Alice ouviu aquelas palavras e seu abraço vacilou por um instante. A mão dela subiu até o cabelo de Vance, afastando alguns fios grudados pela transpiração, mas nenhuma resposta veio. Talvez porque não existisse uma resposta capaz de aliviar aquilo. Talvez porque ela mesma carregasse perguntas parecidas desde o momento em que a cidade começou a desmoronar. 

    O silêncio se prolongou entre os dois enquanto o movimento constante do navio fazia as correntes metálicas próximas ao teto produzirem pequenos estalos ritmados. Ao redor deles, a vida seguia da única forma que conseguia. Pessoas conversavam em voz baixa, crianças começavam a acordar entre cobertores improvisados e membros da tripulação atravessavam o compartimento carregando caixas de mantimentos, mas tudo aquilo parecia distante demais para alcançar Vance. 

    Seu olhar voltou para a mãe de Elena. 

    Ela permanecia sentada exatamente no mesmo lugar, imóvel. 

    Os ombros continuavam curvados para frente e as mãos repousavam sobre o colo sem qualquer movimento. A avó de Elena permanecia próxima dela, mas mesmo estando lado a lado as duas pareciam separadas por uma distância impossível. Nenhuma falava. Nenhuma olhava para a outra. Era como se cada uma estivesse presa dentro da própria dor. 

    Vance observou aquela cena durante alguns segundos. 

    Então se afastou lentamente da mãe. 

    Alice percebeu imediatamente para onde ele estava olhando. 

    Os dedos dela se fecharam sobre seu braço. 

    — Vance… 

    Ele não respondeu. 

    Apenas pegou de volta sua haste metálica e começou a andar. 

    A dor continuava atravessando suas costelas a cada movimento. Os músculos das pernas protestavam. O ombro enfaixado parecia mais pesado a cada segundo. Ainda assim ele caminhou. 

    A pequena multidão espalhada pelo compartimento se abriu naturalmente conforme ele avançava entre as camas improvisadas. Algumas pessoas o reconheceram. Outras apenas observaram em silêncio. Nenhuma tentou interrompê-lo. 

    A mãe de Elena ergueu os olhos apenas quando a sombra de Vance caiu diante dela. O movimento foi lento, quase hesitante, como se parte dela ainda permanecesse presa em algum lugar distante e precisasse de alguns segundos para retornar ao presente. Os olhos cansados encontraram os dele e permaneceram ali. Ao seu lado, a avó de Elena também levantou a cabeça. Agora, observando de perto, Vance conseguia enxergar com mais clareza a semelhança entre as duas. Os cabelos castanho-claros, embora marcados pelo tempo em uma delas e pela exaustão na outra, carregavam o mesmo tom suave. O formato do rosto era parecido. Os olhos também. Pela primeira vez ele percebeu de onde Elena havia herdado alguns de seus traços. 

    Por alguns segundos ninguém falou. O murmúrio constante do compartimento continuava preenchendo o ambiente ao redor, pessoas caminhavam entre os corredores improvisados, crianças choravam em algum ponto distante e o casco do navio rangia suavemente conforme cortava as águas do oceano, mas naquele pequeno espaço tudo parecia suspenso. Vance sentiu a garganta apertar. Existiam muitas coisas que ele poderia dizer. Perguntas que queria fazer. Respostas que precisava ouvir. Ainda assim, nenhuma delas encontrou o caminho até sua boca. 

    Seus olhos acabaram descendo por um instante. As mãos da mulher permaneciam repousadas sobre o colo. Magras. Imóveis. Mãos que haviam perdido uma filha e um marido no mesmo dia, ou pelo menos algo muito próximo disso. Um gosto amargo subiu por sua garganta. 

    Ele respirou fundo. 

    — Acho… que eu lhe devo desculpas. 

    As palavras saíram mais baixas do que pretendia. Mesmo assim, as duas mulheres ouviram. 

    A mãe de Elena franziu levemente a testa. 

    Vance desviou o olhar por um momento. As lembranças começaram a surgir quase imediatamente. As discussões. As respostas atravessadas. As inúmeras vezes em que ela tentava afastar Elena de situações perigosas enquanto ele a arrastava para elas sem perceber. As vezes em que ela o observava com desconfiança. As vezes em que ele fazia exatamente o mesmo. Na época tudo parecia irritante. Pequeno. Coisas comuns que sempre estariam ali. 

    Agora pareciam pertencer a outra vida. 

    — Eu nunca gostei muito da senhora… — admitiu com uma pequena risada sem humor. — E tenho quase certeza de que o sentimento era mútuo. 

    Por um instante, algo semelhante a um sorriso cansado apareceu no rosto da mulher. 

    Vance permaneceu em silêncio por alguns segundos depois das palavras dela. O olhar caiu para o chão metálico entre eles enquanto seus pensamentos giravam lentamente, presos entre culpa, frustração e todas as imagens que se recusavam a deixá-lo em paz. Parte dele sabia que aquelas palavras não eram suficientes para apagar o que havia acontecido. Outra parte sequer acreditava que algo pudesse apagar. 

    Mesmo assim, antes que a coragem desaparecesse outra vez, ele ergueu os olhos. 

    — Pode parecer loucura, mas… 

    A voz saiu baixa no início. 

    Seus olhos encontraram os dela. 

    Os mesmos olhos dourados que Elena havia herdado. 

    Por um instante, a semelhança foi tão grande que seu peito apertou. 

    Os dedos dele se fecharam lentamente ao lado do corpo. 

    — Eu vou encontrá-la. 

    — Eu vou encontrá-la e vou trazê-la de volta!  — Ele repetiu. 

    A mãe de Elena permaneceu imóvel por alguns segundos. Os olhos dourados o observavam em silêncio, estudando cada detalhe de seu rosto como se tentassem decidir se aquelas palavras pertenciam a um garoto quebrado pela perda ou a alguém que realmente acreditava no que estava dizendo. 

    Então, muito devagar, ela começou a se levantar. O movimento veio sem pressa, como se cada músculo do corpo precisasse ser convencido a obedecer depois de passar tanto tempo imóvel. Uma das mãos se apoiou na lateral da cama improvisada enquanto a outra permaneceu fechada sobre o próprio colo por alguns instantes, os dedos apertando o tecido da roupa como alguém reunindo forças para carregar um peso invisível. Os ombros vacilaram levemente durante o processo e, por um momento, pareceu que ela desistiria no meio do caminho e voltaria a se sentar. 

    Mas continuou. 

    A mulher se ergueu centímetro por centímetro até finalmente ficar de pé diante dele. A diferença de altura não era grande, mas daquela posição ela parecia diferente. Menor do que Vance lembrava e, ao mesmo tempo, muito mais cansada. As roupas ainda carregavam manchas de poeira e sujeira acumuladas durante a evacuação, os cabelos castanhos caíam desordenados sobre os ombros e havia marcas profundas abaixo dos olhos. 

    Então ela deu um passo à frente. 

    A distância entre os dois desapareceu. 

    Por um instante, Vance acreditou que ela fosse abraçá-lo. 

    Talvez porque aquele parecia ser o único desfecho possível para uma conversa como aquela. Talvez porque seus olhos carregassem algo tão próximo de emoção que ele não conseguiu interpretar de outra forma. 

    Mas o movimento seguinte veio rápido. 

    A mão dela cortou o ar. 

    O estalo ecoou pelo compartimento. 

    A cabeça de Vance virou para o lado com o impacto. 

    Uma dor aguda explodiu em sua bochecha e se espalhou até a mandíbula. O gosto metálico do sangue surgiu imediatamente em sua boca quando o interior do lábio encontrou seus dentes. Ao redor deles, algumas pessoas interromperam as conversas por um instante. O murmúrio constante do compartimento vacilou antes de desaparecer quase por completo. 

    Vance permaneceu imóvel. Não por estar surpreso com o tapa ou por não sentir a ardência que ainda queimava em sua bochecha, mas porque, de alguma forma, aquilo parecia justo. Ele não levou a mão ao rosto, não recuou e nem tentou se defender. Apenas ergueu novamente os olhos para a mulher diante dele. Ela continuava parada a poucos passos de distância, o braço ainda parcialmente erguido e os dedos tremendo de forma quase imperceptível. 

     A expressão abatida e vazia que carregava desde que ele acordara parecia ter desaparecido por completo. Desde a primeira vez desde que a encontrara naquele navio, agora havia algo vivo em seu rosto. Raiva, dor, desespero e medo se misturavam em seus olhos dourados, emoções acumuladas por dias que finalmente encontravam uma saída. 

    — Não. 

    A palavra saiu baixa, quase contida entre os dentes, mas carregava uma firmeza que fez Vance permanecer em silêncio. 

    — Não diga isso. 

    Ele franziu levemente a testa, sem compreender de imediato. A mulher então deu mais um passo à frente. Os ombros tremiam, não de fraqueza, mas do esforço necessário para manter o controle sobre si mesma. Seus olhos permaneciam presos aos dele enquanto a respiração saía irregular, como se cada palavra precisasse atravessar uma barreira dolorosa antes de alcançar a superfície. 

    — Não faça promessas desse tipo para uma mãe que acabou de perder a filha. 

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