Capítulo 16 - A Dança dos Sobreviventes, parte 2
O estalo seco do montante de carvalho de Vorn colidindo contra o chão de terra ecoou pelo pátio sul. O veterano interrompeu o movimento brusco e encostou a pesada arma de treino no ombro são. O suor brilhava em seu rosto marcado por cicatrizes.
Caelan e Mirel mantiveram a base recuada. A recruta arfava violentamente, as duas lâminas curtas tremendo nas mãos. Caelan apertava o cabo da espada com tanta força que os nós dos dedos empalideciam, aguardando o próximo bote do gigante. O garoto não via Mirel como uma irmã — esse laço de sangue pertencia apenas a Liriel, trancada na segurança da Torre dos Arquivistas. Ali, na poeira da arena, Mirel era sua parceira de abate, a única pessoa que dividia o peso de ter sobrevivido ao inferno.
Vorn, contudo, não atacou. O gigante ergueu o queixo, cravando os olhos na mureta alta da arquibancada vazia.
— A simulação de um Alfa molda a força bruta de vocês — rosnou o instrutor, a voz soando como pedra raspando em pedra. — Mas o Fronte abriga horrores que não caminham devagar. Um esquadrão morre na primeira emboscada se não souber lidar com supressão.
No alto do muro de pedra, uma silhueta fundiu-se contra o céu cinzento de Lancrey. Trok estava empoleirado como uma gárgula, a pesada besta de repetição apoiada sobre o joelho direito. O atirador mastigava o fiapo de uma raiz amarga, a expressão vazia e analítica de um caçador.
— Trok — chamou Vorn. — Apresente o novo inimigo.
O batedor cuspiu a raiz no chão. Ergueu a besta, apontando o cano de ferro diretamente para a dupla de recrutas.
— Aramìo — anunciou Trok, a voz ecoando fria pelo pátio. — Um Xemio Maior das planícies pedregosas. Menor que um Racrydoth, mas dez vezes mais rápido. A carapaça dele abriga glândulas de pressão nas patas dianteiras. Quando a besta ataca, ela dispara espinhos de queratina grossos como lanças. A velocidade do disparo atravessa a couraça de um soldado desprotegido e o prega na árvore mais próxima.
Caelan engoliu em seco. A teoria não oferecia conforto algum.
— Na prática — continuou o atirador, puxando a alavanca de recarga com um clique metálico sinistro. — Vorn será as mandíbulas do Aramìo. Eu serei os espinhos. Sobrevivam aos dois.
Trok nem sequer piscou. O dedo apertou o gatilho.
O zumbido agudo rasgou o ar. Caelan mal teve tempo de erguer a guarda. O virote de treinamento, desprovido de ponta metálica, atingiu violentamente a ombreira de couro do garoto. O impacto bruto o jogou para trás, forçando-o a dar dois passos cambaleantes e soltar um urro de dor. A peça de armadura rachou.
— A aula teórica acabou! — berrou Vorn.
O gigante avançou. Mesmo carregando o braço esquerdo engessado e imobilizado contra o peito, a velocidade do veterano apavorava. O montante de madeira desceu num arco diagonal letal.
Mirel disparou para a esquerda. A garota deslizou os joelhos pela terra batida, escapando do golpe esmagador por um triz. O carvalho do veterano abriu uma vala na poeira onde, um segundo antes, estava a cabeça da recruta.
Caelan recuperou o equilíbrio, ignorando a dormência latejante no ombro atingido, e correu na direção oposta. Precisavam dividir a atenção da ameaça.
Outro estalo ecoou do muro.
Thwack!
O segundo virote atingiu o chão de terra exatos dois centímetros à frente da bota de Mirel, cravando-se fundo no solo. A recruta freou bruscamente, a poeira subindo até os joelhos. A hesitação cobrou o preço. Vorn girou o calcanhar, utilizando o próprio peso para rotacionar o montante em um ataque horizontal varrido.
Mirel cruzou as lâminas curtas para bloquear, mas a força de uma lenda viva não podia ser contida por madeira fina. O impacto estilhaçou uma das espadas de treino da garota e arremessou seu corpo magro contra o muro lateral do pátio. Ela desabou com um gemido abafado, tossindo fuligem.
— O Aramìo não deixa você respirar! — rugiu Vorn, virando o tronco maciço e cravando os olhos em Caelan.
Trok recarregou a besta. O barulho do mecanismo metálico tornou-se o som do pânico.
Caelan recuou, os olhos varrendo o pátio desesperadamente. Se avançasse contra Vorn, Trok o fuzilaria do muro. Se mantivesse a distância para desviar dos dardos, Vorn o alcançaria e quebraria seus ossos. Lutavam duas batalhas separadas e perdiam ambas.
O garoto olhou para Mirel. A parceira de esquadrão ergueu-se lentamente, apoiando a mão na parede de pedra. Ela descartou a lâmina quebrada, empunhando apenas uma espada curta. O olhar dos dois cruzou o pátio. Nenhuma palavra foi dita, mas o instinto afiado na Cratera de Ashfall incendiou a mente de ambos.
Não podiam derrotar um ataque simultâneo. Precisavam transformar duas ameaças em uma só.
Caelan avançou. Emitiu um grito de guerra gutural, brandindo a espada de madeira acima da cabeça e correndo diretamente contra Vorn, numa investida suicida e desprovida de qualquer técnica defensiva.
No muro, Trok mirou o peito escancarado do recruta. O dedo tocou o gatilho.
Mirel agiu um milésimo de segundo antes. A garota disparou não contra Vorn, mas cruzou o pátio num ângulo perfeito, posicionando-se exatamente atrás da silhueta colossal do veterano em relação à linha de visão de Trok.
O atirador estalou a língua e segurou o disparo. Vorn era muito largo. Atirar significava atingir as costas do próprio comandante. A cobertura de espinhos desapareceu do campo de batalha.
Sem o apoio aéreo, Vorn precisou lidar com o ataque frontal. O gigante firmou a base, erguendo o montante com o braço direito para interceptar a investida suicida de Caelan. O choque da madeira ecoou como um trovão. Caelan forçou a lâmina para baixo, usando o peso do próprio corpo para travar a arma do instrutor.
Vorn sorriu de canto, pronto para usar um chute frontal e afastar o garoto.
Porém, a sombra esguia de Mirel surgiu por trás do braço engessado e inútil do veterano. A recruta utilizou as costas de Vorn como escudo cego. Ela não golpeou. Apenas fincou o próprio joelho atrás da articulação da perna direita do gigante, forçando-o a desequilibrar.
A base inabalável da lenda ruiu.
Vorn perdeu o centro de gravidade, tropeçando para trás. A guarda do montante abriu completamente.
Caelan largou a força bruta e girou o pulso, escorregando a própria lâmina pelo carvalho do instrutor. Em um movimento rápido e impiedoso, o recruta cravou a ponta rombuda de sua espada exatamente contra o peito de Vorn, a centímetros do coração.
O impacto parou o gigante.
O pátio mergulhou num silêncio mortal, quebrado apenas pelo zumbido do vento cortando as muralhas. Caelan mantinha a espada firme no peito do instrutor, arfando pesadamente, o suor escorrendo pelo rosto sujo de terra. Mirel permanecia abaixada atrás da perna de Vorn, ofegante, a lâmina curta encostada no tendão exposto do veterano.
No alto do muro, Trok abaixou a besta lentamente. O batedor retirou outra raiz amarga do bolso e a colocou na boca, os olhos frios brilhando com um respeito raro e silencioso.
Vorn olhou para o pedaço de madeira encostado em seu peitoral de couro. Em seguida, baixou o olhar para a recruta agachada atrás de sua perna. O gigante balançou a cabeça, soltando uma risada grave que chacoalhou seus ombros largos. Ele soltou o montante, deixando-o cair na poeira.
— Usaram o meu tamanho para cegar o atirador… — murmurou Vorn, recuando um passo e passando a mão boa pelo rosto suado. — Transformaram a vantagem do inimigo na maior fraqueza dele.
O instrutor ergueu o punho fechado e bateu contra o próprio peito, saudando os recrutas.
— O Aramìo está morto. E vocês continuam respirando.
Caelan finalmente baixou a arma, os joelhos vacilando. Apoiou as duas mãos na lâmina fincada no chão, sentindo cada músculo do corpo implorar por descanso. Mirel deixou-se cair sentada na terra, esfregando o pulso dolorido do impacto anterior. A dupla havia apanhado, sofrido e sangrado. Mas, pela primeira vez desde que pisaram em Lancrey, não eram mais vítimas do escuro. Eram caçadores.

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