Índice de Capítulo

    Aos leitores de Freedom Planet: Faith and Shock: chegamos aos 150 capítulos!

    Dois anos.

    É difícil acreditar que já faz tanto tempo desde que esta jornada começou.

    Quando escrevi os primeiros capítulos, eu não fazia ideia de até onde essa história chegaria. Hoje, olhar para o capítulo 150 me faz lembrar de cada madrugada escrevendo, de cada ideia que nasceu do nada, de cada momento em que pensei em desistir… e de cada motivo que encontrei para continuar.

    Esse motivo sempre foram vocês.

    Alguns estão aqui desde o primeiro capítulo. Outros chegaram no meio do caminho. Mas, independentemente de quando começaram a ler, cada um deixou sua marca nesta trajetória.

    Saber que existe alguém do outro lado da tela esperando pelo próximo capítulo é uma sensação que palavras dificilmente conseguem explicar.

    Freedom Planet: Faith and Shock cresceu ao longo desses dois anos. Eu também cresci junto com ela. E, de certa forma, nós percorremos esse caminho juntos.

    Obrigado por confiarem na minha escrita, por darem uma chance a essa novel e por fazerem parte desta história.

    Cada visualização representa alguém que dedicou um pouco do seu tempo ao mundo que construí com tanto carinho, e isso é algo que nunca vou tratar como algo comum.

    Que os próximos capítulos continuem nos levando por essa aventura, com a mesma paixão que nos trouxe até aqui.

    De coração… obrigado por esses dois anos.

    Planeta Avalice, seis anos atrás…

    Em algum lugar do Distrito da Zona Ocidental GaoGao — região central entre Shang Mu e Shang Tu — prédios decrépitos compunham o cenário que ilustrava o local urbano menos desenvolvido que os grandes polos dos Três Reinos de Avalice.

    Embora fosse dia, um lugar fechado e escuro abrigava a versão ainda mais jovem de Ohio, que vestia um terno todo preto e luvas, assim como sua natureza de carne e osso.

    Uma lâmpada acesa, pendurada pelo fio que a energizava, balançava. Esse movimento iluminava o posto à sua frente: uma mesa batida de madeira e, no outro lado, uma poltrona decrépita, com outro chacal sentado de pernas cruzadas.

    Sua voz antiga foi ouvida.

    — Agente Ohio… por que está desistindo do que você construiu?

    Ela, devidamente posturada e firme, respondeu:

    — O que eu construí nesta organização destruiu a vida de várias outras pessoas.

    — Notório seu estresse. Todo agente tem seus dias ruins. Natural, cara Ohio.

    — Não. O senhor interpretou errado meu incômodo. Não estou tendo um dia ruim…

    — E então…?

    Ela demorou cinco segundos para responder. Nesse tempo, pôs socos ingleses sobre a mesa, assim como um fio de nylon e agulhas finas.

    — Seguir nesse caminho… me limita e me destrói.

    — Você tem tudo a seu alcance… — se levantou, pegando uma pequena agulha. — Gemas, um teto, um nome… Um plano de carreira que nunca encontrará igual.

    — Eu já tenho tudo que preciso… — deu as costas, olhando para uma porta no fundo. — Meus planos agora envolvem viver longe de causar mal a qualquer pessoa.

    O barulho seco de seus passos soou como uma assinatura final de sua aposentadoria. A porta abriu, deixando entrar a luminosidade natural do lado de fora e, brevemente, o breu retornou.

    A lâmpada balançava, diminuindo o movimento, até que parou, iluminando o rosto do chacal ancião.

    — Há uma multa, cara Ohio Yankee… — fechou os olhos, os abrindo em seguida. — E ela não pode ser paga… por gemas.

    O calor do sol, sua rejuvenescência em cada raio, tocou o rosto da chacal. Foi nesse momento que, após um longo tempo, soltou os cabelos, que por anos os manteve anônimos de todo seu esplendor.

    Um ato pequeno para muitos.

    Gigante para ela.

    Em poucos minutos, ela já estava em casa.

    Abriu a porta — um ranger serviu como campainha.

    O ruído da porta se fechando, que por muitas vezes era um sinal de paz momentânea, não ocorreu — essa diferença não foi só um acaso.

    Após entrar, uma voz infantil foi ouvida, como um acolhimento.

    — Maninha!

    A pequena chacal de vestido amarelo correu na direção da mais velha. As mãozinhas à frente a abraçaram com ternura. O sorriso franco tomou seu rosto.

    — Michigan… — Ohio retribuiu, se abaixando. A pequena perguntou:

    — Ué, cabou o serviço cedo?

    — Sim… — a voz tinha tom melancólico. — Cedo… e vamos ficar mais tempo juntas a partir de agora.

    — Xério?! Legal!

    A comemoração da criança trouxe felicidade à Ohio. Seus olhos marejados foram um presente à sua existência.

    Ela olhou para um espelho, que refletiu uma imagem que jamais viu na vida: uma Ohio jovem, de cabelos longos esvoaçantes aos ventos de um ventilador que lutava em funcionar, no meio de uma sala repleta de pobreza e lodo… mas rica pela ternura da sua irmã.

    — Não importa como será daqui pra frente. Já temos tudo que precisamos.

    — Sim, sim… SIM! Hehe.

    A felicidade estava em cada traço do sorriso de sua irmã. Ohio tinha uma motivação, alguém a quem proteger.

    Ela voltou a olhar para o espelho, vendo o reflexo de quem estava encarando — ela mesma se viu no futuro.

    O foco fugiu do rosto desgastado pelo tempo, rompendo os limites do ambiente escuro, encontrando o presente de Ohio, justamente quando estava frente a frente contra Beji.

    — O que você tem a… — era o que o monge falaria.

    Suas palavras foram pausadas, pois Ohio lhe devolveu o soco inesperado, mas sem anúncios ou invocações de nomes. Ela simplesmente levou seu punho como um raio no rosto do felino, que usou as duas palmas para defletir o movimento.

    Embora diminuísse o dano, isso foi o suficiente para que o arremessasse para longe…

    E ele sentiu o golpe: Beji, recuperado do susto, pôs a mão no rosto; estava marcada ali a agressão enraivecida.

    — Isso… realmente doeu — falou, incrédulo.

    Do outro lado, uma Ohio diferente: as mãos estavam para baixo, paralelas a seu corpo. Não era passividade.

    — Base Extrema Ofensiva… No Fear.

    A fala sussurrante de Ohio fez com que Ametista Superior engolisse seco. Um suor teimava em escorrer pelo seu rosto enquanto seus olhos tremiam.

    Os demais, surpresos, só observavam, mas estranhando a mudança de postura.

    — Base Extrema Ofensiva…? — Detroit estava confusa. — Eu nunca vi a Ohw mostrando isso aí.

    — Mais uma surpresa vindo… — Nevada não tirava os olhos do lei tai. — “O que é isso, Ohio? Uma transformação dramática. Você não é disso, te conheço bem.”

    Gil Son tinha outra leitura. Ele percebeu as micro reações de sua líder.

    — “Ok, isso aí foi inesperado. A Amy está muito mais preocupada agora… e isso está me assustando.”

    Voltando à luta, a “nova estratégia” surtiu efeito: enquanto Ohio o fitava — cinco metros os separavam —, Beji ainda analisava o ataque.

    O impacto sentido era visível. Ele manteve a mão sobre o local atingido.

    Cedo para cair em provocação, e muito menos para pensar em uma mudança de cenário.

    — Que tipo de resistência é essa? — falava, sem desviar o olhar. — Um golpe de sorte como esse de alguém com limitações é só um lampejo de esforço extremo.

    Imóvel e com o físico trincado — concentração extrema — a voz de Ohio vibrou o ar próximo ao seu rosto.

    — Vocês se escondem por trás de regras e doutrinas, nunca entenderam a luta real… — ela fechou seu olho, o abrindo com força em seguida. — Incertezas. Dor. Perder o que mais protege…

    O ambiente mudou. A área em volta de Ohio começou a reagir enquanto uma aura azulada começava a envolver seu corpo atlético.

    Ela bateu os dois punhos com força, o que fez com que seu Nirvana aflorasse de vez, atingindo um raio de dois metros.

    Sua fala odiosa e sussurrante foi ouvida.

    — É onde vou te atingir. E ao restante de sua turma também.

    Não só Beji recebeu aquilo como algo inédito — um desconforto surgiu em seu olhar — mas até mesmo Ana Andirá olhou para a chacal de forma mais crítica.

    — “Esse tom de voz possui quase as mesmas notas de que o Sr Huli disse…”

    Após refletir, voltou as atenções para a luta — que prosseguiu depois do baque de Beji.

    — O que você quer com essa atitude? Acha mesmo que uma simples mudança de postura vai te trazer uma improvável vitória?

    Ohio mantinha os punhos para baixo.

    A conversa prosseguiu.

    — Você já conseguiu entrar na minha mente. Parabéns.

    — Ora, então eu tive esse dom?

    — Idiota — voz sussurrante.

    — Então isso é um sim — um sorriso debochado surgiu no rosto nobre de Beji. — Estou quase vestindo suas luvas nojentas, só para ter a sensação de ser uma plebe como voc…

    Sem que percebesse, outro golpe veio, mas não como antes: um soco na coxa, direto… e poderoso — foi até possível ouvir o Nirvana entrar e sair.

    Não só isso: um cheiro característico foi sentido no ar, que Ana Andirá percebeu mais rápido e com mais significado que o agredido.

    — “Esse odor é… sinistro!”

    Com o impacto, Beji foi afastado metros atrás, com a chacal — ainda deixando o traço do golpe — o olhando.

    Assim que travou as pernas no solo do lei tai para frear, a força que impôs lhe trouxe dor, visível em seu rosto.

    Ele chegou a trincar os dentes.

    — Sua desg… — colocava a mão no local atingido. — “Isso está doendo… Não foi um soco qualquer.”

    Ohio não havia acabado de explicar.

    — Quero ver você sair de onde entrou… Não vai ser de graça, nem “honroso”.

    — O que?! — os olhos arregalaram, com o foco ganhando textura. — Se rebaixou ao desespero? Comum entre imp…

    Outro golpe veio.

    Não um soco.

    Nem mesmo uma esquiva salvadora ou impressionante — Ohio tinha o interesse de ficar na frente e ser vista o tempo todo.

    Foi um movimento que se distanciava do de Ouro Superior — nenhum punguista do nosso mundo faria isso.

    Foi um chute.

    O golpe foi penetrante, com a faca do pé metálico atingindo com força externa na barriga de Beji.

    Surpreendeu o felino, mas não mais que no Time Demifaiku inteiro.

    — UM CHUTE?! — esbravejou Detroit, surtando. — Isso não é Estilo Demifaiku! O que tá acontecendo aqui?

    Nevada sequer conseguia falar algo, ainda processando o que acabou de ver.

    Gil Son iria dizer algo, mas a reação de Amy impediu isso.

    Totalmente.

    — Tio Gil… — falava a felina, estendendo a mão. — Por favor, pegue a toalha.

    — Hã?! Amy, mas o que…

    — POR FAVOR, PEGUE A TOALHA!

    O grito repentino atingiu os tímpanos do javali como um sopro maldito, daqueles que trazem calafrios. Seu rosto mostrou estranheza — seu bom humor pediu licença para a seriedade.

    Mesmo com essa situação, preferiu o silêncio, já que Amy mostrou muito mais do que esperava ver.

    Seu foco total estava em Ohio nesse momento.

    Não havia plateia.

    Nem o time era importante agora.

    — “As histórias do meu pai… estão bem na frente dos meus olhos. Eu terei que fazer alguma coisa se a Ohio que meu pai me falou voltar…”

    No lei tai, Beji estava ofegante.

    Não só isso: também sentindo fortes dores na barriga.

    — “Ah, droga… Esses golpes… se eu não estivesse bem treinado, já estaria…”

    Ele freou a própria fala.

    — “Cansei dessa humilhação toda. Essa amputada precisa ter noção da realidade!”

    Cansado de só esperar, Beji se colocou em base de luta, sabendo que era inútil continuar com suas tentativas de diálogo — ou o que restou disso.

    Diante de uma adversária mudada, ainda que mantivesse a postura Zeimah de prontidão — as palmas sempre abertas —, ver Ohio com a defesa totalmente baixa era uma incógnita.

    — “Ela não tem defesa, então por que estou parado? Isso… está mesmo me…”

    A pausa não foi proposital.

    Isso veio porque a chacal tentou acertá-lo novamente.

    Um soco lateral — cruzado de direita — que visou sua têmpora. Beji pensou rápido dessa vez, defletindo o golpe.

    Mas isso teve um custo.

    Ele cambaleou para um dos lados, fugindo do raio de ação de Ohio.

    Foi um recuo estratégico… e crítico.

    — Ah… Droga!

    Ele protegia a mão que usou para se defender. Talvez nunca devesse ter feito isso.

    — Tempo! — gritou Ana Andirá, levantando uma das mãos.

    — Hã? O que?! — Beji estava incrédulo.

    Sua mão.

    Ela estava ferida — e paralisada.

    E sangrava.

    Era superficial, mas considerável.

    — O que pensa que está fazendo, juíza?

    — Médico! — a morcega não deu ouvidos ao monge.

    De longe, sob a mesma postura aberta, Ohio não tirava os olhos de Beji — ele viu isso.

    Fugindo do lei tai, seguindo até o ponto mais alto e distante da Arena Shang Mu, nas arquibancadas que não podiam ser alcançadas, Baron Hornberg e Elyra Cealestine viram a luta.

    O bode franziu levemente o cenho.

    — Percebeis, Edle Dame?

    — Sim… — a nobre dama falava.

    Ela não tinha o brilho nos olhos, mas sentiu.

    Voltando ao lei tai, os médicos examinaram o ferimento do monge. Na lateral, onde estava seu time, o líder com a face oculta bufava. Os demais membros, inclusive Lito, estavam descontentes.

    Do outro lado, o Time Demifaiku.

    — Amy, por que pediu a toalha? — perguntou Nevada.

    A líder não reagiu. Estava de braços cruzados, olhando para Ohio o tempo inteiro.

    — Ei, estou falando com você! — a cutucou no braço.

    Isso não passou despercebido. Amy o olhou.

    Porém, o olhar, muito mais maduro que antes, lhe fez gelar. Nevada deu um passo para trás, recuando na insistência, ficando calado — mas não satisfeito, pelo contrário.

    Detroit era a mais tensa — os olhos tremiam.

    — Eu nunca vi a Ohw assim. Tô ficando até com medo… — abraçava o próprio corpo.

    Caminhando até Amy, Gil Son ficou a seu lado, também focado em observar a chacal.

    Ele falou:

    — Ela é a mais velha dos seus amigos, eu sei. Ouro Superior me falou dela…

    Amy não moveu um centímetro. Sem franzir, sequer piscar.

    A toalha estava em uma de suas mãos.

    A felina de óculos não desligava sua atenção, a postos para o pior.

    E então, lá estava Ohio, o foco de todos os olhares.

    A torcida, que vibrava agora há pouco, ficou um pouco mais silenciosa.

    Não era apreensão ou coisa do tipo.

    Era curiosidade.

    “Aquela moça da perna mecânica… está estranha.”

    “O Clã Zeimah é forte, nunca que um monge ia parar de lutar!”

    “Beji, você não pode perder! Proteja os mil anos de artes marciais em Shang Mu!”

    No meio, os médicos tratavam do último diagnóstico.

    — Há uma luxação na sua mão…

    — E daí? Isso não é um problema!

    Ana não tinha a mesma opinião.

    — Essa contusão pode escalar. Meu dever é proteger sua integridade.

    — Mil anos de artes marciais estão em jogo! Os Antigos nunca perdoariam fraqueza por causa de um mísero osso luxado! Eu estou pronto para lutar!

    — Muito bem. Você escolheu continuar. Os médicos são testemunhas.

    — Vamos com isso!

    Ele pediu urgência. Ana atendeu.

    — A luta vai continuar! — levantou a mão. — Lutem!

    A palavra ressoou no ambiente, com a torcida, eufórica, gritando e esperneando por toda a arena.

    Contudo, após o reinício, o tempo pareceu parar para Ohio.

    O som ao redor perdeu volume.

    As sensações presentes foram anuladas.

    A visão retornou anos atrás, como uma fita cassete em um VHS antigo.

    O ambiente e o cenário que a chacal chamava de lar, onde morava junto com sua irmã.

    Um palco de uma agonia sem tamanho…

    E que havia recebido visitantes inesperados.

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