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    Um cachorro abandonado continuará com cicatrizes e morderá aqueles que as tocarem mesmo que essas cicatrizes há muito não sejam abertas.

    A Caçada ~ Gabriel

    A manhã chegou a Mélia antes do sol. No pátio da estalagem, a luz ainda era do tom cinza-azulado de quem promete o dia sem entregá-lo, e a única testemunha do movimento era o vapor que subia das dez canecas de café servidas por um funcionário sonolento demais para fazer perguntas.

    Ninguém precisou ser acordado. Um a um, desceram prontos: capuzes ajustados, botas amarradas, mochilas fechadas na noite anterior por mãos que já conheciam a rotina. Selene bocejava apoiada no próprio cajado como quem dorme em pé; Karen conferia pela terceira vez as mesmas fivelas, e Malik, ao lado dela, disfarçava o sono mastigando um pão de véspera. Hans devolveu as chaves ao balcão e acertou as contas em moedas contadas, sem esperar troco. Fynn foi o último a descer e o único a descer sorrindo, o que, por si só, já deixou metade do grupo desconfiada.

    No estábulo, os cavalos os receberam com o bafo morno e impaciente de animais descansados. Lisa distribuiu entre eles os restos de maçã do jantar, sussurrando um agradecimento para cada focinho, enquanto Glória e Matheus repassavam em voz baixa a ordem da marcha, os dois trocando frases curtas e funcionais, com o cuidado exagerado de quem está pisando em ovos. Li apertou a barrigueira da própria sela, testou o peso dos alforjes e, por um instante, olhou para trás: a capela de Yan despontava sobre os telhados, os vitrais ainda apagados, esperando um sol que os fizesse brilhar para ninguém.

    Cruzaram o portão oeste quando os primeiros lavradores que cuidavam das fazendas que cercavam a cidade entravam por ele. Dessa vez, ninguém gritou “alto lá”; o oficial da muralha apenas os encarou de cima de novo, balbuciando algo que parecia uma contagem; e os acompanhou com os olhos até onde a estrada fazia a primeira curva, com a expressão de quem prefere não saber para onde tanta gente encapuzada vai tão cedo.

    Além dos muros, o mundo ainda cheirava a sereno. A estrada de pedra clara seguia firme por entre campos de cultivo, mas, aqui e ali, o calçamento já cedia lugar a trechos de terra batida, remendos de uma estrada que ia ficando menos importante a cada légua. Mélia foi diminuindo às suas costas até caber inteira entre as orelhas de um cavalo, primeiro os telhados, depois a muralha, por fim só a torre da capela, um dedo claro apontando um céu que começava, enfim, a clarear.

    À frente, a próxima cidade era ainda um nome no mapa e uma linha de fumaça no horizonte. De vez em quando, o grupo cruzava com guardas de patrulha que, antes que pudessem perguntar qualquer coisa, eram surpreendidos com o símbolo de Arcádia e, até aquele momento, ainda era o suficiente para passar sem nenhuma espécie de suspeita.

    — Líder, como você está?

    Matheus não respondeu à menina. O grupo estava dividido em pares levemente distantes um dos outros, alternando a cada parada; a divisão foi feita de forma que, caso houvesse alguma emboscada, não seriam todos pegos juntos, ao mesmo tempo que conseguiriam prestar rápido suporte.

    — Líder?

    Só no segundo chamado ele despertou.

    — Ah, desculpa, Lisa, estava pensando em outras coisas.

    — Você parecia mais focado do que avoado…

    — É mesmo? 

    — Sim, senhor.

    — Do que precisa?

    — Nada, só queria conversar, digo, tirando os membros temporários, sou a mais nova e não tive tantas oportunidades de conhecê-lo direito.

    — Não teve?

    — Sim, você parece uma pessoa um pouco introvertida e distante…

    Se os outros membros do grupo estivessem ouvindo, eles se surpreenderiam com a constatação da menina, afinal, não concordariam nem um pouco.

    — Eu… sou? — questionou-se. — Bem… agora que você falou, acho que estive um pouco ausente demais nas últimas semanas.

    — Provavelmente só devo ter uma impressão errada por conta disso — supôs Lisa.

    — Bem, de qualquer forma, do que precisa?

    — Hm… não pensei em nada específico… por que não me conta um pouco sobre você?

    — Sobre mim? — questionou Matheus. — Me desculpe desapontá-la, Lisa, mas não acho que sou uma pessoa muito interessante para falar de mim mesmo.

    — Acha que não?

    — Você parece discordar.

    — Não é que eu discorde, afinal, não o conheço o suficiente para saber, mas acredito que pela forma que os outros membros falam de você, duvido que seja verdade.

    Matheus, pego de surpresa pela afirmação de Lisa, demorou alguns segundos para continuar a falar.

    — E… o que eles falam de mim?

    — Bem, depende de quem, acho que cada um tem uma visão única de você… acho que o Li te adora, o Hans te respeita, o Fynn te vê como igual, e a Selene… bem, ela ainda eu não sei.

    — E a Glória?

    — Não é assim que funciona, senhor Líder — disse Lisa. — Agora é a sua vez de me responder.

    — Certo, certo, o que você quer saber? 

    Lisa levou o dedo à bochecha, pensando por um instante.

    — Líder… o que te levou a entrar para a facção? — perguntou a menina. — Eu sei que não foi poder…

    — Por que tanta certeza? — perguntou o homem, desconfiado.

    A menina respirou por um momento.

    — Porque você não precisava disso — respondeu a menina. — Oficial do PGE, Primeiro Grupo de Extermínio, Matheus, a Sombra.

    — Como imaginei.

    — Você não parece surpreso…

    — Admito que estou um pouco, já faz quase uma década que abdiquei desse posto, quem diria que ainda lembrariam do meu nome.

    — Você é famoso, especialmente entre os mais jovens… afinal, você conquistou o posto de oficial com apenas 15 anos.

    — Não sou orgulhoso disso.

    — Mas deveria… pode falar o que quiser da igreja e eu provavelmente concordarei totalmente, mas é inegável que eles são os mais eficientes se tratando da eliminação de ameaças demoniacas.

    — Chega.

    Lisa imediatamente se calou. Após alguns minutos, abriu a boca novamente.

    — Desculpa, não queria ser rude.

    — Não foi… é só que… bem, respondendo à sua pergunta, o motivo que me levou a entrar para a facção é muito simples — disse Matheus. — A igreja certamente me dava certa condição, mas nunca me daria a liberdade para que eu alcançasse meus objetivos. Eu precisava dessa liberdade e em Arcádia, um dia a conseguirei.

    — Somente isso? 

    — Sim… 

    Matheus olhou para frente, viu alguns membros da equipe que estavam posicionados adiante. Glória, Hans e Fynn entre eles.

    — Bem… ao menos foi esse o motivo de eu ter entrado.

    — E agora?

    — Agora é sua vez de me responder.

    — Ah, certo… Glória — lembrou Lisa. — A senhorita Glória se preocupa com você.

    — Só isso? — Perguntou. 

    — Líder… se você acha que é “só isso”, então está mentindo para si mesmo… eu sei que você sabe o quanto é o “só isso”… não preciso bisbilhotar a conversa dos outros para isso.

    — Ei, por que não descansamos aqui? — gritou Paris, interrompendo a conversa dos dois. — Estamos a meio caminho da próxima cidade, mas já estamos cavalgando há algumas horas, talvez seja melhor dar um descanso para os cavalos, nunca sabemos o que vamos encontrar ao longo do caminho.

    Glória levantou o braço mais à frente, fazendo um sinal de concordância; vendo isso, Matheus assobiou o comando para pararem.

    — Sobre o que você falou…

    — Não se preocupe, Líder, manterei nosso segredo, mas você ainda me deve uma pergunta…

    — Certo…

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