Capítulo 20: Casa nª 777
Nª 198
— Ainda estamos longe… — Alice murmurou.
A estrada continuou acompanhando a encosta por mais alguns minutos, serpenteando entre árvores inclinadas pelo vento marítimo e muros baixos de pedra clara cobertos por trepadeiras que pareciam crescer ali há décadas. Conforme avançavam, as residências tornavam-se cada vez mais espaçadas umas das outras. Algumas surgiam parcialmente escondidas entre jardins extensos, outras apareciam apenas por alguns instantes entre a vegetação antes de desaparecerem novamente atrás das curvas do terreno. O bairro inteiro carregava uma tranquilidade estranha para alguém que acabara de atravessar uma cidade capaz de abrigar milhões de pessoas. O barulho distante de Nova Aster continuava existindo em algum lugar atrás deles, mas chegava tão enfraquecido que parecia pertencer a outro mundo.
Alice consultou o cartão mais uma vez enquanto caminhava. O metal refletiu a luz dourada do fim da tarde antes de desaparecer novamente entre seus dedos. Os números das residências começaram a diminuir lentamente conforme avançavam pela Costa de Velastra. Placas discretas surgiam próximas aos portões de entrada, gravadas em metal escuro ou pedra polida. O vento atravessava a rua sem encontrar obstáculos, trazendo o cheiro constante do mar e fazendo as copas das árvores produzirem um ruído suave acima de suas cabeças.
801…
802…
803…
Então a estrada realizou uma última curva acompanhando o contorno da falésia e o número 777 finalmente surgiu diante deles.
Os dois diminuíram os passos quase ao mesmo tempo.
A residência ocupava uma pequena elevação voltada diretamente para o oceano. Não era a maior construção da região nem possuía a extravagância das mansões espalhadas por algumas áreas de Velastra. Ainda assim, algo nela chamava atenção imediatamente. Talvez fosse a forma como parecia encaixada na paisagem, como se tivesse crescido junto com a própria encosta em vez de ter sido construída sobre ela. A base era formada por blocos de pedra clara retirados das falésias próximas. Acima dela, estruturas de madeira escura sustentavam amplas varandas voltadas para o horizonte. Grandes janelas refletiam o brilho dourado do oceano e transformavam toda a fachada em uma superfície luminosa sob o sol do entardecer.
Quando alcançaram a entrada principal, Alice retirou o cartão metálico do bolso do casaco e observou o pequeno encaixe instalado ao lado da maçaneta. Então aproximou o cartão. Uma linha azul percorreu rapidamente sua superfície e desapareceu quase no mesmo instante, seguida por um clique seco vindo do outro lado da porta.
Alice ergueu os olhos e encontrou o olhar de Vance. Nenhum dos dois parecia preparado para o que encontrariam ali dentro. O silêncio se prolongou por um breve momento antes que ela respirasse fundo, fechasse os dedos sobre a maçaneta e a girasse lentamente.
Alice permaneceu alguns segundos parada diante da entrada depois que a porta se abriu, a mão ainda repousando sobre a maçaneta enquanto seus olhos percorriam o interior da residência. O vento atravessava a varanda pelas costas deles, carregando o cheiro do oceano e o som distante das ondas quebrando contra as falésias abaixo da propriedade.
A sala principal se abria diante deles em um espaço amplo que parecia ter sido construído para abraçar a paisagem ao redor. As paredes combinavam madeira escura e pedra clara retirada das próprias falésias de Velastra, criando um contraste elegante. Grandes vigas atravessavam o teto elevado, sustentando uma estrutura que se estendia por quase toda a largura da casa, enquanto janelas de vidro cristalino ocupavam a parede voltada para o mar do chão ao teto, transformando o oceano em parte da decoração.
A luz do entardecer atravessava aquelas janelas sem encontrar obstáculos, espalhando reflexos dourados sobre o piso de madeira polida. Próximo à parede principal, uma lareira de pedra ocupava o centro do ambiente, larga o suficiente para aquecer toda a residência durante os meses mais frios. Acima dela, uma única espada ornamentada permanecia exposta horizontalmente sobre suportes de metal escuro. Não havia placas explicativas nem qualquer tentativa de chamar atenção para o objeto. Ainda assim, algo na forma como estava posicionada sugeria que possuía importância.
As estantes ocupavam quase toda uma lateral da sala e subiam até o segundo andar, conectadas por uma escada de madeira. Centenas de livros preenchiam as prateleiras. Alguns possuíam capas simples de couro gasto. Outros exibiam detalhes dourados e símbolos que Vance nunca tinha visto. Entre eles apareciam mapas enrolados, caixas de madeira cuidadosamente etiquetadas e pequenos artefatos trazidos de lugares distantes, nenhum parecia decorativo, tudo transmitia a impressão de ter sido utilizado.
No centro do ambiente, sofás e poltronas formavam um espaço de convivência voltado para o oceano. Não estavam organizados para receber visitas formais. Estavam posicionados para alguém passar horas observando o horizonte através das janelas. Uma mesa baixa ocupava o espaço entre eles, carregando alguns livros abertos, um conjunto de peças de xadrez interrompido no meio de uma partida e um porta-copos que ainda fazia o lugar parecer habitado.
O que mais chamava atenção, porém, era a varanda. As portas de vidro permaneciam abertas e permitiam que a brisa marítima circulasse livremente pelo interior. Do lado de fora, uma plataforma de madeira avançava sobre a encosta como a proa de um navio. Cadeiras, mesas e bancos ocupavam diferentes pontos do espaço, todos voltados para o mesmo lugar.
O oceano.
Não importava onde alguém estivesse naquela casa.
O mar sempre permanecia visível.
Como se toda a residência tivesse sido construída ao redor daquela vista. Como se o próprio Cedric tivesse escolhido aquele lugar porque precisava olhar para o horizonte sempre que voltava para casa.
O silêncio permaneceu na sala por alguns instantes depois que entraram. O som das ondas continuava atravessando as portas abertas da varanda, misturando-se ao ranger suave da madeira sob seus pés e ao sussurro constante da brisa marítima que percorria os cômodos.
Seus olhos haviam parado exatamente no mesmo lugar.
A mesa próxima às janelas.
Os dois exemplares de capa azul-escura permaneciam alinhados lado a lado, iluminados pelos últimos raios dourados do entardecer que atravessavam o vidro e se espalhavam pela superfície polida da madeira. Não pareciam ter sido deixados ali por acaso. Pelo contrário. A posição exata dos livros transmitia a sensação de que alguém os colocara ali deliberadamente, esperando que fossem encontrados logo ao entrar.
Alice foi a primeira a se aproximar.
Os dedos deslizaram pela borda da mesa enquanto ela observava os exemplares em silêncio. Durante um instante, seu olhar desviou para o restante da sala, como se procurasse sinais de uma presença invisível escondida entre os móveis. Depois voltou para os livros.
— Ele sabia que viríamos — murmurou.
A frase desapareceu rapidamente no ambiente.
Vance puxou uma cadeira e sentou-se sem desviar os olhos da capa. O símbolo dourado estampado na frente do manual refletia a luz do entardecer enquanto pequenas letras ocupavam a parte inferior.
Manual Básico para Novos Cidadãos de Aster
A mesma capa que haviam recebido na praça.
A diferença era que aqueles exemplares pareciam antigos.
E então ele abriu:
“Bem-vindo a Aster”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.