Capítulo 23: Primeiro Dia
A luz do sol atravessou as cortinas muito antes de Vance abrir os olhos.
Observando o teto de madeira acima da cama enquanto tentava entender por que tudo parecia tão silencioso. Ele se perguntou por que não havia nenhum rangido de casco, nenhum estalo vindo das estruturas metálicas do Leviatã ou nenhum balanço constante sob seus pés.
Apenas o som distante das ondas.
O garoto piscou algumas vezes.
Então se sentou.
A claridade invadia o quarto através da janela aberta e o cheiro do mar já preenchia o ambiente. A brisa movimentava levemente as cortinas enquanto, do lado de fora, o oceano brilhava sob a luz da manhã como uma extensão interminável de diamante líquido.
Vance passou a mão pelos cabelos e se levantou.
O piso de madeira estava morno sob seus pés quando atravessou o quarto e se aproximou da janela. A vista era ainda mais impressionante durante o dia. As falésias desciam em direção ao mar através de encostas cobertas por vegetação verde, pequenas embarcações cruzavam a costa ao longe e as residências espalhadas pelo bairro pareciam surgir naturalmente entre árvores e jardins.
Depois de alguns minutos observando a paisagem, Vance deixou o quarto e caminhou pelo corredor.
A casa parecia diferente sob a luz da manhã.
Os raios de sol atravessavam as enormes janelas espalhadas pelos dois andares e desenhavam faixas douradas sobre o piso. O ambiente que durante a noite parecera silencioso e misterioso agora transmitia uma sensação estranhamente acolhedora.
Ao descer a escada, encontrou Alice já acordada.
Ela estava na cozinha.
Ou, pelo menos, tentava entender a cozinha.
Vance precisou conter uma risada.
Diversos armários permaneciam abertos ao mesmo tempo. Panelas ocupavam metade da bancada. Um aparelho metálico desconhecido emitia pequenos estalos próximos à parede. Alice observava tudo aquilo com a mesma expressão que teria diante de um artefato encontrado em uma ruína antiga.
— Problemas? — perguntou.
Alice virou o rosto.
— Seu pai era claramente uma pessoa perigosa.
— Por quê?
Ela apontou para os equipamentos espalhados pela cozinha.
— Porque alguém decidiu transformar o ato de fazer café em uma operação militar.
Vance finalmente riu.
Alice suspirou.
— Eu só queria água quente.
O garoto se aproximou.
Por alguns minutos os dois exploraram armários, gavetas e mecanismos até finalmente conseguirem entender parte do funcionamento do lugar. Aparentemente Cedric havia equipado a residência com tecnologias comuns para Nova Aster, mas completamente desconhecidas para alguém que passou a vida em uma pequena cidade-ilha.
Um aparelho cúbico, pouco maior que uma caixa comum, ocupava parte da bancada da cozinha. A porta permanecia entreaberta e uma fina coluna de fumaça escapava lentamente de seu interior, espalhando pelo ambiente um cheiro desagradável de metal aquecido.
Alice observava a cena com os braços cruzados.
Vance observava de uma distância consideravelmente mais segura.
— Certo… — murmurou.
Vance permaneceu em silêncio.
— Como eu ia saber que metal não podia entrar nisso?
O garoto olhou para o aparelho fumegante.
Depois para o recipiente destruído.
Depois novamente para o aparelho.
— Talvez pelas faíscas.
Alice apontou para ele.
— Isso não ajuda em nada.
— É…
Ela soltou um suspiro cansado e passou a mão pelos cabelos.
— Seu pai deixou uma casa inteira equipada com tecnologia avançada e eu consegui destruir alguma coisa em menos de uma hora.
Vance observou a fumaça subindo lentamente.
— Tecnicamente ainda não sabemos se está destruído.
Um pequeno estalo veio de dentro do aparelho.
Os dois ficaram olhando.
E então outro estalo.
Um pedaço plástico de dentro da caixa simplesmente caiu para fora liberando ainda mais fumaça.
— Está destruído — concluíram ao mesmo tempo.
…
Quando finalmente conseguiram preparar algo semelhante a um café da manhã, o sol já havia subido bastante no céu.
Os dois acabaram se acomodando próximos às janelas da sala principal.
O oceano permanecia visível além do vidro.
Alice segurava uma xícara enquanto observava o movimento das embarcações ao longe.
Vance mordia um pedaço de pão enquanto folheava novamente o Manual de Novos Cidadãos.
Desta vez não para estudar.
Apenas para procurar algo específico.
— Escolas — murmurou.
Alice ergueu os olhos.
— Hm?
— O livro fala sobre elas.
Ela permaneceu em silêncio.
Vance continuou folheando algumas páginas até encontrar a seção desejada.
Quanto mais avançava, mais percebia uma coisa.
Aster parecia levar educação absurdamente a sério.
— Você vai precisar começar em algum lugar — disse Alice após alguns minutos.
Alice permaneceu observando o garoto por alguns segundos antes de apoiar a xícara sobre a mesa. O vapor continuava subindo lentamente enquanto a luz da manhã atravessava as janelas e iluminava parte da sala. Atrás dela, o oceano se estendia até o horizonte em uma faixa azul quase hipnótica, mas naquele momento a atenção de Vance permanecia presa às páginas abertas diante dele.
— Vai precisar começar em algum lugar — repetiu ela.
Vance passou os olhos pelo capítulo. Aster possuía um sistema educacional dividido em várias etapas e, diferente da Cidade-Ilha 31, parecia tratar a formação dos jovens quase como uma questão estratégica. Não existiam apenas escolas comuns. Havia instituições voltadas para pesquisa, engenharia, administração, navegação, combate, exploração, logística e dezenas de outras áreas que ele sequer compreendia completamente. Algumas recebiam milhares de estudantes por ano. Outras aceitavam apenas algumas dezenas após processos seletivos rigorosos.
— Hoje mais cedo eu recebi uma carta.
Alice falou de forma casual enquanto observava o oceano através das janelas, mas aquilo foi suficiente para fazer Vance erguer os olhos do manual.
— Carta de quem? — perguntou Vance.
— Da escola.
O garoto franziu a testa imediatamente.
— Escola?
Alice deslizou o envelope pela mesa até ele.
— Pelo visto eles já sabiam que você chegaria.
Vance abriu o documento com uma curiosidade crescente. O interior continha várias folhas organizadas de maneira impecável. Havia formulários preenchidos, registros civis, números de identificação e uma carta oficial assinada por alguém do setor administrativo da instituição. Conforme seus olhos percorriam as linhas, a sensação de estranheza aumentava. Não era uma convocação, nem matrícula e muito menos um convite.
Era uma confirmação.
Seu nome já estava registrado.
Sua documentação já havia sido analisada.
Sua condição de cidadão recém-integrado ao continente já constava nos arquivos da instituição.
Até mesmo a turma havia sido definida.
Vance precisou voltar ao início do texto para ter certeza de que estava entendendo corretamente.
— Espera… eu já fui aceito?
— Foi exatamente o que eu perguntei quando li isso.
Alice apoiou o queixo na mão enquanto observava a reação dele.
— E a resposta aparentemente é sim.
O garoto continuou lendo. A carta explicava que, após o registro oficial da família Morren em Nova Aster, seu processo educacional havia sido automaticamente encaminhado para análise. Considerando sua idade, histórico acadêmico e situação de realocação continental, uma vaga havia sido reservada na Academia Central de Nova Aster, uma das principais instituições de ensino da capital. A apresentação obrigatória deveria ocorrer dentro de poucos dias, quando seriam realizadas avaliações para determinar seu nível atual de conhecimento e definir seu programa de adaptação.
Em meio a tantas informações, Vance foi capaz apenas de entender e ficar segundos encarando apenas o nome da escola.
Academia Central de Nova Aster.
Mesmo sem conhecer nada sobre o lugar, o título parecia importante.
Talvez fosse a palavra “Central”. Talvez fosse o fato de estar localizada no coração da maior cidade que já vira.
Até aquele momento, Nova Aster existia apenas como uma imensidão espalhada além das falésias de Velastra. Uma cidade gigantesca composta por milhões de desconhecidos, edifícios impossíveis e organizações que pareciam grandes demais.
— Então eu vou estudar no centro da cidade…
Alice assentiu.
— Pelo que entendi, sim.
O garoto baixou os olhos novamente para a carta. Havia mapas mostrando a localização do campus, horários de transporte público, informações sobre uniformes, materiais obrigatórios e até uma lista de disciplinas introdutórias. Quanto mais lia, mais percebia que alguém esperava sua chegada havia muito tempo.
A ideia era estranha.
Na Cidade-Ilha 31, uma matrícula significava preencher alguns papéis e aparecer no primeiro dia de aula.
Aqui, antes mesmo de colocar os pés na escola, já existiam tantas informações que a cabeça de Vance estava parecida com a caixa destruída… saindo fumaça.

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