Índice de Capítulo

    — Ah, caraca! Putzgrila!

    O grito de Carol surpreendeu a todos que estavam à sua volta.

    Com a atenção de todos — que olhavam surpresos e com curiosidade — Lilac foi tão rápida quanto os olhares.

    — O que aconteceu?! O que foi?

    — A-aquela esquilo lá… — ela apontou para o lei tai. — Eu conheço ela! Eu conheço, serião!

    — O que?! Mas… Como assim, Carol?

    — Pô… eu já passei uns bocados lá na DUO, sabe? Aí, certo dia, eu vi essa aí no meio da praça lá, correndo e…

    Carol parou de falar, cruzando os braços. A dragão não perdeu tempo.

    — Carol, fala logo! Se você conhece ela, isso pode ser útil pra gente!

    — Tá. Mas tipo, essa esquilin não é normal. No dia lá, ela tava… flutuando, saca?

    — Hã? Flutuando? Do que você está falando?

    Santino cortou. Ele tinha mais coisas para compartilhar.

    — Eu também já vi essa esquilo. Detroit… é uma psíquica.

    Lilac arregalou os olhos. O que o canino lhe disse a fez olhar para o lei tai de uma outra forma.

    — Uma psíquica?!

    De braços cruzados, Santino ouviu a conversa.

    — Isso pode ser um imenso problema… — falava, olhando para o lei tai. — É raro vermos psíquicos como lutadores. E existe uma explicação para isso.

    Kaura Shiran, ao seu lado com o leque fechado, compartilhou:

    — Indivíduos com esse dom podem possuir vantagens sobre outros lutadores. Eles mudam o entendimento do que é lutar.

    Haiiro também:

    — Essa esquilo… pode taruzer gurandes desafios para seu oponente.

    Ao fundo, na direção onde o Time Avalice estava, só se viu a cabeça de Carol inclinar lentamente para frente, com um sorrisinho.

    Lilac percebeu isso.

    — O que foi agora? Por que está fazendo essa cara?

    — Pô, aquela furão ali fala mó fofin! Parece aquelas minas mais velha que tão aprendendo língua nova, nyah!

    — Carol, não comece!

    O corte da dragão veio, ao mesmo tempo que a gata verde mudou de semblante.

    — “Tá, cabô o caô” — pensava, com o olhar caindo sobre a área de luta. — “Essa esquila aí é sus, muito sus. Não sabia que ela lutava, oxe. E se ela luta bem, embaçou de vez.”

    Enquanto Carol imitava o gesto de Santino — braços cruzados, olhava para o lei tai — mais ao extremo das poltronas do Panteão dos Milenares, lá estavam Jade e Haitou.

    O kiba inu mantinha seu olhar destemido e nobre enquanto a Sifu o observava de canto. O foco, após um breve momento, era a mão despojada do canino branco que estava sobre o braço da poltrona aconchegante.

    Ela, sem pestanejar, levou a sua até a dele.

    Quase prestes, foi frustrada, pois Haitou antecedeu o ato.

    Sim, foi ele quem segurou a mão dela.

    — Gya…?! — de verde para vermelha, no rosto.

    Um silêncio ocorreu — dava até para ouvir os batimentos cardíacos da dragão de komodo.

    — Pensei que só eu tinha essa sensação, nobre Sifu Gya-wawa.

    Os batimentos agora até pareciam um show de taikos batendo com força.

    — Sssizzzut-turigi… — de vermelho indo para lilás, roxo, magenta.

    Porém…

    — Nós dois temos a chama do combate dentro de nós. É uma união franca e tenra, provocada pela iminência do combate contra indivíduos mais e mais fortes! Sifu Gya-wawa, me diga: isso não é maravilhoso?

    A desolação dela foi imediata.

    — É… — ela colocou uma das mãos sobre o rosto, mas ainda estava vermelha. — “Esse pateta só pensa nisso! Sssizzzuturigi…”

    Só que, esse elo entre os dois, trouxe um entendimento mútuo — saindo do mal-entendido afetivo entre os dois.

    O rubor sumiu de Jade, tão rápido quanto sua leitura.

    — Sssizzzuturigi, vocccê também sabe o que issso significa.

    — Elementar, nobre Sifu Gya-wawa — a voz estava sussurrante. — Psiquismo nas artes marciais é imprevisível. Quero ver e saber o que temos pela frente. Essa luta será interessante.

    — Sssim… Gya.

    Indo mais ao lado de onde estavam, a figura mais quieta era Tamui Ippon. Seu olhar nunca deixou o lei tai desde o início das lutas.

    — “Cassadaga. Eu já ouvi esse nome.” — Pensou.

    Novamente, ficou só observando a área de batalha, como alguém que examinava cada centímetro do local que em breve estaria para lutar.

    — “São nômades. Alguns deles já visitaram o nosso vale. Não são lutadores, mas essa esquilo… Com total certeza ela é da linhagem deles.”

    Sua visão se focou no lei tai, onde os últimos preparativos para a luta ocorriam.

    Ana Andirá estava no meio da área de combate, aguardando os lutadores. Ela olhava para os lados, como se exigisse pressa.

    Pois bem, no lado do Clã Zeimah, Heikou Den ajeitava suas vestimentas. Porém, havia um detalhe: ele possuía um sino nas costas, e que soava a cada movimento de seu físico desenvolvido.

    O curioso: o item estava preso a seu corpo, ligado ao Nirvana do felino de cabelos vermelhos.

    — Honorável Heikou Den… — falava Lito. — Já discutimos sobre perambular com o Sino Zeimah por aí. Você sabe muito bem que—

    Ele o ignorou, mas não por desprezo. O tempo todo o lei tai a sua frente era o interesse número um, o que o fez estar focado.

    — Eu estou falando com você. — Insistiu Lito

    Heikou se virou, colocando uma das mãos sobre o ombro do colega.

    Ele disse:

    — Honorável, sabe o que esse sino significa pra mim. Ele vem comigo, para onde for.

    No outro canto, se levantando, um outro felino — cabelos amarelos, assim como os olhos — se aproximava.

    — Deixe-o, Lito — falou, cruzando os braços. — Cada um luta do jeito que quiser, você sabe.

    — Xin Zo, não o defenda. Sabe muito bem que este símbolo não deveria ser maculado.

    — Você sabe muito bem que Heikou nunca derrubaria o Sino Zeimah. Isso faz parte do treinamento dele.

    Lito se calou, dando as costas aos dois.

    Heikou olhou para Xin, dizendo:

    — Obrigado pela consideração — sorriu.

    — Não me agradeça — deu uma das mãos de lado. — Até eu me preocupo com o sino. Lito não está errado, mas você escolheu o caminho mais difícil.

    — O caminho certo, não se esqueça.

    — É, isso aí.

    Os dois se encararam por alguns segundos, antecedendo o encontro de punhos de ambos.

    — Eles são pequenos. Mas, se essa luta demorar muito, o que nosso líder disse vai fazer sentido outra vez.

    — Não se preocupe, Xin. Parece que o destino quis que eu lutasse contra aquela esquilo. Temos assuntos pendentes.

    — Até você sabe que o que ela fez foi infantil. Não caia nesse papo imaturo.

    Heikou se virou, olhando para a direção do Time Demifaiku.

    Ele falou:

    — Pode até ser pouca coisa, mas era deboche. E eu não gosto disso.

    — Heikou Den, ela é só uma pedra no meio de raízes fortes. Derrote-a logo e volte com o sino, como você sempre fez.

    O felino de cabelos vermelhos balançou a cabeça positivamente, seguindo em direção ao lei tai.

    Enquanto subia a plataforma, ele olhou ao longe sua oponente.

    — “Eu não esqueci aquilo…”

    Em sua mente, viu Detroit dar uma risadinha enquanto encarava todos os Zeimah e, com o polegar, ela traçou no pescoço um gesto, pura provocação.

    — “Certas coisas não podem passar impune.”

    Ele não tirava os olhos dela.

    Enquanto isso, no outro lado, Detroit se alongava. Ao seu lado, estava Amy.

    — Cassadaga, lembre-se do plano.

    — Tá, tudo bem. Eu sei, eu sei… — falou, enquanto girava o braço e caminhava. — Deixa eu lutar, chegou a minha hora.

    Ao seu lado estava Nevada…

    — Esfola o cabeça de morango, ouviu?

    E Ohio — já recuperada.

    — Você ouviu o Nev. Mas só a parte da vitória. Não é pra você matar ele, hehe.

    Ela sorriu para eles, enquanto Gil Son, ao lado de Amy, disse:

    — Ela está descalça. Isso é permitido no Estilo Demifaiku?

    — Cassadaga luta melhor ao natural. Até a roupa dela foi pensada nisso.

    — Como assim?

    Ele a olhou de cima para baixo. Notou que a bermuda de compressão junto com o colant tinha algo além, bem além.

    — “E-espera…” — os olhos arregalaram. — “o colant e a luva… mudaram de cor?!”

    A surpresa do javali não passou despercebida por Ametista.

    — Sim, a roupa dela reage, como se fosse parte do corpo dela. Fica mudando de cor, invertendo.

    — Mas como isso pode ser possível?!

    — Coisas da família dela, vá entender… — pôs as mãos de lado.

    A felina líder do Time Demifaiku observou Detroit, que dialogava com os colegas. Seu sorriso esbanjava ambiguidade — como se estivesse sempre debochando e respeitando, tudo ao mesmo tempo.

    Antes que ela subisse ao lei tai, Ametista segurou seu ombro, dizendo:

    — Leve isso muito a sério, Detroit. E não exagere nas suas habilidades especiais.

    — Tá com medo de eu passar dos limites, é? — ela sorriu, como se estivesse brincando. — Olha, eu sei o que tenho que fazer, tá? Vou pegar leve com o cara, tudo bem?

    Ela subiu na plataforma, seguindo ao centro, próximo onde Ana Andirá estava…

    E também Heikou.

    E ele não parava de encará-la.

    — “Esse cara tá me olhando que nem daquela vez…”

    Ela também lembrou.

    — Aquele sinal que fez… foi ofensivo ou só uma brincadeira? — foi o que Heikou disse.

    A resposta após a provocação que fez.

    — Seja qual for o objetivo, será respondido.

    Ela ouviu — e guardou — cada palavra. E tudo isso só veio a sua mente por causa do olhar.

    O primeiro encontro, que aconteceu antecedendo a luta de Nevada contra Lito, foi cercado de provocações.

    — “Esse cara tá mesmo sentido” — pensava Detroit, cruzando os braços. — “E eu tô com dor na barriga. Parece até que ele vai pular em mim e me encher de soco!”

    Por dentro, as dúvidas, mas, por fora, a esquilo ela uma rocha.

    Pior: ela sorriu, meio deboche e prepotência.

    No outro lado, um Heikou compenetrado ao extremo.

    E, no meio:

    — Começaremos agora a próxima luta! — a morcega prosseguiu com os anúncios.

    Enlouquecida, a Arena Shang Mu reagiu em polvorosa, com urros e aplausos.

    — Lutem!

    Ao início da peleja, Detroit ficou de braços cruzados, enquanto Heikou, ao contrário dos outros lutadores do Clã Zeimah, deixou os punhos fechados, com os braços para baixo.

    O felino não a atacou, somente observando seu comportamento inicial.

    — “Eu sei que ela já está em base de luta” — analisava, sem ficar desatento. — “O padrão do time dela é quebrar padrões de luta, então não for cair no erro de menosprezar.”

    Em contraponto, a esquilo sorria. Isso ia além de uma simples provocação.

    — Aí, bonitão. Vou te dar uma dica: eu já estou na vantagem, tá bom?

    Heikou ficou na mesma, só ouvindo. Porém, ele ficou na defensiva.

    — “Alguma coisa ela está tramando, mas o quê? Estou a cinco metros dela…”

    Base definida, não deixando arestas.

    Olhar compenetrado, livre de distrações.

    E postura sólida.

    Contudo, nada disso impediu que Heikou recebesse um golpe na lateral de seu rosto, o deslocando para um dos lados.

    Ele balançou a cabeça, recobrando a atenção.

    Mas…

    — “O que?! Mas, o que foi isso?” — a confusão tomou sua mente. — “Eu não vi golpe algum e, mesmo assim, fui atingido?!”

    O recuo foi visto por todos, como de alguém que foi acertado por um golpe… mas não havia soco algum. Dúvidas surgiram nas arquibancadas.

    “Ué, o que aconteceu? Por que o Heikou foi pra trás?”

    “O que é isso aí? Sério mesmo que ele recebeu um golpe?”

    “Gente, não tenho a mínima ideia do que houve!”

    Enquanto isso, Detroit se manteve em sua base de braços cruzados — tinha nome: Cross-Arm Guard, usado no boxe real.

    O seu sorriso não incomodava e sim gerava mistério em Heikou Den.

    — “Sinto Nirvana no ar. Eu não sei como recebi esse golpe, mas tenho certeza de que foi algum truque dessa garota.”

    Ele a encarava, buscando uma explicação.

    Não deu tempo: dois outros “não golpes” vieram.

    Um frontal, forte, o empurrando para trás — dois passos —, e um no queixo, acerto ascendente, o jogando para o alto. Foi leve, mas o suficiente para suspender seu corpo atlético do chão.

    O felino caiu de pé, como de praxe, mas sua mente estava confusa.

    — D-droga… — colocou a mão sobre as áreas supostamente atingidas. — Eu sinto o golpe, mas cadê?!

    As risadas de Detroit chamaram sua atenção. Ela não se mexeu desde então, deixando o mistério ainda mais intrigante para todos da Arena.

    — “O que eu não vi?” — pensou Ana Andirá, com os olhos se movendo para todos os lados.

    A juíza morcega também não chegava a um entendimento. O ineditismo caiu sobre todos, até na autoridade suprema do lei tai.

    No canto Zeimah, atônitos, todos os membros estavam surpresos e curiosos.

    — Existe uma explicação lógica para isso…? — falou Lopon Gen, com a visão fechada.

    Golpes não realizados. Sem vultos, sem rastros, sem sequer um movimento da esquilo — e muito menos sinais corporais que explicassem os impactos.

    Tudo aquilo era inexplicável.

    Ilógico.

    Frustrado na primeira análise, Heikou tomou impulso e correu em direção a Detroit. O sino o acompanhava, seja para onde fosse e qual velocidade estava.

    — Vamos ver até onde seu truque funciona!

    A um metro de atingí-la, um brilho no canto de um dos olhos de Detroit antecedeu outro evento inesperado: o felino tropeçou no vazio, como se tivesse batido em algo no caminho.

    Seu corpo se projetou para frente, deixando-o exposto.

    — Psycho-Uppah! — Detroit gritou, tirando o braço.

    Um poderoso gancho de direita atingiu a barriga de Heikou — um ruído seco e vibrante foi ouvido — o arremessando para cima. Junto com isso, um contínuo grito de dor ecoou até que ele fosse ao solo duro do lei tai.

    Caído de costas, por lá ficou, se contorcendo de dores pelo dorso.

    — He-heikou, o que houve…? — Ana Andirá estava preocupada, se aproximando. — “O que está acontecendo?! Eu… eu não sei se devo abrir a contagem. Ele não parece bem…”

    A cinco metros dali, Detroit:

    — “Ai, droga… Mas que droga!” — havia o sorriso por fora, mas, por dentro, uma tensão monumental. — “Eu acho que exagerei… Droga!”

    A arena ficou em silêncio.

    Mas, o sino… estava flutuante e tinindo.

    ♪Tim…

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