Capítulo 4 - Realidade sombria
A noite caiu na Cidade do Sol, os habitantes recolheram-se às suas casas e os guardas do turno da noite deram início à patrulha.
A arquitetura do lugar era refinada, apesar de construída inteiramente de pedras. A maioria das casas possuía dois andares e os prédios oficiais chegavam até cinco. As portas e móveis eram todos feitos de madeira escura e as janelas de vidro.
A gravação mostrava uma noite como qualquer outra, até que a névoa negra se infiltrou na cidade. A visibilidade da gravação diminuiu consideravelmente, vultos atravessavam a penumbra e os guardas pareciam engajados em combates desesperados. Eventualmente os soldados caíram e pararam de se mover.
Pessoas começaram a sair das casas e correr em pânico pela praça, onde eram abatidas pelos espectros. O caos se espalhou pelas ruas e em poucos minutos pilhas de corpos jaziam sobre o chão de ladrilhos da praça. Os espectros eram implacáveis e aniquilavam qualquer vida que aparecesse diante de seus olhos vazios.
As imagens eram brutais, e Elicia sentia-se agradecida internamente por não haver som na gravação.
De repente, uma distorção mais forte prejudicou a imagem e Viktor levou alguns minutos para ajustar os mecanismos da caixa. Enquanto isso, Elicia estava paralisada, suas pernas tremendo e sua força se esvaindo. Ela lutava contra o enjôo provocado pela gravação, tentando muito não vomitar.
Will e Luna se encontravam em estado semelhante.
Elicia tentava ser forte, vinha guardando para si os sentimentos provocados pela morte inesperada de mais da metade do grupo de heróis e especialmente do capitão, por quem ela nutria um sentimento profundo de admiração. E agora, aparentemente, toda a cidade também estava morta.
“Quem exatamente nós deveríamos salvar? Não sobrou ninguém.”
A imagem voltou a ser compreensível, e o restante da cena pôde ser assistido.
Um cavaleiro de armadura tão negra quanto a névoa passou montado em um cavalo imponente igualmente escuro. Elicia soube reconhecer o animal devido aos livros armazenados pela cidade, que os heróis tinham a oportunidade de estudar.
Aquele cavaleiro emanava uma aura de corrupção intensa que podia ser sentida mesmo vista por uma gravação. Elicia sentiu um pavor que não sabia que podia existir e sentiu também que era profundamente errado assistir de cima a passagem do espectro, mesmo que fosse apenas o ângulo que o gravador estava posicionado na praça.
Naquele momento, todos do grupo souberam que aquele espectro que os atacara noite passada não era general coisa nenhuma, era apenas uma soldado qualquer do exército do verdadeiro general, cuja imagem estava passando no dispositivo.
O verdadeiro general passou com seu corcel por cima dos corpos e parou no meio da praça, onde ergueu um orbe vermelho do tamanho de uma cabeça humana. Luzes douradas emergiram dos corpos caídos e foram puxadas para dentro do orbe. A cena perdurou por alguns minutos, como se as luzes viessem da cidade toda.
No fim, o orbe estava brilhando intensamente com uma luz dourada, o general abaixou-o na altura da cintura e cavalgou para longe da cena. Os corpos deixados para trás começaram a parecer embaçados, e, por fim, transformam-se em névoa.
Elicia caiu de joelhos, Luna vomitou e Will agarrou os cabelos e começou a gritar. Viktor continuou a fitar atônito a cena da praça agora vazia.
…
Os heróis demoraram mais do que alguns minutos para se recompor, com um luto profundo permeando seus corações.
Ainda era início da tarde.
Sem ânimo para conversar sobre o futuro ainda, eles se recolheram ao alojamento que ocuparam juntos durante o último ano de treinamento. Ninguém ficou de vigia, confiando nos lobos para alertá-los do perigo caso um inimigo se aproximasse, mas Elicia tinha o pressentimento de que espectros não apareceriam mais na cidade, e seu pressentimento provou-se muito assertivo desde o dia anterior.
O quarto tinha dez camas, feito para os heróis se acostumarem a dormir na companhia uns dos outros. Os sobreviventes ocuparam as camas que costumavam ocupar e caíram num sono abençoadamente sem sonhos. Qualquer sonho se transformaria em pesadelo em suas mentes perturbadas pelos acontecimentos recentes.
Ao cair da noite, todos despertaram, sem coragem de dormir além daquele horário.
— O que… faremos agora? — Will expôs a pergunta que todos faziam internamente.
— Bem, aparentemente todos estão mortos, talvez devêssemos, sabe, nos juntar a eles… — Luna expôs outro pensamento que permeava a mente de todos naquele momento.
— Talvez ainda haja esperança, — Elicia se recusava a desistir — talvez nós possamos salvar todos eles.
— O que exatamente você sugere? Que nós viajemos apenas em quatro até o lugar onde mais de uma centena de grupos de dez não conseguiram chegar?
— Na verdade, sim. Nós sequer temos outra escolha?
A expressão de Luna ficou mais sombria ao ouvir as palavras de Elicia.
— Nós temos a escolha de morrer em paz.
— Ei, não seja tão pessimista! — Will rebateu.
— Que direito você tem de me dizer isso? Você ficou escondido enquanto o resto de nós estava lutando, enquanto a maioria de nós estava morrendo!
Will calou-se.
— Não é hora dos únicos sobreviventes brigarem! — Elicia os interrompeu — Escutem, por favor.
Todos olharam para ela, esperando ouvir seu ponto.
— O general espectro, ou ao menos eu acho que esse era o verdadeiro general deles… Bem, de qualquer forma, aquele cavaleiro que vimos por último na imagem, ele usou um orbe para puxar as almas das pessoas.
Aquele era um conhecimento que algum grupo antigo de heróis descobrira sobre os espectros, que alguns deles tinham a capacidade de extrair as almas humanas e, de certa forma, “comê-las”, e que uma alma tinha a aparência de uma luz dourada.
— Eu vi aquele espectro de cavaleira que nos atacou comendo a alma do capitão, mas esse espectro de armadura negra não comeu as almas, ele pareceu armazená-las de alguma forma. Eu tenho a intuição de que, se pudermos recuperar aquele orbe, poderemos devolver as almas das pessoas da cidade e salvá-las.
— Sua intuição? — Viktor, que estava quieto até agora, questionou.
— Sim, minha intuição estava gritando antes desse desastre. Eu quero ter fé de que ela estará certa sobre essa esperança também.
— Está bem, eu confio na sua intuição.
Elicia não esperava uma resposta tão direta e conclusiva de Viktor, que sempre era evasivo quando se tratava de tomar decisões, principalmente as mais importantes.
Aparentemente, Luna também não esperava esse tipo de resposta.
— Como assim você confia na “intuição” dela? Estamos falando das nossas vidas aqui!
— Eu entendo sua hesitação, mas foi vendo Elicia reagindo naquele momento antes da névoa invadir o acampamento que eu pude também reagir a tempo, caso contrário, eu estaria morto agora. E se não fosse por ela ter reagido à própria intuição e espalhado alguma luz pelo acampamento, vocês também estariam mortos. Então sim, eu confio na intuição dela.
Viktor fora incisivo com sua resposta, o que deixou Luna calada por alguns instantes antes de finalmente ceder.
— Você… você tem razão…
Elicia deu um olhar significativo a Viktor, agradecendo silenciosamente. Ele respondeu com um leve aceno de cabeça. Ela continuou:
— Eu pessoalmente acho que nós temos valor o bastante para considerarmos ultrajante apenas deitar e morrer aqui. Se for para fracassar, que seja tentando. Se for para morrer, que seja honrando a nossa origem de uma cidade que nunca perdeu a esperança de ver a luz do sol brilhar sobre o mundo novamente!
Elicia não se sentia tão motivada quanto fazia parecer, mas precisava convencer aquelas pessoas, as únicas pessoas restantes, a segui-la, por qualquer motivo que fosse.
— Caramba, você é tão boa com discursos quanto meu irmão era, haha.
— Eu era a vice-líder por um motivo. — Respondeu com um ar zombeteiro, trazendo de volta à conversa uma leveza muito bem vinda em oposição à tensão que pairava sobre eles.
Luna parecia convencida com aquele discurso, e até mesmo um tanto emocionada. Por dentro ela escondia um lado frágil que sentia-se aliviado por aquelas palavras de encorajamento.
Willbert estava apavorado com toda a situação. Ele tinha medo de lutar, mas tinha mais medo de morrer, então a opção que sobrava, inevitavelmente, era lutar.
Viktor estava quieto desde sua única contribuição na conversa. Ele sempre fora um sujeito discreto, escondido na sombra de Elicia. As pessoas não costumavam notá-lo enquanto ela estivesse por perto, e ele estava satisfeito assim. Contudo, naquela situação impensável onde ele era uma das quatro pessoas sobreviventes do mundo, não havia a opção de se ocultar, ele precisaria agir ativamente se quisesse que pelo menos a única pessoa que importava para ele sobrevivesse o máximo possível.
— Vamos voltar à oficina, lá tem coisas que podem ser úteis na viagem.

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