Capítulo 19 - Preparações Finais
O calor da caverna subterrânea distorcia o ar ao redor da Bigorna de Markyu, transformando as labaredas das fornalhas em espectros alaranjados dançando contra a pedra bruta. Gravios recuou um passo, as botas pesadas triturando pedaços de escória metálica. O General absorveu a magnitude da promessa feita ali. A sobrevivência da última cidade humana não dependia mais de táticas de guerra escritas por lordes acovardados; dependia exclusivamente das mãos calejadas, da fuligem e do suor do gigante de costas largas à sua frente.
— É isso, então — cravou Gravios, a voz profunda furando o chiado agonizante do óleo fervente nos poços de resfriamento. O líder dos Exploradores apertou os fechos da própria luva de couro negro, preparando-se para retornar à superfície fria. — O destino de Lancrey e as almas do meu esquadrão repousam inteiramente sobre a sua bigorna. Acha que consegue forjar o impossível a tempo?
Regiz virou o pescoço grosso com uma lentidão calculada. O nono descendente do Primeiro Ferreiro exibiu um sorriso rasgado, os dentes brancos contrastando com o rosto coberto de fuligem e graxa. A marreta colossal subiu sem esforço aparente, girando no ar até repousar sobre o ombro esquerdo do artesão.
— Hah. Espere e verá, General — rebateu Regiz, o tom transbordando uma arrogância primordial, forjada em milênios de conhecimento herdado. — O abismo provará o gosto do aço sagrado. E ele engasgará.
Gravios assentiu secamente. Girou os calcanhares e mergulhou no corredor de rocha escura. O relógio contra o fim do mundo havia começado a correr, e cada segundo desperdiçado custaria litros de sangue.
Quatorze sóis nasceram e morreram, sufocados pela neblina eterna da fortaleza.
Duas semanas inteiras transcorreram nas entranhas de Lancrey. O tempo, um aliado raro no Fronte, operou seus milagres biológicos. Os ossos fraturados colaram, as feridas abertas transformaram-se em cicatrizes pálidas e os traumas da Cratera calcificaram-se na mente dos sobreviventes, virando combustível para a fúria.
Contudo, a palavra “descanso” não habitava o vocabulário do esquadrão. A rotina converteu-se em um moedor de carne impiedoso.
No pátio isolado da arena sul, a terra batida escureceu, banhada pelo suor diário de Caelan e Mirel. Vorn, a lenda viva da infantaria, não demonstrou o menor traço de misericórdia. Na virada da primeira semana, a tala de madeira sumiu do braço esquerdo do gigante. Livre das amarras médicas, o veterano revelou a verdadeira extensão do seu terror.
A arena tornou-se um pesadelo de velocidade e força bruta.
No décimo dia de treinamento, a poeira cobria o pátio como uma tempestade. Vorn avançou empunhando dois montantes de carvalho maciço simultaneamente, girando os braços como moinhos de pura destruição.
Mirel não recuou. O medo derretera, substituído pela promessa silenciosa feita sob as estrelas. A recruta pensava no rosto cansado de Liriel trancada na Torre dos Arquivistas e usava essa imagem como âncora de sanidade. A garota deslizou por baixo do ataque duplo de Vorn, as lâminas curtas de treino riscando as costelas do instrutor com uma precisão assustadora.
Antes mesmo da bota de Mirel firmar no solo para a recuperação, Caelan já ocupava o espaço vazio. O garoto não atacava mais cegamente. A mente de Caelan calculava as trajetórias. A espada longa de madeira desceu contra as pernas do gigante, forçando Vorn a recuar um passo.
No alto do muro, o zumbido letal rasgava o ar. Trok disparava três virotes cegos por segundo. As setas choviam sobre a arena, forçando a dupla a lutar sem tirar os olhos do céu e do gigante à frente. O atirador não mirava mais apenas nas brechas; ele antecipava o recuo dos aliados, cravando os dardos exatamente onde o alvo pisaria a seguir.
A sincronia da equipe evoluiu da sobrevivência acidental para uma coreografia de abate cirúrgico. O “organismo único” idealizado por Vorn finalmente respirava. Eles cobriam os pontos cegos uns dos outros instintivamente. Não precisavam gritar ordens. O estalo de um virote ditava o salto de Caelan. O arrastar da bota de Mirel sinalizava o bloqueio de Vorn. A dor ensinara o esquadrão a mover-se como uma máquina desenhada para triturar Alfas.
Enquanto a terra levantava no pátio sul, Gravios travava uma guerra psicológica nas masmorras médicas da caserna leste.
O Capitão Kaelus definhava sobre um colchão de palha úmida. O veterano do Esquadrão Martelo, famoso pela disciplina inabalável, reduzira-se a uma casca vazia. A sanidade do militar evaporou no calor da fogueira de memórias da besta violeta. Gravios não enviou médicos ou clérigos reconfortantes. O General puxou um banco de madeira, sentou-se ao lado das grades de ferro da cama e cravou os olhos de gelo no homem destruído.
Noites inteiras transcorreram naquele quarto fétido a urina e desespero. Gravios não ofereceu consolo. Extraiu a verdade com a precisão de um torturador.
— A neblina… ela rastejava como se estivesse viva — gaguejava Kaelus, arranhando o próprio rosto ensanguentado, os olhos revirados perante fantasmas invisíveis. — Não era frio natural, General. A névoa congelava os ossos antes das garras cortarem. E a voz… a voz mandou aproximar. Torin levantou o escudo… e a boca do monstro vomitou luz laranja.
Gravios anotava cada sílaba num pergaminho sujo.
— Qual o raio de dispersão do fogo corrompido? — perguntava o General, frio e inflexível, forçando o capitão a reviver o trauma repetidas vezes. — As foices ósseas rasgaram a cota de malha de Gareth em qual ângulo? O escudo derreteu em quantos segundos exatos?
Kaelus soluçava, vomitando detalhes macabros de uma anatomia letal e impossível. Gravios absorvia a loucura do capitão, catalogava os padrões de temperatura, o peso dos golpes e o nível de blindagem natural do Alfa. Ao amanhecer de cada sessão, o General enrolava os pergaminhos e os enviava diretamente para o abismo sob o castelo, alimentando os desenhos técnicos de Regiz com o sangue do Esquadrão Martelo.
Profundamente abaixo da corte cega, o mestre ferreiro ignorou a necessidade humana de descanso.
A caverna transformou-se numa sinfonia de destruição criativa. O som da marreta de Markyu ecoou pelas fundações milenares sem interrupção, fazendo o castelo do Rei Aldric tremer levemente a cada noite. Regiz não forjava apenas aço; o gigante manipulava matérias-primas que beiravam o misticismo e a heresia.
Banhos de ácido fervente dissolviam impurezas de escamas de abominações. O martelo colossal dobrava camadas de obsidiana fundida a temperaturas capazes de vaporizar carne humana. O ferreiro engarrafava líquidos prateados instáveis, prendia a respiração ao tecer anéis de metais lunares e moldava brânquias de resfriamento em lâminas monstruosas.
O Fronte devorava a esperança humana há séculos. Regiz preparava a indigestão.
O amanhecer do décimo quinto dia trouxe uma quietude inabitual. O vento úmido varreu as ruas de paralelepípedo, empurrando a neblina rasteira para longe do colossal Portão Norte. Esta entrada, lacrada e guardada a sete chaves, não via o fluxo de mercadores. Dava acesso direto à faixa mais letal e esquecida das Terras Exímias.
A base da muralha de ferro negro servia como ponto de encontro. O som rítmico das correntes grossas retesando nas roldanas superiores denunciava o início dos preparativos mecânicos de abertura.
Ali, alinhados ombro a ombro contra o paredão de pedra, os cinco sobreviventes aguardavam a marcha. A imagem dos soldados apavorados, sujos e remendados desaparecera por completo. As forjas implacáveis de Regiz os reconstruíram. O esquadrão Gravios renasceu como um panteão de semideuses encouraçados, prontos para descer ao inferno e decapitar o próprio diabo.
Mirel respirou fundo, fechando os olhos e testando a flexibilidade milimétrica do novo equipamento. A batedora vestia a mítica Armadura de Malha de Prata Lunar Reforçada. O metal sagrado formava milhões de anéis incrivelmente densos, costurados sobre um couro macio tingido de negro. A couraça exibia um brilho pálido, absorvendo a pouca luz da manhã sem refleti-la, fundindo a garota às sombras. O traje repelia a corrupção do Alfa, garantindo a dissipação térmica absoluta sem adicionar um único grama ao peso original da recruta. A agilidade permanecia inalterada, mas a proteção equivalia à muralha de um castelo. Presas horizontalmente na base das costas, repousavam as gélidas Adagas Duplas de Rubro Lunar. As lâminas levemente curvadas cintilavam em um tom vermelho profundo, sedentas por tendões, cegas para a misericórdia e perfeitamente balanceadas para o abate rápido.
À direita dela, Trok revisava o tensionamento das cordas grossas da besta de repetição. O atirador abandonara o couro leve, envergando a temível Armadura de Metal Rubro Reforçado. Placas assimétricas e facetadas cobriam o peitoral, os ombros e a lateral das coxas, exibindo uma coloração ameaçadora de sangue seco e ferrugem envelhecida. O design priorizava o deslizamento furtivo e as escaladas, reduzindo o som do atrito metálico a zero. Contudo, o verdadeiro terror de Trok encontrava-se preso à coxa direita e em uma bandoleira cruzada sobre o peito. O estoque tático monumental exibia o arsenal encomendado: dezenas de virotes de aço simples, fileiras de dardos com pontas de vidro guardando os letais núcleos de mercúrio branco para congelar nervos, setas robustas de impacto explosivo para destroçar carapaças e os raríssimos virotes de carvão negro, desenhados para ignorar escudos mágicos e perfurar o impenetrável. Trok não era mais um atirador de elite; era uma balista humana de precisão cirúrgica.
No centro da formação, a presença de Vorn ofuscava a própria porta de ferro da cidade. O veterano abandonou a cota de malha gasta da infantaria e assumiu a silhueta de uma montanha que resolveu marchar. O gigante vestia a Armadura de Obsidiana da Fundação. Placas colossais, irregulares e cortantes de rocha vítrea negra cobriam o corpo do guerreiro do pescoço até as solas das botas pesadas. A obsidiana bruta, forjada no mesmo fogo primordial que ergueu Lancrey, rejeitava o calor absoluto e quebrava o aço comum ao menor impacto. O peso do traje esmagaria o esqueleto de um cavalo de guerra, mas Vorn girava os ombros encouraçados com uma facilidade grotesca. Acoplado ao antebraço esquerdo, o titã ostentava o novo Escudo de Obsidiana. Uma peça monstruosa, côncava e larga o suficiente para proteger dois homens adultos, coroada por arestas afiadas capazes de guilhotinar um Xemio Maior com uma simples investida de empurrão.
Caelan, outrora o garoto que chorara na escuridão da cidade soterrada, manteve a mão esquerda relaxada sobre a empunhadura da nova arma. O recruta trajava a lendária Armadura de Escamas de Zecreo. O couro rústico e espesso, costurado minuciosamente com tendões de fera e reforçado com as placas sobrepostas e flexíveis do próprio monstro, exibia um tom cinza-esverdeado doentio. A armadura oferecia a equação perfeita: a leveza vital para os saltos evasivos somada a uma resistência brutal contra cortes transversais e garras afiadas. A peça cheirava a cinzas secas e vitória. Pendurada em bainha diagonal nas costas, repousava a intimidadora Espada Longa de Ruptura. O metal da arma engolia a luz da manhã, negro como a asa de um corvo morto. As largas aberturas diagonais rasgavam o dorso espesso da lâmina — as famosas brânquias de resfriamento, projetadas por Regiz para suportar a onda de choque de uma montanha desmoronando e dissipar o fogo corrompido antes de queimar as mãos do espadachim.
Na extremidade da linha, Gravios exalava a aura esmagadora do comando supremo. A Lenda combinou a brutalidade e a astúcia. A couraça do General fundiu as duas artes: uma Armadura Mista de Obsidiana da Fundação encravada com Escamas de Zecreo. O peitoral maciço e as ombreiras de vidro negro garantiam invulnerabilidade térmica contra a fogueira de almas roubadas, enquanto as articulações dos braços, abdômen e pernas, revestidas pelas escamas acinzentadas, mantinham a explosão muscular de um espadachim de elite. Nas mãos e cobrindo os antebraços, repousavam as temidas Manoplas do Crepúsculo Inerte. O metal arroxeado, forjado com alquimia esquecida, pulsava uma energia surda e contida, endurecendo ao impacto e conferindo a Gravios o poder de estilhaçar a carapaça de um Alfa com os próprios punhos.
A formação aguardou, imóvel e inquebrável. O silêncio sepulcral que banhava os arredores do portão foi interrompido apenas pelo ranger agudo e final do maquinário da muralha.
Poucos metros à esquerda, posicionado ao lado das imensas engrenagens de ferro, Kenshi supervisionava a saída. O guardião das muralhas cruzou os braços sobre o peitoral enfaixado. O rosto coberto de cicatrizes não exibiu a habitual frieza melancólica reservada aos esquadrões suicidas. Kenshi varreu os olhos pela equipe blindada, ciente do poder absurdo concentrado ali, e abriu um sorriso largo, orgulhoso e incrivelmente aliviado. Lancrey não era mais a presa.
As correntes estalaram no limite da tensão. O mecanismo mestre uivou.
O portão de metal escuro e milenar começou a subir. As presilhas soltaram a terra, revelando a vastidão cinzenta, morta e enevoada das Terras Exímias. O vento gélido soprou para dentro da cidade, trazendo o odor pútrido de podridão e cinzas centenárias.
Gravios encarou o abismo. A cicatriz diagonal no rosto do veterano repuxou-se. A postura rígida do líder cedeu milímetros, os ombros relaxando sob o peso da obsidiana. O General abriu um sorriso de lado. Um sorriso predatorial, carregado de fúria controlada, sangue nos dentes e pura sede de vingança. O terror não habitava mais a mente do comandante.
Gravios ergueu o braço, descansando a Manopla do Crepúsculo Inerte contra o pomo da espada presa à cintura.
— Pessoal… — a voz grave e potente de Gravios ressoou pela estrutura do portão, esmagando os fantasmas do passado e cravando o destino na rocha. — Dessa vez… vamo botar pra fuder.


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