Capítulo 18: O Aço da Alma e o Mensageiro do Medo
O calor infernal da caverna subterrânea distorcia o ar ao redor da Bigorna de Markyu.
Regiz passava uma pedra de amolar grossa contra o gume escuro da Espada Longa de Ruptura, recém-forjado para Caelan. O som áspero da fricção preenchia o espaço entre os dois veteranos. Gravios, contudo, não abandonou a fábrica ancestral após testar o peso da arma. O General permaneceu no limite da luz das chamas, os braços cruzados sobre o peito enfaixado.
O líder dos Exploradores precisava despejar a verdade inteira.
— Falei que a abominação pensa, Regiz — começou Gravios, a voz grave cortando o chiado do fogo. — Mas o horror afunda muito mais do que instinto predatorial. Caelan visitou a Torre dos Arquivistas em segredo. Liriel cruzou os relatos da nossa batalha com os pergaminhos ancestrais da primeira era.
A pedra de amolar parou. O nono descendente do Primeiro Ferreiro ergueu o rosto sujo de fuligem, os olhos fundos refletindo as labaredas, aguardando o restante do relatório tático.
— O Alfa não engoliu a fogueira dos caídos apenas para engrossar a carapaça violeta — continuou o General, descruzando os braços e apoiando as mãos calejadas na mesa de pedra vulcânica. — O fogo serviu como um núcleo. A corrupção não apaga as memórias humanas para mergulhar o mundo no esquecimento. Ela as absorve. A besta articulou palavras porque as almas consumidas se misturaram à essência dela. O Exímio rouba quem nós somos para evoluir no escuro.
O silêncio desceu sobre a forja, pesado e denso como chumbo.
Regiz soltou a pedra de amolar. O gigante recuou um passo, passando a mão áspera pelo queixo coberto por uma barba rala e grisalha. A mente do mestre ferreiro, famosa por calcular pontos de ruptura e ligas metálicas, absorveu a biologia impossível da ameaça.
— Eles usam a nossa consciência como combustível… — murmurou Regiz, a voz ríspida carregando um tom de reverência sombria. O ferreiro virou o pescoço, cravando o olhar na imensa parede de minérios brutos ao fundo da caverna. — Isso muda tudo. As armas da infantaria de Lancrey falharam porque tentavam cortar carne e osso selvagem. Mas não enfrentamos apenas feras. Enfrentamos as mentes corrompidas dos nossos próprios ancestrais.
Regiz caminhou até uma arca de ferro forjado no canto mais escuro do galpão. Destrancou o cadeado enferrujado com um puxão bruto que arrebentou a corrente.
— Se a chama do monstro nasce das emoções humanas roubadas, o aço comum derrete ao contato porque não possui barreira espiritual — deduziu o gigante, retirando três baús menores de dentro da arca e jogando-os sobre a mesa. — Precisamos isolar a mente de quem empunha a arma. O equipamento do esquadrão não pode ser feito apenas de força bruta.
Gravios acompanhou os movimentos rápidos do ferreiro.
Regiz abriu o primeiro baú, revelando malhas reluzentes de uma prata incrivelmente pálida.
— Para a garota, Mirel… Malha de Prata Lunar — decretou o mestre, os dedos grossos acariciando o metal maleável. — A prata pura rejeita a corrupção e dissipa o calor antes de queimar a pele. Não pesará nos ombros dela. Permitirá que a agilidade continue sendo a principal arma da batedora, mas suportará um golpe lateral sem quebrar as costelas da garota.
O segundo baú abriu com um estalo seco. No interior, pequenos frascos de vidro grosso guardavam um líquido prateado e denso.
— Para o atirador, Trok… — Regiz ergueu um dos frascos contra a luz da fornalha. — Núcleos de mercúrio branco. Forjarei pontas de virote ocas. Ao penetrar a carapaça violeta, o impacto quebra o vidro interno e injeta o mercúrio na corrente sanguínea da besta. O líquido congela as conexões nervosas da criatura instantaneamente. Causará espasmos suficientes para anular a velocidade do Alfa e dar a Caelan o tempo necessário para o abate.
Por fim, o gigante destrancou o último compartimento. Uma placa bruta de pedra vítrea negra repousava no fundo de veludo rasgado.
— E para o escudo do General… Obsidiana da Fundação — cravou Regiz, erguendo a rocha milenar. — O mesmo material que sustenta os portões de Lancrey. Pesará uma tonelada, mas nem o fogo do próprio inferno conseguirá derreter a sua defesa novamente.
Gravios assentiu lentamente. A esperança retornara, moldada a marretadas. A marcha para a Beira exigiria o máximo dos músculos do esquadrão, mas Regiz garantiria que o aço não falhasse.
Muito acima da forja secreta, a noite engoliu Lancrey sob uma tempestade inclemente.
A chuva fina misturava-se à neblina e à fuligem constante, criando uma lama cinzenta que cobria o caminho até os Portões Principais da fortaleza. No topo da muralha, os guardas da patrulha noturna apertavam as capas de lã contra o corpo, tentando manter as chamas das lanternas a óleo vivas contra os açoites do vento.
Um dos sentinelas, um jovem de rosto coberto por sardas, estreitou os olhos. A luz fraca revelou uma movimentação estranha na estrada de cinzas que levava ao Fronte.
— Movimento além dos portões! — gritou o guarda, erguendo a trombeta de aviso, mas hesitando antes de soprar.
Não era um ataque. Não era uma horda de Xemios Menores.
A cortina de chuva abriu-se, revelando uma silhueta solitária tropeçando pela lama. O vulto arrastava os pés de forma irregular, como se cada passo exigisse um esforço letal.
Os sentinelas desceram correndo pelas escadarias de pedra, destravando a portinhola de serviço incrustada no portão colossal de carvalho. Três soldados avançaram com lanças em riste, iluminando o recém-chegado.
A visão paralisou a patrulha.
O Capitão Kaelus caiu de joelhos na lama fria assim que cruzou a soleira da cidade. A armadura do veterano do Esquadrão Martelo encontrava-se amassada e enegrecida por fuligem espessa. O rosto do homem, famoso pela disciplina inabalável perante o Lorde Comandante, estava oco. Os olhos arregalados de Kaelus cravavam-se no vazio, refletindo um horror inominável. Os dedos tremiam violentamente, manchados pelo sangue que não lhe pertencia.
— Pelos deuses… Capitão Kaelus? — sussurrou o guarda sardento, abaixando a lança e correndo para amparar o oficial caído. — O senhor deveria estar na missão de selamento da Cratera de Ashfall! Onde está Torin? Onde está o resto da sua equipe?
Kaelus não respondeu à pergunta. O som da chuva batendo no metal da armadura preencheu o silêncio mórbido. O Capitão ergueu o rosto lentamente. As lágrimas misturavam-se à lama em suas bochechas.
O oficial esticou os dedos trêmulos e agarrou o colarinho de couro do jovem sentinela com uma força desesperada. Puxou o garoto para perto, o hálito cheirando a pânico puro e ozônio queimado.
— Quer ir até o Rei? Ou ao conselho? — perguntou o guarda, tentando soltar-se do aperto maníaco.
Kaelus balançou a cabeça freneticamente. A simples menção à corte provocou uma repulsa violenta no militar quebrado.
— O Rei é cego… O Lorde Baelon é um tolo morto… — a voz de Kaelus rasgou a própria garganta, saindo num sussurro molhado e agoniante. O Capitão cravou as unhas na capa do sentinela, os olhos transbordando a sanidade destruída. — Chamem Gravios. Encontrem a Lenda! Ele tinha razão!
O guarda recuou o rosto, apavorado com a quebra mental do oficial.
— Razão sobre o quê, Capitão? O que aconteceu na Cratera?!
Kaelus soltou o tecido. Os braços do homem caíram inertes na lama. O Capitão deitou a bochecha no chão sujo de Lancrey, encolhendo-se em posição fetal, engolido pelas memórias das chamas alaranjadas e das vozes roubadas.
— Chamem Gravios. O inferno está vivo.

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