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    Dizem que sangue não se escolhe, e talvez seja verdade. Mas todo laço que vale alguma coisa foi escolhido por alguém; o sangue apenas chega primeiro. Família é o nome que damos aos que escolheríamos de novo, todos os dias, mesmo já sabendo o preço.

    ?

    — A comida aqui é um pouco pior do que em Anpýrgio, mas definitivamente é melhor do que era em Clarusvallis — comentou Jihan. — Faz parecer que nem saímos da capital.

    — É claro — disse Paris. — Ainda estamos relativamente próximos do centro do Império, Clarusvallis é mais distante, apesar de não estar na mesma direção que estamos.

    — Você sabe a geografia do império tão bem? — perguntou Li.

    — Claro, eu estudei isso na escola — respondeu o homem. — Você não deve saber, porque não é daqui.

    — Hm… como funciona o sistema de ensino em Anpýrgio? 

    — É muito bom, por sinal — falou o líder de equipe.

    — É realmente bom — concordou Matheus. — Mas é bem limitado quanto à inclusão. Geralmente, só filhos de oficiais do exército ou pessoas influentes estudam na adolescência.

    — Oh, então você é um filho de papai, Paris? — Perguntou Fynn, sarcasticamente. — Foi assim que chegou a líder de equipe?

    — O que está sugerindo, Fynn Aster? 

    — Fynn, chega — repreendeu-o Matheus. — Posso tolerar suas brincadeiras, mas não questione a integridade de nossa facção.

    O homem arqueou as sobrancelhas, mas rapidamente cessou.

    — Desculpe, líder, acho que passei dos limites.

    — Agora… voltando ao que você estava falando, Li.

    — Ah, sim, isso quer dizer que, à medida que formos nos distanciando, a comida vai ficar pior?

    — Não só a comida — disse Matheus. — Infelizmente, cada cidade tem suas prioridades; as mais próximas da capital, logo, mais seguras, têm como prioridade a qualidade de vida, não à toa você vê que as estalagens são boas e a comida também. Em contrapartida, as mais próximas da fronteira costumam receber incursões de demônios e, mesmo sem os demônios, precisam estar preparadas para ser a primeira defesa contra qualquer invasão.

    — Mas como fica a população de lugares como esse? — Perguntou Li. — Eles não sofrem por conta disso?

    O brasileiro parou de comer por um instante, dando um longo suspiro.

    — Bem, é assim que as coisas são — respondeu. — Esses lugares são pouco povoados, mas as pessoas que estão por lá geralmente são famílias de guardas designados para esses pontos, ou pessoas que cresceram lá… de qualquer forma, à medida que formos avançando, você vai entender. 

    Li confirmou com a cabeça, sem dar respostas.

    — Aqui estão as chaves dos seus quartos, as da Glória ela levou. Como vocês devem imaginar, vão dividi-los — disse Hans, entregando-as. — Li e Matheus, Paris e Malik, Selene e Karen, eu e o Fynn. De acordo?

    — Sim, não vejo problemas — respondeu Matheus. 

    — Enfim, eu já vou indo na frente. Quer que eu leve a comida de Glória e Lisa para elas?

    — Não, pode deixar que levo — respondeu o líder.

    — Hm. — Deu de ombros, sem questionar. — Claro, faça o que quiser.

    — Eu acho que vou também então… — falou Fynn. 

    — Por que não vamos todos? Já terminamos de comer e precisamos descansar para partirmos pela manhã.

    — Certo, vou pagar a conta — falou Paris.

    — Esse é o meu filhinho de papai favorito.

    DUNK

    — Aí! — exclamou Fynn. — Por que você me deu um cascudo?

    — Não sei, foi reflexo — falou Hans. — Mas por que você fica enchendo o saco dele? — perguntou discretamente. 

    — Não é óbvio? — respondeu. — É uma pessoa nova, o Malik é muito fácil e eu não vou brincar com uma pessoa claramente tímida como a Karen, não sou um monstro; o Paris é o mais irritável.

    — Cara, por que você precisa fazer isso?

    — Sei lá, tenho que gastar minha energia de alguma forma.

    — Vai fazer uma corrida ou algo assim.

    — Certo, está pago

    — Vamos.


    RENKKK

    — Por que demorou tanto? Achei que fosse apenas deixar a comida com elas e voltar.

    No quarto, Li estava deitado na cama, lendo um manuscrito de papel amassado.

    — O que está lendo? 

    — Ah, Lorena escreveu algumas instruções sobre o que posso fazer para treinar sozinho enquanto estamos separados.

    — Entendi… Por que você não foi com ela mesmo?

    — Essa é… uma boa pergunta? Provavelmente porque ela não vai ter esse tempo para me ajudar mesmo — teorizou. — Enfim, e sobre minha pergunta?

    — Saí lá fora para tomar um ar. 

    — Sério? Mas já faz uns 30 minutos.

    — Tive que tomar muito ar.

    Li deixou o manuscrito de lado e olhou para Matheus.

    — Está tudo bem? 

    Ele parecia levemente abatido. Sentando-se na lateral da cama, respirou fundo.

    — Líder?

    — Líder… né?

    — O que foi? Está meio estranho.

    — Só estou questionando a mim mesmo.

    — De novo?

    — Está ficando repetitivo?

    — Se for pelo mesmo motivo…

    Matheus soltou um único riso, irônico.

    — Li, por que você veio para Erebus?

    — Isso…

    — Não precisa me falar se não quiser, mas você já está aqui há alguns meses, certo?

    — Sim… não me importo de falar sobre… resumidamente, não achava que tinha muito para mim lá, a verdade é que eu precisava de um recomeço do zero, um lugar novo.

    — Não tinha família?

    — Bem, eu tenho uma pessoa que poderia chamar de família, mas o velho deve estar curtindo sua aposentadoria… não vou negar que tenho saudade dele de vez em quando — respondeu. — E você?

    Pensando na pergunta, Matheus deitou as costas nos lençóis.

    RENKK

    Apesar de ser uma boa estalagem, as camas de madeira velha rangiam quando qualquer um deles se movimentava.

    — Eu… não tinha nada restante para mim… meu pai e minha irmã foram mortos por alguns demônios que haviam escapado para a terra.

    — Demônios na terra? Eles existem?

    — Existem… confia em mim, é melhor que você nunca os veja… demônios na terra são muito mais aterrorizantes que aqui em Erebus, especialmente para quem nunca os viu antes.

    — Como você acabou aqui, então?

    — Vim com o homem que os matou… mais especificamente, meu pai adotivo, Gabriel.

    Após uma curta pausa, ele continuou.

    — Você disse que quer recomeçar, é isso que veio fazer aqui?

    — Sim… eu… me odiei por um longo tempo… ainda odeio às vezes.

    Matheus levantou levemente a cabeça e o encarou.

    — Você?

    — O que? Parece esquisito? — Questionou, mas voltou ao assunto. — Mas por que a pergunta? 

    Deitando a cabeça novamente, ele falou:

    — Sinceramente… não tenho mais certeza do que eu estava procurando… não, na verdade talvez tenha.

    — O que seria? 

    — Acho que eu queria uma família.

    — Já não tem uma?

    — Sim, digo, não… não é a mesma coisa.

    — Como não é a mesma coisa?

    — Ah, não sei se você entenderia…

    — Por que eu não entenderia?

    — É que… — Levantando a cabeça novamente, ele encarou Jihan.

    — Por quê? — repetiu.

    Um silêncio estranho tomou conta do ambiente.

    — Desculpa…

    — Não precisa se desculpar, pode só tentar explicar.

    Sem alternativas, ele começou a falar.

    — Eu nunca quis ser um líder, nunca quis ter soldados ou subordinados… eu queria ter pessoas com quem poderia contar o tempo todo, sempre que precisasse.

    — Matheus… 

    — Queria uma família para chamar de minha… por isso entrei numa facção, mas não sei se é o que eu imaginava.

    — Matheus!

    — O que?

    — Pare de ser tão burro! 

    Sentando-se na cama, o brasileiro questionou.

    — Do que você está falando?

    — Foi isso que eu perguntei, você já não tem uma?

    — Eu já te respon…

    — Não somos uma família? 

    A pergunta o atordoou levemente.

    — Sei que sou idiota… e que não tenho muita base de comparação — Li desviou o olhar para suas mãos enquanto entrelaçava seus dedos. — Mas… acho que, se é como você descreveu… isso é uma família para mim… e você é como um irmão mais velho… só não enxergou isso ainda.

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