Capítulo 14: Último Pedido
A mulher permaneceu encarando Vance por alguns segundos depois de terminar de falar. O peito subia e descia em movimentos irregulares enquanto ela tentava recuperar o controle da própria respiração. A mão que o havia atingido continuava fechada ao lado do corpo e seus olhos permaneciam presos aos dele, como se ainda existissem dezenas de palavras que precisavam ser ditas, mas nenhuma delas fosse capaz de atravessar a dor acumulada dentro de seu peito.
O silêncio voltou a ocupar o espaço entre os dois.
Ao redor, as conversas começaram a surgir novamente aos poucos. Pessoas voltaram a falar em voz baixa, crianças retomaram suas brincadeiras silenciosas entre os cobertores improvisados e o rangido constante do casco do navio voltou a preencher o ambiente. Ainda assim, Vance permaneceu imóvel diante dela.
Os dedos se fecharam lentamente.
Então uma lembrança surgiu.
— Novamente, Senhora Lyra — Vance olhou diretamente em seus olhos — E o senhor Gareth?
A pergunta saiu baixa.
Por um instante, a mãe de Elena pareceu não compreender.
Os olhos da mulher vacilaram imediatamente.
Por um instante, toda a tensão que existia em seu rosto pareceu mudar de lugar. A raiva desapareceu. A dor continuou ali, mas assumiu outra forma. Algo mais próximo da exaustão. Algo mais próximo de alguém que já não possuía energia suficiente para continuar sofrendo da mesma maneira.
Ela desviou os olhos.
Respirou fundo.
Demorou alguns segundos antes de responder.
— Está vivo.
Vance sentiu o peito aliviar por reflexo.
A mulher continuou olhando para o chão.
— Pelo menos estava quando embarcamos.
A resposta trouxe mais perguntas do que respostas.
Ela passou uma mão pelo rosto antes de continuar.
— Quando a Ordem conseguiu abrir caminho até a praça, encontraram vários sobreviventes. Alguns estavam em condições piores do que outros. Gareth foi um deles.
Sua voz ficou mais baixa.
— Ele ainda respirava.
Os dedos dela se fecharam lentamente sobre o tecido da própria roupa.
— Mas mal conseguia ficar consciente.
A avó de Elena permaneceu imóvel ao lado dela, ouvindo tudo em silêncio.
A mulher continuou.
— Eu só consegui vê-lo uma vez depois disso. Os médicos o levaram para uma ala separada. Disseram que os ferimentos eram graves demais para permanecer junto dos outros sobreviventes.
Os olhos dela finalmente voltaram para Vance.
— Desde então ninguém me deixou entrar.
O silêncio voltou a se instalar.
Vance absorveu aquelas palavras devagar.
Depois de tudo que havia acontecido, descobrir que Gareth ainda estava respirando parecia um pequeno milagre perdido no meio de uma tragédia muito maior.
Mesmo assim, ao olhar para a mãe de Elena, Vance percebeu que aquilo não trazia nenhum alívio verdadeiro.
Porque Gareth estava vivo.
Mas Elena continuava desaparecida.
E enquanto aquela ausência existisse, nenhuma vitória seria suficiente.
Os dedos da mulher tremeram levemente antes de finalmente relaxarem.
Ela respirou fundo.
Depois desviou os olhos para algum ponto distante do compartimento.
— Desculpe pelo tapa.
A frase saiu tão baixa que quase se perdeu em meio ao murmúrio constante do compartimento. Ainda assim, Vance ouviu cada palavra.
Ele abriu um sorriso em seu rosto, pequeno o suficiente para que ninguém percebesse.
Os olhos de Vance permaneceram sobre ela por alguns segundos. A marca em sua bochecha ainda queimava levemente, mas aquilo parecia distante agora. Pequeno demais para ocupar espaço diante de tudo o que havia acontecido
— Eu prometo. — Ele murmurou para que ela não ouvisse.
O silêncio voltou a ocupar o espaço entre eles, mas já não era o mesmo silêncio de antes. A tensão que momentos atrás parecia prestes a romper algo entre os dois havia desaparecido, substituída por uma quietude pesada, porém mais suportável. As conversas espalhadas pelo compartimento voltavam a preencher o ambiente aos poucos, pessoas retomavam seus próprios problemas, suas próprias perdas e preocupações, enquanto o navio seguia avançando pelo oceano com seu balanço constante. Mesmo cercados por dezenas de vozes, Vance teve a impressão de que aquele pequeno espaço ao redor deles continuava isolado do restante do mundo.
Foi então que sentiu algo tocar seu braço. O contato era leve, mas firme o bastante para chamá-lo de volta à realidade. Quando virou o rosto, encontrou Alice ao seu lado. Ela havia se aproximado sem que ele percebesse. Os dedos permaneciam fechados sobre a manga de sua roupa e seus olhos carregavam uma mistura estranha de preocupação, cansaço e paciência. Não havia pressa neles. Não havia cobrança. Apenas a compreensão silenciosa de alguém que sabia exatamente o peso daquela conversa e entendia que algumas dores não podiam ser resolvidas, apenas suportadas. Ela não disse uma única palavra. Nem precisava. A presença dela já dizia o suficiente.
Vance permaneceu imóvel por mais alguns segundos antes de voltar o olhar para Lyra. A mulher já começava a se sentar novamente ao lado da própria mãe. O movimento veio devagar, como se o simples ato de dobrar os joelhos e apoiar o peso do corpo exigisse mais energia do que ela realmente possuía. Seus ombros continuavam carregados, a postura curvada denunciando um cansaço que não tinha origem apenas física. Parecia alguém sustentando um peso invisível sobre os ombros. Ao seu lado, a avó de Elena permanecia em silêncio, observando tudo sem interferir. Durante um instante, Vance acreditou que a conversa havia terminado. Que aquele seria o fim. Então, quando Lyra já estava quase sentada, ela ergueu os olhos novamente e o encarou.
— Vance.
A voz o fez parar imediatamente.
Ele permaneceu onde estava.
Os olhos dos dois se encontraram mais uma vez através da pequena distância que os separava.
Por alguns segundos, ela pareceu procurar as palavras certas. A respiração vacilou. O olhar perdeu o foco por um breve instante antes de retornar ao dele. Havia algo diferente ali agora. A raiva havia desaparecido, o ressentimento também. Restava apenas uma mãe falando sobre a própria filha.
— Se algum dia encontrar minha filha…
A frase morreu antes de alcançar o final.
Pela primeira vez desde o início daquela conversa, Vance percebeu o quanto ela estava se esforçando para permanecer de pé.
Lyra abaixou os olhos por um segundo, reuniu forças e voltou a encará-lo.
— Diga a ela que eu nunca deixei de esperar.
Vance sustentou aquele olhar durante alguns segundos. Nenhuma resposta parecia suficiente. Nenhuma palavra parecia capaz de carregar o peso do que acabara de ouvir. Promessas haviam causado dor suficiente. Juramentos não mudariam nada. Discursos seriam vazios diante de algo tão simples e tão humano quanto aquilo. Então ele apenas assentiu. Um único movimento de cabeça, pequeno e silencioso, mas sincero. E, por algum motivo, pareceu ser exatamente a resposta que ela precisava.
Nenhuma lágrima acompanhou aquelas palavras, nenhum choro, nenhum desespero. Ainda assim, elas atingiram Vance com uma força maior do que qualquer coisa dita até então. Havia algo naquela frase que parecia carregar todos os dias que ela passaria olhando para portas que não se abririam, todos os rostos que observaria esperando encontrar um que não estava ali, todas as noites em que iria dormir sem respostas e todos os amanheceres em que acordaria esperando receber alguma notícia. Não era um pedido, muito menos uma ordem. Era apenas o último pedaço de esperança que ainda permanecia vivo dentro dela.

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