Capítulo 12: Nenhum Sinal
Alice não respondeu de imediato.
Os braços permaneceram apertados ao redor dele enquanto os ombros tremiam em pequenos movimentos irregulares. O rosto continuava escondido contra seu peito e a respiração saía entrecortada, como se ela estivesse tentando recuperar o fôlego depois de correr uma distância impossível. Durante alguns segundos, Vance apenas permaneceu parado, sentindo o peso daquele abraço e o calor familiar que parecia ter desaparecido para sempre junto com a cidade. As costelas protestavam sob a pressão, cada músculo do corpo gritava por descanso, mas nada disso importava. Depois de tudo que tinha visto, depois de acreditar por incontáveis momentos que talvez nunca mais a encontrasse, aquela dor parecia pequena demais para merecer atenção.
Os dedos de Alice se fecharam ainda mais sobre suas costas antes de finalmente se afastar apenas o suficiente para olhar seu rosto. Os olhos estavam vermelhos. Havia marcas profundas de cansaço abaixo deles e pequenas manchas de poeira ainda permaneciam espalhadas pela pele. Mesmo assim, naquele instante, ela parecia observar cada detalhe dele como alguém verificando algo precioso que havia sido devolvido depois de ser considerado perdido.
Uma de suas mãos subiu até o rosto de Vance.
Os dedos tocaram sua bochecha, percorreram as ataduras próximas ao pescoço e pararam por um instante próximo à sobrancelha.
Como se precisasse confirmar que ele era real.
— Você está vivo…
A voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
Vance tentou responder, mas algo apertava sua garganta forte demais.
Ao redor deles, algumas pessoas haviam parado para observar a cena. Ninguém disse nada. Muitos carregavam expressões semelhantes. Alguns tinham acabado de reencontrar familiares. Outros continuavam esperando. Havia quem observasse em silêncio apenas porque entendia exatamente o que aquele momento significava.
Alice respirou fundo e limpou rapidamente os olhos antes de voltar a segurá-lo pelos ombros.
— Você ficou desacordado por dias.
— Dias? — Ele perguntou, com sua a palavra saindo rouca.
— Três.
A resposta atingiu Vance de forma estranha.
Três dias.
Enquanto ele permanecia inconsciente em uma maca, o mundo havia continuado avançando sem ele.
Seu olhar se moveu pelo compartimento. Só então percebeu algumas figuras familiares observando de longe.
A mãe de Elena estava sentada próxima a uma das divisórias improvisadas.
Ela parecia muito mais velha do que lembrava.
Os cabelos castanhos estavam desarrumados, o rosto carregava marcas profundas de exaustão e seus olhos permaneciam fixos em algum ponto distante do chão. Ao lado dela estavam alguns vizinhos da cidade, pessoas que Vance reconhecia desde a infância. Nenhum deles conversava muito. O grupo permanecia reunido em um silêncio pesado, compartilhando a mesma ausência.
Quando a mulher percebeu que ele estava acordado, ergueu os olhos por um breve instante.
A expressão dela vacilou.
Algo parecido com alívio surgiu primeiro.
Logo depois veio a dor.
Ela abriu a boca como se pretendesse dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra saiu. No fim apenas desviou o olhar.
Vance sentiu o estômago se contrair.
O espaço vazio ao lado daquela mulher parecia ocupar mais espaço que qualquer pessoa presente no compartimento.
— Mãe, Elena realmente… realmente sumiu?
A pergunta saiu baixa, quase engolida pelo barulho distante das conversas espalhadas pelo compartimento, mas para Alice foi como se todo o resto tivesse desaparecido. O corpo dela ficou imóvel por um instante. Os braços permaneceram ao redor de Vance, porém a força do abraço diminuiu aos poucos. Seus olhos cheios de lagrimas desviaram dos dele e foram parar em algum ponto vazio do chão metálico.
O silêncio se estendeu entre os dois enquanto o navio avançava pelo oceano. Ao redor deles, famílias continuavam conversando em voz baixa, crianças dormiam enroladas em cobertores improvisados e membros da tripulação atravessavam o compartimento carregando caixas e suprimentos, mas tudo aquilo parecia distante. O olhar de Alice acabou encontrando a mãe de Elena sentada alguns metros adiante. A mulher permanecia exatamente como antes, as mãos unidas sobre o colo e os olhos perdidos em algum lugar muito além daquela parede de metal. A avó de Elena estava poucos metros atras, mas nenhuma das duas participava das conversas ao redor. Era como se parte delas tivesse ficado para trás, presa naquela cidade que já não existia.
Alice secou as lagrimas e respirou fundo antes de responder.
— Eu não sei.
A voz saiu trêmula.
Ela passou a mão pelos olhos e tentou continuar.
— Ninguém sabe, Vance. Nós vimos ela ser levada… muita gente viu. Vimos aquela coisa carregando ela para o céu, vimos ela desaparecer acima das nuvens, mas foi só isso. Depois… depois ninguém conseguiu ver mais nada.
Os dedos dela apertaram a roupa do filho por um instante.
— Quando a Ordem começou a evacuar os sobreviventes, quando os combates ficaram piores e eles começaram a nos tirar da cidade, ninguém encontrou qualquer sinal dela. Nenhum corpo, nenhuma pista. Nada.
As palavras permaneceram no ar mesmo depois que Alice terminou de falar. O som das conversas espalhadas pelo compartimento continuava existindo ao redor deles, o ranger constante do casco atravessava o convés em intervalos regulares e, em algum lugar mais distante, alguém empurrava uma caixa metálica que produzia pequenos estalos contra o piso. Ainda assim, para Vance, tudo aquilo parecia ter sido empurrado para muito longe. Sua atenção permaneceu presa apenas àquela resposta. Nenhum corpo. Nenhuma pista. Nada. As palavras giravam lentamente dentro de sua mente, repetindo-se uma após a outra enquanto ele observava o vazio entre as camas improvisadas sem realmente enxergar nenhuma delas.
O mais estranho era a ausência de qualquer reação visível. Nenhuma lágrima escorria por seu rosto. Sua respiração não acelerou. Seus ombros não tremeram. A dor continuava ali, mas parecia distante, afundada em uma camada muito mais profunda do que antes. As imagens de Elena continuavam surgindo diante de seus olhos com uma clareza cruel. O sorriso dela atravessando a praça principal da cidade. As discussões sem importância que pareciam tão grandes na época e agora pareciam ridículas. As caminhadas pelas ruas estreitas próximas às muralhas. O momento em que ela estendeu a mão para ajudá-lo a levantar depois de uma queda. O momento em que foi levada. O braço desaparecendo entre as nuvens rachadas. O grito que ele nunca conseguiria esquecer. Tudo permanecia ali, intacto, como se tivesse acontecido poucos segundos atrás. Mesmo assim, nenhuma lágrima veio.
Talvez porque ele já tivesse ultrapassado aquele ponto. Talvez porque seu corpo estivesse cansado demais para continuar reagindo da mesma forma. Ou talvez porque, em algum lugar dentro dele, algo tivesse simplesmente quebrado. Não era aceitação. Não era conformismo. Era uma espécie de vazio pesado, uma apatia que engolia tudo antes que pudesse alcançar a superfície. Alice observava o filho em silêncio e aquilo a preocupava mais do que qualquer crise de choro. Ela o conhecia desde o dia em que nasceu. Sabia reconhecer quando ele estava triste, quando estava com medo ou quando estava tentando esconder algo. Aquela expressão, porém, parecia pertencer a outra pessoa. Havia algo imóvel em seus olhos, algo frio que não existia ali antes.
Seu olhar acabou encontrando novamente a mãe de Elena. A mulher permanecia sentada exatamente no mesmo lugar, os ombros curvados para frente e as mãos repousando sobre o colo. Pessoas passavam ao redor dela o tempo inteiro, mas ela parecia não perceber nenhuma delas. Os olhos permaneciam voltados para baixo, presos em pensamentos que provavelmente não sairiam dali tão cedo. Ao seu lado, a avó de Elena mantinha a mesma postura silenciosa. Nenhuma das duas falava. Nenhuma das duas chorava. Pareciam duas pessoas esperando por algo que sabiam que talvez nunca chegasse. Aquela visão atingiu Vance de uma forma diferente. Pela primeira vez desde que acordara, sentiu algo além da tristeza.
Culpa.
Um gosto amargo subiu por sua garganta.
— …Por que eu tenho que ser tão fraco? — a pergunta escapou quase num sussurro, baixa o bastante para que parecesse dirigida apenas a si mesmo.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.