Alice permaneceu alguns segundos observando o cartão metálico antes de finalmente guardá-lo dentro do bolso interno do casaco. O gesto foi simples, mas seus dedos demoraram um pouco mais do que o necessário para soltar a peça, como se ainda precisasse se convencer de que aquilo era real. Ao redor deles, a multidão continuava avançando em direção aos setores de registro espalhados pela praça, porém a sensação de estarem completamente perdidos já não parecia tão esmagadora quanto alguns minutos antes. Pela primeira vez desde que deixaram a cidade, existia um lugar para onde ir. 

    Alice passou o polegar sobre a superfície do cartão antes de soltá-lo lentamente para dentro do bolso do casaco. 

    — Vamos descobrir que tipo de casa aquele idiota deixou para nós — murmurou Alice, retomando a caminhada. 

    Vance acompanhou seus passos sem responder. Sua atenção permanecia presa às palavras que Marcus havia deixado escapar. 

    Conforme deixavam a praça principal do porto para trás, a cidade começou a revelar novas camadas de si mesma 

    As avenidas próximas às docas eram largas o suficiente para permitir a passagem simultânea de fileiras inteiras de veículos, carruagens reforçadas cruzavam as ruas ao lado de máquinas metálicas movidas por mecanismos que Vance não compreendia, trilhos elevados cortavam partes da cidade acima dos telhados e transportavam vagões que desapareciam entre os edifícios antes que ele pudesse acompanhá-los com os olhos 

    Quanto mais avançavam, mais difícil se tornava absorver tudo 

    Em sua antiga cidade, qualquer pessoa conseguia decorar as principais ruas ainda durante a infância 

    Ali, Vance tinha a impressão de que passaria anos caminhando sem conseguir conhecer sequer uma pequena parte daquele lugar 

    O cartão de Cedric acabou servindo como uma espécie de guia 

    Sempre que chegavam a algum cruzamento importante, Alice mostrava o endereço a guardas ou funcionários espalhados pela cidade e quase todos reagiam da mesma forma, primeiro observavam o cartão, depois os encaravam novamente e então indicavam o caminho com uma expressão que sugeria reconhecer o local imediatamente 

    As multidões começaram a ficar para trás conforme avançavam cada vez mais para o interior de Velastra. O fluxo constante de pessoas que dominava as áreas próximas ao porto foi desaparecendo aos poucos, substituído por ruas largas de pedra clara que serpenteavam suavemente ao longo das encostas voltadas para o oceano. As construções também mudavam. Os prédios altos e as fachadas comerciais davam lugar a residências espalhadas com mais liberdade pelo terreno, cercadas por jardins cuidadosamente mantidos, muros baixos de pedra branca e árvores que projetavam sombras suaves sobre as calçadas. O som da cidade ainda existia, mas chegava até eles enfraquecido pela distância, reduzido a um murmúrio distante que parecia pertencer a outro lugar. 

    Conforme seguiam pela estrada principal, Vance percebeu uma mudança que não vinha da paisagem, mas do próprio ar. A mistura de fumaça, óleo e metal que dominava as docas desaparecera completamente. Em seu lugar surgiu um cheiro diferente, limpo e salgado, carregado pelas correntes que vinham diretamente do oceano. A brisa atravessava as ruas abertas do bairro sem encontrar obstáculos, balançando os galhos das árvores e fazendo as folhas produzirem um ruído suave acima de suas cabeças. Em alguns momentos, quando o vento diminuía, outro som conseguia atravessar o silêncio. O movimento constante das ondas. Primeiro distante, quase imperceptível, depois cada vez mais presente, preenchendo os espaços entre os passos dos poucos moradores que circulavam pela região. 

    A estrada começou a subir por uma encosta suave e, durante vários minutos, o oceano permaneceu oculto pelas construções e pela vegetação que acompanhava o relevo. Então a rua fez uma curva ampla acompanhando o contorno da colina e a paisagem se abriu de uma só vez diante deles. Vance diminuiu os passos sem perceber. À frente, abaixo da estrada elevada, Velastra se espalhava ao longo da costa como se tivesse sido construída para acompanhar cada curva natural do litoral. As residências não formavam fileiras apertadas nem disputavam espaço umas com as outras. Cada casa parecia possuir seu próprio pedaço de mundo. Jardins ocupavam áreas inteiras entre os imóveis, caminhos de pedra desciam pelas encostas em direção ao mar e árvores altas surgiam espalhadas pelo bairro sem qualquer sensação de planejamento rígido. Tudo parecia ter crescido junto com a paisagem em vez de substituí-la. 

    Mas era o oceano que dominava a vista. Mesmo depois de passar dez dias navegando sobre aquelas águas, Vance sentiu o mesmo aperto estranho no estômago ao vê-las se estenderem até o horizonte sem encontrar qualquer limite visível. A superfície azul refletia a luz do sol em milhares de fragmentos brilhantes enquanto as ondas avançavam contra as falésias claras espalhadas ao longo da costa. Em alguns pontos, a água explodia contra as rochas muito abaixo, transformando-se em espuma branca antes de ser puxada novamente para o mar. Em outros, pequenas enseadas se escondiam entre as formações costeiras, protegidas do vento e quase invisíveis para quem observava de cima. 

    Alice também havia parado. O cartão metálico permanecia em sua mão desde que deixaram a praça e agora seus dedos o seguravam com menos força do que antes. O vento agitava seus cabelos enquanto seus olhos percorriam lentamente o bairro, como alguém tentando encontrar algo familiar em um lugar que nunca tinha visto. Então seu olhar encontrou uma das placas instaladas na esquina da rua. As letras metálicas refletiram a luz do fim da tarde. 

    Costa de Velastra. 

    Por alguns segundos ela permaneceu imóvel, observando apenas aquelas palavras. Depois soltou uma respiração longa que desapareceu junto ao vento. Não havia sorriso em seu rosto, mas também não existia a tensão constante. Algo parecia ter cedido dentro dela. Talvez porque, depois de tantos anos sem respostas, aquele endereço deixasse de ser apenas algumas palavras gravadas em um cartão e passasse a existir diante de seus olhos. 

    Ao redor deles, Velastra continuava tranquila. O som das ondas subia das falésias. As árvores se moviam suavemente sob a brisa do mar. Algumas janelas permaneciam abertas nas casas espalhadas pela encosta e, em algum lugar mais abaixo, uma embarcação atravessava lentamente a linha costeira. Pela primeira vez desde que deixaram o Leviatã, Vance teve a sensação de que não estavam apenas chegando a uma nova cidade. 

    Estavam seguindo uma trilha deixada por Cedric Morren. 

    E, pela primeira vez em muito tempo, essa trilha parecia levar a algum lugar real. 

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