Capítulo 72 - A procura do broche azul.
Depois da conversa com o professor Shuukyo, fui com a Itsuki para o refeitório.
Comemos, conversamos e, após isso, voltamos para o segundo turno da aula.
Shuukyo, dessa vez, não ficou me observando, nem olhou para mim.
Por mim tanto faz, mas ainda assim fiquei com o que ele me disse na cabeça.
Esse cara com certeza sabe sobre minha mãe, mas como?
Será que ele já foi me visitar alguma vez na infância?
Não, eu não me lembro de ninguém me visitando, era só eu e meus pais.
Na realidade, não é só esse professor que é estranho, mas o Okawara, aquele professor que me viu no sótão, o diretor, a Ayumi, todos são suspeitos comigo.
Será que eles suspeitam que eu tenho essas partículas especiais no corpo?
Como a enfermeira Pink disse, eu sou um tipo especial por conta daquela regeneração acelerada.
Espera, será possível que ela tenha contado para o diretor sobre isso?
Meu Deus, minha cabeça vai explodir.
Eu preciso me acalmar, já que hoje tenho uma coisa importante para resolver: a situação do broche com a Itsuki no mercado central.
Parei de pensar loucamente e continuei vendo a aula até o final.
— Meus queridos cordeirinhos, antes de liberar vocês para irem embora, me permitem que diga mais uma coisa? No que acreditam? Em deuses? Em seres de outros planetas?
Os alunos ficaram me encarando, após olharem uns para os outros.
Alguns disseram que acreditam em Deus, outros disseram que não acreditam em nada.
— Entendo. Que lástima — disse Shuukyo, com uma expressão desapontada. — Podem ir agora. Até a nossa próxima aula.
Os alunos se levantaram e começaram a sair da sala de aula.
Que momento estranho, ele fez essa pergunta e depois ficou desapontado.
— Yuki…
Itsuki apareceu do meu lado, me segurando pelo braço.
— Vamos ao mercado central, Itsuki? Vamos às lojas que vendem broches para eu achar um igual ao seu — disse, enquanto acariciava sua cabeça.
Ela fez uma expressão diferente no rosto, mas acenou com a cabeça.
Saímos da prédio escolar, indo pelo caminho de jardim.
O clima está nublado, com nuvens escuras e um vento frio, além de leve.
Mas, enquanto seguíamos pelo caminho do jardim, que nos levava até a praça central, o clima começou a mudar bruscamente para um mais seco e ensolarado.
Até o cheiro das árvores estava mudando.
Quando estou com a Itsuki, começo a perceber esses detalhes minuciosos com o olfato.
Mas, por conta dessa alteração repentina no clima e por conta da Itsuki estar colada comigo, o calor só aumentou.
Estou sentindo o suor descendo no canto da minha orelha.
Talvez seja o nervosismo dessa situação.
Olhei para baixo e me parece que estou realmente crescendo.
Antes, a Itsuki não era tão baixa assim.
Reparei isso ontem, quando ela me abraçou.
O olhar dela, a expressão apática em seu rosto, algo está incomodando ela.
— Itsuki…?
Seu olhar distante se virou para mim.
— Hum?
Por um momento, nossos olhares se encontraram, mas logo depois se distanciou novamente, olhando para frente.
— O que foi? Você me parece um pouco preocupada? Distante também. O calor está te incomodando?
— N-não. Está tudo bem. É só que estou cansada, só isso. Não se preocupe comigo.
Ela apertou meu braço após isso, mesmo no calor, ela continua perto de mim.
Estou preocupado com Itsuki, mas se ela diz que está bem, vou acreditar nisso.
Depois de um pouco de caminhada, finalmente chegamos ao mercado central.
Passamos em frente a algumas lojas e vimos alguns alunos da nossa sala se divertindo.
Parece que a maioria dos alunos vai para o mercado central após a aula.
— Tem uma loja que vende broches aqui no primeiro andar, no segundo tem as outras duas lojas que vendem — disse Itsuki.
— Entendi, vamos lá então.
Senti que o corpo da Itsuki ficou pesado, como se ela quisesse dar uma parada de andar.
— Yuki, posso te fazer uma pergunta? — disse ela, parando de andar.
Me virei e olhei para seu rosto.
— Sim, claro. O que foi?
Ela soltou meu braço, fez uma pose melancólica, juntando as mãos perto da barriga, como se estivesse insegura com algo.
Sua cabeça permaneceu baixa, não querendo olhar para meus olhos, mas estava juntando forças para dizer algo.
Ergueu a cabeça, olhou diretamente nos meus olhos e perguntou:
— Por que você quer comprar um broche?
Suas bochechas ficaram coradas, mas seu olhar era firme.
— Porque… eu quero comprar um broche? Bem… eu quero comprar um broche igual ao seu, para combinar com você!
Eu normalmente não fico nervoso assim para pensar em um escape, mas com ela é diferente, eu fico nervoso e acabo me perdendo, mas consegui pensar em algo.
Porém, será que foi o certo?
Pela sua reação, não consegui decifrar.
Seu olhar firme ficou arregalado e surpreso, mas se desviava para todas as direções sem conseguir fixar em mim.
E, além de suas bochechas estarem coradas, todo o seu rosto ficou, parecendo um tomate.
— B-bem, é qu-que eu pensei que… ah, me desculpa por te fa-fazer dizer isso…
Ela escondeu seu rosto com as mãos, além de ficar reprimida no canto da parede.
— Tá tudo bem, Itsuki, fica calma… mas até que você está engraçada assim, haha.
— Para, poxa, não ria de mim! — disse ela, me dando um leve soco no peito.
— Mas Itsuki, por que você ficou com aquela reação para saber o motivo? Esperava que eu dissesse o quê?
— Ah… é que eu achei que você ia querer comprar um broche para outra menina.
Ela começou a fazer um gesto com dois dedos, fazendo com que se tocassem.
— Então é isso que pensou. Você tem medo de me perder mesmo, né? Esse tipo de pensamento é normal quando se tem medo, só que — disse, colocando a mão no queixo, fechando os olhos — isso significa que você não confia em mim, né?
— Q-que? Po-por que está falando isso?
— Bem, quando se tem tanto medo assim de perder a pessoa, é porque você não confia nela o suficiente para ter certeza de que ela não vai quebrar suas expectativas.
Itsuki rapidamente me abraçou, nem quis debater ou rebater o que eu disse.
Apenas fez o que ela achava que era o necessário naquele momento.
— Olha, você pode ser inteligente, mas ainda assim consegue falhar em entender os sentimentos dos outros — disse ela, enquanto esfregava o rosto em mim.
— Ham, como assim?
Ela soltou do abraço e começou a andar na frente com as mãos para trás.
Era sutil, mas dava para escutar o som de uma pequena risada vindo dela.
Tentei fazer com que ela falasse durante o caminho até a loja, mas ela me ignorou.
Em frente à loja, Itsuki ficou observando os broches que estavam à mostra na estante.
Tinha vários modelos bem diferentes do que ela está usando.
— Olá, crianças, o que desejam?
Um homem velho, barbudo e com um cabelo espetado de cor preta, parecendo ser mais velho que o Okawara, além de ter uma barriga bem grande.
Estava secando a mão com uma toalha.
Itsuki olhou para o homem e depois para mim, enquanto mexia na franja de seu cabelo, sem sinal algum de fazer alguma pergunta a ele.
Dei um passo à frente e perguntei:
— Oi, senhor. Eu queria saber se você vende esse broche azul aqui.
Apontei para o broche na cabeça da Itsuki.
— Hm… deixa eu ver.
O vendedor forçou a vista para analisar.
Itsuki, para ajudar, se aproximou perto da estante para facilitar a análise do vendedor.
Em poucos segundos, ele fez uma expressão de negação.
— Não, lamento, mas não tenho broches dessa cor azul, muito menos desse modelo seu.
— Entendi. Obrigado pelo seu tempo, senhor.
Acenamos para o homem enquanto nos afastávamos.
— Agora faltam as duas lojas de cima — disse, enquanto segurava a mão da Itsuki.
— Uhum. Vamos lá.
Subimos a escada para o segundo andar, já que de elevador ela não queria ir.
Ela me mostrou onde fica a segunda loja, perto do cinema.
— Olá, senhora, tudo bem? Você pode me dizer se tem desse broche aqui na sua loja? — disse, apontando para o broche na cabeça da Itsuki.
Uma mulher que estava sentada na cadeira lendo jornal apenas mexeu o olho em nossa direção, com um olhar de quem não queria ser interrompida.
Se é desse jeito, por qual motivo ser vendedora se não quer ser incomodada? Que mulher estranha.
Após ter observado o broche, ela balançou a cabeça em forma de negação, voltando a ler seu jornal.
— Entendi… obrigado então — comentei, em tom baixo.
— Que mulher estranha. Com certeza não foi ela que a Ayumi comprou o broche — disse Itsuki, enquanto pegava em meu braço.
— Pois é. O mais estranho é ela ter esse comportamento com cliente, desse jeito quem vai querer comprar algo com ela?
— Eu que nunca. Me deu medo.
— Nem precisa ter medo, eu estou aqui com você! — disse, acariciando a cabeça dela.
Suas bochechas coraram, ela desviou o olhar para o lado, assim como a cabeça.
— Tem razão.
Ela disse em um tom baixo, fingir não escutar, e continuei andando.
— E agora, onde está a última loja? Com certeza deve ser lá, né? — indaguei.
Itsuki tomou a frente sem dizer nada, me levando pelo braço.
Fomos até o final desse andar, passamos por várias lojas até chegar na última.
A estética dela é diferente das outras duas.
Essa é bem mais estilosa e grande.
As outras duas eram pequenas, além da entrada ser aberta e dentro delas era bem cheia e desorganizada.
Já esta loja, a entrada dela tem duas janelas de vidro, mostrando alguns acessórios nas estantes, a porta também é de vidro, com uma maçaneta dourada.
— Que loja linda! — comentou Itsuki, com os olhos vibrantes.
— Sim. Pelo lugar, acho digno de ter esse seu broche estiloso.
Itsuki, com um sorriso lindo no rosto, entrou na loja rapidamente.
Entrei em seguida.
Sua reação quanto à loja e os produtos me parece que ela nunca veio a este lugar.
Se tivesse vindo antes, não teria essa reação toda.
Caso essa loja venda esse broche mesmo, tudo indica que foi Ayumi que comprou e Itsuki está dizendo a verdade.
E, como consequência disso, seria uma investigação bem mais trabalhosa do que eu poderia imaginar, pois quem teria comprado um broche igual ao da Itsuki e perderia assim tão fácil assim na terra?
Ela, toda alegre, ficou analisando vários itens da loja: broches, brincos, colares.
Mas um em específico chamou a atenção dela mais do que outros.
Um bracelete dourado com ondas azuis, igual ao broche que ela usa.
Pelo visto, essa loja realmente vende esse broche.
Um alívio tomou conta de mim.
Um homem estiloso, alto e magro, usando um sobretudo marrom, um óculos dourado no rosto e um cabelo ruivo, começou a vir na nossa direção.
Deve ser o vendedor da loja.
Com um olhar verde aproveitador, disse:
— Ora ora, um bracelete desse combinaria e muito com a princesa.
Itsuki assustou com o homem chegando do nada atrás dela.
— Ah… E-esta falando comigo, senhor? — indagou Itsuki, com as mãos juntas.
— Uhum, a não ser que o menino do seu lado na verdade seja uma menina. Se não isso, então sim. É você mesmo a princesa que estou me referindo, huhu.
— Eh… Eu não sou uma… princesa…
— Sim, concordo plenamente com você, moço, esse bracelete combinaria perfeitamente com essa princesa ao meu lado — disse, enquanto acariciava a cabeça da Itsuki.
— Huhu. Que maravilha, então me digam, o que desejam, crianças? Na minha esbelta loja temos vários itens luxuosos e magníficos.
O homem, enquanto falava, ficou andando como se estivesse dançando balé e fazendo gestos com a mão sobre seus itens nas estantes.
Ele se dirigiu até a bancada principal, nós o seguimos enquanto Itsuki ria de sua performance engraçada.
— Bem, moço, nós na verdade queremos saber se você vende esse broche aqui.
Itsuki mostrou o broche em sua cabeça.
— Hmm… Se eu tenho este broche, né? As ondas e sua coloração são idênticas ao bracelete que vendo! Que intrigante. Você me permite pegar ele?
— Ah… sim, claro.
Itsuki removeu o broche de seu cabelo delicadamente, entregando-o para o homem.
Com muita atenção, o vendedor ficou observando o broche, analisando todos os lados.
Sua mão estava com luvas brancas com linhas douradas, bem elegante.
Ele colocou o item na bancada, puxou o que parecia ser um objeto que fornece luz.
Seus óculos, ele os removeu. Mas logo em seguida pegou outros óculos, mais grossos do que os antigos.
Com o broche na bancada, sob a luz do objeto que era uma mangueira grossa grudada na bancada, começou a analisar com mais especialidade.
— Hmm… Que intrigante.
O que ele quer fazer com isso? Nem precisa dessa análise toda, era só visualizar o broche e dizer que vende ou não, é bem simples.
— Sim… Interessante. Hmmm…
O homem murmurava com gosto, parecia que estava vendo uma joia rara.
— Minha cara princesa, você pode me dizer onde comprou este broche?
— Eu não sei, moço, por isso estamos aqui, para saber se foi com você — disse Itsuki, grudada em meu braço.
O homem retirou os óculos enquanto negava com a cabeça, com uma expressão de felicidade no rosto.
— Infelizmente, não foi comigo. Esse broche é do mesmo fornecedor do bracelete que te interessou há pouco. Mas este broche, ele é único.
— Ham? Como assim, único? — perguntei, ansioso.
Meu coração começou a acelerar.
— Sim, único! Algo que nunca vi antes, em ninguém, em nenhum lugar, nem mesmo com o fornecedor que compro. Penso que esse broche deve ser especial.
O homem corou as bochechas.
— Então, você quer dizer que nunca viu este broche por aqui? Nem mesmo a Ayumi passou aqui? — indaguei.
— Me perdoe, mas Ayumi nunca pisou em minha loja, infelizmente. Além disso, este broche foi feito especialmente para esta menina. Entende?
— Entendo…
Olhei para Itsuki, meu coração pulsando fortemente com esta situação, vendo o rosto dela de surpresa e um pouco assustada.
Saímos da loja melodramaticamente.
— Eu não entendo… Ayumi disse para mim que havia comprado aqui… ela mentiu para mim? Eu, eu… não entendo. Yuki, acredita em mim, eu não menti.
A reação dela é muito espontânea, verdadeiramente, seu rosto está pálido, além de seus olhos estarem passando uma sensação de vazio.
— Ei, ei, calma. Fica calma, eu acredito em você, está bem? Eu entendo essa situação, e é simples de resolver, vamos na Ayumi perguntar onde comprou, que tal?
Os olhos dela começaram a lacrimejar, uma visão de alívio estendia pelo seu rosto.
Ela acenou com a cabeça, cruzou os braços e começou a andar na frente.
Isso é muito estranho. Se este broche foi feito especialmente para Itsuki, não tem como alguém ter um idêntico.
Eu estou sentindo meu coração doer, como se alguém estivesse o apertando.
Minha fé sofreu um pequeno risco, se continuar assim ela vai quebrar e vou acabar…
Droga, calma, preciso pensar, usar a cabeça.
Ainda preciso conversar com a Ayumi, ela é minha última opção.
Arco: Investigação

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