Capítulo 140: Discrepância
Dizem que sangue não se escolhe, e talvez seja verdade. Mas todo laço que vale alguma coisa foi escolhido por alguém; o sangue apenas chega primeiro. Família é o nome que damos aos que escolheríamos de novo, todos os dias, mesmo já sabendo o preço.
?
— A comida aqui é um pouco pior do que em Anpýrgio, mas definitivamente é melhor do que era em Clarusvallis — comentou Jihan. — Faz parecer que nem saímos da capital.
— É claro — disse Paris. — Ainda estamos relativamente próximos do centro do Império, Clarusvallis é mais distante, apesar de não estar na mesma direção que estamos.
— Você sabe a geografia do império tão bem? — perguntou Li.
— Claro, eu estudei isso na escola — respondeu o homem. — Você não deve saber, porque não é daqui.
— Hm… como funciona o sistema de ensino em Anpýrgio?
— É muito bom, por sinal — falou o líder de equipe.
— É realmente bom — concordou Matheus. — Mas é bem limitado quanto à inclusão. Geralmente, só filhos de oficiais do exército ou pessoas influentes estudam na adolescência.
— Oh, então você é um filho de papai, Paris? — Perguntou Fynn, sarcasticamente. — Foi assim que chegou a líder de equipe?
— O que está sugerindo, Fynn Aster?
— Fynn, chega — repreendeu-o Matheus. — Posso tolerar suas brincadeiras, mas não questione a integridade de nossa facção.
O homem arqueou as sobrancelhas, mas rapidamente cessou.
— Desculpe, líder, acho que passei dos limites.
— Agora… voltando ao que você estava falando, Li.
— Ah, sim, isso quer dizer que, à medida que formos nos distanciando, a comida vai ficar pior?
— Não só a comida — disse Matheus. — Infelizmente, cada cidade tem suas prioridades; as mais próximas da capital, logo, mais seguras, têm como prioridade a qualidade de vida, não à toa você vê que as estalagens são boas e a comida também. Em contrapartida, as mais próximas da fronteira costumam receber incursões de demônios e, mesmo sem os demônios, precisam estar preparadas para ser a primeira defesa contra qualquer invasão.
— Mas como fica a população de lugares como esse? — Perguntou Li. — Eles não sofrem por conta disso?
O brasileiro parou de comer por um instante, dando um longo suspiro.
— Bem, é assim que as coisas são — respondeu. — Esses lugares são pouco povoados, mas as pessoas que estão por lá geralmente são famílias de guardas designados para esses pontos, ou pessoas que cresceram lá… de qualquer forma, à medida que formos avançando, você vai entender.
Li confirmou com a cabeça, sem dar respostas.
— Aqui estão as chaves dos seus quartos, as da Glória ela levou. Como vocês devem imaginar, vão dividi-los — disse Hans, entregando-as. — Li e Matheus, Paris e Malik, Selene e Karen, eu e o Fynn. De acordo?
— Sim, não vejo problemas — respondeu Matheus.
— Enfim, eu já vou indo na frente. Quer que eu leve a comida de Glória e Lisa para elas?
— Não, pode deixar que levo — respondeu o líder.
— Hm. — Deu de ombros, sem questionar. — Claro, faça o que quiser.
— Eu acho que vou também então… — falou Fynn.
— Por que não vamos todos? Já terminamos de comer e precisamos descansar para partirmos pela manhã.
— Certo, vou pagar a conta — falou Paris.
— Esse é o meu filhinho de papai favorito.
DUNK
— Aí! — exclamou Fynn. — Por que você me deu um cascudo?
— Não sei, foi reflexo — falou Hans. — Mas por que você fica enchendo o saco dele? — perguntou discretamente.
— Não é óbvio? — respondeu. — É uma pessoa nova, o Malik é muito fácil e eu não vou brincar com uma pessoa claramente tímida como a Karen, não sou um monstro; o Paris é o mais irritável.
— Cara, por que você precisa fazer isso?
— Sei lá, tenho que gastar minha energia de alguma forma.
— Vai fazer uma corrida ou algo assim.
— Certo, está pago
— Vamos.
RENKKK
— Por que demorou tanto? Achei que fosse apenas deixar a comida com elas e voltar.
No quarto, Li estava deitado na cama, lendo um manuscrito de papel amassado.
— O que está lendo?
— Ah, Lorena escreveu algumas instruções sobre o que posso fazer para treinar sozinho enquanto estamos separados.
— Entendi… Por que você não foi com ela mesmo?
— Essa é… uma boa pergunta? Provavelmente porque ela não vai ter esse tempo para me ajudar mesmo — teorizou. — Enfim, e sobre minha pergunta?
— Saí lá fora para tomar um ar.
— Sério? Mas já faz uns 30 minutos.
— Tive que tomar muito ar.
Li deixou o manuscrito de lado e olhou para Matheus.
— Está tudo bem?
Ele parecia levemente abatido. Sentando-se na lateral da cama, respirou fundo.
— Líder?
— Líder… né?
— O que foi? Está meio estranho.
— Só estou questionando a mim mesmo.
— De novo?
— Está ficando repetitivo?
— Se for pelo mesmo motivo…
Matheus soltou um único riso, irônico.
— Li, por que você veio para Erebus?
— Isso…
— Não precisa me falar se não quiser, mas você já está aqui há alguns meses, certo?
— Sim… não me importo de falar sobre… resumidamente, não achava que tinha muito para mim lá, a verdade é que eu precisava de um recomeço do zero, um lugar novo.
— Não tinha família?
— Bem, eu tenho uma pessoa que poderia chamar de família, mas o velho deve estar curtindo sua aposentadoria… não vou negar que tenho saudade dele de vez em quando — respondeu. — E você?
Pensando na pergunta, Matheus deitou as costas nos lençóis.
RENKK
Apesar de ser uma boa estalagem, as camas de madeira velha rangiam quando qualquer um deles se movimentava.
— Eu… não tinha nada restante para mim… meu pai e minha irmã foram mortos por alguns demônios que haviam escapado para a terra.
— Demônios na terra? Eles existem?
— Existem… confia em mim, é melhor que você nunca os veja… demônios na terra são muito mais aterrorizantes que aqui em Erebus, especialmente para quem nunca os viu antes.
— Como você acabou aqui, então?
— Vim com o homem que os matou… mais especificamente, meu pai adotivo, Gabriel.
Após uma curta pausa, ele continuou.
— Você disse que quer recomeçar, é isso que veio fazer aqui?
— Sim… eu… me odiei por um longo tempo… ainda odeio às vezes.
Matheus levantou levemente a cabeça e o encarou.
— Você?
— O que? Parece esquisito? — Questionou, mas voltou ao assunto. — Mas por que a pergunta?
Deitando a cabeça novamente, ele falou:
— Sinceramente… não tenho mais certeza do que eu estava procurando… não, na verdade talvez tenha.
— O que seria?
— Acho que eu queria uma família.
— Já não tem uma?
— Sim, digo, não… não é a mesma coisa.
— Como não é a mesma coisa?
— Ah, não sei se você entenderia…
— Por que eu não entenderia?
— É que… — Levantando a cabeça novamente, ele encarou Jihan.
— Por quê? — repetiu.
Um silêncio estranho tomou conta do ambiente.
— Desculpa…
— Não precisa se desculpar, pode só tentar explicar.
Sem alternativas, ele começou a falar.
— Eu nunca quis ser um líder, nunca quis ter soldados ou subordinados… eu queria ter pessoas com quem poderia contar o tempo todo, sempre que precisasse.
— Matheus…
— Queria uma família para chamar de minha… por isso entrei numa facção, mas não sei se é o que eu imaginava.
— Matheus!
— O que?
— Pare de ser tão burro!
Sentando-se na cama, o brasileiro questionou.
— Do que você está falando?
— Foi isso que eu perguntei, você já não tem uma?
— Eu já te respon…
— Não somos uma família?
A pergunta o atordoou levemente.
— Sei que sou idiota… e que não tenho muita base de comparação — Li desviou o olhar para suas mãos enquanto entrelaçava seus dedos. — Mas… acho que, se é como você descreveu… isso é uma família para mim… e você é como um irmão mais velho… só não enxergou isso ainda.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.