— Vamos? — Alice perguntou. 

    A voz dela quase se perdeu em meio ao barulho que tomava conta do convés. Cordas eram desenroladas, correntes metálicas deslizavam por roldanas e dezenas de tripulantes cruzavam a embarcação carregando equipamentos enquanto o Leviatã realizava os últimos ajustes para atracar. O cheiro salgado do oceano agora se misturava ao de fumaça, óleo e algo novo que Vance não conseguia identificar, um aroma vindo da própria cidade que se espalhava sobre as águas conforme diminuíam a distância até a costa. 

    Ele demorou alguns segundos para responder. 

    Os olhos permaneciam presos à paisagem à frente. 

    Quanto mais se aproximavam, mais detalhes surgiam. As torres que pareciam enormes à distância revelavam-se ainda maiores. Algumas possuíam dezenas de níveis visíveis, conectados por estruturas suspensas que atravessavam o espaço entre edifícios como enormes veias de metal. Fileiras de construções se espalhavam ao longo da costa e continuavam avançando para o interior, desaparecendo apenas quando encontravam as montanhas que cercavam a região. Em vários pontos, enormes bandeiras tremulavam acima dos telhados, exibindo símbolos que ele nunca tinha visto. Em outros, plataformas elevadas sustentavam equipamentos tão grandes que Vance sequer conseguia imaginar sua função. 

    Sua cidade inteira parecia pequena diante de um único distrito daquele lugar. 

    A constatação não trouxe vergonha nem revolta. 

    Trouxe apenas silêncio. 

    Durante toda a vida ele acreditara conhecer o mundo. Conhecia os bairros da cidade, os limites das muralhas, os caminhos entre os templos e os campos próximos à Névoa. Conhecia os perigos que existiam além das fronteiras e acreditava que aquilo era suficiente para compreender seu lugar na realidade. Agora observava aquela extensão de construções, navios e pessoas e percebia o quanto sua visão havia sido pequena. Não porque fosse ignorante, mas porque jamais tivera a oportunidade de enxergar algo além. 

    Alice permaneceu ao seu lado sem pressioná-lo. 

    Ela também observava a cidade. 

    O vento agitava seus cabelos escuros enquanto seus olhos percorriam o horizonte com uma expressão difícil de interpretar. Havia cansaço ali. Havia preocupação. Havia também algo parecido com alívio. Depois de tudo que haviam atravessado, o simples fato de finalmente enxergar terra firme parecia suficiente para fazê-la respirar um pouco mais leve. 

    Vance acabou assentindo. 

    — Vamos. 

    Os dois começaram a caminhar junto ao fluxo de sobreviventes que se dirigia para as áreas de desembarque. O convés estava muito mais cheio do que nos dias anteriores. Famílias inteiras carregavam os poucos pertences que conseguiram salvar. Algumas pessoas transportavam malas improvisadas. Outras possuíam apenas as roupas do corpo. Havia idosos apoiados em parentes, crianças agarradas às mãos dos pais e feridos que ainda dependiam de muletas ou auxílio médico para se locomover. Apesar das diferenças, todos caminhavam na mesma direção. 

    Para frente. 

    À medida que avançavam pelo navio, Vance percebeu que a cidade parecia crescer ainda mais. As muralhas externas do porto já podiam ser vistas com clareza, elevando-se acima das águas como uma fortaleza construída para desafiar o próprio oceano. Navios de todos os tamanhos entravam e saíam constantemente dos canais de acesso. Alguns eram pequenos e rápidos. Outros rivalizavam com o Leviatã em tamanho. Várias embarcações exibiam bandeiras diferentes, símbolos desconhecidos e formatos que ele jamais imaginaria existir. 

    Quando finalmente alcançaram a área de desembarque, Vance parou por um instante. 

    À frente deles, a cidade ocupava quase todo o horizonte. 

    Pessoas caminhavam pelas docas em números que ultrapassavam qualquer multidão que ele já tinha visto. Guindastes gigantes moviam contêineres metálicos entre embarcações. Mercadores gritavam ofertas. Soldados patrulhavam passarelas elevadas. Carruagens e veículos estranhos cruzavam avenidas largas que desapareciam entre os prédios. O som de milhares de vidas se misturava em um único ruído constante que parecia pulsar através da própria cidade. 

    Vance permaneceu observando tudo aquilo enquanto uma sensação estranha surgia dentro dele. 

    Onde seu pai estava? 

    Até então tudo que sabia é que ele fazia parte da Ordem Sagrada. 

    A pergunta surgiu de forma inesperada, escapando entre seus pensamentos no momento em que atravessavam as enormes passarelas do porto. Talvez porque, pela primeira vez desde que despertara naquele navio, existisse espaço para pensar em algo além da sobrevivência imediata. Durante dias sua mente havia permanecido presa à destruição da cidade, aos rostos que nunca mais veria e à imagem de Elena desaparecendo entre as nuvens. Havia tantas perdas recentes ocupando seus pensamentos que outra ausência, muito mais antiga, acabara ficando escondida sob todas elas. Seu pai. Enquanto caminhava ao lado de Alice observando centenas de pessoas cruzarem as docas em todas as direções, Vance percebeu que sequer sabia por onde começar. O homem existia em suas lembranças mais como uma ideia do que como uma pessoa real. Algumas histórias contadas pela mãe, poucas lembranças borradas da infância e perguntas que quase sempre terminavam sem resposta. Era estranho perceber que alguém podia fazer parte da sua vida e, ao mesmo tempo, parecer um desconhecido. 

    Seus passos diminuíram sem que percebesse. O fluxo de sobreviventes continuava avançando ao redor deles, carregando malas improvisadas, caixas e tudo o que haviam conseguido salvar, mas Vance já não prestava atenção em nada disso. Seus olhos percorriam as estruturas gigantescas do porto enquanto uma sensação estranha crescia dentro dele. Se aquele mundo realmente era tão grande quanto parecia, então seu pai poderia estar em qualquer lugar. A ideia o incomodou mais do que esperava. 

    — Mãe. 

    Alice virou o rosto imediatamente. 

    — Hm? 

    Por alguns segundos, Vance observou a multidão se movendo entre as docas. Soldados cruzavam as passarelas em grupos organizados, carregadores empurravam carrinhos lotados de mercadorias e enormes guindastes metálicos erguiam contêineres acima das embarcações ancoradas. Tudo parecia enorme.O mundo à sua frente era tão vasto que a pergunta que carregava parecia pequena demais para existir naquele cenário. 

    Mesmo assim, ele perguntou. 

    — Onde ele está? 

    Alice não respondeu de imediato. O silêncio que veio não era de dúvida nem de surpresa. Era o silêncio de alguém que reconheceu a pergunta antes mesmo dela terminar de ser feita. Seus olhos se afastaram da multidão e seguiram para algum ponto distante da cidade, muito além das torres e das muralhas visíveis do porto. Durante alguns instantes ela apenas caminhou, acompanhando o fluxo das pessoas ao redor, enquanto o vento vindo do oceano agitava seus cabelos escuros. 

    — Eu não sei. 

    A resposta veio simples, com calma. 

    Alice permaneceu em silêncio por mais alguns passos antes de continuar. 

    — Faz bons meses desde que o vi. 

    O olhar dela permaneceu voltado para frente enquanto as palavras surgiam devagar, como lembranças retiradas de um lugar que ela preferia não visitar com frequência. 

    — Quando seu pai partiu, ele prometeu que voltaria. Disse que era apenas uma missão. Algo importante para a Ordem. Algo que não levaria muito tempo. 

    Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios. 

    Não era um sorriso feliz. 

    — Depois vieram as cartas. 

    Vance permaneceu em silêncio. 

    Ao redor deles, o porto continuava pulsando com vida. Marinheiros gritavam ordens entre as embarcações, vendedores anunciavam produtos que ele sequer reconhecia e dezenas de navios entravam e saíam dos canais de acesso à cidade. Mesmo assim, a voz de Alice parecia distante daquele lugar. 

    — Uma a cada semana no início. Depois uma por mês. Depois… nada. 

    Ela soltou uma respiração lenta. 

    — Durante muito tempo eu achei que estivesse morto. 

    As palavras fizeram Vance erguer os olhos. Não havia amargura em sua voz, nem revolta. Apenas cansaço. 

    Alice deu um leve encolher de ombros. 

    — Era mais fácil acreditar nisso. 

    O movimento constante das docas continuava ao redor deles. Pessoas passavam carregando bagagens, embarcações menores cruzavam as águas próximas ao porto e bandos de aves circulavam acima das estruturas metálicas espalhadas pela costa. Ainda assim, para Vance, tudo aquilo pareceu se afastar por alguns instantes. 

    — Mas ele não está morto. 

    Não era uma pergunta. 

    Alice balançou a cabeça imediatamente. 

    — Não. 

    A resposta veio sem hesitação. 

    Diferente de todas as outras, aquela era uma certeza. 

    — Eu sinto isso. 

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota