Índice de Capítulo

    A porta do bloco onde Ohio morava estava entreaberta. Mesmo assim, quem estava do lado de fora, não conseguia ver o que estava acontecendo lá dentro a não ser se quisesse mesmo olhar pela fresta.

    Mas ouvir era possível.

    Era um prédio deteriorado — vários andares. Lá em cima, o ruído da região pobre onde vivia em Avalice abafava o embate terrível que estava prestes a acontecer.

    Um cervo a estava esperando.

    A sala, local mais iluminado da moradia — um luxo para poucos — era onde ostentava os longos chifres.

    Seu olhar descarado, ao mesmo tempo que alisava o alto da cabeça, deixou Ohio receosa pelo o que viria.

    O cervo caminhou — passos controlados, quase dançava — seguindo em direção à Ohio.

    — Jdor, onde está Michigan? — perguntou a chacal.

    Ele parou, esfregando um dos chifres — uma mania.

    Olhou para Ohio. De canto.

    — Você sabe onde. E com quem.

    Ela engoliu seco e cerrou os punhos. Estavam tão fechados que se ouviu o trincar dos ossos dos dedos.

    Outros três apareceram na porta do fundo — dois caninos e um pássaro — vestindo impecáveis ternos e luvas.

    Estavam prontos para atacá-la.

    — Por quê?

    A pergunta teve resposta, mas física: eles investiram contra ela.

    Os golpes acertaram muito além do seu corpo atlético, e foi arremessada para longe após os quatro golpes.

    Era um cartão de visita.

    — Synthia, Marolu, Rowbert… Jdor — Ohio estava caída e muito ferida. — Éramos uma família…

    Família.

    Isso ecoou no inconsciente de Ohio no presente.

    A ação veio, sem cerimônias.

    Ela viu Beji vir para cima, contaminado pela vontade de honrar os mil anos de artes marciais.

    — Você ousou contra os Zeimah. Agora vai ter de pagar por essa humilhação!

    Ohio ficou calada, restando a fitá-lo como resposta.

    Ele correu, rápido, e a chacal ficou imóvel. Sua mente não estava desligada, mas a visão via outra coisa.

    Beji vinha, mas ela visualizava outro alguém.

    Embora a imagem estivesse na mente, foi na voz que ligou a pessoa ao detalhe.

    Jdor tirou do bolso um rádio controle. Era antigo, mas funcionava como novo.

    — Ohio Yankee… — a voz era familiar.

    A fisionomia da chacal mudou. Antes estava tremendo, agora passou a encarar a todos.

    O corpo ficou firme, quase um obelisco de carne e osso.

    — Kon Gi — ríspida, o tom que saiu foi de fúria.

    — Reconhece a voz de um reles ancião que administra uma organização “filantrópica”?

    O tom irônico a fez torcer a boca. Não queria perder tempo.

    — Onde está Michigan?

    — No momento, preocupe-se em passar para a próxima etapa. Você sabe: desafios. Consiga o direito de obter mais informações. Essa é sua nova missão, cara Ohio Yankee.

    O paralelo lhe entregou o mesmo — no presente, onde ocorria o torneio.

    — Você ignora o perigo, isso é até irônico. Defesa baixa, aberta a qualquer ataque. Pois bem… Creio que devo me entregar o que você quer, e será o que eu quero também!

    Beji havia ignorado o que havia construído.

    O líder de seu time deu um passo à frente na lateral do lei tai.

    Ainda com a fonte anônima, algo inédito ocorreu.

    “Ele estava indo bem. Fez o que deveria ter feito e… alguém sem nada a perder pegou o que produziu… e o usurpou.”

    Esse era seu pensamento.

    Pela primeira vez sua reação interna tinha voz — grossa e estridente — e também lisura.

    No outro extremo, houve reações também.

    Amy apertou com força a toalha — não era a hora. Não ainda.

    Ela viu Ohio investir, visível. Parecia um alvo aberto, pronto para ser acertado por um lutador. Isso não era uma preocupação.

    A chacal tinha um olhar diferente ao trocar com Beji.

    Ele transpirava artes marciais.

    Já ela…

    Era alguém que compartilhava só o espaço.

    Sabendo disso, Beji se livrou de todos os freios quanto à honra do clã.

    — “Agora entendo porque Lito explodiu.” — pensava, encarando Ohio. — “Esse grupo indisciplinado age de forma selvagem. Eles não têm história… então vou escalar além do que aquela semente mal germinada conseguiu.”

    Ele concentrou seu Nirvana, gerando uma aura bege, que se propagou para cima.

    Ao mesmo tempo, surgiu um grande sino, fazendo com que a arena inteira gritasse.

    “Espera! Aquele é o Sino do Exército Imperial!”

    Lito se levantou, arregalando seus olhos após ver a manifestação da técnica suprema dos Zeimah.

    Beji foi além. Pelo menos quatro passos.

    — O Último Estágio: Exército do Imperador! — o seu grito foi bem alto. — Os mil anos de artes marciais retratados por emissários vindo do Sino Imperial! Pague tributo com sua derrota!

    O sino soou tão alto que muitos precisaram tapar os ouvidos — como Lilac precisou fazer.

    Com isso, o efeito: várias silhuetas de monges — energia bege — foram em direção a Ohio, que continuou seu caminho até o felino.

    Eram 4.

    E todos ameaçadores.

    Mas Ohio não se preocupou.

    Veio o primeiro. Golpe com a palma aberta, visando o dorso dela.

    Ele acertou. O Nirvana tendia na barriga definida de Ohio. Ela ignorou.

    A resposta: um soco direto, sem anúncio. O Nirvana dela — azul escuro — só foi visto quando seu punho encontrou a cabeça da conjuração do sino.

    Assim que o atingiu, Ohio viu o rosto de um de seus ex-companheiros: a canina Synthia.

    Uma lágrima surgiu no rosto da chacal, que olhava para o chão, visualizando o corpo estendido — doeu mais nela.

    O segundo veio sem que ela esperasse. Lateral, a arrastando para trás — Beji sorriu, foi efetivo no que propôs na luta.

    O contraste na visão de Ohio: aconteceu o mesmo naquele dia.

    O olho dela brilhou com uma energia azul. Tão logo, surgiu na frente do espectro do monge, o atingindo com um devastador gancho de direita, que o arremessou para o alto — Ohio viu Marolu preso no teto do lugar que estava no passado, inerte.

    O terceiro surgiu por cima: uma voadora, que atingiu Ohio no rosto, a fazendo ir ao chão. Apoiava o corpo com uma das mãos, tomando impulso.

    Todavia, ela ficou frustrada: o quarto veio com um golpe de mão aberta em seu rosto, devastador, a arremessando cinco metros no lei tai.

    O corpo dela quicou ao atingir o solo — duas vezes — trazendo consigo mais do passado.

    A Arena Shang Mu sumiu para Ohio.

    O prédio onde morava virou realidade.

    — Você sabe por que eles estão aqui… Ohio Yankee.

    Era aquele mesmo ancião, o que recebeu os instrumentos que ela abandonou.

    Ele não estava lá, só sua voz. O rádio controle foi mostrado por Jdor, segurando no alto.

    Ela estava caída, ainda mais ferida.

    Mas não abatida.

    — Deixei essa vida lá atrás… Respeitei até o último dia… Desisti de tudo… Faça o mesmo e me deixe em paz!

    — Paz sem guerra? O que é a paz de um indivíduo em Avalice? Pessoas vivem na ilusão de que um dia terão algo para dizer que é “seu”… Como você.

    — O pouco já é o suficiente! Me deixe, vá embora!

    — Migalhas possuem motivo de existirem. E é por isso que estou aqui: pelas migalhas!

    Flashes piscaram na mente de Ohio.

    Ela voltou ao presente, a consciência pela luta voltou.

    Outro flash veio. O retorno surgiu.

    Rowbert e Jdor, os mais próximos do ancião.

    E da admiração dela.

    — Vocês dois me inspiraram. Eu pensei que sentiam o mesmo por mim…

    — Nada pessoal… — falou o cervo. — Ordens são ordens, garota. Porém, por você trair a organização, torno pessoal.

    As feridas que tinha no corpo doíam menos que a que sentiu na alma.

    Ensandecida, levantou-se como uma flecha. A movimentação ficou mais ligeira, fazendo a arena transbordar de vibração.

    Mas, no passado, onde Ohio estava, eram só paredes com infiltração no reboco e mofo.

    A chacal foi para cima de Rowbert. Três socos consecutivos na barriga. A brutalidade era descomunal — os ruídos abafados mostravam danos internos severos em poucos golpes.

    Foi o suficiente para que a projeção do Sino Imperial fosse desmantelada instantaneamente.

    Beji, ao fundo, onde mantinha sua conjuração, ficou surpreso.

    — O que é ela?! Não pode ser…

    O que ele disse foi audível para os dois times.

    Amy segurava com ainda mais ímpeto a toalha.

    E o líder do Clã Zeimah, do contrário, só observava.

    Enfim, o último espectro. O alvo atual de Ohio.

    — Queria ser como você… sabia?

    No passado, ela, ao ver Rowbert derrotado, falou com Jdor, o cervo. Seus chifres protuberantes não eram só estética.

    — Uma vez dentro, não se pode sair. Não sem algo em troca…

    — Algo em… troca?!

    Ohio piscou, voltando ao presente. A Arena Shang Mu fervia enquanto seus sentidos se adaptavam à realidade.

    O espectro veio correndo. Ela fez o mesmo.

    Após cinco metros de corrida, os dois se encontraram. Os punhos dela contra as palmas do Sino Imperial — Beji replicava os movimentos à distância.

    — Você verá agora o que é o Sino Imperial! O Clã Zeimah tem história! O que você tem? O que tem? Me diga!

    “O que você tem?”

    A frase repetidamente atingiu o âmago da chacal. Involuntário, mas o que importava? A intenção em nada mudaria o efeito.

    Foi o que ouviu de Jdor, o que tinha mais estima.

    Foi nesse momento que tudo ascendeu: Ohio trincou a barriga, fechou com ainda mais força os punhos. Além disso, o último capítulo: seu rosto estava tomado por raiva — contraído o suficiente para que fosse possível ver seus caninos.

    Jdor veio, com soqueiras nos punhos. Ele evitou os dois socos poderosos de Ohio — exatamente no presente.

    Ela foi golpeada no rosto, em um contra ataque. A potência a fez recuar.

    No passado, Jdor estava indiferente.

    No presente, Beji sorria.

    A dicotomia atingiu a chacal. Duas vezes.

    No passado, não ficou impune.

    — Se quer tirar minha vida, então… FAÇA!

    Ela veio mais forte. Jdor só aguardou — foi o maior erro do cervo.

    Ela fez finta com o corpo — inclinação lateral — e ele tentou acertá-la. Passou direto, recebendo um cruzado monstruoso no rosto. Um barulho de vidro rachado soou.

    Jdor viu a maior qualidade de Ohio: pequeno espaço, dano severo. Motivo: o dano do soco foi muito maior que previu, e aumentou conforme tentava raciocinar.

    A tontura veio. Enfim, as portas abertas para Ohio.

    Ela pôs a perna no chão — à direita — tomando impulso. O giro do abdômen serviu como uma alavanca: com toda a força de seu corpo, ela chutou o rosto de Jdor, o fazendo voar por mais de dez metros.

    No presente, o ser conjurado pelo Sino Imperial foi jogado para fora do lei tai.

    Mas, no passado, nem mesmo a parede foi capaz de evitar a queda de Jdor — quarenta metros.

    O caminho que ela trilhou foi enorme.

    Mas, em sua mente, foram só alguns segundos.

    A arena quase explodiu. A agitação era imparável e ensurdecedora.

    Ohio parecia outra pessoa: seus pelos do rosto, até seu moicano, estavam arrepiados. Pareciam uma só pelugem.

    O baque caiu sobre o time do Clã Zeimah, principalmente o felino com cabelos vermelhos.

    — Pela segunda vez, o Sino Imperial… foi derrotado?!

    A constatação também pendeu sobre Beji.

    — M-mas o que… — ele ainda mantinha o sino. — O QUE É VOCÊ, AFINAL?!

    Ohio estava a cinco metros dele.

    Ela respirava fundo, os ferimentos eram muitos e o esgotamento era visível.

    Mas foram as lágrimas que lhe causaram maior dano.

    O passado ainda a rendia — a voz do ancião a fez voltar.

    — O “algo em troca”. É isso, cara Ohio Yankee.

    Um silêncio veio.

    Durou segundos. Para Ohio, parecia mais tempo.

    — Maninha…

    O pedido de socorro.

    Ele veio.

    Ohio, no presente, urrou, quase como um choro.

    As lágrimas escorreram, assim como todo seu corpo que se moveu quase como que um teleporte para perto de Beji, que se surpreendeu.

    O grito que Ohio executou veio com um violento soco. O punho entrou na barriga do monge, mantido lá com o Nirvana aflorado. A aura, condensada, aumentou os danos.

    O ruído agudo do golpe preenchendo seu abdômen fez a arena calar.

    Só foi um soco.

    Mas, para Ohio, era um lamento — os flashes em seu inconsciente não deixavam o passado para trás.

    — Leve a minha vida, mas deixe minha irmãzinha em paz!

    — Paz. Você ama esse sentimento. Tola. Veja sua vida longe daqui. Você falhou em proteger o que mais era importante para você. Onde está a paz?

    Não foi preciso que pensasse muito.

    — A paz… está na minha irmã. E eu quero pagar com minha vida!

    — Uma vida por outra? Não. Clichês não trazem nada. Você não estará viva para ver as consequências de suas ações descabidas. Eu quero que viva, que aprenda o que é o rancor e a agonia de não conseguir o que quer.

    Ohio mergulhou no breu. O choro compulsivo lhe tomou, sabendo de que sua irmã estava do outro lado, em algum lugar, sob ameaça de ser aniquilada.

    — O que você quer de mim? — aos prantos, com o cabelo na frente de um dos olhos. — Qualquer coisa… DIGA!

    Do outro lado, veio o que queria ouvir.

    — Status quo. O que eu quero, o que você quer… e o que todos queremos.

    De dentro dos olhos de Ohio, o passado deu lugar ao presente, onde retirou seu punho do abdômen de Beji que, após a desconexão, foi ao chão de costas.

    Seu corpo chegou a levantar poeira, caindo de braços abertos.

    Uma algazarra ocorreu. A plateia quase implodiu a arena Shang Mu.

    Ana Andirá abriu a contagem.

    — Um… dois… três…

    Ohio o olhava, ansiosa pelo fim da luta.

    Porém, ainda que tivesse a visão, os demais sentidos estavam desligados.

    Para ela, não havia contagem. Beji só estava no chão, imóvel. E era isso que ela queria.

    Porém…

    — Só se levanta na oitava contagem, não é?

    Mesmo de olhos fechados, o felino monge soltou o comentário.

    Detroit ouviu, assim como Gil Son, Amy…

    E Nevada.

    — D-desgraçado… — o cougar se aproximou do lei tai.

    Mesmo longe, o passo que deu foi o mais importante desde sua história. Ele, ao tocar a plataforma, sentiu um zumbido no ouvido. Além disso, uma trepidação uniforme o estava unindo à vibração do que estava acontecendo na luta: Ohio estava emanando uma aura azulada mais escura.

    Ele arregalou os olhos. O queixo tremeu junto.

    Ao mesmo tempo, flashes piscaram em sua mente. Lembranças recentes, da academia…

    — “Isso que estou sentindo… é como naquele dia…”

    Na arena, enquanto a juíza morcega chegava na sétima contagem, a chacal concentrava uma aura muito mais densa, a ponto de Ana olhar para ela.

    — “Esse combate está esquisito. Ela não parece que está lutando… O que ela quer afinal? Seu adversário nem se levantou.”

    E foi na oitava contagem que, como dito, Beji se levantou.

    — E então… — ele estava de pé, mas com uma das mãos na barriga e com uma linha de sangue no canto da boca. — Pode ter feito um milagre, mas nada vai te salvar agora!

    A economia de palavras tinha um bom motivo.

    — “Essa miserável maltrapilha…” — pensava, sentindo ainda mais dores, mas se contendo na externa. — “Não consigo respirar direito, a dor na barriga está me matando… O que foi esse golpe? O que ela quer com isso?!”

    Ohio, ao vê-lo à sua frente, inclinou seu corpo.

    Lentamente, preparou seus punhos: um foi para a cintura, o outro próximo do dorso.

    Ana Andirá percebeu.

    — Ei, espere! Eu não autorizei o reinício!

    Amy viu. A mão que segurava a toalha levantou, ao mesmo tempo que um leve deslocamento do dorso de Ohio a fez ler o movimento que viria.

    — “Ohio… não… NÃO!”

    A aura explodiu, condensada ao máximo.

    Um segundo antecedia o último golpe.

    Mas…

    — OHIO!

    A voz potente e carregada de companheirismo ecoou pelo lei tai tanto quanto a voz de Ana Andirá com seu microfone.

    Todos olharam para a lateral, onde estava o Time Demifaiku.

    Era Nevada.

    — Aí, depois disso tudo nós vamos tomar sorvete, você lembra? — como um trovão, a voz atravessou o lei tai.

    Em frações de segundos, todos os sentidos de Ohio retornaram de uma só vez.

    O calor de seu Nirvana.

    O cheiro do lei tai, a textura do chão que pisava.

    A torcida inflamada e barulhenta que invadiu seus ouvidos.

    E, à sua frente, seu adversário.

    Ela olhou para todas as direções, se colocando no lugar onde nunca saiu.

    O propósito, o porquê de estar ali…

    E, principalmente, o que a moveu até o momento da luta.

    — “O que eu estou fazendo? P-por que tudo isso…?”

    Sem que perdesse mais tempo, ela levantou seu punho.

    Ana observou.

    Beji também.

    Todo seu time.

    E todo o Clã Zeimah.

    Eles ouviram ela dizer:

    — Eu… desisto dessa luta.

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