Capítulo 17 - Segredos na Poeira
O sol finalmente despencou atrás das grossas muralhas de Lancrey, arrastando a luz consigo e mergulhando o pátio sul em um crepúsculo gélido. O vento noturno começou a uivar pelas frestas de pedra, varrendo a poeira levantada pela batalha extenuante.
Vorn e Trok recolheram os equipamentos de treino em absoluto silêncio. O gigante lançou um último olhar de aprovação velada para os dois recrutas caídos antes de desaparecer nas sombras do túnel de acesso aos vestiários, seguido de perto pelos passos inaudíveis do atirador.
Sozinhos na arena, Caelan e Mirel não se moveram.
O garoto soltou o cabo da espada de madeira, permitindo que os dedos doloridos e cheios de bolhas relaxassem. Esticou as pernas e os braços, assumindo a forma de uma estrela sobre a terra batida. A exaustão pesava como uma cota de malha de chumbo. A poucos palmos de distância, Mirel repousava as costas no piso sujo, a respiração finalmente abandonando o ritmo desesperado do combate para encontrar uma cadência lenta e pesada.
O cheiro de suor ácido, terra remexida e sangue seco impregnava o ar entre os dois. Aos poucos, a adrenalina da vitória cedeu espaço para as dores cruéis do corpo.
— Sinto muito — murmurou Caelan, a voz rouca furando o silêncio fúnebre do pátio. O garoto não virou o rosto; manteve os olhos cravados no céu cinzento escurecendo.
Mirel franziu a testa, virando o pescoço devagar para encará-lo. Um filete de terra sujava a bochecha da garota.
— Pelo quê? O chute que levei de Vorn foi culpa da minha própria hesitação.
— Não pelo treino. — Caelan engoliu em seco, a garganta arranhando. — Pela manhã antes da biblioteca. Quando encontrei você na praça do relógio. Fui um idiota ao recusar a sua companhia para a Torre dos Arquivistas.
A recruta piscou, surpresa com a confissão repentina.
— Silas é paranoico, Mirel — continuou o garoto, ajeitando a postura no chão para aliviar a pressão nas costelas. — Se o velho visse dois sobreviventes do Fronte farejando a ala restrita, a corte inteira cairia sobre nós. Eu queria evitar problemas para o esquadrão, mas… você também sobreviveu à cratera. Merecia ouvir as teorias da minha irmã tanto quanto eu. Eu excluí você.
Mirel desviou o olhar. Os dedos finos da garota começaram a desenhar círculos sem sentido na poeira ao redor de seu quadril. A menção direta à pesquisadora destrancou uma porta interna que a recruta tentava manter fechada a todo custo.
— E como ela está? — perguntou Mirel. O tom de voz perdeu a agressividade forjada nas ruas, assumindo uma suavidade quase dolorosa. — Liriel.
Caelan virou o rosto, observando o perfil da parceira de esquadrão. A tensão nos ombros dela não provinha apenas do cansaço físico.
— Ela carrega olheiras do tamanho de escudos — respondeu ele, soltando um suspiro curto. — Passou os últimos sete dias sem dormir, achando que o abismo tinha nos devorado. Mas a mente dela continua a mais afiada de Lancrey. Ela decifrou os pergaminhos de Markyu. Descobriu o segredo do Alfa antes mesmo dos lordes engravatados sonharem com a verdade.
Mirel parou de desenhar na terra. A mão fechou-se num punho fraco.
— Ela é brilhante… — sussurrou a recruta, as palavras escapando antes que a muralha mental pudesse contê-las. — Admiravelmente brilhante.
O silêncio reinou novamente, mas agora carregava uma densidade diferente. Caelan apoiou-se no cotovelo esquerdo, erguendo o tronco o suficiente para enxergar os olhos escuros de Mirel. O garoto crescera cercado pela rigidez militar de Gravios, mas a guerra ensinava a ler as entrelinhas das almas estilhaçadas.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês duas antes da expedição? — sondou Caelan, o tom calmo e desprovido de qualquer julgamento.
Mirel encolheu os ombros. Uma risada amarga, quase um sopro, escapou de seus lábios rachados.
— Não aconteceu nada. Esse é o problema — confessou a garota, fechando os olhos com força, como se a escuridão pudesse esconder a própria vergonha. — Nós cheiramos a carniça, Caelan. Cheiramos a pólvora, poeira e medo. A nossa função neste mundo é sangrar nas Terras Exímias até sobrar apenas ossos. Mas a sua irmã… Liriel cheira a lavanda e pergaminho novo. Ela representa tudo o que sobrou de limpo e belo na humanidade.
A recruta abriu os olhos, encarando o irmão da garota que amava em segredo. O pavor na expressão dela não tinha relação com o Alfa violeta. Era o pavor de uma vulnerabilidade irreversível.
— Eu não deveria sentir o que sinto por ela — cravou Mirel, a voz trêmula. — Não tenho o direito. Batedores não possuem futuro. Se eu abaixar a guarda e permitir que esse sentimento cresça, o Fronte usará isso contra mim. O abismo vai me devorar viva se eu tiver algo a perder. O amor, nas nossas condições, é apenas uma âncora afundando um navio já furado.
Caelan processou a enxurrada de palavras. A recruta letal, capaz de cegar o atirador mais mortal de Lancrey usando as costas de um gigante, estava aterrorizada pelo próprio coração.
O garoto sentou-se completamente, ignorando o protesto agudo da caixa torácica. Cruzou as pernas sujas de terra e olhou fixamente para a parceira de combate.
— O Fronte rouba tudo, Mirel. Ele rouba a coragem, arranca a sanidade e, pelo que Liriel descobriu, até as memórias das almas corrompidas — declarou Caelan, a voz endurecendo com uma sabedoria recém-adquirida no inferno. — Mas o abismo só rouba aquilo que nós não protegemos com a própria vida.
Ele apontou o dedo indicador encardido para o peito da recruta.
— Se você acredita que o amor é uma fraqueza, vai morrer no primeiro quilômetro daquela floresta morta. Gravios nunca ensinou a matar por prazer. Ele ensinou a matar para proteger as muralhas. Se você esconde esse sentimento por achar que não a merece, ou por medo de perdê-la… está dando a vitória ao Exímio sem nem precisar lutar.
A recruta arregalou os olhos levemente. A lógica militar aplicada ao sentimento mais humano do mundo atingiu sua mente como uma martelada na bigorna de Regiz.
— A lama forjou a espada capaz de proteger o pergaminho — finalizou Caelan, oferecendo um sorriso torto e exausto. — Se você gosta dela, Mirel, transforme esse medo em blindagem. Quando descermos para a Beira, precisaremos de um motivo maior que a simples obrigação militar para voltar para casa. Liriel pode ser o seu.
A tensão nos músculos do pescoço de Mirel finalmente cedeu. A garota deitou a cabeça na terra novamente, fitando as primeiras estrelas pálidas rasgando o véu de fumaça de Lancrey. Uma lágrima solitária e teimosa limpou um rastro de fuligem na lateral de seu rosto, sumindo na raiz dos cabelos.
Não havia mais esconderijos no esquadrão. Os ossos estavam quebrados, os limites superados, e agora os corações encontravam-se despidos na poeira.
— Da próxima vez que você for à Torre… — sussurrou Mirel, a voz macia, banhada por uma esperança perigosa. — Eu vou junto.
Caelan assentiu, encostando as costas na mureta de pedra fria da arena.
— Nós iremos. Mas antes, precisaremos sobreviver a Vorn com as duas mãos amanhã.
A recruta riu, um som genuíno e leve que espantou o silêncio sombrio do pátio. No coração brutal de Lancrey, o amor e o aço preparavam-se para marchar juntos rumo ao fim do mundo.

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