenciar a ativação dos artefatos pelo espectro cerca de cem metros à diante, nas ruínas de uma casa na extremidade oposta da clareira.

    O ladrão de artefatos fora mais rápido do que o esperado em analisar a amostra do poder de Elicia e modificar as runas para uma forma que funcionassem. 

    Algo que, no entanto, os heróis esqueceram de contabilizar ao prever quanto tempo tinham para resolver o problema, era o fato de que o inimigo não tinha as mesmas limitações biológicas que eles. Ele trabalhou sem parar, dia e noite, para concluir seu projeto.

    Tal erro de cálculo, porém, era razoável. A maioria dos grupos de heróis expedicionários não encontrava sequer um espectro inteligente durante suas missões, então os dados sobre eles eram bastante escassos.

    Além disso, cada espectro que esboçava qualquer nível de inteligência era completamente único, moldado pelas memórias de vivências pessoais tal qual um humano, mesmo que mantivessem apenas pedaços dessas memórias.

    O brilho começou suave e tornou-se cegante em milésimos de segundo, iluminando toda a clareira e também toda a Floresta Morta. A noite sombria pareceu ceder lugar a um dia radiante por aquele breve momento, então a escuridão retornou.

    Após o clarão, um pulso imperceptível aos heróis, exceto por Elicia, se espalhou para longe, muito além da floresta.

    Não obstante, os artefatos ainda produziram mais um efeito.

    Um dos efeitos que eram capazes de produzir, era impedir elementos físicos não vivos com uma certa aceleração de passar a barreira, como vento ou chuva, baseando-se no conceito de “afastar”. Cálculos minuciosos estavam envolvidos na regulação do que passava ou não da barreira e em quais condições, mas, uma vez que as runas originais estavam severamente danificadas e grosseiramente modificadas, o efeito, agora oposto, não fez distinções no que fora afetado pelo “puxão”.

    Em poucos segundos o pulso alcançou sua longevidade máxima em algum lugar muito distante, e então “puxou” tudo na área afetada. Algo tão leve como a névoa corrompida foi puxado sem resistência em toda a extensão do efeito, assim como o próprio ar. 

    Próximo às bordas da área, apenas uma leve brisa foi produzida. Na metade do raio, uma forte ventania assolava o que estivesse no caminho, conseguindo arrastar objetos leves como pequenas pedras. No centro do evento, o poder de atração foi tão intenso que até mesmo rachou e despedaçou as árvores petrificadas mais próximas da clareira, fazendo voar os destroços em alta velocidade em direção aos artefatos. As árvores apenas não foram arrancadas inteiras porque a força de atração não fora suficiente para vencer suas profundas raízes petrificadas.

    É claro que os heróis também voaram em direção aos artefatos. Nenhum pressentimento de Elicia, raciocínio de Viktor, agilidade de Luna ou força de Will fora o bastante para permití-los agir de forma a evitar aquela situação. Tudo que puderam fazer foi revestir seus corpos com magia e esperar que fossem resistentes o bastante para aguentar o impacto. Ou era o que parecia.

    Num único segundo no qual teve tempo em se preocupar com os outros, Elicia torceu para que todos eles fossem capazes de reagir rápido o bastante, especialmente Will. No segundo seguinte, ela não pôde pensar em nada além da própria sobrevivência.

    Apesar de qualquer esforço, a física estava contra eles, a aceleração gerada em direção aos artefatos era potencialmente comparada à queda da fenda que cortava a floresta, não havia uma chance real de sobrevivência caso houvesse um impacto.

    De repente, na metade do caminho da “queda horizontal”, algo mudou sobre a atração que os afetava, e a velocidade na qual eles se aproximavam da colisão diminuiu bruscamente, fazendo com que caíssem no chão e rolassem até parar muito próximos à ruína agora completamente destruída. O impacto não fora nem um pouco suave, mas fora suportável, deixando-os apenas um pouco atordoados, além de um tanto quanto ralados e com alguns hematomas.

    Aquele fora o poder de Viktor, que conseguira agir rápido o bastante para lançar sua magia assim que percebera o que estava por vir quando o clarão se espalhou.

    Fora um ato desesperado, mas com muito raciocínio e precisão envolvidos. Ele não teve tempo de alertar seus companheiros, apenas pôde lançar sua magia em direção ao artefato central, esperando interromper o efeito de atração que seria gerado em seguida.

    A magia de Viktor era compatível com artefatos ao poder formar runas com precisão e estabilidade formidáveis. Naquele momento, ele formou uma runa de repulsão e a jogou contra o artefato. O efeito de atração, porém, começou antes da runa alcançar o destino.

    Dessa forma, Viktor e os outros foram afetados pela atração sem poder reagir, mas a runa já estava na metade do caminho naquele momento. A atração afetou a magia também, fazendo com que ela atingisse exatamente o centro de onde surgia o efeito a tempo.

    A runa sobrescreveu por um instante “atração” por “repulsão”. O poder de Viktor não era o bastante para superar e nem mesmo anular o efeito de tantos artefatos juntos alimentados por pedras mágicas da mais alta qualidade e densidade energética, mas como a runa utilizada por ele era diretamente oposta àquela no artefato, o poder foi efetivamente diminuído naquele momento.

    Viktor nada podia fazer sobre a névoa ou a corrupção, mas ao menos conseguiu influenciar o efeito físico. Aquele instante bastou para que os heróis desacelerassem na metade do caminho e pudessem sobreviver ao impacto. No instante seguinte, as runas grosseiramente entalhadas se deterioraram pelo próprio efeito e pararam de funcionar, cessando a atração absurda. Infelizmente, o objetivo delas já havia sido cumprido.

    Além da “queda”, os heróis tiveram de lidar com a avalanche de fragmentos de árvores petrificadas que vinha junto na mesma direção. Elicia habilmente ergueu seu escudo para evitar os projéteis.

    Will e Viktor conseguiram fazer o mesmo, mas Luna, que possuía menor força física, deslocou o ombro direito ao receber o impacto dos projéteis com o escudo. Não era um problema tão grande, uma vez que todos os heróis eram treinados para desenvolver ambidestria, mas Luna não poderia usar o escudo por algum tempo.

    O cenário era de pura destruição caótica. Num raio de cem metros a partir da clareira, todas as árvores foram destruídas até a base. Mais meio quilômetro além daquela área, muitas árvores estavam parcialmente destruídas ou rachadas. Os fragmentos de pedra cobriam todo o chão, formando uma camada irregular e instável para pisar.

    O artefato lanterna que os heróis utilizavam para iluminar o caminho durante o rastreamento fora destruído durante o evento e as pedras mágicas dos artefatos, que produziam luz indefinidamente, estavam enterradas sob os escombros da ruína completamente colapsada e dos fragmentos de árvores, deixando-os na escuridão completa.

    Viktor puxou de sua bolsa um artefato lanterna reserva e o ativou para procurar pelos outros, mas o que viu primeiro deixou-o mais aflito do que o restante da situação.

    No meio da pilha de escombros que virara o local onde estavam dispostos os artefatos, pedras começaram a se mover, rolando para a base. Segundos depois, de entre as pedras, surgiu uma mão pálida e apodrecida.

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