Capítulo 152 - Clã Zeimah vs Time Demifaiku (Parte 6): Escolhas e Oportunidades
Planeta Avalice, seis anos atrás.
Zona Ocidental GaoGao | Manhã
Meses depois…

As ruas da região central entre Shang Mu e Shang Tu tinham algo peculiar.
Cercadas por altos prédios deteriorados e tomadas por infiltrações, havia casebres ao longo das vias sujas, onde a pobreza era a realidade de todos do lugar.
O céu azul era o único adorno belo daquele lugar.
Não havia pedintes, sequer comércio.
Mas era comum pessoas bem arrumadas aparecerem.
Os motivos? Vários.
Todos eram para oferecer oportunidades.
“Oportunidades”.
A palavra era repetida em todas as falas dessas pessoas mais abastadas.
Engravatados. Eram vistos o tempo todo.
“O Bando Gi-On-Katai está na área…”
Em cada beco escuro e sujo da região, esse nome era alçado como alcunha negativa.
O temor era o mesmo: alguém estava sendo cobrado, nunca convocado.
A vida de todos naquele local pobre dependia exclusivamente de doações e de os próprios habitantes buscarem trabalho longe dali.
Mas havia um custo: 70% do que conseguiam.
As gemas eram destinadas a impostos.
Não eram “impostos”.
Era pagar para viver um dia mais.
E outro.
E mais um.
Porém, outras formas de as pessoas ganharem a vida em GaoGao — para pagar pela sobrevivência — estavam em todos os lugares.
Favela Tankou | Meio da manhã

— E aí, quem vai ganhar da minha maninha?
Um aglomerado de pessoas — todas bem vestidas — estava reunido ao redor de uma mesa.
Uma garotinha usando vestido amarelo inflamava o ego de quem por lá passava. Seu sorriso era espontâneo, de quem tinha muita fé. Na mesa, uma jovem chacal. Seu dorso desenvolvido, mesmo tão jovem, chamava a atenção.
Porém, ninguém conseguia evitar de olhar.
Marcas pelo seu corpo iam além da boa forma física.
— Cadê seu olho, garota? — perguntou um felino.
Ela ignorou a pergunta, encarando-o.
— Eu fiz uma pergunta!
Ela só levantou a mão. Estava pronta para o desafio proposto.
— Tá. Se você não quiser me falar, eu vou quebrar esse seu bracinho! Vamos ver se você é boa mesmo!
As mãos dele seguravam a dela.
Gemas foram entregues de ambas as partes. Era tudo ou nada em jogo.
Era uma quebra de braço — competição popular naquela região.
— Três, dois, um… Já!
Um ruído abafado veio. Foram dois segundos.
Foi o tempo em que a derrota do felino ocorreu.
Ele se levantou, sentindo fortes dores.
— D-desgraçada… ela deslocou meu braço, essa desmembrada!
A conversa cheia de discriminação era uma constante.
Os cabelos longos e despenteados da jovem foram para trás.
Era Ohio.
Enquanto recebia os prêmios, algo chamou sua atenção: uma menina, que usava óculos, não lhe tirava os olhos. Ela estava no meio da multidão, mas era nítido que alguém de seu porte e natureza não deveria estar ali.
Ohio forçou a vista, tentando encontrar o responsável, sem sucesso. Por perder o foco, a perdeu de vista também.
Ao fim, o amontoado de pessoas se dispersou, rumando para o outro lado da rua, onde havia um portão bem ordenado — entrada e saída demarcado com utopia — deixando só as duas irmãs.
— Nossa, Maninha… Conseguimos trezentas gemas! Hoje vamos comer um tantão!
Antes de Ohio sorrir, uma outra garota — uma felina de longos cabelos azulados e óculos.
Diferente de sua irmãzinha, essa garota estava usando luvas… de boxe.
— Oi. Moça, eu te vi de longe e vim falar com você.
Ohio não entendeu.
— “Por que alguém como essa garota está aqui?
A dúvida cresceu rápido.
— “Luvas de luta…? Ela deve ter uns onze anos, um pouco mais velha que a Michigan…”
E uma sombra, uma silhueta, caiu sobre seu rosto.
Era um outro felino, grande e musculoso, que parou à sua frente.
Não era um engravatado, mas vestia roupas finas.
Ele também usava luvas.
Ohio se levantou, pegando sua bengala. A perna faltante foi onde o felino se focou.
— O que deseja comigo, senhor? — disse a chacal.
— Seus punhos… são belos e fortes.
Ela não entendeu o comentário. E ele disse isso olhando para sua deficiência.
Ela franziu sua testa, caminhando para ficar entre Michigan e os visitantes.
— Senhor, vá embora — sua voz tinha doçura e melancolia. — Meu expediente acabou.
Ele insistiu. E levantou os punhos.
— Minha filhinha te viu de longe.
Ohio só ouvia.
— E se minha jóia ficou fixada em você, é porque algo magnânimo e extremamente precioso está em você.
A chacal olhou para a filha do homem.
Ele a apresentou.
— Essa é minha Ametista Superior. Ela é um prodígio… e ela não tirou os olhos de você desde que viemos aqui.
Isso chamou a atenção de Ohio.
— O que isso quer dizer? Eu não entendo, senhor.
Ele só estendeu a mão. Mesmo as luvas não impediram de fazer o gesto simples.
— Essas luvas são um legado dos Superior. Toda vez que um de minha linhagem as veste, é para fazer algo que vai mudar a vida das pessoas. Venha comigo… agora!

A oferta era imperdível. E o cenário, com ele ali, até tomava cor — as luvas tinham degradê, do vermelho para o dourado.
Mas…
— Uma vez, um cara me fez a mesma proposta. Hoje, guardo as marcas dessa minha escolha no corpo, que você insiste em olhar. Por que com o senhor será diferente?
Ele olhou irritado. Mas a mão ainda estava estendida.
— Não sou uma escolha. Me chamo Ouro Superior… e minha mão vai ficar onde está até que você a toque.
— E por que deveria? Promessas só existem para serem quebradas. Não quero mais guerra. Tenho tudo que preciso.
Ouro não recuou.
E foi além.
— Você toca a mão de várias pessoas todos os dias, sabe quem eles são, o que pensam de você… e mesmo assim você continua. Recebe por isso, ganha a vida honestamente… e continua mesmo assim.
Era o ponto que queria chegar.
— Se tudo der errado, você continua. O que pode dar errado agora… você aguenta. Sabe por quê? Você já aguentou coisas piores.
Ele apontou para a perna e para o olho.
Ouro não tinha medo.
— Você “quebrou” mais de cem desses parasitas que acham que esse lugar é um parquinho de diversão. Tirou deles algo que nunca mais vão recuperar.
— Não me sinto orgulhosa com isso!
— E nem tem! Mais um motivo para saber que você não só tem potencial… e sim uma luz.
— Hã?! Luz…?
— Amy, minha jóia, tem o dom de ver o brilho cósmico de um lutador. Se ela olhou pra você esse tempo todo, é porque eu tenho o dever moral e ético de mostrar o caminho.
— Do que está falando?
— Hehe… — ele riu, extasiado. — Não gosto de curiosidade. Mas isso vindo de você é um prêmio inestimável!
Ohio estava pensativa. A oferta era tentadora, mas tinha ressalvas.
Contudo, alguém a tocou na mão.
Ela olhou; era Michigan.
— Maninha, aceita.
— Michigan…
— Aceita. Aceita, vai! A-cei-ta!
O cafuné carinhoso sobre o alto da cabeça da menina veio acompanhado por outro sorriso. A chacal recebeu outro de volta… e o guardou, como vários outros.
Depois do ato, se virou.
Se aproximou de Ouro e lhe disse:
— Ir com o senhor não é uma coisa que só depende de mim… — ela cochichou, para que Michigan não ouvisse.
O grande felino ficou atento.
— Diga o que te impede… e verei o que posso fazer.
Era simples, e também complexo.
— O Status quo.
Os olhos entreabertos de Ouro Superior deixaram claro que entendeu o que aquilo significava.
Os minutos se passaram.
Ohio e Michigan foram até seu casebre — o prédio foi confiscado. Restou a elas um teto cedido pelos que lhe tiraram a perna e o olho.
Após recolherem os poucos pertences que possuíam, as irmãs seguiram junto a Ouro e sua filha em direção à saída da região.
O calor fazia o horizonte ondular.
Sobre o solo árido, uma miragem transformava a terra em um falso espelho, refletindo o azul do céu como se uma lâmina d’água cobrisse o chão.
Mas os quatro agentes caídos não eram uma miragem.
Ohio estava ofegante, coração preso na garganta. Dessa vez foi ela quem ficou olhando para Ametista Superior.
— “Essa garotinha… O que ela é? Sozinha ela… derrotou a metade…?”
O preço da fuga e da resistência seria cobrado cedo ou tarde.
E, por causa disso, uma decisão drástica e triste foi necessária.
Dias depois…
Porto de Shang Mu | Manhã
— Por que eu tenho que ir, maninha?
A pergunta da criança veio minutos antes de ela embarcar em um enorme veleiro que estava prestes a partir.
— Você sabe. E eu também não queria que você viajasse sem mim… — ela ficou de joelhos, no mesmo nível de sua irmã.
Tudo estava muito acinzentado. O mesmo clima de quando saíram de GaoGao.
Mas, havia uma cor.
O amarelo, a cor preferida de Michigan.
Ela ganhou um vestido novo, dessa cor.
A cena prosseguiu, cinza.
— Aquela gente malvada vai atrás de você!
— Eles já tiraram o que tinham que tirar de mim. E você é o que me fará mais falta se eles vierem.
— Você diz… que… Aqueles vilões iam me…
Ohio a abraçou com força, antes que ouvisse da boca dela a realidade que lutou para afastar dela.
— Você tem uma oportunidade verdadeira agora… — beijou a testa da menina. — O senhor Superior falou com um parente dele. Ele mora nos Países do Norte. Você vai ter tudo lá.
— Mas eu não vou ter você!
Michigan esboçou choro.
Ohio não admitiu.
— Aí… Não deixa isso sair. Você é uma Yankee. E Yankees não são fracos!
— Mas…
— Você não está fugindo. Michigan, você tem uma missão, assim como eu. Estuda, se alimenta bem… e treina os golpes que te ensinei.

Não houve uma gota de lágrimas derramada.
As duas acenaram uma para a outra. A embarcação se afastava na costa, com as irmãs trocando olhares e sempre com um sorriso no rosto.
A tristeza da separação nunca foi escondida, mas, mesmo nesse cenário, tanto Ohio como Michigan compartilhavam o mesmo pensamento:
“Vamos nos ver novamente… e em breve!”
O cheiro costeiro daquela manhã alimentou a fé e a vontade de Ohio.
Horas depois…
Clínica Protética ATT | Tarde
O local tecnológico no meio da cidade de Shang Mu estava vazio.
Literalmente.
Não havia monitores, nem cartazes… muito menos atendentes ou seguranças.
Entrar ali não era escolha ou procura por atendimento.
Era privilégio de poucos pisar naquele espaço.
Sentados no meio do salão — uma poltrona, uma mesa e duas cadeiras — lá estavam Ouro Superior e Ohio, assim como um ortesista-protesista no outro lado.
— O produto é inédito, projetado para candidatos cujo Nirvana aflorado precisa ser compatível, quase como uma transfusão de sangue.
— Do que está falando? — perguntou a chacal. — E por que estamos em um lugar assim, senhor Superior?
O profissional respondeu por ele.
— O senhor Ouro Superior é um dos poucos a quem a ATTecnologias permite acessar novas criações, senhorita.
— C-criações?!
Antes das exaltações, o felino se antecipou.
— Você vai voltar a lutar em breve.
— Como é? — ela olhou para ele, desviando o olhar e colocando a mão na perna faltante e no rosto. — Essa perna e o meu olho me limitam.
“Me limitam.”
Ela nunca esqueceu do que falou de si mesmo, no presente.
Ouro a colocou no lugar, no passado.
— Eu sei. Ninguém aqui vai romantizar isso. Mas quem disse que tem que ser sempre assim?
— Do que está falando?
O ortesista-protesista declarou:
— Uma prótese de indução neural totalmente autônoma e sensível. Nosso produto é fantástico: não é só uma perna nova. É SUA perna, com suas sensações e movimentos livres! Um milagre da tecnologia moderna!
— Uma p-perna?!
— Não, eu já disse! — falava o raposo de jaleco. — É a sua perna. Não é qualquer coisa que se compra na venda da esquina.
Risadas vieram, até de Ohio.
Ela olhou para Ouro…
— Por que?
— Por que não?
— Mas… eu não…
— Tolice! Ohio Yankee, isso não é caridade… e nem pense em me pagar algum dia. Isso é para você continuar. Amy te viu… e eu confio na intuição dela. Já tenho o que preciso.
A generosidade de Ouro Superior.
Ohio não tinha palavras para expressar seu agradecimento.
“Já tenho o que preciso.”
Essa frase sempre foi o principal norte dela.
Sem mudar o seu semblante, as lágrimas saíram.
Sem gaguejar. Sem soluçar. Sem drama.
O felino a abraçou, com o mesmo carinho de um pai. E Ohio retribuiu…
Como uma filha.
Três meses depois…
Distrito Urbano Ocidental (DUO)
Academia Demifaiku | Início da manhã
Ringues por todos os lados — pelo menos 10 deles.
Sacos de areia aos montes — dezenas, todos sendo usados, de todos os tipos e tamanhos.
Almofadas de sparring, protetores de cabeça e de dentes, luvas…
A academia era lotada de apetrechos necessários para a clássica arte do Punchie — o nome dado ao boxe em Avalice.
O vermelho, azul e branco eram as cores que decoravam o interior do centro. Bem aparelhado, confortável e muito organizado.
O piso em ardósia preta, tão natural que o atrito ao solo era total.
O local transpirava artes marciais a seu estilo de rua, qualidade essa preservada a sete chaves pelo legado Superior.
No interior do local, lá estava Ohio.
Caminhando com Ouro Superior, os alunos paravam para vê-la entrar, dado o detalhe que todos viram: sua perna protética.
Ela era diferente. O metal ainda parecia metal, mas totalmente integrado ao corpo atlético dela, o que surpreendeu pela naturalidade.
Os passos sequer faziam o barulho esperado — algo pesado e ríspido. Pelo contrário: era suave, tal qual os passos de um punguista enquanto lutava.
A chacal olhou em volta, vendo o lugar com olhos de quem tinha a primeira experiência.
Porém, seus pensamentos estavam no passado, pois a primeira impressão é a que ficou.
— “Lá em GaoGao… aquela menina, a Ametista… derrotou aqueles agentes com golpes que eu nunca vi. E foi aqui que ela foi construída…”
Eles foram para além do salão lotado de estudantes. Ao fundo, uma área afastada… e ainda mais ornamentada.
Lá, bem no alto, o letreiro SUPERIOR era quase como um totem. A supremacia da família reunida em um só lugar e sob aquelas letras que, juntas, significavam mais do que grandeza.
Era legado.
Disciplina.
Responsabilidade.
Força.
Extrema.
Indiscutível.
Era tão intenso que só havia um ringue para treinamento, privilégio para poucos.
A ainda mais jovem Ohio olhou para um dos lados. Viu uma menina levitar, enquanto lutava contra a própria sombra. A chacal ficou boquiaberta.
— O que aquela ali está fazendo?!
— Detroit Cassadaga. Pupila do meu amigo Órbita Quântica. Hehe… ela é uma dádiva.
Mesmo ao caminhar a seu lado, ela não desviou o olhar daquilo que estava vendo.
Mas mudou o foco logo em seguida: ela viu um cougar dentro de um domo enorme. Lá, desviava de inúmeras bolas arremessadas. A velocidade e força eram impressionantes, deixando Ohio até sem ar.
— Hehe… Aquele é Nevada Clinch — falava, apontando para o felino. — Meu primo Utah o deixou aqui para lapidá-lo. Ele faz isso sozinho, acredita?
Contudo, Nevada reparou em Ohio. Ele até parou de treinar.
Seu físico era atlético, mas não como o do presente. Seu caminhar bruto era o mesmo, mas tinha degraus a galgar ainda.
Ele caminhou, tentando alcançar a dupla…
E conseguiu.
— Ei, tio… — falou, tirando o protetor dos dentes. — É essa aí que vai entrar para o grupo?
Eles se viraram. Foi o primeiro encontro do felino de pelagem escura com a chacal.
Ouro Superior não precisou responder a pergunta. O olhar confiante seguido por um sorriso veio.
O cougar trocou olhares com ela. A seriedade era um detalhe que ela percebeu na hora.
Mas uma frase mudou o contexto totalmente.
— Perna legal.
Um rubor em Ohio ocorreu.
Pela primeira vez, ela esboçou um semblante fofo, de quem não era de receber elogios, principalmente de garotos… e ele era mais jovem que ela.
— O-obrigada.
Ele sorriu de canto. Mas não era um simples sorriso.
— Okey. Você já está de luvas — apontou para o ringue. — Lá. Eu e você agora. Se você conseguir me vencer, te pago um sorvete. O que você quiser.

“Te pago um sorvete.”
“O que você quiser.”
Eram frases simples, que ecoaram em sua cabeça por minutos.
Ohio recebeu um tratamento tão genuíno de camaradagem e respeito como nunca antes sentido.
Essas frases soaram mais vezes em seu inconsciente, atravessando os anos e encontrou, bem lá na frente de seu tempo, o afago tão tenro que ouviu no presente.
Aliás, era onde estava nesse exato momento.
— Eu… desisto dessa luta.

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