Índice de Capítulo

    Olhos azuis veem o mundo dos sonhos coloridos; por outro lado, olhos cinzentos enxergam apenas preto, um vazio imenso que se expande a cada noite.

    Sem esperança, sem futuro.

    Muitos podem pensar que sonhos são dispensáveis durante a vida.

    Mas eu não penso assim.

    Sonhos são uma forma de escape da realidade.

    Uma realidade dura e cruel; um mundo sem sonhos é um mero vazio.

    Este é o mundo que quase todos aqui na ESA vivem: um mundo sem graça,

    Semeado pela crueldade,

    Alimentado pelo medo.

    Isso é o que ouvi de um colega de classe.

    No meu caso, em especial, é um segredo que posso sonhar mesmo com olhos cinzentos.

    Não posso contar para ninguém, nem mesmo para meus colegas.

    Seria injusto: por que só eu posso sonhar? E todos aqui, que têm o mesmo rank que eu, não podem sonhar?

    Guardar esse segredo é difícil, mas sigo lutando contra meu próprio mundo vazio.

    Mesmo sonhando, ainda sinto que estou vagando em um grande espaço negro,

    Sem saber para onde ir, sem saber em quem confiar e em quem acreditar.

    Por que o mundo é tão cruel? Ou é culpa da vida? E o mundo não tem nada a ver.

    São meras questões de perspectiva.

    Eu quero confiar em alguém, mesmo que tudo aponte que não devo; ainda assim, quero quebrar essas barreiras.

    Para isso, preciso resolver essa questão da Itsuki.

    Estou aguardando as irmãs Yagame aqui no parque.

    Falei com a Aikyo para me encontrar aqui às seis horas em ponto, uma hora depois do término da aula.

    Vou falar com elas a respeito do broche, mas sem mencionar nada sobre a suspeita da Itsuki.

    Quero ver o que Aikyo irá dizer.

    — Oi…

    Katsu cumprimentou de forma doce e fofa enquanto estava de mão dada com Aikyo.

    Bem pontual.

    O relógio marcava seis horas exatas.

    — Oi, meninas. Vocês chegaram na hora certa. Estou surpreso.

    Aikyo desviou o olhar e fez uma cara de tacho para mim.

    — Óbvio. Só você aqui que não é pontual.

    — Irmã, dá para ser mais legal aqui! — disse Katsu, fazendo uma cara emburrada.

    — Aff… Só porque você está pedindo, irmã.

    Aikyo estendeu a mão para me cumprimentar, mesmo com uma expressão não muito boa.

    — Oh, por essa não esperava. — comentou Katsu.

    Cumprimentei as duas e sentamos no banco para conversar.

    — Enfim, você está bem? Depois de ontem, minha irmã ficou… quero dizer, eu, como responsável por nós, fiquei preocupada com você.

    Aikyo tenta de todo jeito não citar a irmã dela comigo; isso é ciúmes dela?

    — Mas eu também… fiquei preocupada, sabe?

    — Ah… desculpa, meninas, por preocupá-las… Mas estou bem, viu?

    Aikyo cruzou os braços e deu um suspiro de alívio.

    — Ai, que bom então!

    Já Katsu corou novamente.

    Sempre com o rosto vermelho. Que estranho.

    — Mas então, por ter nos chamado aqui tem a ver com ontem, né? Sobre a investigação.

    — Sim! Primeiro, quando desmaiei e as luzes apagaram, senti uma presença correndo em direção à porta; foi alguma de vocês?

    Aikyo olhou para Katsu, que trocaram olhares, com expressão de curiosidade e de desentendimento.

    — Não, nenhuma de nós saiu, ficamos com você até sair do lugar. Você tem certeza que sentiu alguém? — indagou Aikyo, determinada.

    — Sim, tenho certeza. Se não foram vocês, então havia mais alguém conosco naquele lugar, e acho que é a mesma que entrou e saiu por aquela porta trancada do lado da escada.

    — Mas se isso for verdade mesmo, por onde ela escondeu? Nós olhamos tudo do vestiário; não teria como alguém esconder lá!

    Katsu, com expressão pensativa olhando para baixo, levantou a cabeça para falar algo.

    — Mas se for uma criança bem pequena e magra, dá para esconder nos armários estendidos, né?

    — Faz sentido, mas os armários estendidos estavam todos trancados; eu mesmo verifiquei. — disse Aikyo.

    — Mas algumas de vocês olharam para debaixo dos bancos? — indaguei.

    Ambas olharam para mim com uma expressão séria.

    — Não… não cheguei a olhar porque não pensei nessa possibilidade. — disse Aikyo, com um olhar melancólico.

    Com certeza ela ficou decepcionada consigo mesma.

    Olhando para Aikyo, dá para ver que ela se cobra muito, já que é conhecida como a segunda melhor no ranking de dedução.

    Katsu segurou a mão de sua irmã cabisbaixa, que deu um sorriso meigo de volta.

    — Enfim, agora isso não importa mais. O que importa é que essa criança tem acesso àquela porta trancada, tanto a senha quanto o cartão de acesso; isso é suspeito, não? — disse, confiante.

    — Sim, bem suspeito. Que criança aqui teria esses acessos? — perguntou Aikyo, com os olhos fechados.

    — Bem… alguém do conselho? Ou os irmãos Kobayashi? — disse Katsu, enquanto me observava.

    — Irmã… os Kobayashi? Isso… não fala tão alto assim!

    Aikyo ficou bem assustada com isso, por quê?

    Duvido que seja só pelo medo de acusar os filhos do diretor; isso não é do feitio dela.

    Vou procurar mais a fundo o motivo conversando mais com ela.

    — Talvez, não ficaria surpreso se fosse o Gyutaro, ele é maluco! Mas por que você não quer que fale tão alto assim, Aikyo?

    Ela me encarou com um olhar bem agressivo, se aproximando bem pertinho de mim.

    — Não é óbvio? Não importa quem seja, não podemos sair acusando alguém em voz alta.

    Fiz uma reação de surpresa; realmente não esperava que fosse isso.

    — Ah… entendi. Desculpa, hehe.

    Katsu puxou rapidamente Aikyo, que estava perto de mim, enquanto fazia uma cara emburrada.

    — Mas nesse caso, poderia ser sim ele, mas precisamos investigar. Inclusive a fantasia que encontramos. Vocês pegaram ela?

    — Sim! — disse Aikyo.

    — Certo. Vamos aproveitar esse final de semana que vai vir para procurar saber quem a pegou emprestada. Que tal?

    Aikyo cruzou os braços e fechou a cara para mim.

    — Você por acaso é o líder, é? Quem fala o que vamos fazer aqui sou eu, revoltante.

    — Aff, irmã, para com isso! — disse Katsu, com um tom melancólico.

    De novo isso…

    Até quando ela vai parar com essa palhaçada e vai confiar em mim?

    — Tá bom… desculpa. O que vamos fazer então, ô senhora líder absoluta?

    — Hmf… Vamos… nesse final de semana atrás de pistas sobre essa fantasia. Enquanto isso, amanhã irei conversar com uma pessoa para saber sobre aquela porta do lado da escada.

    — Certo então. Me diga o que souber amanhã.

    Katsu ficou com cara emburrada enquanto isso; o que houve com ela?

    — Bem… tem mais uma coisa. Eu acabei achando um broche na terra antes da entrada das piscinas grandes. Este aqui.

    Tirei o broche do meu bolso e mostrei a elas.

    Katsu analisou bem atentamente.

    Já Aikyo olhou e fez uma expressão suspeita.

    — Espera, eu já vi esse broche antes. Não é o que Itsuki usa o tempo todo?

    Ela até lembra o nome dela?

    Já imaginava que isso poderia acontecer.

    — Sim, é verdade! — gritou Katsu, pegando o broche da minha mão.

    — Por que o broche da Itsuki estava lá? — perguntou Aikyo.

    — Eu não sei! Isso que vou descobrir amanhã. Então peço, por favor, que me deixe resolver isso sozinho com ela. Não conte a ninguém, tá bom?

    Aikyo franziu a testa. Com uma expressão afiada, ficou me encarando com os braços cruzados.

    — Por que eu contaria a alguém? Agora entendi por que você ficou daquele jeito: foi porque achou o broche da sua amiga e ficou sentido por ela ser uma suspeita agora, né?

    Até que ela entende de sentimentos, pelo menos.

    — Sim… por isso quero resolver isso com ela.

    — Entendo. Mas não vamos fazer nada; pode resolver isso, Yuki. Espero que você fique bem…

    Katsu, como sempre, sendo a versão boazinha das Yagame.

    — Irmã… eu não aceit…

    Antes da Aikyo terminar de falar, Katsu tampou a boca dela enquanto fazia um sinal negativo com o dedo.

    Aikyo entendeu e logo fechou os olhos.

    — Bem, depois disso é melhor eu sair antes de mudar de ideia. — disse Aikyo, com um tom grosseiro.

    Ela pegou o braço da Katsu delicadamente e ambas saíram de perto de mim.

    Katsu balançou a mão se despedindo de mim com um sorriso fofo no rosto.

    Pelo menos dessa vez consegui ganhar a confiança delas.

    Estava pensando em ir embora para o meu quarto comer algo, mas lembrei que estava tendo o debate para presidente do conselho.

    Seria legal dar uma passada e ver como Fuutaro e Sasori estavam indo.

    No debate que está rolando, Sasori e Fuutaro me parecem estar apáticos.

    Enquanto Hideki está com uma cara de raiva.

    Única que me parece estar indo bem no debate é a Rita, com um sorriso descarado no rosto.

    Pelo visto, um final feliz a aguarda.

    Fuutaro percebeu minha presença, fez uma expressão triste no rosto, como alguém que estivesse vendo alguém que gosta apanhando.

    De fato, ele está vendo seu amigo Sasori perdendo o debate, mas ele também está na mesma situação, tendo como resultado essa expressão triste no rosto.

    Fiz um sinal de coração para ele; não iria adiantar nada, mas pelo menos quis mostrar que tem meu apoio e torcida.

    O caminhar do debate foi intenso até o final; realmente, Rita é uma criança bem inteligente.

    — Ah, droga! Essa Rita é um saco. Por isso gosto dela, hehe.

    Fuutaro parecia demonstrar certos resquícios de tristeza, mas não era o caso.

    O sentimento que ele tem pela Rita é maior do que seu objetivo?

    — Pelo que tudo indica, Rita com certeza vai ganhar para presidente do conselho. Ela se preparou muito bem.

    Sasori está com uma expressão diferente da de Fuutaro; ele realmente queria ganhar.

    — Sobre isso, Sasori, você tinha me dito que havia um plano para impedir Hideki de continuar usufruindo da posição de presidente de forma ruim. Seu plano era ser o presidente?

    Esse era o momento ideal para fazer essa pergunta a ele, mesmo que o clima não fosse dos melhores.

    — De fato! Meu plano era esse. Havia conseguido uma audiência com os membros do conselho para dar essa sugestão, e graças ao Fuutaro, por ser um membro do conselho, consegui votos.

    Fuutaro se enfiou no meio entre eu e Sasori, colocando os braços em nossos ombros.

    — Graças a mim e à Rita também.

    Isso faz sentido agora; por isso a Rita votou para que essa eleição acontecesse.

    — Então o motivo da Rita ter votado a favor era porque ela viu uma boa oportunidade para virar presidente. Bem esperta. — comentei, com as mãos nos bolsos da calça.

    Fuutaro deu uma risada, gostando do que eu disse.

    — Como eu disse, ela estava preparada. Com certeza já estava planejando essa eleição há tempos. — disse Sasori, com um olhar intenso.

    Caminhamos até o mercado central para comer algo.

    Paramos num restaurante de lamem.

    Enquanto comíamos, conversamos bobagens sobre romance e o amor não correspondido do Fuutaro.

    A noite já havia chegado há tempos; o momento era tão divertido que nem demos conta da hora.

    Após a conversa no restaurante, fomos embora para o dormitório de barriga cheia.

    Obviamente, quem pagou foi o Fuutaro.

    Os pontos de compra que eu tinha eram os que já estavam comigo desde o ano passado, os mesmos que o Okawara havia me dado.

    Mas agora tenho poucos pontos; pelo menos agora na escola vou ganhar pontos de compra dependendo das notas que tirar.

    — Ai, caramba, hoje foi bem legal! — comentou Fuutaro.

    — Sim, às vezes é bom diferenciar a rotina do dia. — disse Sasori.

    Fuutaro, que estava do meu lado, começou a olhar para o meu cabelo do nada.

    Com uma expressão diferente, comentou: — Yuki, seu cabelo está… cada vez mais branco!

    — Velhice está chegando para você tão rápido.

    Sasori comentou brincando, mas isso está me assustando mesmo.

    O branco significa que meu corpo está envelhecendo por conta dessas partículas?

    Por que, de todos aqui, sou o único que tem esses aspectos?

    — Aliás, você também está crescendo bem mais rápido. Com certeza está alguns centímetros mais alto. — disse Sasori, verificando minha altura com a dele.

    Fuutaro ajeitou seus óculos enquanto me observava.

    — Tem razão. Yuki, o que você andou aprontando?

    — Eu? Não aprontei nada. Isso deve ser algum efeito colateral do tipo de partícula que tenho, talvez?

    — Sim, talvez seja isso. Neste caso, você é alguém bem especial mesmo, porque essa peculiaridade sua é única aqui nesta escola.

    — Mas Fuutaro, a Sayuri Haiiro tem cabelo branco, não tem?

    Fuutaro fez pose de pensativo para responder à pergunta do Sasori.

    — Ela é a garota que é a top um no ranking geral e a prodígio, né? Mas no caso dela, sempre teve cabelo cinza e não branco; essa é a cor natural do cabelo dela. Já com Yuki é diferente.

    — Entendo, se olhar por esse lado é verdade. O dele está ficando branco, como se fosse mágica ou realmente envelhecimento precoce, haha. — disse Sasori, com um sorriso que não é do seu feitio.

    — Haha. Velho aos 7 anos. Espera, quando você faz aniversário, Yuki? Quando você faz 8 anos? — indagou Fuutaro, balançando meu corpo pelo ombro.

    — E-esp-pera, pa-pa-ra de me ba-lan-çar.

    Tentei falar com ele me balançando como um louco.

    — Foi mal. Agora fala aí.

    — Ufa. Bem, eu faço aniversário dia…

    Antes de terminar de falar, uma pessoa apareceu do nada vindo da mesma direção que nós.

    — Ora, ora, o que estas crianças abençoadas estão fazendo sozinhas tão tarde da noite?

    — Ah, professor Shuukyo. Estamos indo para o dormitório agora; estávamos comendo no mercado central. — disse Fuutaro.

    — Hmm, compreendo. Então estamos seguindo o mesmo caminho juntos. Vamos indo?

    Fuutaro e Sasori acenaram com a cabeça, e o professor de Ensino Religioso foi até o dormitório conosco.

    Se bem que amanhã vamos ter aula com ele; vou poder ver como é essa pessoa.

    Olhando para ele agora, é um pouco assustador.

    Seus cabelos ondulados e negros, nessa altura, ficam bem engraçados, chegam até os olhos na mesma altura em torno da cabeça; fora que seus olhos são pequenos, nem parece que estão abertos, além desse sorriso esquisito que fica no rosto.

    Agora essa corrente dourada em seu pescoço é um colar com metade de nuvem e metade de sol. Me lembra de algo que já vi.

    Porém essa caminhada não durou muito; fomos para o dormitório e cada um seguiu seu canto.

    Fuutaro, antes de entrar no quarto, disse para eu contar meu aniversário amanhã.

    Mal sabe ele que já passou e que, na verdade, tenho oito anos agora.

    Fiz minhas tarefas higiênicas: tomar banho e escovar os dentes, e fui dormir.

    Espero conseguir sonhar hoje.

    Quero saber mais sobre essa mulher que sonho.

    Arco: Investigação

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